Capítulo 197 – A Oitava Noiva e o Rato da Neve
— Desde outro dia, já percebi que tinha algo mudando entre vocês dois.
A Yumina, sentada na mesa, começou assim. A Leen também estava na mesa, junto com todo mundo. Só eu fiquei sentado no chão, em seiza. Cruel, não acham? Hahaha, já me acostumei. Já perdi a conta de quantas vezes fiquei em seiza assim.
— Leen-san, você também gosta do Touya-san, né?
— É. Não com a paixão intensa de vocês, mas, do meu jeito, eu gosto dele e quero passar a vida junto com ele.
— Isso é…
— Claro, não é por causa da posição dele nem por causa do legado de Babylon, viu? Isso também tem atrativo, admito, mas quem eu passei a gostar foi ele mesmo, como pessoa. Isso não é mentira.
Interrompendo a fala da Yumina, a Leen continuou nesse tom. O olhar dela encarava direto os olhos da Yumina.
Por fim, o olhar da Yumina suavizou, e um sorriso se formou.
— Entendi. Eu concordo com a Leen-san se tornando noiva do Touya-san. Como os outros pensam?
A Yumina olhou ao redor pra todo mundo. Quem primeiro ergueu a mão foi a Yae.
— Por mim, tudo bem, decerto.
— E-eu também, sem problemas.
— Eu também acho que tá tudo bem.
Depois da Yae, as irmãs gêmeas ergueram a mão de leve. Vendo isso, as duas restantes também ergueram a mão, meio apressadas.
— Eu também não tenho objeção nenhuma.
— E-eu também, do mesmo jeito.
A Lu e a Hilda não têm tanto contato com a Leen. Mesmo assim, já conversaram e agiram juntas algumas vezes, então acho que conhecem bem o jeito dela.
Em tempo de convivência, a Leen já conhece a todas há mais tempo do que elas se conhecem entre si. Nunca imaginei que fosse acabar assim.
— A Sue não está aqui agora, mas acho que ela também não teria objeção. Leen-san, conto com você de agora em diante.
— Isso mesmo. Conto com vocês também.
As duas trocaram um aperto de mão amigável, sorrindo uma pra outra. Já não tenho mais espaço nenhum pra opinar aqui. Não que eu tenha algum motivo pra ser contra, aliás. A Leen é fofa, é confiável, e madura de espírito.
Se a Yumina é a líder do grupo, acho que ela vai brilhar como uma espécie de vice-líder.
Mas… finalmente, a oitava, hein. Já tô "chegando na reta final", ora. Aliás, se aquela doutora idiota não tivesse falado besteira, talvez isso nunca teria acontecido.
Parece que a Yumina e as outras estão bem determinadas a fechar logo o número de nove noivas… Será que é pra evitar que eu seja pego por alguma mulher estranha. Pela forma como recusaram a Pam, dá pra ver que também não estão decidindo isso de qualquer jeito.
— Certo, com isso, a Leen-san agora é noiva do Touya-san, assim como nós. Companheira. Camarada.
— Ué? Ah, é, é isso mesmo.
— E… até agora, aonde vocês dois foram, só os dois?
— Hê?
A Leen soltou um som meio bobo. Sem perceber, já estava cercada pelas outras cinco também, recebendo uma pressão silenciosa, todas sorrindo.
— Pe-pera aí. Vocês não estão entendendo algo errado?
— Sozinhos, até essa hora da madrugada… que outro motivo poderia haver, decerto?
Diante da Yae, que se aproximava cada vez mais, a Paula tentava desesperadamente sinalizar "eu também tava lá, viu", mas ninguém do grupo cercando a Leen parecia perceber isso nem um pouco. As gêmeas avançaram ainda mais pra cima da Leen.
— Se-será que…
— V-vocês fizeram "aquilo"!?
— "HÃÊÊ!?"
Minha voz e a da Leen ecoaram em uníssono. "Fizeram aquilo"… quer dizer aquilo mesmo, né. Tanto quem falou quanto quem ouviu ficaram vermelhos igualmente.
— Q-q-quê, o q-que é que vocês estão falando! N-n-não é nada disso, ué!
A Leen, virando uma lagosta cozida, negou desesperada. Ora, ora? Que reação inocente, hein… Mesmo vivendo mais de 600 anos, a reação combina exatamente com a idade aparente dela.
