Capítulo 171 – O Ritual da Poda e a Proposta
— Isso não pode ser aceito.
— Por quê? Se o filho entre Touya e Pam for menina, a tribo cria. Se for menino, vocês criam.
A Yumina soltou um suspiro, como quem diz "não dá pra conversar".
— Que pena, mas você não tem qualificação nenhuma pra virar esposa do Touya-san. Por favor, vá embora.
— Não quero virar esposa. Só quero conseguir a criança. Filho com Touya vira rainha que governa o mar de árvores.
Que pensamento simplista, hein. Desde há pouco, é sempre a mesma coisa se repetindo. Segundo a Pam, ela saiu do Grande Mar de Árvores procurando por mim. Parece que aprendeu a língua comum durante a viagem, então talvez seja bem inteligente, no fundo.
Depois do tumulto na Guilda, mais uma vez foi convocada a "Reunião das Noivas". O tema era "aceitar a Pam ou não?".
— Não entendo o motivo de vocês serem contra.
— Você ter filho é problema seu. Mas, se esse filho também for do Touya-san, aí a história muda. Você escolhe a prosperidade da tribo em vez da felicidade do Touya-san. Não quero que alguém assim tenha um filho do Touya-san.
Diante do olhar duro da Yumina, mais nova que ela, a Pam recuou um pouco intimidada. Sinceramente, até eu tô com medo…
— …Pelo menos, se você só quer capacidade de combate, não precisa ser necessariamente do Touya-san. Podia ter um filho com outra pessoa forte, não?
A Lindsey falou isso também de cara emburrada. Parece que ela também é do time contra.
— Não dá. Já cravei a "presa do juramento" no Touya. O Touya é do Pam.
— Que absurdo. O Touya-sama nunca aceitou uma coisa dessas!
De pé, saindo da cadeira, a Hilda gritou. A "presa do juramento" parece ser aquela mordida que ela me deu. Basicamente, é um sinal dizendo "esse homem é meu, não ponha as mãos nele sem permissão".
Dá pra sentir uma cultura completamente dominada por mulheres, sem se importar nem um pouco com o lado dos homens. Bom, é uma tribo de amazonas, afinal…
— Afinal, por que você quer tanto ter um filho com o Touya-dono? Sinto que tem algum motivo por trás disso, decerto.
A Yae perguntou pra Pam, e ela mordeu o lábio, franzindo a testa, murmurando baixinho.
— …Nós somos tribo guerreira. Mas, diferente de outras tribos, não atacamos por conta própria, só na hora de conseguir filhos. Sempre lutamos só pra proteger nossa própria aldeia. Só que, nos últimos anos, os ataques de outras tribos estão ficando mais pesados. Pra manter nossa posição no Grande Mar de Árvores, precisamos de sangue mais forte. Também pra vencer o "Ritual da Poda".
— Ritual da poda? O que é isso?
A Sue perguntou, inclinando a cabeça. "Poda" é aquilo, né, cortar uma parte de galhos e folhas de uma árvore, pra dar forma, ou facilitar o crescimento de frutos.
— O "Ritual da Poda" é a batalha entre as tribos que vivem no Grande Mar de Árvores. Uma vez a cada dez anos, representantes de cada tribo lutam, decidindo a hierarquia entre elas. A tribo vencedora vira a "Tribo do Rei das Árvores", no topo de todas as outras, e pode estabelecer uma regra pra todo o Grande Mar de Árvores.
Uma vez a cada dez anos, hein. Bom, mais ou menos entendi. Basicamente, quem vence pode estabelecer regras desfavoráveis pras tribos derrotadas.
— Essa regra pode ser qualquer coisa? Tipo "a tribo tal deve sair do Grande Mar de Árvores"?
A Elsie perguntou justamente o que eu queria saber. Se dá pra decidir qualquer regra que quiser, não dava pra fazer tipo "a tribo A deve total submissão à tribo B"? Ou "faça a gente criar cem regras"…? Não, isso deve ter limite.
É aquela pergunta clássica de mangá, do tipo "vou realizar um único desejo seu" — o padrão de "não aceito o pedido de aumentar o número de desejos".
— Se for aprovado pela Grande Árvore Sagrada. Geralmente passa, contanto que não manche a honra da tribo.
— Grande Árvore Sagrada?
— É a divindade guardiã do Grande Mar de Árvores. Concede proteção a todas as tribos e a bênção dos espíritos.
Será que é tipo uma árvore sagrada? Mas espírito, será que é tipo aquele espírito das trevas que enlouqueceu em Ramish? Espírito de árvore… espírito da floresta, algo assim. Será que tem um espírito da floresta no Grande Mar de Árvores?
