Capítulo 170 – A Filial da Guilda e a Garota de Pele Bronzeada
— Tá esfriando aos poucos, hein.
Brunhild já está entrando no inverno. Não chega a ser tão frio quanto no Reino de Elfrau, onde já fui uma vez, mas mesmo assim esfria bastante por aqui. Dizem que às vezes até neva.
— Será que tá tudo bem em relação ao frio?
— Como todas as casas deste país têm lareira, acho que sim. Lenha também tem de sobra. Só precisamos tomar cuidado com incêndio.
De fato. Já criamos até um corpo de bombeiros por precaução, e parece que já dá pra apagar incêndio com bomba d'água. Digno do Kōsaka-san, não deixa passar nada. A água do fosso que corre pela cidade também deve ajudar na hora de apagar incêndio. Vou pedir pra fazerem ronda, por precaução. Que carreguem umas placas de madeira pra bater, tipo aviso sonoro.
Depois de terminar o trabalho de papelada, fui até o campo de treino do jardim interno, e a Hilda e a Rebecca-san estavam trocando golpes.
Depois de virar oficialmente minha noiva, a Hilda passou a morar neste castelo. Só agora vou pensar nisso, mas, normalmente, mesmo sendo noiva, ela ainda é princesa de outro país — achei que fosse morar separado até o casamento.
Como aconteceu com a Yumina, o estado das coisas foi se acomodando naturalmente, e a Lu e a Hilda também acabaram se instalando aqui. Só a Sue que, obviamente, não mora junto, mas vem passar a noite umas duas vezes por semana.
Claro, dorme no quarto da Yumina, não no meu. Ultimamente parece que também dorme com a Rene. Não me importo dela vir dormir aqui, mas gostaria que ela não viesse me acordar de manhã. Levar um "flying body press" duas vezes por semana logo ao acordar é sofrido demais.
Lembrando daquela dor, soltei um suspiro, e a Hilda, terminando o treino com a Rebecca-san, veio correndo na minha direção.
— Touya-sama!
— Bom trabalho, Hilda.
Lancei [Refresh] pra aliviar o cansaço da Hilda. Ela vem treinar aqui sempre que sobra um tempinho. Digno de uma princesa de reino de cavaleiros.

A Hilda não usava mais a armadura de Lestia de quando a conheci, e sim uma armadura leve de Brunhild. Ela é cavaleira, mas não faz parte da nossa Ordem de Cavaleiros. Segundo ela mesma, é porque é cavaleira minha, não do país. Bom, se tiver gente próxima demais de mim, deve dificultar as coisas pra Rain-san, a capitã.
— Vai a algum lugar?
— Vou até a Guilda de Aventureiros. Ouvi dizer que a filial de Brunhild já ficou pronta, então vou dar uma olhada.
— Ahn, será que posso ir junto…?
— Pode. Vamos juntos.
Mesmo que não seja tão interessante pra ela vir, conhecer a cidade não é ruim. E também quero que ela se acostume logo com este país.
Levei a Hilda e saímos do castelo. Indo direto em direção à cidade abaixo do castelo, as crianças corriam por aí sem se importar com o frio.
— Boa tarde, Vossa Majestade!
— Boa tarde, Vossa Majestade!
— Ah, boa tarde. Não vão longe demais, hein.
— "Sim!"
As crianças acenaram animadas e correram em direção à planície. Já tava pensando nisso desde antes, mas será que devia criar uma escola. Saber ler e escrever é bom, e devem aprender várias coisas úteis também. Bom, o problema é que não tem professor.
Essa falta de recursos humanos continua sendo um desafio, como sempre.
— As crianças parecem felizes. Isso é bom.
— Bom, pelo menos consigo evitar que as crianças precisem trabalhar.
Brunhild pode ser considerado um país relativamente próspero. Ninguém passa fome, e há trabalho o suficiente. Mas não temos nenhuma indústria de destaque. No máximo, bicicleta. Estamos tentando aos poucos, tateando em vários setores: agricultura, indústria, comércio.
Na agricultura, já pedi pra Belflora desenvolver novas variedades, então talvez comece por aí. Mas nosso território não é tão grande assim, então só isso talvez não seja suficiente.
Enquanto pensava nisso, chegamos à Guilda, nosso destino. A filial de Brunhild da Guilda de Aventureiros já iniciou operação, e já mostra um movimento razoável.
Entrei com o capuz vestido, por precaução. Ouvi um burburinho animado. Como sempre, tem uma aglomeração diante do quadro de pedidos. Que saudade desse clima.
Parece que era a primeira vez da Hilda numa Guilda, e ela olhava ao redor sem sossego.
— Bem-vindos. É a primeira vez de vocês aqui?
— Ah, não, só viemos dar uma olhada. O responsável da filial está por aqui?
