Capítulo 173 – A Tribo Balm e o Espírito da Grande Árvore
No primeiro dia, avançamos sem sobressaltos e conseguimos as três vitórias sem dificuldade. Aliás, só a Lu, a Elsie e a Yae — ponta, meio e âncora — chegaram a lutar de verdade. Todas as partidas terminaram com placar 3 a 0. Vitória absoluta.
Pelo que vi, dá até pra dizer que tivemos sorte nos adversários. No geral, ninguém foi páreo de verdade.
— Espero que amanhã continue assim também.
Murmurei isso, olhando o sol se pondo. Estamos numa floresta perto de um rio, afastados do Domínio da Árvore Sagrada. Todas as partidas do dia terminaram, e todo mundo já começava a preparar a refeição.
Até as tribos que perderam no combate não voltaram pra casa — continuavam preparando comida também. Já que chegaram até aqui, devem querer assistir até o fim.
Poderíamos ter voltado pro castelo pra comer, mas, já que o pessoal da tribo Lauri se ofereceu pra caçar comida pra gente, decidimos participar.
Tirei do [Storage] um conjunto de churrasqueira, acendi o carvão e preparei tudo pra cozinhar. Também tirei sal, pimenta, temperos e molhos.
Logo depois, o pessoal da tribo Lauri trouxe várias presas, tipo coelho e pombas-selvagens. Parece que, nessa região, exceto na época do "Ritual da Poda", só a tribo dos juízes caça, então a caça é abundante. Claro, nesses três dias caçam bastante, mas até o próximo "Ritual da Poda" a quantidade volta ao normal.
— De vez em quando, esse tipo de comida rústica também é bom, hein.
— É mesmo. Ah, Touya-san, esse aqui já assou.
A Yumina cuidava de mim com dedicação. Vista de fora, como ambas parecemos mulheres, espero que não pareça uma relação estranha.
Pra não ficar só carne, tirei do [Storage] abóbora, cebola, pimentão e outros vegetais. Cortei tudo rapidamente e espetei junto com a carne em espetos de metal, comendo com molho de churrasco caseiro. Delicioso.
— É a primeira vez que faço uma coisa assim, mas é divertido e tanto.
A Lu ria, servindo carne no próprio prato. Deve ser raro pra ela, que viveu como princesa de Regulus. Que bom que ela está aproveitando.
Mas, pro meu lado, como sempre estou cercado só de mulheres, sinto um certo desconforto contínuo. Aproveitar isso de verdade exige um nível meio alto demais pra mim. O ex-rei de Lestia teria se jogado de cabeça, animadíssimo.
Nisso, ouvi um som de agito atrás. Olhei, e uns homens robustos estavam trocando socos. Briga. Que chato, será que dá pra fazer isso em outro lugar.
— Com tantas tribos reunidas assim, uma briga ou outra é rotina.
Dizendo isso, a Pam deu uma mordida na carne no espeto. Aliás, parece que, pra não prejudicar quem está participando do "Ritual da Poda", esse tipo de confusão é resolvido pelos próprios companheiros de tribo ao redor. Ou seja, quem está trocando socos ali não são competidores. Bom, tanto faz.
— Ora, achei que tinha uns caras estranhos aqui, mas é a tribo Lauri.
Passando ao lado dos que brigavam, mais um grupo de homens robustos veio na nossa direção. Corpos musculosos em forma de triângulo invertido, bem definidos. Cicatrizes e tatuagens por cima só aumentavam a sensação intimidadora. E, ainda por cima, tinham cabeça raspada ou moicano — extremamente mal-encarados.
— O que vocês querem, tribo Balm?
A Pam lançou um olhar afiado enquanto mastigava a carne. Então esses são da tribo Balm.
De fato, todos olhavam pra gente com desdém. Alguns até com um sorriso de escárnio. Decidi, no fundo do coração, que, mesmo sendo homem, nunca ia querer ser desse tipo.
— Achei que vocês não fossem participar desse "Ritual da Poda" dessa vez. Ouvi dizer que os guerreiros de destaque da aldeia foram derrotados por um mero monstro. Que vergonha, afinal — mulher é assim mesmo.
— Seus… vão insultar os guerreiros que caíram lutando?
A Pam e o resto da tribo Lauri se abaixaram levemente, prontos pra entrar em combate a qualquer momento. Percebendo isso, a tribo Balm também se preparou de leve. Um clima tenso, prestes a explodir, pairava entre os dois grupos.
— Não tenho essa intenção, não. Só pensei que nós, da tribo Balm, nunca perderíamos pra um mero monstro assim.
— Ha. Que ignorância tola. Nem juntando todos vocês, da tribo Balm, dariam conta daquele monstro de cristal. Só sobraria extinção total.
