Capítulo 215 – A Torre do Relógio e a Celebração da Promoção
— Por ora, acho que ficou bom assim.
— Não, ficou bem imponente, viu.
Ao meu lado, o velho Naitō observava a torre do relógio diante de nós, coçando o queixo.
Instalei uma grande torre do relógio na praça central da cidade-castelo. Relógio é algo que só grandes nobres têm, então, até agora, avisávamos as horas tocando sino. Mas, como tem gente que não escuta, e achei que seria bom saber a hora exata, resolvi construir isso.
Me inspirei no Big Ben, de Londres. O nome oficial é Clock Tower… ah, ou virou Elizabeth Tower, né.
É só um relógio gigante que tinha no "Depósito", instalado ali, mas o mostrador foi encantado com magia de Luz, então brilha mesmo à noite, tipo tinta fluorescente. O mostrador usa numerais Parteno antigos, mas, como é dividido em 12 igual ao normal, não causa muita confusão.
O sino toca só ao meio-dia. Como tem mostrador nas quatro direções da torre, mesmo sem o sino, dá pra ver o horário só de olhar. O defeito é que, bem embaixo da torre, não dá pra ver o horário.
Espero que isso vire um símbolo da cidade, igual em Londres.
— Ooh, que torre de relógio imponente, hein.
— Ah, Orba-san. Olá, e a Alma também.
— Faz tempo, hein! Touya-sa… ah, Vossa Majestade.
— Pode me chamar de Touya mesmo. Quanto tempo.
Ao me virar, o mercador de Mismede, Orba-san, e a filha dele, Alma, estavam parados ali. As duas orelhas de raposa de ambos se moviam de leve.
O Orba-san vem sempre pra Brunhild, mas é raro a Alma vir junto.
— Hoje vim entregar material metálico. A Alma teve as férias longas da escola, e disse que queria vir junto pra este país…
— Entendi.
Peço pro Orba-san que pague, em parte, com material metálico, os lucros de vender produtos que eu inventei (bom, sendo exato, não fui exatamente eu quem inventou), tipo equipamento de beisebol, pião de arremesso, e kendama. Material metálico, matéria-prima do Frame Gear, nunca é demais.
— E também… sobre aquele pedido de outro dia…
— Encontrou alguma pista?
— É o Reino de Felsen.
Entendi, o Reino de Felsen, hein. Deve estar certo mesmo.
As peças do Frame Gear usam metal raro tipo oricalco. É pouco em relação à quantidade total da máquina, mas, mesmo assim, o oricalco usado numa única unidade já é considerável. Se refundido em espada, dá pra fazer umas 10.
O primeiro passo de quem roubou peças de Frame Gear seria desmontar pra entender a estrutura. E, depois disso, achei que sem dúvida tentariam construir por conta própria.
Por isso, pedi pro Orba-san espalhar uma grande quantidade (bom, "grande" no sentido de equivaler ao usado numa unidade de Frame Gear) de oricalco no mercado. Claro, fui eu quem colocou pra achar comprador. Claro, não usei o comércio do próprio Orba-san, e sim uma casa comercial falsa, criada pra isso.
Metal raro tipo oricalco não circula assim tão fácil. E, ainda por cima, comprar sai bem caro. Espalhei o boato de que existia alguém querendo vender oricalco, e, se aparecesse alguém querendo comprar, mas em pouca quantidade, recusava com alguma desculpa qualquer.
Normalmente, a maioria busca a quantidade de uma espada só. Oricalco é raro e difícil de processar. Se vendido barato, tudo bem, mas, mesmo com preço acima do de mercado, não existe cliente que queira quanto mais melhor.
Esse cliente que não deveria existir apareceu. Dizendo "mesmo caro, venda tudo que tiver". Suspeito ao extremo.
— O destino da venda foi a Oficina Rao. Investiguei, mas essa oficina não existe. O oricalco foi enviado direto pra Felsen, e, a partir daí, não deu pra rastrear…
— Por que isso?
— Aquele país não tem guilda de comerciantes. O comércio lá é todo controlado pela Corporação Magi-Técnica.
Corporação Magi-Técnica. Uma guilda gigante que controla mago, artesão, comerciante — tudo — em Felsen. Diferente da guilda de comerciantes, é uma corporação restrita ao interior de Felsen, então nem o Orba-san conseguiu intervir.
— Quer dizer que não dá pra saber quem é o comprador do oricalco…
Dado que se apresentaram como uma oficina inexistente, isso já é praticamente prova incriminatória. Já que compraram aquilo, deve ser um lugar com bastante recurso financeiro… Pensando grande, seria o próprio Reino de Felsen; pensando pequeno, algum indivíduo rico… De qualquer forma, com certeza é gente sem escrúpulo.
