Capítulo 212 – Duas Novas Máquinas e o Escudo
— Ooh…
— Isso é… o nosso…
Olhando pras duas máquinas de Frame Gear paradas à frente, a Yae e a Hilda soltaram essas exclamações.
De um lado, um guerreiro em armadura violeta. Máquina de design tipo armadura japonesa, com um enfeite comprido em formato de meia-lua no capacete. Aquilo foi inspirado no capacete do senhor de guerra do período Sengoku, Date Masamune. Na cintura, empunha uma katana grande e uma espada curta, e, nas costas e nos pés, propulsores instalados pra aumentar a mobilidade.
Com o efeito de [Accel] carregado no slot de energia mágica, dá pra gerar uma super-aceleração instantânea. Com isso, dá pra abater o adversário com um desembainhar rápido, ou desferir golpes em sequência.
A resistência não é tão alta assim, mas, em troca, tem movimento ágil e katana de cristal afiadíssima — uma máquina veloz como um raio, capaz de derrubar o inimigo num instante.
Essa é a Frame Gear exclusiva da Yae, "Schwertleite".
Ao lado dela, uma máquina de cor laranja. Vestida de armadura pesada, um cavaleiro na cor laranja principal com detalhes pretos. Empunha uma espada longa e larga, e um escudo grande, com resistência ainda maior que a máquina da Yae.
A parte que se estende grande nas costas, tipo barbatana dorsal de tubarão, se transforma numa espada grande gigante, própria pra combate contra espécie superior. Como também tem o encantamento de [Modeling], consegue mudar também pra uma espada longa do dobro do tamanho.
E, além disso, o escudo também se transforma num formato cônico em espiral e, combinado com a maça equipada atrás da cintura, encaixada na ponta, vira uma "Lança Perfuradora". Ao receber energia mágica, gira em alta velocidade, capaz de esmagar o inimigo em pedaços.
Essa é a Frame Gear exclusiva da Hilda, "Sieglinde".
As duas embarcaram cada uma na própria máquina e continuaram o teste de familiarização, brandindo a espada, correndo, conferindo os movimentos.
《A velocidade de reação é completamente diferente do cavaleiro negro, decerto… Dá pra manejar como se fosse o próprio corpo.》
《A força também é incomparavelmente maior. Com isso, mesmo contra espécie superior, talvez dê pra lidar de algum jeito…》
《Não se empolguem demais. Do outro lado, também pode ter espécie superior ainda mais forte. Excesso de confiança é o maior inimigo, viu.》
De fato, mesmo o novo modelo não é invencível. Pelo menos, queria que aguentasse aquele canhão de partículas, mas, mesmo com a máquina da Yae e da Hilda, deve ser impossível.
Baseado nos dados medidos, pretendo equipar uma blindagem que aguente isso na máquina da Sue, que ainda está em construção.
Terminado o teste de operação da Schwertleite e da Sieglinde, voltamos pro castelo, e, na sequência, fui com a Sakura e a Kōgyoku até a "Lua de Prata", na cidade. Parece que a Elfa das Trevas, curada da Doença do Endurecimento Mágico, acordou. De manhã, um funcionário da "Lua de Prata" veio avisar no castelo.
Sem problema de saúde, e parece ter até apetite, então deve estar completamente curada, mas, por precaução, fui dar uma olhada.
Batendo na porta e entrando no quarto, a Fleur-san estava sentada na cadeira, e a Elfa das Trevas, já com o tronco erguido na cama.
Assim que a Fleur-san nos apresentou, ela desceu logo da cama, ajoelhou nos dois joelhos e curvou profundamente a cabeça. Ei, espera! Prostração não, por favor!
— Não tenho palavras pra agradecer por salvar minha vida. Nunca imaginei que fosse ser curada pelo próprio Príncipe de Brunhild… Eu, Spica Frennel, ofereço minha vida a Vossa Majestade.
Que exagero, hein! Não, pensando que teve a vida salva, talvez não seja exagero mesmo?
— Hmm, prefiro que não pense tão profundo assim. De qualquer forma, que bom que a doença curou. Se quiser, posso te teletransportar de volta pro Reino do Rei Demônio Zenoas, com magia.
Já fui até a estrada de Zenoas, ainda que de cima. Dá pra abrir um [Gate] pra lá.