— O QUÊ!?
Provocação por provocação. Olhar afiado trocado por olhar afiado. Uma verdadeira relação de gato e cachorro.
— Não zoa comigo! Como assim vocês, tribo Lauri, conseguiram derrotar e nós, tribo Balm, não conseguiríamos!?
— Que pena, mas não fomos nós quem derrotamos o monstro de cristal. Foi ele ali, o Touya.
— Ah!?
Ei, ei, não joga a bola pra mim assim. O olhar da tribo Balm se voltou todo pra mim de uma vez.
— Essa mulher?
Um homem da tribo Balm veio na minha direção. Com uns bons 190 centímetros de altura, ele me encarava com um olhar grosseiro. Por fim, abriu um sorriso lascivo.
— Nada mal essa mulher, hein. Gostei.
— Nojento!
— O QUÊ!?
Sem querer, acabei falando alto. Claro que sim! Se eu, na minha posição, fosse alvo de um comentário desses vindo de um homem robusto! Sinto arrepio no corpo inteiro!! Num outro sentido!
— Sua vagabunda!
Furioso, o homem estendeu a mão em minha direção, tentando segurar meu braço.
— Não toca!
— Guboeh!?
Chutei com força na barriga dele, jogando-o a vários metros de distância. Não dava pra medir a força de jeito nenhum. Senti perigo real! De outro tipo de perigo!
— Seu!
— Peguem ele!
Desviei com facilidade dos homens da tribo Balm, que atacaram todos de uma vez, chutando-os um atrás do outro. Não uso as mãos pra socar. Porque nem quero tocar neles!
Que sensação é essa, hein, ser cercado por homens musculosos e agressivos assim dá medo, não importa se homem ou mulher! Num sentido sexual mesmo.
— Sua vagabunda… peguem todos juntos!
《UOOOOOOOOOOOOH!!》
Uma onda de músculos vinha em minha direção. Ei, ei, ei!!
— [Shield]!!
《Guhh!?》
Bloqueados pelo escudo invisível, os homens que se lançaram pra cima de mim caíram todos no chão de uma vez. Ah, que sensação horrível.
— A tribo Balm também não é grande coisa. Levar essa de um único Touya.
— Ugh…
A Pam ria de deboche pros homens restantes da tribo Balm. Ei, não provoca mais.
Os que sobraram ficaram vermelhos de raiva, com o rosto contorcido. Sendo derrotados por uma "mulher" só (na aparência), pra uma tribo dominada por homens, deve ser insuportável.
— Levem logo esses aí embora. Não queremos homens fedidos ocupando espaço aqui.
Nesse ponto, concordo plenamente com a Pam. Do jeito que tá, sinto que vou acabar desenvolvendo fobia de homem musculoso.
— Grr, vão se lembrar disso!
Arrastando os caídos, a tribo Balm se retirou.
Ugh, que nojo. Nunca imaginei que o olhar grosseiro de um homem causasse tanto desconforto assim. Vou tomar cuidado pra nunca fazer isso com ninguém.
— Aquilo é a tribo Balm? Não parece grande coisa.
— Não tinha nenhum competidor entre eles. Esses são só os mais jovens da tribo Balm. Ainda nem chegaram à idade adulta, na verdade.
Duvidei do que ouvi, na resposta da Pam pra Elsie. Se não me engano, nas tribos do Grande Mar de Árvores, com uns 15 anos já são tratados como adultos, né!? Ei, aqueles caras são mais novos que eu!? Eram tão robustos, pareciam adultos crescidos de verdade!
Impossível… aquilo, do tamanho de um estudante de ensino médio, sem sentido nenhum… Que tipo de educação eles recebem, hein. Perdi um pouco o apetite…
Depois do churrasco, colocamos algumas pessoas de vigia, revezando pra dormir.
Isso é tanto por causa dos animais da floresta quanto pra evitar ataques traiçoeiros de outras tribos. Claro, nem toda tribo faz isso, mas parece que tem quem faça isso sem pestanejar.
Se fosse só a gente, dava pra voltar pro castelo com [Gate], mas, ouvindo isso, ficaria mal ignorar o aviso.
Por precaução, ergui uma barreira de [Shield] ao redor e revezamos pra dormir em turnos. [Shield] só serve como paliativo temporário, afinal. Como os cinco competidores não podem levar o cansaço pro dia seguinte, dispensei todos da vigília. Deixem descansar até de manhã. Ah, a Sue também não tinha necessidade de ficar acordada, então mandei ela dormir também.
Agora, além de mim, algumas pessoas da tribo Lauri ficavam ao redor da fogueira crepitante, atentas ao entorno.