Respondi de forma vaga à moça de orelhas de gato no balcão, e mostrei discretamente o cartão de guilda. O único cartão de rank ouro deste continente, junto com mais um.
— Vo… hawawa…! Um momentinho, por favor!
A moça de orelhas de gato subiu correndo a escada dos fundos, apressada, enquanto os colegas olhavam sem entender nada. Por um instante, chamei a atenção de algumas pessoas na Guilda, mas logo voltaram os olhos pro quadro. Alguns ficaram olhando pra Hilda, mas não é de se estranhar — ela chama atenção mesmo.
Depois de um tempo, a moça de orelhas de gato desceu a escada e falou baixinho comigo.
— Vou levá-lo até a sala do gerente da filial. Vossa Majestade!
Guiado pela moça de orelhas de gato, subimos a escada dos fundos da Guilda, e fomos levados até uma sala no fundo. Lá, uma pessoa conhecida nos esperava.
— Ué? A Relisha-san é a gerente da filial?
Ali estava a mestra da guilda elfa, Relisha-san, sorrindo tranquila. Se não me engano, ela era uma das mestras da guilda da região Oeste. Foi rebaixada?
— Não é isso. Cada mestra da guilda escolhe uma filial como base, mas eu ainda não tinha decidido a minha. Assim que ouvi falar que essa aqui ia abrir, aproveitei a oportunidade e vim de mudança.
— Ah, é isso então…
Tirei o capuz e sentei na cadeira oferecida. Por dentro, a sala estava surpreendentemente arrumada, com vários documentos e livros organizados nas estantes. Também tinha alguns móveis com encantamento mágico aqui e ali. Digno de uma mestra da guilda.
— Soube que Vossa Majestade se noivou com a princesa de Lestia aqui presente. Parabéns.
— Ah… obrigado.
— Ah, muito obrigada!
Hilda, sua voz é alta demais. Sem perceber a intenção do meu olhar, a Hilda se contorcia toda encabulada.
— Mas o incidente de Eurono foi complicado. Quase todas as guildas de lá foram destruídas; até quem sobreviveu ficou gravemente ferido. Mesmo assim, precisamos de aventureiros, então estamos avançando com a reconstrução. Só que deve levar bastante tempo.
Então foi mesmo um golpe considerável. A informação sobre os Phrase já tinha chegado até as outras mestras da guilda, mas não chegou até os funcionários de base. Se tivesse sido mais completo, talvez eles conseguissem fugir a tempo.
— Depois disso, teve algum relato de aparição de Phrase?
— Por enquanto, nenhuma filial reportou nada. Vossa Majestade acha que existe possibilidade de algo assim acontecer de novo?
— Acho que não posso dizer que acabou de vez. Não sei se vai ser amanhã, daqui a um ano, ou daqui a dez anos.
A Relisha-san baixou o olhar, pensativa, com a mão no queixo.
— Bom, por ora, só resta ficar atento aos detalhes mesmo. Só espero que não apareça de novo justo quando terminarmos a reconstrução de Eurono.
A Relisha-san riu meio de brincadeira, mas, na prática, eu também considero essa possibilidade real. Aquele espaço tem uma fenda na barreira do mundo, com certeza. Não dá pra garantir que não vai se abrir de novo por algum motivo qualquer.
Eles miram seres inteligentes — humanos, semi-humanos, demônios. Por isso, algumas cidades não sofreram tanto dano físico direto, mas, sabendo que houve um massacre em massa ali, ninguém quer continuar morando no lugar.
Os refugiados de Eurono fugiram pros países vizinhos; alguns viraram bandidos ou salteadores de montanha, outros viraram aventureiros que ganham dinheiro derrotando esses bandidos. A vida de todo mundo mudou por causa daquele acontecimento.
— Dentro de Eurono, ainda tem gente dizendo que aquela grande invasão foi obra de Vossa Majestade. Mas, assim que sai de Eurono, ninguém mais acredita nisso. Os refugiados que foram pra outros países sabem a verdade melhor que ninguém. Quem ainda espalha aquela versão vai perdendo credibilidade e força política aos poucos.
— Bom, deixa falar o que quiser. Não tenho interesse nenhum em Eurono.
— Talvez tentem algo do tipo "não perdoem Brunhild, o inimigo!" pra ganhar apoio popular, algum tipo de provocação.
— Nesse caso, vou esmagar quem estiver liderando isso. Não sou santo o bastante pra ficar calado depois de apanhar. Cortesia com cortesia, soco com soco.
Não tem jeito além de sacudir as fagulhas que caem em cima da gente. É verdade que sinto pena de Eurono, mas isso é outra história. Não pretendo aceitar calado ser vítima de calúnia inventada.
— Vou espalhar também um pouco desse tipo de boato pela Guilda: "O soberano de Brunhild é generoso, mas não tem piedade nenhuma com quem prejudica o próprio país."
