Capítulo 185 – A Proposta e a Masmorra
— Chamas, venham; sequência flamejante de explosões: [Flare Burst]!
Assim que a Lindsey conjurou o feitiço, cinco explosões enormes irromperam em sequência, em locais diferentes, arrasando tudo o que estava ali.
Uma versão reforçada de [Explosion]… ou melhor, parece que essa é uma das magias antigas que deram origem àquela. Que poder absurdo, hein… Ainda bem que viemos pra planície em vez de treinar no campo de treino de sempre.
— Conseguiu! Então faz sentido, o atributo Fogo combina melhor com a Lindsey mesmo.
— …Sozinha, eu não chegaria a esse ponto. Foi graças à ajuda da Leen-san…
— O atributo Fogo é o que eu menos domino. Não só eu — o povo das fadas em geral é assim. Aliás, tem poucos entre nós que conseguem usar Fogo. Talvez seja porque, originalmente, somos uma raça que vive na floresta, e existe uma rejeição inconsciente, no fundo.
Se não me engano, a Leen tem 6 atributos, né? Só falta o de Trevas, ela mencionou. Como não consegue usar magia de invocação, parece que criou a Paula como substituto, ela disse algo assim.
O urso de pelúcia aos pés da Leen fez pose de vitória ao ver a explosão. Difícil de acreditar que isso sirva de substituto pra um familiar invocado.
— A Leen também aprendeu alguma magia antiga, né?
— Sim. A minha é de atributo Água.
A Leen se posicionou na frente da Lindsey, estendeu as duas mãos à frente e concentrou energia mágica de Água.
— Água, venha; grande redemoinho da correnteza: [Maelstrom]!
Um enorme redemoinho de água surgiu à frente, cavando o chão enquanto engolia tudo. Sem um alvo específico, é difícil perceber bem, mas isso deve ser magia de aniquilação em área. Isso também é impressionante…
— O ponto fraco é o consumo alto de energia mágica. Bom, acho que o efeito compensa isso.
Faz sentido que, quanto maior o poder, maior o consumo de energia mágica também. Usar cada magia na medida certa, sem desperdício, conforme a situação, deve ser o jeito correto de usar magia. Afinal, a quantidade de energia mágica tem limite.
Com a descoberta da "Biblioteca", quem ganhou um salto de poder não foi só a Leen e a Lindsey. A Rosetta e a Monica pediram acesso aos livros sobre "engenharia mágica" e andam testando várias coisas.
E também, recentemente, a Sue tem aprendido magia com a Leen. O atributo da Sue é só Luz, mas parece que a quantidade de energia mágica dela é bem alta. Ela vem focando principalmente em magias de cura, e aparece direto no campo de treino da Ordem de Cavaleiros pra testar essas magias.
Ao mesmo tempo, continua treinando com a Lapis-san e as outras. Onde será que ela pretende chegar com isso…
A Fam desceu pra terra firme e se trancou no acervo do castelo. Isso é caso grave. O fim de linha de um viciado em texto impresso. Se já tá tão avançado depois de 5000 anos, não deve ter mais cura. Doença incurável.
À tarde, dei uma passada na Guilda de Aventureiros. Tento ir lá uma vez por semana. Principalmente pra obter informações de várias regiões com a mestra da guilda, Relisha-san, mas às vezes também aceito alguma missão pra espairecer.
Entrei na guilda com o capuz levantado. Continua tão movimentada quanto sempre, mas, sinceramente, acho que quem já me reconheceu, já me reconheceu. Mesmo assim, não preciso chamar atenção por conta própria.
— Ei, você! Quer briga, é!?
— Ah!? Boa, então, vamos lá fora!
Dois homens, segurando um a gola do outro, saíram pra rua num passo lateral ágil e habilidoso. De novo? Toda vez que venho, parece que tem alguma confusão acontecendo. Bom, deve ser rotina mesmo por aqui.
Aventureiro é o tipo de gente que só existe impondo a própria vontade, afinal. Contanto que não incomode os moradores, tanto faz se batem entre si.