Ao que parece, espíritos costumam ser seres tranquilos, na maioria. No caso de Ramish, ele enlouqueceu por causa de um rancor acumulado por tempo demais preso. Aquele acabou até se fundindo com o Ramires que o invocou, então deve ter acumulado sentimentos negativos por causa disso.
O povo do mar de árvores parece viver reverenciando a Grande Árvore Sagrada e seguindo a orientação dos espíritos. De certa forma, é parecido com o caso de Ramish.
— Nossa tribo já perde no "Ritual da Poda" há 70 anos seguidos. As outras tribos também já começaram a incorporar sangue novo. Um filho entre Pam e Touya, com certeza, vai vencer o "Ritual da Poda" e trazer glória de volta pra tribo. Do jeito que está, nós, tribo Lauri, vamos ser destruídos pela tribo Balm.
— Tribo Balm… outra tribo que vive no Grande Mar de Árvores?
— Uma tribo que acredita que a mulher deve obedecer ao homem. Eles raptam mulheres de outras tribos, fazem elas terem filhos; se for menino, criam como guerreiro; se for menina, expulsam junto com a mãe.
Não é diferente da tribo Lauri, no fundo… Só inverteram os papéis de homem e mulher. Acho que são farinha do mesmo saco, os dois.
Essa tribo dominada por homens, a Balm, e a tribo dominada por mulheres, a Lauri, vivem em hostilidade mútua. Bom, mesmo, não dá pra dar certo.
Parece que as duas tribos tinham forças equivalentes, mas, com o surgimento daquele Phrase-aranha no Grande Mar de Árvores, a tribo Lauri sofreu um dano tremendo. Principalmente porque perderam vários guerreiros que representavam a tribo — um golpe e tanto. Por causa disso, correm o risco de a tribo Balm atacar a qualquer momento.
— Já desistimos do "Ritual da Poda" desta vez. Só resta rezar pra que a tribo Balm não vença e não vire "Tribo do Rei das Árvores". Mas, no próximo "Ritual da Poda", o filho de Pam e Touya vai vencer, e nós, tribo Lauri, viraremos a "Tribo do Rei das Árvores".
Que plano de longo prazo. De qualquer forma, na situação atual, não dá pra aceitar a Pam. Nem eu tenho intenção nenhuma de gerar uma filha só pra fazer ela participar de uma luta dessas.
— Quando é o próximo "Ritual da Poda"?
— Daqui a um mês. Perder sem lutar seria vergonha pra tribo, então vamos participar, mas devemos perder. A Pam também não pode participar, já que está aqui. O "Ritual da Poda" é uma batalha de cinco guerreiros de cada tribo. Se der azar, pode até morrer.
Que perigoso, hein. Parece que segue algum tipo de regra formal, mas ainda assim. É tipo um torneio de eliminação, 5 contra 5. Isso tá cada vez mais parecendo um "Torneio de Luta do Grande Mar de Árvores".
— ……………………..
— Yumina-san?
A Lu chamou a Yumina, que parecia perdida em pensamentos.
— Se a tribo Balm vencer esse "Ritual da Poda", que tipo de regra você acha que eles vão adicionar?
— Provavelmente, uma regra que empurre a tribo Lauri pra um canto isolado do mar de árvores. Um lugar com pouca caça, difícil de sobreviver. Assim, não fere a honra da tribo, mas conduz devagar ao caminho da extinção. E eles ganham o antigo território de caça da tribo Lauri de quebra.
— E, ao contrário, se a tribo Lauri vencer, que regra você gostaria de impor?
— Ao contrário, expulsaríamos a tribo Balm pro canto isolado do mar de árvores.
Como posso dizer… realmente, os dois lados são farinha do mesmo saco. Fico pensando que seria melhor viverem em paz juntos. Igualdade entre homens e mulheres, sabe. …Ultimamente ando pensando bastante nisso, igualdade de gênero. Principalmente dentro de casa.
— No fim das contas, você quer um filho do Touya-san justamente pra expulsar essa tribo Balm, é isso?
— Não é só esse o objetivo, mas, no geral, não está errado.
— …Entendi. Então, vamos fazer um acordo. Nós vamos fazer a tribo Lauri vencer este "Ritual da Poda", conduzindo vocês a virarem a "Tribo do Rei das Árvores". Em troca, você desiste de qualquer coisa com o Touya-san.
Quê!? Sério mesmo? Vão participar desse "Torneio de Luta do Grande Mar de Árvores"!? Bom, eu também queria ajudar a Pam de algum jeito, mas filho tá fora de cogitação, e talvez essa seja mesmo a solução mais rápida.
