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Isekai wa Smartphone to Tomo ni – Capítulo 226

Farne, e o Grande Idiota

Capítulo 226 – Farne, e o Grande Idiota

— No fim das contas, a Sakura é realmente a mesma pessoa que essa Farnese Forneus?

— Sem dúvida nenhuma. Esta pessoa é Vossa Excelência Farne. Eu, que sou escolta dela desde pequena, jamais me enganaria.

Sentada diante de mim, numa cadeira do salão do castelo, a Spica-san afirmou isso com firmeza. Difícil de se enganar, ela diz, mas ela mesma não percebeu nada até agora mesmo.

— Isso é por causa desse "Olho da Transformação". É um artefato que distorce a percepção de pessoas específicas, disfarçando a existência real. O alvo configurado deve ter sido "demônio". Provavelmente, pra outros demônios também, a Vossa Excelência Farne aparecia com cabelo preto.

Dizendo isso, ela olhou pra medalha em cima da mesa, que a Sakura carregava.

Entendi. Por causa disso, pros demônios, ela aparecia com rosto e cabelo diferentes. Mas pra nós parecia normal.

— E a Sakura? O nome Farnese te lembra alguma coisa?

A Sakura, sentada ao meu lado, balançou a cabeça de leve, negando.

— Nada. Nem da Spica, nem de nada antes de chegar neste país, não consigo lembrar. Garanto.

— Que pena… não, devo pensar que já é sorte estar viva mesmo.

A Spica-san ficou desanimada. Hmm, quanto a isso, não tem muito o que fazer mesmo.

Aliás, agora há pouco, a Spica-san mencionou que sempre serviu de escolta da Farne… ué?

— Espera aí. Se não me engano, a família Frennel da Spica-san serve de escolta da família real de Zenoas há gerações, né? Quer dizer que a Farnese, ou seja, a Sakura, é uma princesa de Zenoas?

O rosto da Spica-san mostrou uma expressão de "ops", e o olhar dela vagou. Será que perguntei algo que não devia? Será algo que ela queria esconder?

Depois de um tempo, ela soltou um suspiro profundo e começou a falar comigo.

— …É isso mesmo. Eu já não sou mais gente de Zenoas, e, sendo esse o caso, acho que não tem problema contar. De fato, Vossa Excelência Farne é filha ilegítima do Rei Demônio, Zelgadi von Zenoas.

Ainda sem entender bem que se trata dela mesma, a Sakura continuava me olhando, inclinando a cabeça.

— Filha ilegítima quer dizer filho fora do casamento oficial, né. Mas por que precisaria esconder isso?

Achei que não teria problema, sendo filha de concubina. Ah, não, se fosse filho gerado com outra mulher, sem nem ser concubina, escondido da esposa oficial, aí sim precisaria esconder? Se a esposa for terrivelmente assustadora, seria possível.

— A existência de Vossa Excelência Farne é conhecida por muito poucas pessoas. Isso porque ela não possuía os chifres, símbolo da linhagem do Rei Demônio, e por isso a existência dela foi apagada.

— Chifres?

— Originalmente, todos que carregam o sangue do Rei Demônio, seja homem ou mulher, nascem com chifres. Mas Vossa Excelência Farne não tinha isso. Mesmo sendo, sem dúvida nenhuma, filha do Rei Demônio pela qualidade da energia mágica, ela era uma criança maldita, sem a marca da linhagem real demônio. A existência de Vossa Excelência Farne foi apagada dos registros da família real, tratada como se nunca tivesse existido.

Que isso!? Tenha ou não chifre, sendo filha própria dele. "Apagar a existência", isso não é cruel demais!?

Vendo minha cara franzida, a Spica-san, percebendo, se apressou em explicar melhor.

— Sua Majestade o Rei Demônio julgou que seria melhor assim, tanto pra Vossa Excelência Farne quanto pra mãe dela, Fiana-sama. Um membro da família real demônio sem chifre só seria alvo de desprezo… Ele deve ter pensado que seria mais feliz viver como humano comum do que receber olhares de estranhamento.

— Humano? A mãe da Sakura… quer dizer, da Farne, é humana?

— Sim. Originalmente, filhos gerados com a linhagem do Rei Demônio nascem membros da família demônio, não importa a raça do parceiro. Por isso, sem chifres, Vossa Excelência Farne foi julgada como sendo simplesmente humana, igual à mãe. Provavelmente, por alguma mutação, o sangue materno se manifestou com mais força. Mas…

A Spica-san olhou de relance pra Sakura e hesitou em continuar. Deve ter acontecido algo depois disso.

