Capítulo 230 – O Mandante e a Escola
Atravessando um beco escuro, um homem sozinho chegou até aquele lugar. Um canto de um distrito de armazéns abandonados, localizado no distrito comercial de Zenoscal, capital do Reino do Rei Demônio Zenoas.
Esse armazém, antes pertencia a uma das grandes casas comerciais, mas, desde que a casa se desfez dele, ficou abandonado. Está bastante danificado em vários pontos, e, como custaria caro reformar, ninguém quer comprar.
Nesse armazém que ninguém frequenta, um homem envolto num manto preto com capuz forçou a porta pesada e entrou.
No teto do armazém vazio, sem nada dentro, havia um buraco grande, e a luz da lua entrava por ali.
Sob a luz do luar, o homem encontrou quem estava procurando.
Um homem de roupa preta e máscara.
— Como assim? O trato era não nos vermos mais depois de terminar o serviço. Ou será que, já que Eurono acabou daquele jeito, quer ser contratado de novo?
— …Não tem mais alguém incômodo, tem?
Ouvindo a voz abafada do homem mascarado, o homem baixinho e gorducho que chegou tirou o capuz, sorrindo com um ar debochado. Rosto pálido, oleoso, de um homem passado dos trinta, da raça Mephisto, brilhava reluzente.
— …Ora. Fico grato se vocês eliminarem o primeiro príncipe pra mim, mas qual seria a recompensa? Contrabando de armas de novo, como da última vez?
Diante da fala do homem gorducho, uma terceira voz surgiu de trás dele.
— …Entendi. Então é esse o conteúdo do trato. Você contrabandeia armas de Zenoas pra Eurono, e, em troca, contratou aqueles de roupa preta e máscara.
Diante da voz que ecoou dentro do armazém, o homem gorducho, chocado, virou pra trás. E, ao ver a pessoa que estava ali — alguém que não deveria estar ali —, arregalou ainda mais os olhos.
— Vo-Vossa Majestade, o Rei Demônio!?
A figura parada na entrada do armazém era, de fato, o Rei Demônio deste país, Zelgadi von Zenoas.
Nesse momento, também desativei [Mirage] e voltei da roupa preta e máscara à minha aparência original.
— Vo-você…!?
— Desculpa, mas te enganei mesmo. Deixa eu ver, você… era Cerebrus Arnos, né? Parece que seu pai não sabe de nada disso. Mesmo vendo a máscara e a carta, ele só ficou confuso, sem entender nada.
Isso mesmo. No fim, mandamos, escondido nos quartos particulares de cada um dos suspeitos, uma máscara e uma carta com o conteúdo "tenho um assunto a tratar sobre o serviço anterior", indicando o endereço deste lugar. Claro, com camundongos que invoquei de vigia.
A maioria ficou confusa, sem entender nada, ou espalhou raiva pela casa achando que era pegadinha de alguém. Entre eles, quem se comportou de forma mais suspeita foi esse homem, Cerebrus Arnos.
Só ele, depois de ler a carta, escondeu a máscara na gaveta da mesa sem ninguém perceber e guardou a carta apressado no bolso.
Esse homem é filho herdeiro da família Arnos, a casa comercial da família materna do segundo príncipe, Fares — ou seja, irmão da segunda esposa, tio de Fares. Futuro chefe da Corporação Arnos.
— Então você é o culpado. Deve ser uma decepção e tanto pro seu pai, chefe da Corporação Arnos.
— N-não é isso, Vossa Majestade! Eu jamais mataria a princesa!
— Ora? Eu não disse "matar" em momento nenhum. E por que você sabe da Farnese?
Cerebrus ficou paralisado, como se o corpo inteiro tivesse congelado. Se entregou sozinho, hein. Só uma pequena parcela de pessoas sabe da existência da Sakura, e, sem saber disso, não teria como ter ouvido a informação de que ela foi "morta".