Vendo essa reação, eu, pelo contrário, fiquei calmo de repente.
Então, no lugar da Leen, que tava confusa demais pra falar, expliquei pra todo mundo o que tinha acontecido essa noite.
— Entendi a situação. Mas, se fosse ficar tão tarde assim, não devia ter mandado ao menos um aviso?
— Ugh, foi mal…
— Dava pra mandar recado através do Kohaku-chan e as outras, né?
— Ah.
Verdade mesmo. No meio da correria toda, nem percebi isso. De fato, se eu ficasse fora até essa hora sem nenhum aviso, é natural que se preocupem, de vários jeitos.
Eu mesmo achava que não tinha motivo nenhum pra preocupação, mas acho que me empolguei um pouco demais.
Não é minha intenção causar preocupação ou incômodo pras pessoas importantes pra mim. Vou tomar cuidado daqui pra frente.
— Deixado sozinho, nunca se sabe o que você vai aprontar, sabia.
— É mesmo, decerto. Teve uma vez que, dizendo que era "experimento de magia"…
— Acabou queimando uma casa vazia inteira, né…
A Elsie, a Yae e depois a Lindsey suspiraram. Essa é a preocupação de vocês!? Aquilo foi só eu tentando ver se dava pra controlar uma bola de fogo tipo míssil teleguiado. Bom, deu errado.
Será que é assim que se sente o marido que bebeu, voltou bêbado pra casa e leva bronca da esposa. …Espera, isso aqui? Eu já sou completamente dominado, não é!?
Não que eu queira virar aquele tipo de marido tirano, do tipo "me sigam calados". Mas, quando a Yumina e as outras ficam bravas, na maioria das vezes é porque estão preocupadas comigo, então nem consigo retrucar. Somos noivas em bom relacionamento entre nós, sem nenhuma briga séria — reclamar disso seria pedir castigo divino.
— De qualquer forma, de agora em diante, se for demorar, avisa. Na medida do possível, tá bom? Entendido?
— Entendido, moço…
Depois disso, recebi um sermão de cada uma, individualmente, e só fui liberado pra cama perto do amanhecer. Recebi vários compromissos e promessas variadas, mas, como a culpa foi minha, não tinha jeito.
Hmm, curioso… Uma por uma, são fofas, gentis, e dá uma paz de espírito estar com elas. Mas, quando todas se juntam, sinto que não tenho chance nenhuma. A liderança fica completamente nas mãos delas. Mas isso também preciso aceitar, né.
Aah, mas que sono. Zzz.
Ao acordar, a primeira coisa que fiz foi ir relatar o ocorrido de ontem pro Kōsaka-san. Ele já vai preparar um rascunho baseado nas leis de Belfast. Neste mundo, no nível equivalente ao período Edo, a punição mais leve depois da pena de morte é o exílio — equivalente ao degredo pra ilha no período Edo.
Em outros países, dizem que existe punição de trabalho forçado em mina, mas, infelizmente, aqui não temos mina nenhuma.
Abolir a pena de morte parece mesmo gerar vários inconvenientes. Se expulsar pro exterior, e a pessoa causar problema em outro país, também seria um problema. Será que, de certa forma, a pena de morte evita complicações posteriores.
Nesse sentido, será que a "Coleira da Servidão" seria um artefato adequado pra punir criminoso. Desde que fosse aplicada corretamente só em criminosos graves. Será que não dá pra modificar isso.
Por ora, se for alinhar com a punição de Belfast, o comerciante de escravos Jaber provavelmente vai receber pena de morte. Considerando o que ele já fez até agora, é natural mesmo.
O problema é o que fazer com os outros tripulantes e escravos. Se a Yumina, com o olho mágico dela, examinar a natureza dos escravos, e não tiver problema, talvez dê pra retirar a coleira.
De qualquer forma, saí pra cidade e fui até a pousada "Lua de Prata". Fiquei preocupado com os aventureiros que salvei ontem. Espero que não tenham ficado com nenhum trauma estranho.
Chegando na "Lua de Prata" e conversando com os aventureiros capturados, fiquei aliviado ao saber que os 10 pretendem continuar como aventureiros. Espero que, de agora em diante, explorem com mais cautela e cuidado. Não precisam ter pressa. Basta ir ficando mais forte devagar.
Ao ouvir que as carteiras seriam reemitidas, todos foram logo pra guilda. Pensando em como podia ter dado tudo errado, fico com um peso na consciência.
