Capítulo 213 – A Placa de Detecção e a Fuga
— Ah, entendi, então aquela pessoa é da família Frennel~.
— Você conhece?
— Claro, "Frennel do Escudo", uma das cinco famílias guerreiras de Zenoas, é super famosa~.
Arrumando as plantas numa sala do castelo, as irmãs Lâmia, Myuret e Sharet, disseram isso. Elas trabalham como subordinadas do velho Naitō, chefe do órgão de agricultura e construção. Cuidam principalmente do zoneamento urbano, aprovação de construções e organização de documentos de trâmite.
Na volta de uma visita ao velho Naitō, dei de cara por acaso com as duas, e resolvi perguntar sobre a Spica-san, que tava me deixando curioso. Afinal, é da mesma raça demônio.
Tentei ao máximo não investigar demais, mas, tendo tanta habilidade e origem nobre assim, fico curioso pra saber por que ela saiu do país.
— A família Frennel é linhagem que serve de escolta da família real de Zenoas — dizem que existe um membro da família Frennel colado como sombra em cada membro da família real. Bom, isso é só um boato~.
— Então será que a Spica-san também era uma dessas escoltas da família real?
— Hmm, será mesmo~? Se não me engano, os escoltas da família Frennel são escolhidos com o mesmo gênero da pessoa da família real. Atualmente, não tinha nenhuma mulher na família real de Zenoas, né~?
Cruzando os braços pensativa, a Myuret batia devagar o rabo de cobra no chão, "pita-pita".
Ué? Essa aqui é a Myuret? Ou seria a Sharet? Essas duas são tão idênticas que não dá pra distinguir mesmo.
Mesmo sendo gêmeas, a Elsie e a Lindsey não são assim. Uma vez, comentei isso com elas, e ouvi um "o padrão das escamas é completamente diferente, ué". Normal não saber disso, viu.
— Não ter mulher, é… a rainha também?
— Se não me engano, tanto a primeira quanto a segunda rainha morreram de doença. Cada uma tem um príncipe, mas nenhuma princesa, se não me engano~.
Entendi. Se for pra escoltar mulher, faz sentido preferir uma escolta mulher também. Se for assim, talvez a Spica-san não fosse escolta da família real mesmo. Se for assim, aquilo do "nome de família caído em desgraça" seria…
— Aconteceu algo recente com a família Frennel?
— "Sei lá~. Já faz tempo que a gente saiu de Zenoas~."
Hmm. No fim, não descobri nada mesmo. Bom, investigar demais também parece invasão de privacidade.
Me despedindo das irmãs Lâmia, fui até o campo de treino, e, bem na hora, a Spica-san estava terminando o treino, secando o suor no banco.
— E aí.
— I-Isso, Vossa Majestade. Algo que precisa?
Se levantando do banco, ela apoiou um joelho no chão e curvou a cabeça. Ugh, tenho dificuldade com gente tão soldado assim. Por ora, pedi pra ela se levantar.
— Como tá? Algum problema?
— Não, todo mundo tem sido bem gentil comigo, mesmo sendo novata. É bom não fazerem distinção por eu ser demônio ou mulher.
Comparado a outras Ordens de Cavaleiros, o nosso realmente tem uma proporção maior de mulheres. E também de semi-humanos. Bom, não é totalmente assim como em Mismede, mas.
— Mesmo assim, o nível de força da Ordem daqui é impressionante. Fiquei surpresa.
Bom, é que treinam pesado demais mesmo. Estilo espartano. Se não ficassem fortes com isso, seria estranho.
— Especialmente a força da senhora Moroha…
Diante de alguma lembrança, a luz sumiu dos olhos da Spica-san.
— Ah… então já teve um confronto com ela.
— Toda a minha confiança de até então desmoronou por completo… É a primeira vez que meu "Escudo" não serviu pra absolutamente nada… por mais que seja um escudo com o qual eu não estava acostumada ainda…
Aquela pessoa é fora do padrão em vários sentidos, melhor esquecer isso. Se usar ela como referência, humanos teriam que continuar desafiando um muro impossível pra sempre.