— Não… eu não tenho mais lugar pra voltar no meu país… Acho que vou procurar algum trabalho neste país. Em outros países, é bem difícil arranjar emprego sendo demônio.
A Spica-san sorriu de leve, com um ar de sofrimento. Será que tem algum motivo pra não conseguir voltar. Todo mundo comentou que, no Reino do Rei Demônio, Elfa das Trevas costuma ser de família nobre.
— Trabalho, mas… tem alguma habilidade específica?
— Em Zenoas, eu servia nas fileiras militares, atuando como guarda de escolta. Se possível, gostaria de fazer um trabalho parecido também aqui.
Guarda de escolta, hein. Quer dizer que deve ter sido de elite bem alta, né? De fato, essa pessoa tem um jeito de falar meio militar. Mas alguém assim não conseguir voltar pro próprio país, o que será que houve. Não deve ser criminosa…
— Rei-sama… será que dá pra arrumar um trabalho pra ela?
— Hã? Hmm… bom, dá pra contratar na Ordem de Cavaleiros, mas…
Que raro a Sakura se importar com outra pessoa assim. Essa garota costuma seguir o próprio ritmo, tanto bem quanto mal. A Spica-san também olhou pro meu rosto, esperando resposta.
— Será que dá pra ajudar, de algum jeito…
— Bom, sendo assim, seria membro comum, tá? O salário é baixo… tá tudo bem?
— Sem problema. Vou garantir ser útil a Vossa Majestade, sem falta.
A Spica-san olhou direto pra mim. Naquele olhar, dava pra sentir uma luz de algo tipo determinação.
— Então, por ora, vamos fazer um teste de admissão. Não posso decidir sozinho.
— Conto com sua colaboração!
A Spica-san curvou a cabeça de novo. Então para com essa prostração, por favor…
— …Que bom.
— Sim! Muito obrigada, Sakura-sama.
— Não precisa do "-sama".
— Hã? Mas, sendo a noiva de Vossa Majestade, é natural tratar com o devido respeito…
Não, não, não. Não é isso. Tem várias, mas essa não é uma delas.
Expliquei a situação da Sakura, e a Spica-san assentiu, parecendo compreender.
— Então é isso… Sobre a memória… Deve ser bem difícil pra você…
— De jeito nenhum. Esse país é bem divertido, cheio de coisas diferentes acontecendo. Com certeza, a Spica também vai gostar. Garanto.
A Sakura respondeu com naturalidade, como se não fosse nada de mais. Ouvindo isso, a Spica-san ficou momentaneamente surpresa, mas logo abriu um sorriso, como se visse algo nostálgico.
— Já me disseram algo parecido antes… A senhorita Sakura é uma pessoa curiosa. Parece com um conhecido meu.
— Não precisa do "-sama".
— Não, você também é minha salvadora. Falhar em retribuir isso manchia meu nome de família. Mesmo sendo um nome já caído em desgraça, pelo menos isso eu devo…
De repente, a Spica-san fechou a boca. Cobriu a própria boca com a mão, como quem percebeu ter falado algo perigoso.
Parece que algo aconteceu em Zenoas que manchou o nome da família dela. Vou deixar de investigar mais fundo.
Bom, de qualquer forma, já que o estado de saúde dela tá bem, vou levar até a Yumina primeiro. Deve estar tudo bem, mas preciso que ela confira com o olho mágico.
Abri [Gate] e saímos no jardim interno do castelo. Deixando a Spica-san ali, olhando ao redor curiosa, ainda surpresa com o primeiro teletransporte, pedi pra Kōgyoku chamar a Yumina.
Depois de um tempo, a Yumina veio, e, diante do aparecimento de mais uma noiva de verdade, a Spica-san se ajoelhou solene e curvou a cabeça. Bom, faz sentido, já que a Yumina é minha noiva e, ao mesmo tempo, princesa de Belfast.
— Levante-se, por favor. Você é a Spica-san, certo?
— Sim.
Assim que ela se levantou, o olhar da Yumina cravou direto nela. Depois de um breve silêncio, a Yumina sorriu.
— Sem problema. Acho que é digna de fazer parte da Ordem de Cavaleiros de Brunhild.
— Muito… obrigada?