Como não tinha tomado café da manhã (afinal, dormi até quase o meio-dia), decidi almoçar ali mesmo. Convidei o Rop e os outros três também, de quebra.
No início, ficaram hesitantes, mas, assim que já pedi almoço pra cinco pessoas com a Mika-san, sentaram-se à mesa, meio encabulados.
— Nossa, então tinha até masmorra na vila de vocês.
— Não chegava a ser bem uma masmorra. Mais tipo uma caverna pequena. Mas era com certeza algum tipo de ruína. Desde criança, entrávamos ali e brincávamos de aventura.
Brincar de aventura, mas será que não é perigoso, sendo só crianças? Podia até ter lobo morando lá dentro.
— Já encontramos lobo e morcego gigante algumas vezes, mas conseguíamos derrotar os quatro juntos. Por isso, achávamos que tínhamos uma certa confiança… Chegando aqui, percebemos o quão ingênuos éramos.
A espadachim Fran falou isso, com um tom de frustração. Como ela disse, tem bastante diferença entre lobo e Goblin ou Kobold. Estes últimos até usam ferramentas e trabalham em conjunto. Mas, se o Rop e a Fran, sozinhos, conseguiam lidar com adversário de nível rank Azul, mesmo que decadente, talvez esses garotos tenham potencial e tanto.
— Bom, sem pressa, vão fazendo o que conseguem, aos poucos. Aprendam com os erros e façam o que estiver ao alcance de vocês. E também, não caiam em proposta boa demais pra ser verdade. Tem um ditado que diz: "toda proposta boa demais esconde algo", "flor bonita tem espinho", "nada é de graça de verdade".
Os quatro assentiram, sérios. Bom, acho que já aprenderam a lição com isso. Deviam ter pensado no motivo de outro aventureiro oferecer um bom terreno de caça assim. Qual seria o benefício pra eles em ensinar isso, reduzindo o próprio lucro? Bom, desconfiar demais das pessoas também não é legal, mas.
— Ahn, Vossa Majestade. Sobre esse aqui…
— Hm?
A maga Ion me apresentou, na mão, o camundongo branco que invoquei. Ah, é verdade, esqueci desse.
Hmm, ainda fico preocupado com esses garotos. Será melhor deixar essa fera junto deles. Se não me engano, essa espécie se chama "Rato da Neve" — dizem que, em grupo, é bem forte, mas parece só um camundongo comum.
Bom, nem sei se existe camundongo neste mundo, mas.
Como parece ter "detecção de perigo", com ele por perto, dá pra evitar ataque surpresa, ou perceber o perigo e fugir a tempo.
— Vou deixar esse aqui com vocês. É bem esperto, e consegue detectar perigo, então deve ajudar na exploração. E também serve de meio de contato comigo, então, se acontecer alguma coisa, podem confiar nele.
Diante das minhas palavras, a Ion assentiu com um sorriso. Parece que ela já gostou dele. Bom, espero que se deem bem. Só não quero que fiquem mandando contato toda hora, por qualquer coisa.
Terminada a refeição, me despedi dos quatro. O rato da neve já estava, cheio de intimidade, sentado na cabeça da Ion, acenando pra mim. Aquele bicho, será que é bem mais esperto do que parece mesmo…
Aliás, tem uma coisa que me deixou curioso na conversa de antes. A caverna em que aqueles quatro brincavam quando crianças, e a ruína encontrada lá — pela descrição, parece bem semelhante às ruínas de Babylon.
Se não me engano, a vila natal deles é Piton, em Regulus. Conferindo no mapa, não é tão longe assim. Não me diga que tinha uma bem pertinho assim… Será que os pássaros que enviei em busca não perceberam?
Ah, será que é porque pássaro tem visão ruim de noite, então não conseguiu perceber dentro da caverna? Não, mas ouvi dizer que isso é engano. A maioria dos pássaros enxerga tão bem à noite quanto humano. Só que não agem à noite porque não encontram comida.
Se for assim, deve ser só um descuido mesmo. Bom, de qualquer forma, indo lá, vou descobrir.
Já ia decolar com [Fly], mas, antes disso, mandei um recado telepático pro Kohaku, pedindo pra avisar todo mundo. Já que levei bronca ontem, prefiro evitar sermão dois dias seguidos.
Certo, vamos lá.