Capítulo 175 – A Tribo do Veneno e a Habilidade da Irmã
— A segunda irmã do Touya-san, é!?
— Isso mesmo. O nome dela é Mochizuki Moroha. Moroha-chan. Minha irmã mais nova.
— Muito prazer.
A Deusa da Espada — não, a irmã Moroha —, apresentada pela irmã Karen, apertou a mão da Lindsey. Todo mundo ficou surpreso com o aparecimento repentino de mais uma irmã. Eu entendo. Eu também fiquei surpreso.
— Desculpa a demora em nos apresentarmos. Nós somos as noivas do Touya-san…
— Já sei. Você é a Yumina, e essa aqui é a Lindsey, e essa é a Sue, né?
— Como o senhor nos conhece?
— Ah, é que eu ficava vendo vocês de cima, então…
— Aaaahn! Ela disse que soube por carta da irmã Karen!
Interrompi a nova irmã, que parecia prestes a falar demais, e disfarcei como deu. Essa irmã parece meio desligada da situação. Será que é despreocupada demais mesmo?
A irmã Moroha é tão bonita quanto a irmã Karen, mas, enquanto a irmã Karen tende mais pro tipo fofo, a irmã Moroha tem uma beleza mais imponente e digna.
Alta, e cada movimento parece refinado. Daria pra estar numa trupe de teatro sem estranheza nenhuma.
— Mas por que a irmã do Touya tava justamente aqui?
— Hmm, achei meio interessante e acabei entrando à força. Como não era eliminatória, acabei perdendo. Bom, vim aqui pra treinar como guerreira, digamos.
A irmã Moroha inventou um motivo qualquer pra desviar da pergunta da Sue.
Essa pessoa, achando divertido observar de cima, desceu à Terra e se infiltrou à força numa tribo qualquer, lutando tranquilamente como membro dela. Parece que fez a tribo acreditar que era uma delas de verdade. Será que é tipo hipnose? Não, sendo deusa, tudo é possível mesmo.
Basicamente, essas duas não deveriam conseguir interferir diretamente no mundo terreno. Bom, é que não podem interferir "como deuses" — mas, como "humanos" com poder, parecem conseguir. E as habilidades físicas delas parecem ser, "estritamente", padrão humano. Digo, quase monstruosas, muito além de nível de mestre.
Por isso, mesmo se pedirem "por favor, extermine todos os Phrase" ou "por favor, reconstrua Eurono", não vai rolar. Aliás, parece que, fora da própria especialidade, elas são bem incompetentes (deusas?).
— "Treinar como guerreira", quer dizer que foi a irmã Moroha quem ensinou espada pro Touya-san?
— Ah… bom, mais ou menos isso. A do Touya-kun tem bastante mistura de estilo próprio também.
— Ninguém no mundo consegue rivalizar com a Moroha-chan na espada. É a número um do mundo.
A irmã Karen se gabava como se fosse coisa dela mesma. Claro que sim, ué. É deusa, afinal. Ah, mas será interessante pedir pra ela treinar nossa Ordem de Cavaleiros…
Só que, sendo "Deusa da Espada", talvez lança ou machado não sejam a especialidade dela. Talvez adaga ou espadas gêmeas ainda passem raspando. Depois pergunto pra ela.
— Ah, a partida da Yae e das outras vai começar. Vencendo essa, chegam pra final de amanhã, né?
Diante da voz da Sue, parei de pensar besteira e voltei a atenção ao palco. Vencendo essa, decide-se as 8 finalistas, e amanhã se decide a "Tribo do Rei das Árvores". Ou seja, no momento, já estão definidas as 16 melhores.
— De qualquer jeito, a tribo Balm continua avançando, hein.
— Diferente daqueles que vieram provocar a gente, os competidores de verdade parecem fortes mesmo.
Bom, é natural. Se estivessem no mesmo nível daqueles de ontem, só se tivessem tido muita sorte no confronto.
Opa, melhor assistir a partida da Yae do que ficar pensando naqueles caras.
O adversário da Yae era um homem coberto de tatuagens dos pés à cabeça, empunhando um tomahawk em cada mão.