Aliás, aquele oricalco só tinha a superfície verdadeira; por dentro, era sucata de ferro ajustada pra ter o mesmo peso com [Gravity]. Banhado em oricalco, em vez de ouro? E, ainda por cima, dentro da sucata de ferro, coloquei joias de valor equivalente ao preço do oricalco.
Isso não passa de pura maldade minha, mas também não podia entregar oricalco de verdade pra ladrão, e enganar pra tirar dinheiro também parecia meio errado, então cheguei a essa solução no fim. Mas, pensando bem, esses caras já roubaram peças de Frame Gear de mim, então nem precisava colocar as joias.
Será que isso é iniciativa liderada pelo Reino de Felsen, ou ação de alguma organização particular. Isso me deixa curioso. Mais do que isso, esse é o país que mais recebeu refugiados de Eurono, hein.
— O Reino de Felsen é famoso também por pesquisa de magia e artefatos mágicos. No Leste, dizem: "Magia em Felsen, espada em Lestia".

Pensando bem, quando as peças foram roubadas, usaram uma magia estranha de bloqueio visual. Será que isso também é tecnologia de Felsen?
País com tecnologia mágica superior. Duvido que tenham capacidade de construir Frame Gear, mas…
Bom, nesse estágio, não dá pra dizer que o Reino de Felsen em si é culpado. Mas, com certeza, existe alguém, ou alguma organização, dentro de Felsen, responsável por furtar as peças de Frame Gear.
— Orba-san, se perceber algum movimento estranho em Felsen, me avisa, por favor. Vou recompensar de alguma forma.
— Não, não, imagina. Já ganho tanto assim, receber mais que isso seria demais.
— Sério? Na verdade, tenho uma garrafa térmica capaz de manter bebida quente ou gelada por muito tempo, sabia?
— Adoraria ouvir os detalhes!
Tirei do [Storage] a garrafa térmica que criei. Fazer vácuo dentro de um recipiente duplo não é difícil pra quem consegue usar magia de Vento. Bom, imagino que a performance seja inferior à das garrafas térmicas da Terra.
Fui desenhando no chão e explicando a estrutura. Sem perceber, o velho Naitō também tava olhando o desenho, ouvindo a explicação. Só a Alma parecia entediada, então mandei ela na frente pra Yumina com [Gate].
Entreguei ao Orba-san algumas garrafas térmicas, grandes e pequenas, como amostra, e também uma cortada ao meio pra entender a estrutura. Nessa hora, percebendo que o velho Naitō parecia querer uma também, dei a minha pra ele.
Pensando bem, o velho Naitō sai bastante em campo, então uma garrafa dessas deve fazer falta pra ele. Fico com a consciência pesada por não ter percebido antes.
Depois, teletransportei com [Gate] o material metálico carregado nas carroças do Orba-san até a "Oficina" de Babylon, e me despedi dos dois. O Orba-san vai passar na filial da própria loja em Brunhild. O velho Naitō também tem inspeção de obra pra fazer.
Ao teletransportar de volta pro castelo com [Gate], reconheci um rosto conhecido na cidade e chamei.
— E aí. Vocês tão bem?
— Hã? A-Vossa Majestade!?
O menino Rop deixou a lança cair, virando-se surpreso. Reagindo a isso, os outros três companheiros também arregalaram os olhos ao me ver. A única sem reação foi o rato branco sentado na cabeça da garota distraída. Ela tentou se ajoelhar, e freei apressado.
Grupo de quatro aventureiros novatos daquele incidente do navio de escravos: Rop, Fran, Claus e Ion. O rato branco na cabeça da Ion também é minha fera invocada.
— Aquele aí, tá sendo útil?
— Sim! O Snow detecta a aproximação de feras mágicas, e até armadilha ele consegue perceber e avisar!
— Que bom. Bom trabalho, hein.
Em cima da cabeça da maga Ion, o rato branco balançava os bigodes. …Ué, será que ele coçou a cabeça meio encabulado agora mesmo? Esse rato realmente parece bem esperto…
Recebeu o nome de Snow, hein. Deve ser referência da espécie, Rato da Neve.
— Graças a ele, na exploração de ontem, subimos pra rank Roxo!
A garota espadachim, Fran, relatou animada. Ah, que rápido, hein. Quer dizer que já se formaram de iniciantes.
No caso de explorar masmorra, como não é missão oficial, basicamente não acumula pontos de promoção. Mas, se contribuírem com atualização de dados do mapa — porta secreta, fera mágica nova, descoberta de escada pro andar debaixo — os pontos se acumulam.
O rank da carteira de aventureiro sobe de Preto → Roxo → Verde → Azul → Vermelho → Prata → Ouro. Normalmente, de Preto pra Roxo, com tempo, todo mundo sobe, então não é tão difícil.
