Capítulo 227 – A Memória e o Reencontro com a Mãe
Estão perseguindo. Um homem (ou mulher, não dá pra saber) de roupa preta e máscara, brandindo a espada curva na cintura, cortou minhas costas de um golpe só.
Caí com o impacto nas costas, mas, tentando fugir de qualquer jeito, tentei me levantar, e dessa vez cortaram minha perna direita, de lado. Do joelho pra baixo, caiu fora. Tentando bloquear inconscientemente o golpe de espada que vinha de novo, meu pulso direito caiu junto.
Vou morrer. Vou ser morta. Não quero. Não quero morrer. Preciso fugir. Longe, longe o bastante pra eles não conseguirem me alcançar. Se não quero morrer, preciso fugir.
Nesse pensamento, a Sakura murmurou de repente, sem pensar, a palavra que veio à mente.
— Tele… porte.
No instante seguinte, a Sakura foi arremessada dentro d'água. Sem entender o que aconteceu, ela se debatia, mexendo braços e pernas, mas não conseguia fazer nada. O corpo não resistia à correnteza, e, sem conseguir respirar, entre dor e sofrimento, a consciência da Sakura se apagou de vez.
Segurando as duas mãos da Sakura, testa contra testa, percorrendo a memória dela com [Recall], abri os olhos.
— Entendi. Então era isso.
— …Lembrei. Eu sou… Farnese… Farnese Forneus. Naquele dia, junto com a Spica, fui atacada, e eu…
Como se conferisse a própria memória, a Sakura foi encadeando as palavras.
Já entendi o motivo de a Sakura estar em Ishen. Provavelmente, por causa do medo daquele ataque, despertou inconscientemente uma magia nula. "Teleporte", literalmente, deve ser magia de teletransporte. Com isso, se teletransportou pra Ishen e caiu no rio. Os chifres devem ter desaparecido temporariamente pelo esgotamento de energia mágica.
— A… memória, voltou?
Timidamente, a Spica-san falou com a Sakura.
— Ainda tá vago, mas… entendo. Lembro da Spica, da minha mãe. Lembrei. Várias coisas.
— Vossa Excelência Farne…!
A Spica-san chorava sem parar. A Sakura, vendo isso, sorriu de leve, mas, segurando a mão dela, percebi que ela tremia um pouco.
— Sakura… será que tá com medo?
— Um… um pouco… Não queria lembrar da parte de ser cortada.
Com o rosto meio pálido, ela sorriu meio sem jeito. Faz sentido mesmo. Ela reviveu com clareza a memória do momento em que quase foi morta. Mesmo sem amnésia, seria uma memória que a pessoa quereria esquecer.
— Tá tudo bem. Quem ousar machucar a Sakura, eu vou esmurrar, um atrás do outro. Não precisa mais ter medo.
Afagando a cabeça dela, falei isso pra tranquilizá-la. Talvez não seja um trauma fácil de apagar assim, mas quero dar um jeito de ajudar.
— Um… Se é o rei, fico tranquila…
Sorrindo, a Sakura se abraçou em mim, apertado.
Ah, ahn, Sakura? Se fizer esse tipo de coisa, sabe, a Spica-san, na minha frente, começa a fazer uma cara indescritível pra mim, então fico agradecido se puder se conter um pouco…
Ops! Sinto um olhar!
Virando de repente pra porta do quarto, na fresta um pouco aberta, oito rostos de garotas se alinhavam na vertical. Uiii! Que totem é esse!?
《A nona…?》
Minhas noivas murmuraram isso em uníssono. Ei, para com isso. Não me lancem esse olhar tipo "aah, sério" cansado assim!
— "Teleporte" é uma das magias mais difíceis de manejar entre as de teletransporte. Sinceramente, acho que [Gate] tem uso bem mais prático.
Enquanto bebia chá, a Leen explicava.
— Onde tá a dificuldade nisso?