Ao lado, a Lindsey e a Yumina, que estavam de vigia até há pouco, dormiam envoltas em cobertores, respirando tranquilamente.
De repente, senti uma presença estranha. Essa sensação é…
Levantei e caminhei em direção ao fundo da floresta. O pessoal da tribo Lauri que estava de vigia comigo desviou o olhar por um instante, mas achando que era pro banheiro, não disseram nada.
Avançando cada vez mais fundo na floresta escura da noite, dava pra sentir a presença ficando cada vez mais forte. Sem dúvida, é a mesma sensação daquela vez em Ramish…
Parei num espaço aberto no fundo da floresta.
Está aqui. Neste lugar.
— Consegue ouvir minha voz?
O luar iluminava a mim, na escuridão. Um farfalhar de árvores, "zazaza", envolveu o local.
No luar, uma luz verde suave apareceu, flutuando.
"Quem é você?"
A luz verde foi mudando de forma aos poucos. Por fim, se transformou numa garota de cabelo esmeralda. Todo o corpo dela, incluindo o vestido que usava, emitia um brilho fosforescente verde. Os olhos abertos também brilhavam feito jade.
— Você é… um espírito, né?
"Sim. Eu sou o espírito da grande árvore, guardião deste Mar de Árvores. Também sou a personificação da Grande Árvore Sagrada."
— Imaginei. Achei que a presença era parecida com a do espírito das trevas que enfrentei em Ramish. Bom, aquele lá era bem mais turvo e sombrio.
Já sentia essa presença, ainda que fraca, vindo da própria Grande Árvore Sagrada, mas agora sinto com clareza muito maior. Será que só dá pra sentir direito quando ela se manifesta assim?
"Vocês lutaram? Contra o espírito das trevas…?"
— Foi mais tipo esmurrar e purificar, mas sim.
"Espíritos são seres imortais. Cedo ou tarde, o espírito das trevas também vai retornar a este mundo. Mas, deixando isso de lado… quem é você? Essa forma é uma fachada, não é? E esse poder que vaza levemente por todo o seu corpo, o que é…?"
Hã? Ah, será que ela consegue enxergar aquele tal "poder divino"? Usei [Shield] e outras magias, então talvez o poder divino tenha vazado nesse momento. Desfiz [Mirage] e revelei minha aparência verdadeira.
— Sou Mochizuki Touya. Governo, como rei, o Principado de Brunhild, ao norte daqui. Por uma questão complicada, meu corpo ficou com uma constituição estranha, mas sou humano.
"O que isso quer dizer, exatamente…?"
O espírito da grande árvore mostrou uma expressão confusa. Hmm, o que fazer. Explicar dá trabalho. Não sei se, mesmo mencionando o Deus, ela acreditaria.
Mas também não vou chamar o próprio Deus só por isso… ah, é, tem outra deusa por aí. Um pouco preocupante, mas.
Abri um [Gate] e deixei cair, neste local, a pessoa que provavelmente estava dormindo na cama.
— Ai! Q-que isso!? Ah, é o Touya-kun?
A irmã Karen, caída no chão, olhava ao redor com os olhos ainda sonolentos. Pijama rosa cheio de estampas de coração — será que isso é apropriado?
Pensando bem, mesmo sendo uma deusa de nível inferior, eu tô tratando ela de um jeito bem sem cerimônia. Talvez seja porque, vendo essa pessoa (deusa), não sinto tanto peso de autoridade nela. Relaxada, adora pregar peça, belisca comida escondido, egoísta.
Mas, talvez seja justamente por ela me tratar como irmão que acabo sentindo ela como família também. Por isso, não consigo ficar tão incomodado assim.
— Irmã Karen, você consegue fazer aquele negócio de brilhar todo, tipo os deuses?
— Hã? Brilhar? Você fala de liberar o poder divino?
— Deve ser isso.
Assim? A irmã liberou uma luz radiante por todo o corpo. Não é tanto quanto o Deus, mas ainda assim é impressionante. Ah, então, mesmo sendo assim, ela é mesmo uma deusa de verdade.
— …Tá pensando alguma coisa mal-educada, né?
— Desculpa! Me perdoa! Foi mal!
Levei um beliscão na bochecha. Dói. Enquanto esfregava a bochecha liberada, ao lado, o espírito da grande árvore estava ajoelhado no chão, em posição de reverência total.
Então funciona até em espírito, hein. A autoridade divina continua firme e forte. Mesmo vindo da irmã Karen.
— Tá pensando alguma coisa mal-educada de novo, né?
— Desculpa. Como que você sabe?
Deuses, não dá pra subestimar.