Assim que a partida começou, o homem avançou pra cima da Yae e desferiu um golpe rápido de machado com a mão direita. A Yae desviou com um passo pra trás, e, enquanto o homem continuava atacando, ela foi desviando pra direita e esquerda, mantendo distância.
— A Yae vai ganhar.
A irmã Moroha murmurou, achando graça, com um leve sorriso.
No palco, o homem ia empurrando a Yae cada vez mais pro canto. Mas a Yae, sem parecer apressada, continuava desviando dos machados. Será que ela tá esperando alguma chance?
Por fim, a Yae se moveu. Desviando do machado que o homem brandia, ela cortou com a katana, num movimento ascendente, o cabo do tomahawk. A lâmina do machado, cortada fora, voou pra fora do palco. Com o mesmo golpe de retorno, cortou fora o outro machado também, e, diante do homem atônito, a lâmina da Yae relampejou contra o tronco totalmente desprotegido dele.
Com esse golpe, a derrota do homem foi decidida.
— Como a katana da Yae não aguenta cruzar espadas com uma arma de tanto poder destrutivo quanto um machado — poderia até quebrar —, atacar direto e ser bloqueada pelo machado dá no mesmo. Por isso, ela mirava justamente o momento de anular o machado. Mas, se ela tivesse feito um golpe de desembainhar direto, sem sequer dar chance de defesa, teria terminado bem mais rápido. Aquilo ali foi meio brincadeira. Ela devia estar testando se conseguia cortar o machado em movimento. Ainda tem o que aprender nesse ponto.
Ooh. Não entendi tudo direito, mas a irmã Moroha tá analisando bastante coisa. Digno de Deusa da Espada, já percebeu tudo isso assim que a partida começou.
A partida continuou, e a Pam e a Hilda também venceram direto, e a tribo Lauri avançou pro dia final.
Chegamos ao dia final sem sobressaltos.
— Ué?
Olhando casualmente pra outro palco, vi a tribo Balm enfrentando uma tribo estranha.
Corpo magro, postura meio corcunda. Luvas com garras longas, e uma máscara estranha no rosto. Não era bem máscara de fantasia — era mais tipo uma máscara antipoeira, cobrindo a metade inferior do rosto. Por um instante, dava até pra pensar que ele ia entrar em algum "mar de decomposição" tóxico, de tão estranha.
O olhar dele também tinha algo suspeito. Dava até pra sentir um brilho de loucura contida.
Do lado da tribo Balm, um homem grande empunhando lança, mas, provavelmente atingido pelo homem mascarado, tinha inúmeras marcas finas de garra por todo o corpo.
O homem da Balm disparou a lança, mas os pés estavam instáveis. Será que já gastou bastante energia — a respiração estava ofegante, e o suor escorria sem parar.
— Hmm, veneno, é.
— O quê!?
Fiquei espantado com a fala casual da irmã Moroha. Veneno… será que tá aplicado naquelas garras?
— Não é do tipo que tira a vida. No máximo, dormência de membros, esgotamento de energia, tontura leve. Parece que até o próprio palco foi contaminado com isso.
— Usar veneno não é contra as regras?
— Não, magia é proibida, mas, fora isso, não tem muita restrição. Ato que manche a honra da tribo é proibido, mas o uso de veneno é uma zona cinzenta. Derrubar presa com veneno é método de caça comum, afinal.
Pensando assim, faz sentido mesmo. Mas, hein… me dá a sensação de covardia. De fato, essa tribo mascarada não parece ter vantagem física evidente. Talvez tenham desenvolvido esse método de caça com veneno justamente pra compensar isso.
Competir na própria especialidade não é necessariamente errado… será?
Com o homem da Balm já com movimentos mais lentos, o homem corcunda avançou rápido e cravou a garra direita na barriga dele. Foi o fim.
Assim, sem conseguir fazer nada, a tribo machista Balm foi derrotada, um atrás do outro, pela tribo Rivet, que manipula veneno, e eliminada sem glória nenhuma.
— A tribo Balm perdeu, hein.
— Com isso, pelo menos a preocupação da tribo Lauri já desapareceu.