— Primeiro, com [Gate], você visualiza o "lugar" de destino, mas, com "Teleporte", precisa entender "direção" e "distância" do movimento. Se tiver algum outro objeto no destino, não consegue se mover, e, basicamente, só o próprio praticante pode ser alvo. Se estiver de mãos dadas, dá pra mover junto, mas, no máximo, uns dois a mais, acho que é o limite.
— Então, quando a Sakura se teletransportou pra Ishen…
— A "direção" deve ter sido aleatória, e a "distância" deve ter sido até a energia mágica se esgotar. Ainda bem que não foi direto em cima do mar, ou algo assim.
Ah, entendi. Existia essa possibilidade também. Mar, cratera de vulcão, pântano sem fundo — tem vários lugares perigosos. Se não souber com precisão a distância e direção, existe o risco de acabar caindo num lugar desses.
— Ao contrário, se for pra um ponto visível a olho, "Teleporte" talvez seja mais prático até. Diferente de [Gate], não precisa atravessar nada, então se move num instante. Talvez sirva bem como ataque de surpresa, ou meio de combate?
Entendi. É "teletransporte instantâneo", afinal. Ou melhor, esse deve ser o uso original mesmo.
Vou testar um pouco.
— Teleporte.
Me teletransportei da cadeira até o canto do quarto. Ooh, o campo de visão muda de repente, é bem estranho. Deve dar trabalho se acostumar pra usar em combate. O corpo não sente carga nenhuma em especial. Se for assim, dá até pra usar em sequência.
— …Como sempre, absurdo total, esse nosso marido. Já me acostumei, mas.
A Leen soltou um suspiro diante de mim, que me teletransportei com tanta naturalidade. Bom, também já me acostumei com esse tipo de reação de vocês.
— Sa-Sakura… ou melhor, Farne-san, consegue usar isso? "Teleporte"?
— Pode ser Sakura mesmo. Ainda não sei manejar energia mágica direito, então acho que não consigo agora.
A Sakura respondeu à pergunta da Lindsey. Ah, é verdade, a Sakura nem sabe como usar magia direito. Parece que, na hora do ataque, foi tudo desespero e conseguiu ativar sem perceber. Uma ativação acidental que, no fim, salvou a própria vida. Mas, com um pouco de treino, acho que ela consegue usar logo.
— Magia nula, logo depois de despertar, é difícil de sentir o jeito certo. Às vezes, ativa com toda a concentração e falha, e, às vezes, ativa sem querer e dá certo. Com o tempo, você vai pegando o jeito.
A Elsie, comendo biscoito, entrou na conversa. Parece que ela também teve trabalho até dominar bem o [Boost].
— E aí, o que vai fazer? A Sakura-san vai voltar pra Zenoas?
A Lu foi direto ao ponto. É isso mesmo. No fim, depende do sentimento da própria Sakura, mas, mesmo sendo filha ilegítima, ela é princesa de Zenoas. E, ainda por cima, será que é herdeira do trono também? Mesmo ficando quieta, acho que dá pra ficar aqui sem ninguém descobrir.
De qualquer forma, acho melhor ir visitar a mãe dela.
— …Prefiro morar neste país do que voltar pra Zenoas. Se possível, junto com minha mãe e a Spica.
— E-eu também gostaria de continuar trabalhando como cavaleira neste país, junto com Vossa Excelência Farne! De qualquer forma, meu irmão herda nossa casa, então não tem problema nenhum!
Diante da fala da Sakura, a Spica-san se levantou, expressando a própria vontade.
Mesmo assim, preciso agir direito. No mínimo, preciso explicar aos pais da Spica-san. E o Rei Demônio… como será? Se ele não é casado com a mãe da Sakura, talvez não precise de permissão nenhuma pra levá-la embora.
E também fica aquele caso do assassino de Eurono, incomodando.
Provavelmente, mas… Eurono deve ter negociado com alguém. O conteúdo dessa negociação sendo o assassinato da Sakura. Em troca, algo teria sido entregue a Eurono. Se foi dinheiro ou informação, não sei. Senão, não faz sentido Eurono se envolver. Só que Zenoas, originalmente, não deveria negociar com outros países. Afinal, é praticamente um estado fechado.
