Capítulo 192 – A Ilha dos Dragões e o Rei Dragão
Ilha Dragoness. Um pouco menor que Brunhild em tamanho. No centro, fica o Vulcão Dragoness, soltando fumaça sem parar. A ilha é dominada por terreno árido, de jeito nenhum um lugar em que humano conseguiria viver.
Os dragões que vivem aqui costumavam se alimentar principalmente de peixes grandes e peixes-monstro do mar ao redor da ilha. De vez em quando, saíam da ilha pra caçar feras mágicas em florestas desabitadas de países próximos. Ou seja, mantinham certa distância dos humanos.
Mas, ultimamente, parece que estão atacando gado de povoados, mirando barcos de pesca a caminho do porto, agindo do jeito que bem entendem.
Deve ser porque todos os "dragões velhos" da ilha desapareceram, e não há mais quem imponha ordem.
Nessa praia da ilha, eu e a Ruri chegamos. Assim que pousamos na ilha, a Ruri, ao meu lado, soltou um rugido tão alto que dava pra ouvir na ilha inteira. Ei, isso vai fazer meu ouvido zumbir!
Na hora, ouvi um coro de gritos, e, de todos os cantos da ilha, dragões começaram a aparecer. Além de subespécies de dragão inferior, como dragão alado, dragão marinho e dragão terrestre, um bando de dragões superiores jovens também vinha em nossa direção.
《Fomos cercados.》
— Aliás, o que você disse agora há pouco?
《"Dragões tolos, que esqueceram a honra, a hora da purificação chegou. Estejam preparados pra morrer."》
Bom, não tá errado. Afinal, vim aqui pra dar uma lição nesses dragões que saíram do caminho. …Mesmo assim.
— GYAAGYAAGYAAGYAA barulhento demais, hein!
Pra mim, que não entendo língua de dragão, isso não passa de puro barulho. Mas dá pra sentir que estão reclamando de alguma coisa mesmo.
— Ora, ora. Que domador de dragões apareceu aqui, afinal.
Abrindo caminho entre o bando de dragões terrestres enfileirados na praia, um homem da raça dragonoide veio em nossa direção.
Os dragonoides costumam ser altos, e esse homem não é exceção — quase 2 metros. Corpo robusto, vestido com armadura e manto brilhantes. Cabelo vermelho, olhos dourados. Dava pra ver a cauda grossa e os chifres característicos da raça dragonoide.
— Imagino que você seja o tal "Rei Dragão".
— Oh? Que alegria saber que meu nome já se espalhou tão rápido. E você, quem é?
— Sou o rei de um país pequeno chamado Brunhild.
As sobrancelhas do homem se moveram de leve. Parece que ele já me conhece.
— …Ora. Encontrar você justamente aqui. Parece que, outro dia, um dos meus subordinados foi muito bem cuidado por você.
— "Cuidado" é forçar a barra, ele nem foi páreo. Ah, aquela "Agulha do Domínio Sonoro" que você usa, parece que é produto defeituoso, hein. Melhor jogar essa tralha fora.
— O QUÊ…!
Diante da revelação do segredo por trás do controle dos dragões, o homem se abalou. Não devia esperar que eu soubesse de um artefato de mais de 5000 anos.
— Bom, já que estamos aqui, vou perguntar mesmo assim: você é o mandante por trás do controle desses dragões, certo?
— "Controle" me ofende. Eu apenas os libertei! Da antiga lei de dragões que os aprisionava! Dragão é a criatura mais forte, mais nobre, mais sábia de todas. Por que essa criatura precisaria se conter diante de meros humanos!?
— Sábios, é? Acho que todo dragão aqui é burro.
《Concordo plenamente.》
A Ruri, ao meu lado, concordou. Se fossem espertos, já teriam fugido há muito tempo.
No fim das contas, esse cara é isso, né, um supremacista de dragão. Dizem que a raça dragonoide é orgulhosa, dedicando a maior parte da vida ao próprio treinamento. Buscadores do caminho, em busca do próprio aperfeiçoamento. Mas, dando um passo em falso, esse orgulho pode virar arrogância, e a pessoa se perde. Nesse ponto, ele é idêntico aos dragões mesmo.
— Mas os dragões daí perderam pra "meros humanos", né…
— Cale a boca! Num confronto individual, não existe chance de dragão perder pra humano! Uma raça cuja única habilidade é reprodução em massa não tem moral pra falar besteira!
— Seguindo essa lógica, se força individual é a característica dos dragões, então reprodução em massa é a característica e a força dos humanos, né. E, aliás, um dragão desse nível eu derroto sozinho.