Pensando bem, a Sakura mencionou que existe um escudo exclusivo pra família Frennel. Que tipo será.
— É um escudo em forma de cúpula, com curvatura suave. No centro, tem uma protuberância pra estocar…
— Hmm.
Tirei material de cristal do [Storage] e comecei a moldar com [Modeling]. Algo assim, deve estar bom.
Surpresa com [Modeling], a Spica-san pegou o escudo e passou a mão pela superfície.
— Será que dá pra deixar essa curvatura um pouco mais suave? E também o tamanho geral, um pouco menor…
— Assim?
Fui moldando conforme ela pedia. Depois de terminar a transformação do escudo de cristal, apliquei [Gravity] pra aliviar o peso e adicionei mais alguns encantamentos, terminando o processo.
A Spica-san pegou o escudo pronto, passou a mão nele algumas vezes, testou segurando, girando, fazendo vários movimentos.
— É transparente, então não bloqueia a visão nem por trás do escudo, isso é ótimo. E, ainda por cima, é incrivelmente leve. Que escudo maravilhoso.
— Não é só isso. A maioria das espadas não consegue nem arranhar, e tem encantamento pra repelir ou absorver até certo ponto ataque de magia.
Ainda não tinha entregado pra Spica-san a espada de cristal, armadura e o equipamento completo padrão da Ordem, então entreguei tudo ali mesmo. A espada e a armadura são iguais às de todo mundo.
— Um equipamento desse nível… se eu tivesse na época…
Meu ouvido não deixou passar despercebido esse murmúrio dela, mas resolvi propositalmente não tocar no assunto.
— Mestre.
Uma voz me chamou por trás. Ao me virar, a Shesca, vestida de criada, estava parada ali.
— Recado da Rosetta. Diz que aquele item ficou pronto.
— Ah, foi rápido, hein.
Achei que fosse demorar mais. Certo, então vamos apresentar na reunião da tarde.
Me despedi da Spica-san e fui com a Shesca até Babylon.
— Touya-dono. Isso é o artefato capaz de prever o surgimento dos Phrase?
— Sim. Batizei de "Placa de Detecção".
Como o nome diz, é um formato de placa preta — algo tipo um tablet de LCD.
Detectando o som de surgimento dos Phrase, mostra a direção, distância, horário previsto de surgimento, tipo de espécie, e quantidade. Bem útil.
Só que o alcance de medição não é tão grande assim — pra Brunhild sozinho, basta uma unidade, mas, pra países grandes tipo Belfast, Regulus, Lestia, ou até Riinie, o menor depois de nós, vai precisar de várias unidades.
— Pretendo pedir pra instalar isso em cada Guilda de Aventureiros dos países, e, se for só espécie inferior, tratar como missão pra aventureiros pela guilda; se envolver espécie intermediária, o país inteiro deve mobilizar Frame Gear; se envolver espécie superior, toda a Aliança Leste-Oeste entra em ação. Claro, se a quantidade for exagerada demais, isso pode mudar.
— Sem problema pra Guilda. Como aconteceu em Eurono, sofrer dano sem previsão nenhuma é algo que preferimos evitar a todo custo.
Misturada entre os representantes de cada país, sentada na mesa redonda, a mestra da guilda Relisha-san se manifestou.
O motivo de pedir cooperação da guilda é que ela tem base em vários lugares, mesmo dentro de países que não fazem parte da Aliança Leste-Oeste. E também a confiabilidade da rede de comunicação.
Claro, se algum país fora da Aliança tiver previsão de surgimento de Phrase, pretendo explicar a situação e pedir cooperação mesmo assim. Se vão acreditar ou não é outra questão. Bom, mesmo sem acreditar, quando os Phrase surgirem de verdade, não vão ter escolha a não ser acreditar.