— Boa tarde.
— Ah! Ei… ai ai, Touya-san, boa tarde. Muito trabalho, hein.
Falei com a moça-gata, feras-humana, no balcão de atendimento. Se não me engano, o nome é Mīsha-san. As orelhas de gato dela se moviam de leve, "piko piko".
— Como andam as coisas ultimamente?
— Bom, como sempre, tem bastante pedido de tarefa mais simples, mas de vez em quando aparece até escolta de mercador. Só que o problema é que dá pra ganhar pouco por aqui. Por causa disso, todo mundo acaba partindo rápido, então não temos gente familiar por perto. Aparece muita gente que se conhece pela primeira vez, e é aí que, todo santo dia, acontece uma cena dessas.
Ela falou isso olhando pros dois que trocavam socos lá fora. Entendi. Mas será por que aventureiro que se conhece pela primeira vez sempre acaba fazendo esse tipo de exibicionismo de "eu sou o cara"? Será tipo, se mostrar forte logo de início pra não ser subestimado? Resultado, geram mais conflito.
Geralmente, quem age assim é gente que já saiu do nível iniciante mas ainda não conseguiu subir mais alto, ficando travada num certo teto.
Seria bom se tivesse aventureiros veteranos pra impor respeito nesse tipo de gente… Mas, já que não dá pra ganhar bem neste país, não tem motivo pra ficarem por aqui.
Guiado pela Mīsha-san, subi até o segundo andar, na sala da Relisha-san. A élfica mestra da guilda, Relisha-san, que arrumava papéis, ergueu o rosto e me convidou pra sentar no sofá.
— Que bom. Justamente agora eu pensava em entrar em contato com você.
— Aconteceu alguma coisa?
Arrumando os papéis e colocando de lado na mesa, a Relisha-san pegou algo tipo um documento e sentou no sofá de frente pra mim.
— Duas informações e uma proposta. Primeiro, apareceu um dragão.
— Um dragão?
— O local é ao sul do Grande Mar de Árvores, no Reino de Sandra. Ele veio voando de repente pra um assentamento no deserto, causou estrago, e depois voou pra algum lugar desconhecido. Só isso já seria coisa comum, mas dragões apareceram do mesmo jeito em Eurono e em Nokia, causando dano a vilas e cidades. E, ainda por cima, os três eram dragões diferentes.
De fato, isso é estranho, hein… Dizem que dragões costumam viver em regiões montanhosas quase sem gente, e raramente atacam áreas povoadas. Existem dragões de espécie inferior e superior, e são os de espécie inferior, mais próximos de animal, que costumam atacar pessoas assim.
Quando fui a Mismede pela primeira vez, o dragão negro que atacou a vila que visitei era espécie inferior. O dragão vermelho que encontrei depois era espécie superior, e conseguia conversar normalmente.
— Bom, pode ser só coincidência. Ainda existe muita coisa desconhecida sobre dragões, talvez seja algum tipo de época de deixar o ninho. Estamos investigando esse lado, informamos depois. E tem também a segunda informação, junto com uma proposta ligada a ela…
A Relisha-san abriu, na mesa entre nós, um mapa que tinha em mãos. Hmm? Algum mar por aí? Tem umas ilhas…
— É um arquipélago descoberto recentemente, ao sul do Reino de Sandra. Investigando, encontramos algumas ruínas antigas em várias ilhas… só que, sendo muito distante, a própria investigação e escavação da ruína não estão avançando bem.
— Que tal atravessar de navio com um grupo grande?
— Essa ilha não é adequada pra permanência longa. A variação de temperatura é extrema, e tem muita fera mágica. Fiquei imaginando por que existiria ruína antiga justamente numa ilha assim, mas, provavelmente, quando a civilização antiga floresceu, essas ilhas formavam uma única ilha bem maior…
Com o passar do tempo, a ilha afundou, é isso. Não é algo impossível. E aí, o povo de lá abandonou o território, e, como resultado, virou uma ilha deserta dominada por feras mágicas…
— E, além disso, o problema é que essa ruína antiga é uma masmorra subterrânea bem extensa. Provavelmente, foi construída por algum mago ou sábio da era antiga, e, sendo assim, não seria estranho nenhum tesouro estar escondido lá dentro. Isso é algo que a Guilda não pode simplesmente ignorar.