Sem entender bem o que "sem problema" significava, a Spica-san ficou parada, com uma expressão confusa. Parece que passou pelo crivo da Yumina.
— Então, agora, quero ver sua capacidade. Venha comigo, por favor.
Atravessamos o jardim interno e fomos em direção ao campo de treino nos fundos.
Como sempre, hoje também todo mundo se dedica ao treino. Na beira do campo, vários cavaleiros derrubados jaziam esgotados. Ei, quantos são? Demais! Deve ser obra da irmã Moroha…
Ao nos ver chegando no campo de treino, todos pausaram por um instante, mas, quando sinalizei pra continuarem, voltaram ao treino.
Mesmo assim, lançavam olhares de relance na direção da Spica-san. Bom, faz sentido, Elfa das Trevas é rara, e, além disso, é bonita.
— Certo. Ei, Nicola-san.
— Sim. O que é, Vossa Majestade?
Chamei a vice-capitã Nicola-san, que polia uma alabarda de treino no banco do canto. Pedi pra ela selecionar alguns adversários pro teste de admissão da Spica-san.
Levada até o depósito de armas de treino, pra escolher o próprio equipamento, a Spica-san pegou uma espada e um escudo. Depois de balançar um pouco pra conferir o peso, foi em direção ao campo.
Diante do adversário escolhido pela Nicola-san, cumprimentaram-se e ergueram as armas.
Assim que a partida começou, vários golpes de estocada foram desferidos na direção da Spica-san. Ela bloqueou todos com o escudo e, mergulhando na guarda dele, disparou um golpe de espada afiado.
Todos os ataques de lança foram bloqueados pelo escudo, sem sequer chegar perto. Aproveitando essa brecha, a Spica-san avançou junto com o escudo, desequilibrando o adversário e derrubando a perna dele.
Com o adversário caído, ela apontou a espada pro pescoço dele, e a partida terminou.
— "Escudo", decerto.
— "Escudo".
A Yae e a Hilda, que sem eu perceber tinham vindo pro meu lado, murmuraram cada uma isso. Que susto, elas já estavam aí. O escudo, é? O que tem de estranho nisso? Parece um escudo comum…
— Aquilo não é técnica de espada pra derrotar o inimigo, e sim técnica de escolta pra proteger alguém, decerto. Recebe o ataque do inimigo, desvia, impede que avance mais. Técnica de espada que domina o adversário depois de esgotá-lo.
— O impressionante é como ela desloca a posição do bloqueio com o escudo, desviando e dispersando a força. Isso não só tira o impacto do golpe, como pode até desequilibrar o corpo do adversário. Deve ser difícil de lidar com isso.
Como enfrentar cortina de fumaça, ou pregar prego na areia. Algo assim. Bloquear o ataque, forçar o adversário a um estado onde fica difícil emendar o próximo ataque ou defesa, e, então, aproveitar essa brecha pra derrubar. De fato, com aquilo, parece dar pra deixar o adversário incapacitado sem matar. Claro, também dá pra aproveitar a brecha pra matar, se quiser.
— Quer dizer que, sem o escudo…
— O efeito cairia pela metade… não, ainda menos que isso, decerto.
Mesmo com espada, dá pra desviar de ataque, mas parece difícil resistir do mesmo jeito que com o escudo. Uma técnica de espada que pressupõe o escudo. De fato, é bem raro.
— Originalmente, existe um escudo específico pra esse estilo de espada. Entre os demônios, quem tem orgulho da técnica de defesa impenetrável é a família dela, os Frennel. Uma das cinco famílias nobres que assessoram o Rei Demônio.
A Sakura falou isso enquanto observava a Spica-san derrubar o segundo adversário do mesmo jeito. Que bem informada, hein.
— …Tava escrito num livro. A família Frennel é famosa. Provavelmente, ela também é dessa origem.
— Entendi. Mas por que alguém de uma família tão nobre assim acabou vindo parar aqui, hein…
Parece ter algum motivo que não pode contar a ninguém, mas vou deixar de investigar. Já que a Yumina deu o aval, com certeza não é má pessoa. Se ela cometeu algum erro irreparável lá e veio recomeçar a vida aqui, isso também não é ruim.
Vendo a partida, a Nicola-san julgou que a capacidade dela era suficiente, e aprovei a admissão da Spica-san na Ordem de Cavaleiros de Brunhild.