Ao menos, evitamos que a tribo Balm virasse "Tribo do Rei das Árvores" e impusesse uma regra desfavorável à tribo Lauri.
Mas aquele veneno é problemático. Mesmo sem sofrer ataque direto, se inalar o veneno espalhado no palco, dá no mesmo. Será por isso que, na luta da ponta, ele demorou de propósito? Devia estar esperando o veneno se espalhar pelos outros quatro também.
Por sorte, graças à proteção do espírito, o veneno fica restrito àquele palco, não se espalhando pra fora.
Mas, pensando pelo lado contrário, isso significa que o espírito e os juízes também aceitam o uso de veneno. Até o juiz que estava naquele palco acabou sendo afetado. Bom, parece que não é algo que ameace a vida, e se recupera em algumas horas.
Mas, em combate, mesmo um veneno desse nível pode ser fatal. Melhor dar algum tipo de contramedida pra Yae e as outras. Nunca se sabe se vão enfrentar isso amanhã.
Perguntei se aquela tribo Rivet já tinha participado do "Ritual da Poda" antes, e disseram que é uma tribo relativamente nova, originada de outra tribo mais antiga. Quer dizer que, de uma tribo que já usava veneno como parte da caça normal, surgiu uma tribo especializada nisso.
As tribos deste Grande Mar de Árvores são mais parecidas com vilas ou colônias do que exatamente clãs — então é normal surgirem novas tribos de forma independente, assim como tribos que se fundem ou desaparecem.
— Ah.
Em outro palco, a guerreira dragonoide de ontem estava lutando de novo. Como sempre, com movimentos tranquilos e eficientes. Ah, o adversário foi arremessado longe de novo.
Peraí, aquela já era a terceira partida? Vencendo direto, essa tribo também avançou pra final de amanhã.
Digno de estar entre as 8 melhores — todas as tribos que sobraram têm algum tipo de peculiaridade marcante. Tribo vestida em pele de jaguar da cabeça aos pés, tribo que usa principalmente armas feitas de osso — bem variado.
A partir de amanhã, pode ser que fique mais difícil.
— Vai mesmo?
— Não precisa ter dó. Vem com tudo. Ah, mas sem magia, tá bom.
Depois de apresentar a irmã Moroha à Yae e às outras competidoras, a Hilda e a Yae pediram um combate de treino com ela.
Como a irmã Karen espalhou a fama da habilidade de espada dela, parece que acendeu a curiosidade delas. Só que não dava pra fazer as competidoras do "Ritual da Poda" lutarem de verdade — amanhã tem uma partida importante. Se algo acontecesse, seria complicado.
Mesmo assim, com a Hilda e a Yae insistindo tanto pra ver a habilidade da irmã Moroha, acabou ficando decidido um combate de treino depois do jantar.
— Por que eu que vou enfrentar?
— Porque não tem mais ninguém, né?
Bom, é verdade. Tirando a Yae e as outras, também não dava pra colocar a Yumina ou a Lindsey.
Não tem jeito, eu também tava um pouco curioso mesmo, vou aceitar. Segurando com firmeza uma espada de treino de mithril sem fio, encarei a irmã Moroha.
— Não vou terminar rápido não, então vem com tudo.
— Então, vou nessa, tá?
Por ora, decidi testar avançando reto e desferindo um golpe de espada de cima pra baixo. A irmã aparou com leveza e, girando o corpo, contornou pras minhas costas, desferindo um golpe horizontal. Me abaixei pra desviar, e o golpe ascendente que tentei em seguida foi facilmente esquivado.
Encarei de novo de frente, e, dessa vez, tentei um blefe. Fingi mirar o flanco direito, mas ergui a espada, mirando o braço direito! Mas, ao contrário, a irmã veio com um golpe de corpo que me desequilibrou, quase me derrubando, mas, usando o próprio impulso, rolei pelo chão e abri distância. Vendo que ela não veio pra cima com um ataque de seguimento, percebi que ainda não estava falando sério.
Aquele sorriso tranquilo dela me deixa um pouco irritado. Já que é assim, vou pra cima com tudo!