— O Snow encontrou uma passagem secreta. E, no fim dela, tinha um baú de tesouro, e achamos isso entre várias coisas.
Dizendo isso, a Fran me mostrou uma espada de mithril. Antiga, mas com boa aparência. Parece ter bastante valor…
— O que vocês pretendem fazer com isso?
— Conversamos entre nós, e, já que apareceu, pensei em equipar e usar eu mesma…
— É melhor vender.
— Hã?
Expliquei pros quatro, olhando surpresos. Mesmo tendo subido de Preto pra Roxo, ainda são aventureiros jovens e iniciantes. Um novato desses andando por aí com uma espada de mithril, que valeria uma fortuna se vendida — imagina se tiverem por perto alguns aventureiros de meia-tigela desesperados por dinheiro, o que será que fazem?
— Entendi…
— Mais do que roubado, pode até ser atacado. Melhor evitar chamar atenção.
Alerto isso por experiência própria. Se chamar atenção mas conseguir se defender, não teria problema, mas duvido que eles ainda tenham essa capacidade.
— Hmm, mas eu tava gostando dessa espada…
— Mas o risco é grande demais pra nós. É melhor evitar perigo.
— É verdade, mas…
Diante da fala do arqueiro Claus, a Fran fez bico. Ela mesma deve saber que ele tem razão.
— Não seria melhor vender e renovar o equipamento de todo mundo com o dinheiro? Tá todo mundo bem gasto, né?
— …Verdade. E também me sentia meio mal em ficar só eu com espada nova, já que todo mundo encontrou junto. Vou vender.
Diante das minhas palavras, a Fran hesitou por um instante, mas, no fim, aceitou.
— Certo, então eu compro essa espada. Vou pagar um pouco acima do mercado. É um presente de promoção.
Dizendo isso, ia tirar umas vinte moedas de ouro, mas parei pra pensar se seria certo dar tanto dinheiro assim pra esses garotos.
Se der de repente uma fortuna assim, e algum aventureiro de meia-tigela atacar por causa disso, não resolve nada. Pensando em dar 2 milhões de ienes pra crianças de treze anos, hesito um pouco.
— …Ou melhor, em vez de comprar com dinheiro, que tal eu trocar a espada de mithril por equipamento novo pra vocês quatro? O que acham?
— "SÉRIO MESMO!?"
Ei, ei, ficaram animados na hora. Fico com um pouco de peso na consciência. Sinto que tô meio que tirando a espada de mithril desses garotos.
Bom, preciso fazer um trabalho digno de 20 moedas de ouro, então.
Peguei emprestado o quintal da "Lua de Prata", tirei material do [Storage] e comecei a moldar com [Modeling].
Pro Rop, armadura e lança; pra Fran, armadura leve e espada; pro Claus, armadura de couro e arco; pra Ion, cajado e manto.
Como não posso usar material tipo mithril, é metal comum. Só que a armadura fica bem leve, ajustada com [Gravity]. Visualmente, parece uma armadura comum. Se equipado, dá pra sentir a diferença, mas duvido que alguém use armadura alheia, então não vão perceber.
A espada e a lança também têm a lâmina levemente revestida de material de cristal. Isso melhora o corte e ainda alivia o peso.
No arco do Claus, encantei a flecha com um leve [Accel]. Deve dar pra disparar flecha mais poderosa que antes, com a mesma força de sempre. A corda também é feita de fios de material de cristal entrelaçados. A armadura de couro tem escama de dragão entre a camada externa e interna. Visualmente, parece armadura de couro comum.
No cajado da Ion, encravei uma pedra mágica vermelha e amarela na ponta. É porque os atributos dela são Fogo e Luz, mas, na verdade, isso é material de cristal disfarçado de vermelho e amarelo. Com isso, dá pra disparar magia de grande poder com pouca energia mágica. O manto também é tecido de pano comum entrelaçado com fio de material de cristal. Isso também não dá pra perceber visualmente.
Assim, ficou pronto um equipamento de aparência discreta. Como o resultado ficou meio sem graça, os quatro, visivelmente decepcionados, receberam minha explicação, e, surpresos, foram conferindo, cada um, o próprio equipamento.
— Aviso, é melhor não contar pros outros aventureiros. Afinal, é equipamento único no mundo. Se algum dia forem vender, é melhor levar pra Casa Comercial Strand, do Orba-san.
Com certeza vende por mais de 20 moedas de ouro. A capacidade de avaliação daquela loja é confiável.
Diante dos quatro me agradecendo, dispensei o gesto, e, de quebra, dei de presente carne de dragão pros quatro. O sino ecoou da torre do relógio na praça central. Bem na hora do meio-dia.
Entreguei a carne pra Mika-san, da "Lua de Prata", e pedi pra preparar uma refeição pros quatro, e me despedi do local.
Vou voltar pro castelo também e almoçar.