Isso também soa meio estranho. Deve gerar mais rumor exagerado ainda. Bom, já que estamos, tanto faz… Melhor mudar de assunto.
— Como anda a gestão da Guilda?
— Bom, mais ou menos. Tem bastante pedido de tarefa diária avulsa, e pedido de extermínio também vem de forma razoável, dos lados de Belfast e Regulus. O problema é a falta de pedidos pra aventureiros de nível mais alto. Bom, deve ser porque é um lugar pacífico mesmo.
De fato, por aqui não tem fera mágica nem bandido. Deve ser meio sem graça pra quem quer ganhar uma bolada de uma vez.
Nisso, ouvi lá embaixo um som de discussão. O quê?
Perguntei pra Relisha-san, e ela disse que isso é rotina na Guilda, acontece algumas vezes por dia.
Aliás, lembro que também já fui envolvido em briga assim algumas vezes.
"Ei, garoto. Aqui não é lugar pra você vir, viu?"
"Ei, moleque, não fica se achando só porque tá com mulher, hein?"
"Vou te ensinar o que é ser aventureiro. A mensalidade é toda a grana da sua carteira."
Que gente sem noção mesmo, hein.
Basicamente, a Guilda não interfere em brigas entre aventureiros. A não ser que a própria Guilda seja prejudicada.
Bom, deve ser tipo "brigue lá fora". Deve ter sido pensando nisso que construíram a Guilda com uma rua principal ampla na frente.
Logo depois, ouvi o som de vários pés descendo apressados, "doka doka". Devem ter expulsado eles da Guilda.
— Ah, parece que vão continuar lá fora.
A Relisha-san murmurou isso, olhando pela janela da sala pra rua abaixo.
Ah, também já ouvi isso várias vezes. "Sai lá fora!" Isso não é bem porque incomoda a Guilda — é mais pra fazer o outro passar vergonha na frente da multidão. Claro, eu fiz o contrário e envergonhei eles de volta.
— Hmm. Não sentem vergonha de fazer isso com tanta gente contra uma pessoa só? E ainda por cima a outra parte é mulher.
Curiosa, a Hilda olhava pela janela ao lado da Relisha-san.
— De fato, mas parece que a mulher leva vantagem em habilidade. Olha, um já caiu.
— Verdade. Pela arma na cintura, deve ser usuária de machado, mas, pra manejar isso, precisa de bastante força física. Os movimentos também são bons. Não parece técnica treinada — parece mais algo que ela desenvolveu naturalmente. Mas que roupa peculiar essa moça usa.
— Aquilo deve ser a vestimenta tradicional da tribo Lauri, um dos povos que vivem no Grande Mar de Árvores. Nunca imaginei ver isso justamente aqui.
Hã? Uma palavra chamou minha atenção… Ué? Tribo Lauri, se não me engano…
Olhando por outra janela, diferente das duas, avistei uma garota de pele bronzeada, derrubando quatro homens no chão e enfrentando o quinto com bravura.
Peraí! Aquela garota é…!?
— Touya-sama?
Deixando a voz da Hilda pra trás, saí correndo da sala, atravessei o balcão da Guilda no andar de baixo e saí pra rua. Nesse exato momento, um chute vívido da garota acertou em cheio o rosto do homem adversário.
Ooooh, subiu uma onda de aplauso da multidão curiosa ao redor, e a garota, olhando de canto de olho e com desdém pros cinco homens caídos, soltou um suspiro.
E, então, cruzou o olhar comigo, que tinha saído da Guilda. Ah, é ela mesmo. Essa garota é aquela neta da chefe da tribo, do Grande Mar de Árvores, que mordeu meu pescoço com força. Se não me engano, o nome era Pam?
— …Achei.
Hã? Ué? Ela acabou de falar? Se não me engano, essa garota não sabia falar a língua comum…
Correndo, "da!", a Pam de repente se jogou em cima de mim, e, mesmo caindo com o impacto, ela esfregou o rosto no meu, toda animada.
Ei, espera! Essa garota tá com uma espécie de capa, mas, embaixo dela, só tem uma faixa cobrindo o peito e uma tanga! Vários… vários pontos estão encostando! Grande como sempre, hein!
— O-o-o que você tá fazendo!?
Olhando na direção da entrada da Guilda, ainda deitado no chão, vi a Hilda tremendo, com o rosto vermelho. Ah, clima estranho no ar. Sim, eu entendo. Já vivi isso algumas vezes.
— Ei, você! Se afasta do Touya-sama!
— Quem é você? Esse aqui é do Pam. O Pam vai ter filho dele.
— O-o-o-o quê!?
A Hilda vacilou, ficando ainda mais vermelha.
Isso deu uma virada rápida demais. Não faço ideia do que tá acontecendo. Exijo uma explicação!