Sendo rigoroso, parece que eu já sou meio-deus, então nem sei se ainda conto como "humano" propriamente. Bom, mas a Yae e a Elsie provavelmente também conseguiriam derrotar, então não é totalmente mentira.
— Então foi por isso que veio até essa ilha. Confiança e tanto, mas, se acha que consegue fazer algo contra um número desses, só posso dizer que enlouqueceu. Com esse poder de dragões reunido, dominar o mundo não seria nada difícil, sabia?
O Rei Dragão soltou essa fala, com um suor visivelmente suspeito escorrendo. Será mesmo? Só aqui já tem mais de 500 dragões, mas será que isso é o bastante pra conquistar o mundo? Duvido bastante.
— Que tal? Se ficar do meu lado, te dou metade do mundo. Então "PFFT!!" O que tem de engraçado nisso!!
Não, dá vontade de rir mesmo! Alguém se autodenominando "Rei Dragão" soltar essa frase é motivo de riso na certa! Nunca imaginei que fosse ouvir isso de verdade, na vida real. Não que eu seja herói nem nada parecido. Claro, a resposta é NÃO.
— Sabe o que é "bando desorganizado"? Quer dizer, "aglomerado inútil". Se você tivesse esses dragões todos sob comando coordenado, até que teria algo a temer, mas isso aqui é só o poder deles solto, sem controle nenhum — por que eu precisaria ter medo disso? Você fica bancando o "consigo controlar dragão, mas deixo eles livres", mas, na real, se controlar um ou dois já dá certo, mais que isso, dá dor de cabeça e mal-estar, né?
— Ugh!
Acertei em cheio, pelo visto. Parece que era verdade mesmo o que a Shesca e as outras disseram, que a "Agulha do Domínio Sonoro" é defeituosa. Bancar o grandão dá trabalho, hein.
— Fu, fufufu. Não precisa controlar mesmo. Você é o "matador de dragão", inimigo desses todos aqui. Todos os dragões aqui presentes já estão querendo te matar. Se eu der uma única ordem… ué?
No instante seguinte, a metade superior do corpo do homem à minha frente desapareceu. Não, "desapareceu" não é bem a palavra — foi devorada pelo dragão negro que estava atrás dele.
Uoaa. A metade inferior, coberta de sangue, caiu de bruços no chão. Que cena horrenda… Tem alguma coisa saindo dali, alguma coisa saindo!
Dragões inferiores e dragões superiores jovens não conseguem falar língua humana, mas entendem.
Pra dragões que já cresceram cada vez mais arrogantes, mesmo que fosse pra ganhar poder, se submeter a um subordinado de outra raça, no fundo, era algo que odiavam. Como existia risco de serem controlados, aguentavam calados até agora, mas, assim que perceberam que esse medo era infundado, não tinham mais motivo pra se conter.
Foi a partir da nossa conversa agora que esse dragão negro deve ter percebido isso e, sem hesitar, mostrou as presas.
— Bom feito, mas… acho que isso não significa que o problema tá resolvido de vez, né.
《"Levem ele ao sacrifício!" e "Que os humanos saibam do seu lugar!" — as mesmas ofensas de sempre, sem mudança nenhuma.》
— Aah, sério, que trabalho. Vamos resolver isso tudo de uma vez.
Estalei os dedos e abri um [Gate]. Um Frame Gear atrás do outro foi se teletransportando pra praia com um baque pesado. Os dragões mostraram sinal de nervosismo diante dos gigantes que surgiram de repente. Chamei um total de 50 unidades. Em número, é um décimo dos dragões, mas talvez já seja até demais.
《Comunicado a todos. Não precisam se conter. Se vencermos, hoje à noite também tem churrasco de carne de dragão.》
《OOOH!》
Comuniquei todo mundo pelo receptor, em canal aberto. Diferente da vez anterior, dessa vez deve ser um pouco mais tranquilo. O adversário não é tão duro quanto Phrase, e magia funciona nele. O problema é não exagerar demais. Dragão que virou picadinho, sinceramente, duvido que dê pra vender — preocupação desnecessária, mas não deixo de pensar nisso.
Bom, pensar demais nisso não resolve nada. Pela segurança de vilas e cidades vizinhas, pela dignidade honrada dos outros dragões, e pelo bolso do nosso país — sem contenção nenhuma. Já tivemos bastante vítima até aqui. Vamos parar esses caras de uma vez por todas.