Bom, faz sentido. É como se tivessem descoberto uma montanha de tesouro. Nunca desci numa masmorra subterrânea, mas parece que existem espalhadas aqui e ali pelo mundo.
— Normalmente, o padrão é dar essa missão pra aventureiros e deixar que eles façam a exploração. Mas, sendo o lugar que é, não é tão simples assim. Por isso, aqui vai a proposta…
A Relisha-san se inclinou pra frente. O que é, o que é? Ei, tá perto demais. Bom, não é ruim ser abordado de perto por uma mulher bonita, mas.
— Será que Vossa Majestade poderia conectar com [Gate] a ilha onde fica essa masmorra subterrânea com Brunhild?
— Hã?
Como assim? Conectar este país com a ilha da masmorra? Que sentido teria fazer isso?
— Ou seja, queremos que este país se torne o portal de entrada pros aventureiros que vão enfrentar a masmorra subterrânea. Se os exploradores de masmorra se concentrarem neste país, a cidade se desenvolve. A Guilda consegue enviar aventureiros, a investigação avança, e dá pra comprar deles os tesouros e materiais de fera mágica obtidos. O que acha?
Ahá, entendi. De fato, se a cidade ficar movimentada com aventureiros em busca de fortuna rápida, pousada, loja de arma, loja de armadura, loja de ferramentas — o comércio prospera sem dúvida. E, atraída por isso, mais gente deve se aglomerar também. Não é ruim, não.
Dá pra tomar precauções pra impedir que as feras mágicas de lá venham pra cá, e não deve ser difícil. Desenvolvimento de cidade via masmorra subterrânea, é isso?
— Tenho algumas perguntas. Essa ilha não pertence a nenhum país?
— No momento, a Guilda mantém vigilância, mas não pertence a país nenhum. Se essa proposta de agora for aceita, estamos dispostos a ceder a posse ao Principado. Claro, contanto que garantam o fornecimento de informações sobre a ruína e o direito de compra prioritária dos tesouros que os aventureiros conseguirem na masmorra.
— Mais uma pergunta. Não pensou que, ao me revelar essa informação, eu poderia simplesmente explorar a masmorra sozinho e guardar todo o tesouro pra mim?
— Fufu. Alguém disposto a fazer isso conseguiria unir os reis do mundo pra tentar derrotar os Phrase? Mesmo sendo mestra da guilda, gosto de pensar que tenho um certo olho pra julgar as pessoas.
Parece que fui bem avaliado, hein. Não posso trair essa expectativa, então.
De fato, é uma proposta e tanto, e, mais do que eu explorar sozinho e encerrar o assunto, isso beneficia aventureiros, guilda e mercadores, todo mundo junto. Só de explorar e fazer o mapa já vira dinheiro. Deve até aparecer gente especializada em cartografia por causa disso.
Sendo masmorra subterrânea, será que as feras mágicas ficam mais fortes conforme desce de nível? Se não me engano, já ouvi que, quanto mais fundo, maior a concentração de mana, e feras mágicas fortes preferem viver ali.
Pode ser que apareçam feridos ou até mortos por causa das feras mágicas, mas, sendo aventureiro, isso já deve fazer parte do preparo mental de sempre.
— Entendido. Aceito essa proposta.
— Muito obrigada. Vamos construir o portal pra masmorra e uma filial da Guilda nos arredores da cidade — quando estiver pronto, peço que aplique o encantamento de [Gate].
Masmorra subterrânea, hein. Espero que isso realmente movimente a cidade. Quem sabe eu não faça uma investigação prévia, só um pouquinho.