— …Vocês conseguem vencer?
— Sei lá. Mas acho melhor que esperar perder e apostar tudo daqui a dez anos.
A Yumina respondeu com um sorriso discreto. Que impressão é essa, hein, ultimamente essa menina ganhou uma presença cada vez mais forte.
Aliás, mesmo se eu tivesse um filho, daqui a dez anos ele teria uns 9 anos, no máximo. Fazer uma criança dessas participar de um torneio de luta, não seria meio exagerado?
— …Tudo bem. Se vocês conseguirem vencer de verdade, não peço nada melhor. Se não conseguirem, aí sim, terei um filho com o Touya.
— Acho que isso não vai acontecer.
A Yumina e a Pam trocaram sorrisos. Que negócio é esse, dá medo.
Aparentemente, se a Yumina e as outras forem recebidas temporariamente como membros da tribo Lauri, esse tipo de "reforço convidado" é permitido. Pessoalmente, sinto que isso é meio estranho. Tipo um time de beisebol com oito jogadores estrangeiros contratados. Já vira o time dos reforços, não mais o time original — essa sensação estranha.
— Yumina-dono, é sério mesmo isso?
— Acho que é o melhor acordo possível. Todo mundo concorda?
Olhei ao redor, mas ninguém se opôs. Não, pra falar a verdade, eu tinha vontade de me opor. Afinal, não queria que ninguém se ferisse. Mas, se eu me opusesse, era bem provável que:
"Então você quer tanto assim fazer filho com a Pam. Entendo. É pelos peitos grandes, né. É por causa dos peitos grandes?"
…achei que algumas iam cair pro lado sombrio, então não consegui abrir a boca de jeito nenhum. O pessoal feminino da nossa casa tem bastante complexo com isso, afinal… Ainda acho que estão em fase de crescimento, mas.
Em termos de tamanho, seria: Yae > Hilda >> Lindsey > Elsie > Lu > Yumina > Sue, algo assim. O da Pam supera até o da Yae.
Um dia dessas, será que vão pedir pra Belflora sintetizar algum remédio suspeito. Se, de repente, a Yumina ficasse de peito grande, ia até me assustar de tão estranho…
— Nós vamos vencer o "Ritual da Poda" como representantes da tribo Lauri e conquistar o título de "Tribo do Rei das Árvores". Com esse grupo, os participantes já ficam meio limitados, decerto.
— É verdade. A Pam entra como representante da tribo, e o resto seria eu, a Yae, a Hilda, a Lu, por aí.
De fato, como a Elsie disse, a Yumina e a Lindsey não são adequadas pra combate corpo a corpo. As duas são de retaguarda, tipo ataque à distância. A Sue, então, nem tem capacidade de combate nenhuma.
Mesmo assim, de vez em quando, junto com a Rene, ela treina técnicas de luta e arremesso com a Lapis-san e a Cecile-san. Dizem que é habilidade essencial de criada. Será que a Sue tem intenção de virar criada mesmo.
De qualquer forma, parece que a diretriz já está decidida, então dá um respiro por ora. Sendo o principal interessado, mas sem falar uma palavra durante toda a reunião — o que raios eu sou, afinal…
— Ei, Yumina-neesama, uma dúvida…
— O que foi?
A Sue cruzou os braços e virou o rosto pra Yumina, inclinando a cabeça.
— Nós, que não vamos lutar, também vamos junto nesse tal "Ritual da Poda"?
— Bom, sim. Naquele momento, pelo menos, precisamos torcer como membros da tribo Lauri. E, se acontecer algo, talvez precisemos de substitutos também.
— E o Touya também?
— Ele é o principal envolvido, afinal. Deve querer torcer por todo mundo também, e, se algo der errado, é reconfortante ter ele por perto.
De fato, não tenho intenção nenhuma de deixar tudo com todo mundo e fingir que não é comigo. Claro que vou torcer, e, se algo der errado, pretendo agir na frente de todos. Nunca se sabe o que pode acontecer. Espero que não tenha nenhuma sabotagem, mas.
— Hmm… mas o Touya é homem, né?
《Ah》
Todo mundo, inclusive eu, soltou uma exclamação. Era verdade. Se vamos nos apresentar como tribo Lauri, ter um homem no meio seria estranho. Se algo acontecer, sem o título de "tribo Lauri", corremos o risco de ouvir "gente de fora, fica quieta". E aí, o que fazemos?
— …Travestir-se, talvez.
— Peraí! Sou completamente contra isso!
Diante do murmúrio baixinho da Lindsey, foi a primeira vez que abri a boca em toda a reunião.