《Ordem de Cavaleiros de Brunhild, avançar.》
《OOOOOOOOH!!》
Com um grito de guerra, os cavaleiros pesados avançaram em direção aos dragões. Bolas de fogo e sopro de chamas voavam dos dragões, mas eram bloqueados pelo grande escudo em mãos, e, ao se aproximar, o pescoço do dragão era cortado fora de uma vez com força.
Vendo a força do adversário, os outros dragões decolaram todos de uma vez. Mas, ali, magia de Vento foi disparada de um dos cavaleiros pesados, e vários deles, perdendo o controle no meio do tornado, caíram.
O líquido de Éter usado nos Frame Gears amplifica energia mágica e a distribui por toda a máquina. Magias que interferem diretamente em outros, como magia de cura, não dá pra usar, mas quase toda magia, exceto Luz e Trevas, funciona.
Os cavaleiros pesados foram caçando, um atrás do outro, os dragões derrubados. Ah, cortar o pescoço com espada, ou perfurar o coração com lança, tudo bem, mas esmagar a cabeça com maça ou martelo de guerra não é bom. Baixa muito o preço de compra.
Vendo os companheiros caindo, um atrás do outro, o dragão negro que devorou o Rei Dragão (no fim, nunca soube o nome verdadeiro dele) olhava ao redor, inquieto, sem sossego. Vendo isso, a Ruri deu um passo à frente.
— Ruri?
《Amo. Deixe o castigo desse aqui comigo. Ele, que manchou a honra de dragão sem sequer ter coragem de verdade, vou fazer sentir na pele a força real de um dragão.》
— Hmm… bom, tá bem. Entendo o sentimento também.
《Agradeço.》
Dizendo isso, a Ruri respirou fundo e soltou de novo, em direção ao dragão negro, um rugido capaz de estilhaçar vidro. Ei, meu ouvido de novo, viu!
O dragão negro rugiu de volta, mas, comparado ao da Ruri, sem impacto nenhum, dava dó de tão fraco. Percebendo isso ele mesmo, hesitou por um instante, mas depois disparou uma bola de fogo pela boca em direção à Ruri. Só que a Ruri não desviou, recebendo de frente.
Fiquei um pouco surpreso, mas a bola de fogo nem chegou a ferir aquela escama azul, e a Ruri continuou ali, tranquila.
Dessa vez, visivelmente desesperado, o dragão negro recuou um passo. Aproveitando isso, a Ruri avançou de uma vez e cravou os dentes na garganta do dragão negro, e um som horrível de estalo, junto com um grito de agonia, ecoou pela praia. Uaaa. Isso também é bem pesado, hein…
O corpo do dragão negro desabou na praia. Vendo isso, a Ruri soltou mais um rugido, que ecoou pela ilha inteira.
Ao ouvir isso, vários dragões próximos se prostraram no chão, apavorados, e pararam de se mover. Logo, chegou uma transmissão pelo receptor.
《…Vossa Majestade. Alguns dragões se prostraram no chão e pararam de resistir, mas isso é…》
— Ruri. Isso significa que estão se rendendo?
《Sim. Fiz um último aviso de rendição. Quem obedecer, pare de resistir. Caso contrário, em nome do "Imperador Azul", eu vou reduzi-los a pó, sem exceção.》
Não quero que virem pó não, viu. É uma fonte de renda importante. Bom, brincadeira à parte, então tem alguns que ainda conhecem o nome do "Imperador Azul". Mesmo assim, ainda tem bastante idiota continuando a resistir.
《Não toquem em dragão que não resiste. Podem derrotar quem avançar contra vocês. Cuidado, pode ter algum fingindo rendição, então não baixem a guarda.》
《Entendido.》
Por fim, dos 500 dragões que havia, mais de 350 foram derrotados, e o restante se rendeu, tendo a "Agulha do Domínio Sonoro" arrancada da cabeça. Esse artefato tinha quantidade e tanto, hein. Será que o local onde acumulavam pra descarte foi lacrado por algum motivo, e, depois de eras e eras, acabou sendo desenterrado?
Fiquei curioso pra saber os detalhes disso, mas o único que sabia a verdade agora só tinha a metade inferior do corpo… Por precaução, enterrei o corpo (só a metade inferior mesmo) na praia. Enterrei o dragão negro do lado também. Não é por compaixão nem nada disso. Simplesmente não tinha vontade nenhuma de levar de volta um bicho com a metade superior de uma pessoa dentro do estômago.
Foi um episódio que mostrou bem claro que instrumento usado errado leva à própria destruição. Vou tomar cuidado. Ainda que talvez já seja tarde demais.