Segundo a Spica-san, a mãe da Sakura recusou virar concubina. Porque, se virasse concubina, teria que se separar da filha.

Depois disso, por alguns anos, mãe e filha viveram, oficialmente, como convidadas da família Frennel. Dizem que foi uma vida tranquila, sem incidentes.

Mas, quando a Sakura tinha 10 anos, algo mudou. Chifres reais, que não deveriam existir, começaram a crescer. Isso deixou tanto a família Frennel quanto o Rei Demônio surpresos e confusos. Porque, conforme os chifres reais cresciam, a energia mágica dela também ia aumentando.

Na família real de Zenoas, dizem que, independente de gênero, quem tiver a maior energia mágica se torna o próximo Rei Demônio. E a Sakura acabou tendo energia mágica muito mais alta que a dos príncipes.

A mãe da Sakura não tinha intenção nenhuma de fazer a filha herdeira do trono demônio, mas os nobres não pensavam da mesma forma. Especialmente as famílias das mães dos príncipes, rainhas do Rei Demônio, com certeza teriam olhado com desconfiança.

Não seria ela quem pretendia usurpar o trono demônio, deixando de lado os próprios príncipes?

O primeiro e o segundo príncipe já tinham perdido, cada um, a própria mãe por doença, então as famílias dessas mães exerciam grande influência como pano de fundo dos príncipes.

Pra essas pessoas, a existência da Sakura só era um estorvo.

Pra proteger a filha, o Rei Demônio entregou aquele tal "Olho da Transformação". Um artefato que absorve energia mágica e mostra uma aparência falsa às pessoas ao redor. Quando a Sakura crescesse, ela mesma conseguiria retrair os chifres por vontade própria, então isso era só uma medida temporária até lá.

Só que, um dia, a Sakura e a Spica-san saíram pra fazer compras juntas, e foram atacadas de repente por assaltantes mascarados.

Os adversários eram lutadores habilidosos e armados, e a Spica-san tinha espada, mas não escudo. De algum jeito, ela conseguiu servir de escudo com o próprio corpo e deixou a Sakura fugir, mas, logo depois, foi pega na explosão suicida dos mascarados e perdeu a consciência.

— Esses assaltantes mascarados, eram…

— Descobri depois que eram assassinos de Eurono. Se foi ordem de Eurono, ou algum tipo de negociação por trás, não sei dizer.

Como imaginava. Pensando bem, no meu caso, foi a Sakura quem me salvou. Será que aquilo foi um resgaste de memória do momento em que ela mesma foi atacada. Se for assim, talvez toda a memória da Sakura volte um dia.

— Depois disso, quando recuperei a consciência, estava numa cama na mansão, e meu pai me contou da morte de Vossa Excelência Farne. Parte do corpo dela tinha sido jogada no jardim da mansão. Nunca consigo esquecer o desespero que senti ao ver aquela perna e braço direitos.

Depois disso, carregando o remorso de não ter conseguido proteger quem devia, a Spica-san deixou a casa. Oficialmente, a família Frennel não teve culpa alguma nisso. Afinal, sendo a princesa de um reino demônio oficialmente inexistente, a morte dela não manchava o nome da família de forma nenhuma.

Mas a Spica-san não conseguia se perdoar. Acima de tudo, não conseguia perdoar a si mesma. Por isso, saiu de casa.

Claro, ela seguiu o rastro dos que mataram a própria senhora. Não demorou muito pra descobrir que os mascarados eram assassinos de Eurono, mas, justo quando ia chegar mais perto da verdade, aconteceu aquela grande invasão de Phrase.

Resultado, Eurono foi destruído, e o mandante ficou sem solução, num impasse. Enquanto ela se perguntava o que fazer daqui pra frente, como se fosse um golpe adicional, contraiu a Doença do Endurecimento Mágico e, buscando um lugar pra morrer, acabou chegando neste país.

— Hmm, ouvindo assim, de relance, ainda tenho algumas dúvidas.

— Como assim?

— Primeiro, quando eu recolhi a Sakura, morrendo aos poucos, com braço e perna decepados, foi em Ishen, não em Zenoas. Segundo, se o assassino era de Eurono, qual seria o motivo de Eurono querer matar a Sakura? Terceiro, a Sakura, no início, não tinha chifre nenhum…

— Ahn, sabe, moço rei. Eu consigo mostrar o chifre.