— Hmm. Com isso, mesmo que os Phrase ataquem, dá pra resolver até certo ponto dentro do próprio país.
— E também sobre o fragmento de Phrase… "material de cristal", era? Isso também pode ter várias utilidades, dependendo do uso.
O Imperador de Regulus e o Rei Ferino de Mismede trocaram essa conversa. Claro, cada país já sabe perfeitamente das características do "material de cristal". Bom, vendo os Phrase e o equipamento e armas de Frame Gear da nossa Ordem, dá pra deduzir mesmo.
Até agora, quase todo o "material de cristal" abatido por Frame Gear ficava comigo, mas, de agora em diante, ficou decidido que, se derrotado no próprio país, 80% fica pro país, e os 20% restantes eu recebo como taxa de aluguel do Frame Gear. Claro, se derrotado sem Frame Gear, não entra nada pro meu bolso.
As características do "material de cristal" são:
"A dureza aumenta ao receber energia mágica."
"Autorregenera até a energia mágica recebida se esgotar."
"Como catalisador, amplifica o poder da magia."
O último ponto, amplificar o poder da magia, é igual à pedra mágica, mas, como a taxa de condução de energia mágica é diferente, dizem que o material de cristal tem um poder ainda maior.
O problema é o peso e a técnica de processamento — sem conseguir aliviar o peso com [Gravity] como eu faço, ou fazer transformações complexas com [Modeling], é difícil usar em armadura ou espada.
Mesmo no processamento, cortar dá pra fazer, mas não dá pra unir peças. Bom, canalizando bastante energia mágica pra aumentar a dureza e transformando em escamas finas, talvez dê pra fazer uma cota de malha escamada.
Mas o mais complicado é a canalização de energia mágica — segundo a Leen, quanto mais canaliza, mais a dureza aumenta, mas a resistência da energia mágica também aumenta, dificultando cada vez mais a canalização.
Será algo parecido com subir de nível em RPG? Quanto mais alto o nível, mais experiência precisa. Algo assim.
Aliás, eu nunca senti resistência de energia mágica nenhuma. Consigo canalizar suavemente sem problema. Bom, nunca canalizei até o limite máximo, então não sei. Talvez, se canalizar demais, ele rache.
— Então, encerramos a reunião de hoje por…
— Desculpe, tenho um relatório.
Interrompendo minhas palavras de encerramento, a nova Governadora-Geral de Lodmea, Audrey-san, ergueu a mão. O que será?
— Achei melhor informar. Sobre o incidente de descontrole dos Golens de Madeira Armados que aconteceu outro dia em nosso país… Edgar Bowman, responsável total pela pesquisa e cultivo desses golens, fugiu do campo de trabalho forçado nas minas.
Hã? Aquele calvo precoce fugiu?
— Parece que teve ajuda externa, e o paradeiro dele ainda é desconhecido. Existe também a possibilidade de fuga pra fora do país, então achei melhor reportar.
Quer dizer que alguém ajudou aquele calvo precoce a fugir. Quem seria… Mesmo sendo o que é, ele ainda é chamado de gênio da engenharia mágica, então não seria estranho ter alguém interessado em usar essa capacidade dele…
— Busca. Engenheiro mágico Edgar Bowman.
O mapa apareceu projetado no ar, mas nenhum pino caiu nele.
《Busca concluída. Nenhum resultado encontrado.》
Hmm.
— Isso significa que já morreu?
— Se o cadáver estiver num estado irreconhecível… ou se fugiu pra um lugar com barreira de energia mágica, ou se ele tem algum item capaz de erguer uma barreira dessas…
Enquanto respondia isso pra nova Governadora-Geral, não consegui evitar sentir de novo aquele pressentimento ruim. Não é medo nem ansiedade. É só aquele tipo chato de pressentimento de que vai dar mais trabalho.
"Não existe coisa mais incômoda que um idiota meio esperto demais" — dizia meu avô já falecido.
Eu concordo plenamente.