Se for assim, quem tentou matar a Sakura deve ser, com quase certeza, alguém de Zenoas mesmo, e de posição bem alta.
Os mais suspeitos são o primeiro e o segundo príncipe, já que, se a Sakura for reconhecida como princesa de Zenoas, o trono do Rei Demônio se afasta deles…
— A Sakura não tem intenção nenhuma de herdar o trono, né?
— Nenhuma. Nem que o céu vire o chão.
Se deixar isso bem claro, será que param de mirar nela? Não, pelo contrário, será que fica mais perigoso ainda. Talvez seja mais seguro deixar como está, dando ela por morta. É possível que os príncipes nem saibam de nada, e os próprios assessores tenham agido por conta própria.
— De qualquer jeito, precisa ir uma vez até Zenoas… ou melhor, até onde tá a mãe da Sakura. Ou seja, até a família Frennel, da Spica-san.
— Isso mesmo. Acho melhor consultar primeiro a Fiana-sama sobre o que fazer daqui pra frente.
Já que a Spica-san também disse isso, vamos logo visitar a mãe da Sakura.
Os membros são eu, a Sakura, a Spica-san, e, como contato, o Kohaku vem junto.
Peguei da Spica-san a memória da casa dela, na capital de Zenoas, e abri [Gate].
Primeiro, a Spica-san atravessou o [Gate], e, em seguida, eu, a Sakura e o Kohaku nos teletransportamos juntos.
Ao atravessar [Gate], estávamos no saguão de entrada da mansão — a casa da Spica-san, a família Frennel. Como poderia ser problemático se a Sakura fosse vista, teletransportamos direto pro interior da mansão.
No topo da escada principal, coberta por tapete vermelho, havia um grande quadro pendurado. Um homem e uma mulher, entre eles, três meninos, e uma menina sentada numa cadeira. Deve ser um retrato de família. Se for assim, essa menina deve ser a Spica-san. De fato, dá pra ver traços parecidos.
— Que saudade… Lembrei. Eu morava aqui.
A Sakura murmurou baixinho. As memórias estão ficando cada vez mais claras. Parece que estão voltando com nitidez.
De repente, a Sakura, que olhava ao redor, saiu correndo com tudo pelo corredor, pra direita.
— Ah, Vossa Excelência Farne!?
A Spica-san saiu correndo apressada atrás dela. Eu e o Kohaku, sem entender bem, saímos correndo do mesmo jeito.
Uma criada jovem, que passava carregando cesto de roupa lavada, ficou parada, boquiaberta, vendo a gente correr pelo corredor.
— Vo-Vossa Excelência Farne!? E-e a senhorita!? Ué!? Ééé!?
Ignorando a criada surpresa, a Sakura parou diante de um quarto e abriu a porta com toda força.
Alcançando ela, espiei o interior por trás do ombro da Sakura, e, diante de uma cortina branca com luz suave entrando, sobre uma cama grande, uma mulher estava sentada, olhando na nossa direção. Idade em torno de 30 anos. Cabelo branco puro e rosto pálido davam uma impressão frágil. Provavelmente, essa pessoa é…
— Farne…?
— Mãe… mãe!
A Sakura correu direto até a mãe e se jogou no peito dela. Chorando desesperadamente, se abraçou na mãe.
— Não pode ser… você é mesmo a Farne? Viva… realmente viva…!
— Mãe…!
— Fiana-sama. Esta pessoa é mesmo Vossa Excelência Farne. Ela estava viva. Foi salva pelo Príncipe de Brunhild aqui presente.
Ouvindo a voz da Spica-san, convencida de que a filha tinha realmente voltado, a mãe também abraçou a filha, chorando.
A filha, que ela achava morta, voltou. A alegria dela deve ser incomensurável. Atrapalhar seria ruim, né. Decidimos observar as duas por um tempo, em silêncio.
— E aí, quem é você?
Acabei sendo observado com desconfiança pela criada, como uma pessoa suspeita. Que situação, hein.