— Hã?

A Sakura, sentada ao meu lado, abriu a boca meio sem jeito, hesitante.

A Sakura fechou os olhos. Então, perto da orelha dela, pequenos chifres branco-prateados começaram a crescer. Isso deve ser o tal chifre real.

— Então estava escondendo os chifres mesmo.

Parece que a Spica-san, que já tinha determinado que a Sakura era a Farne, já sabia disso.

— Por que ficou quieta sobre isso?

— No começo… tive medo de ser diferente das outras pessoas. Depois, descobri que, neste país, demônio não sofre discriminação, mas não tinha motivo pra falar sobre isso…

— Foi por isso que ajudou a Spica-san, que estava desmaiada? Porque ela também é demônio?

A Sakura assentiu de leve. Ajudar uma paciente com Doença do Endurecimento Mágico, que talvez a contagiasse também… ah, mas, naquela hora, a Sakura não teve contato direto. Foi um funcionário quem carregou ela até a "Lua de Prata".

Chegando a esse ponto, já não tem mais dúvida. Como a Spica-san diz, a Sakura é sem dúvida Farnese Forneus, do Reino do Rei Demônio Zenoas.

— Se for assim, Sakura… ou melhor, Farne, o que você quer fazer daqui pra frente?

— Pode ser Sakura mesmo. É o nome que o moço rei me deu. Gosto dele.

Se ela diz isso, tudo bem chamar de Sakura mesmo. Talvez seja melhor assim, enquanto ela estiver em nosso país.

— Como ainda não recuperei a memória, não sinto muita realidade nisso. Não sinto vontade de voltar pra Zenoas, nem de me vingar de quem tentou me matar. Só que…

— Só que?

— Minha mãe… eu queria ver.

Olhando fixo pra mim, a Sakura disse isso.

— E o pai, o Rei Demônio?

— Não entendo bem, e não me importa muito.

Sem contemplação nenhuma. Hmm, bom, pelo jeito da história, não parece ter tido muito contato mesmo. A Sakura, sem memória, também deve sentir a mesma coisa. Não parece pessoa tão má assim, mas…

— A mãe da Sakura, onde está agora?

— Provavelmente, ainda hospedada em nossa mansão. Depois da morte de Vossa Excelência Farne, o choque a deixou de cama…

Não tem como. Bom, preciso mostrar o rosto dela e mostrar que tá bem. Mesmo tendo perdido a memória…

— Se existisse magia pra recuperar memória, seria bom. [Recovery] não funcionou também. Se fôssemos até Zenoas, será que lembraria de algo do passado?

Talvez, andando pela capital onde nasceu e cresceu, algo desperte a memória. Ou encontrando a mãe.

Certo, então, uso [Recall] pra espiar a memória da Spica-san, e abro [Gate] direto pra família Frennel… espera… ah…

— AAAH!?

— Q-Que isso, moço rei…!?

— O-o que houve!?

Diante do meu grito, as duas se assustaram e olharam preocupadas na minha direção, mas eu nem tava prestando atenção nisso. Que absurdo…

— Que… que grande idiota eu sou…! Existe magia pra recuperar memória, ué! Já usei ela um monte de vezes! Que idiotice!!

BAM! Bati a cabeça na mesa. Quero morrer. Que idiotice, quero morrer. Sou um grande idiota irrecuperável.

Magia de recolhimento de memória, [Recall]. Magia que lê a memória do outro e a incorpora à própria memória. Com isso, mesmo em lugares onde nunca fui, consigo pegar a memória de alguém e abrir [Gate].

E, ao mesmo tempo, essa magia também é capaz de fazer o outro se lembrar de detalhes que ele mesmo tinha esquecido.

Por exemplo, se me perguntarem o que comi há uma semana, dificilmente lembraria na hora. Usando essa magia, ao espiar essa memória, consigo fazer o próprio dono da memória perceber isso também.

Afinal, "Recall" significa, além de "recolher", também "lembrar". Já nem tenho palavras de tão idiota que fui. Me batam. Até quebrar os dentes.

— …Desculpa. Sakura, sinto muito mesmo.

— Não tem problema. Não me incomodo.

Não, mas mesmo que você não se incomode… Tô cheio de remorso. Haaa…

Queria me enfiar num buraco…

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