De fato, se o segundo príncipe se tornar Rei Demônio, o Cerebrus viraria tio do Rei Demônio. Essa posição pode dar poder político suficiente pra influenciar até assuntos de governo, além do próprio negócio. Deve ter sido esse o objetivo, mas…
Dentro do armazém, a tropa liderada pelo Sirius-san, capitão da guarda real, invadiu em massa. Chegou a hora de pagar pelos crimes.
— Prendam ele. Originalmente, seria pra despedaçá-lo aqui mesmo, mas ainda tenho perguntas a fazer.
— Sim! Amarrem ele!
Por ordem do Sirius-san, o Cerebrus, atônito, foi amarrado sem oferecer resistência. Os soldados o conduziram pra fora.
— Bom, com isso o caso tá resolvido, né?
— Não me faça rir, Príncipe de Brunhild. Agora que começa de verdade. Primeiro, pra tornar decisiva a culpa dele, precisamos anunciar publicamente a existência da Farnese. Só que a Fiana não permite que a Farnese vire Rei Demônio. Se for assim, junto com o anúncio, precisamos separá-la da família real.
— Ahn, isso quer dizer que…
— Anúncio de noivado entre Vossa Majestade e Farnese-sama.
O Sirius-san cortou direto ao ponto. Pois é, né. Já sabia que ia dar nisso.
Nessa situação, evitar isso é impossível…
▶︎ O Touya fugiu!
▶︎ Mas não dá pra fugir do Rei Demônio!
Esse era exatamente meu estado de espírito.
— Ahn, é que, sabe, já tenho noivas…
— Nu…? Bom, não é nada estranho. Eu também tive duas. Sendo rei, ter uma ou duas esposas…
— Tenho oito.
— OITOOO!?
O Rei Demônio, surpreso, na hora, os olhos se firmaram. Segurando meu ombro com força, sorriu de um jeito forçado e falou comigo. Que medo é isso?
— Príncipe. Vamos conversar um pouquinho mais a fundo sobre isso, hein? Vai acabar antes de amanhecer. Já que teremos uma relação longa daqui pra frente, que tal um drinque enquanto conversamos?
Tentei fugir dizendo que ainda era menor de idade, mas, aqui, varia de país pra país, mas geralmente tratam 15 anos como maioridade. Mesmo sem beber, com certeza ele ia me prender numa conversa chata.
▶︎ O Touya fugiu de novo!
▶︎ Mas não dá pra fugir do Rei Demônio de jeito nenhum!
Uguu.
No fim, junto com o anúncio público da existência da Sakura, também anunciamos meu noivado com ela.
Por trás disso, o crime cometido pelo Cerebrus veio à tona, e, com isso, o chefe da família Arnos, avô do segundo príncipe, se aposentou; a casa passou a ser herdada pelo genro que se casou com a filha mais nova.
Originalmente, seria um crime grave o bastante pra punir a família inteira sem direito a reclamação, mas, sendo parente de sangue do segundo príncipe, e com o próprio segundo príncipe renunciando ao direito de sucessão do trono, houve redução de pena. Só o próprio Cerebrus vai desaparecer como orvalho na guilhotina.
O segundo príncipe originalmente não tinha muito interesse no trono do Rei Demônio, e talvez isso mesmo tenha alimentado a ansiedade do Cerebrus.
A mãe e filha, Fiana-san e Sakura, foram trazidas imediatamente pra Brunhild. Sinceramente, já não aguentava mais ficar preso lá, sendo perseguido pelo Rei Demônio. No fim, foi só bebedeira chata mesmo.
A Yumina e as outras aceitaram a Sakura com naturalidade, com uma expressão de alívio, de certa forma.
— Com isso, agora somos 9, então não deve aumentar mais que isso.
— Ainda bem que não entrou ninguém estranho, decerto.
— Será mesmo? Mesmo sendo 9 noivas, ainda pode surgir alguma posição tipo "amante"…
A Elsie, a Yae e a Leen cochichavam algo entre si, mas ignorei. Por favor, parem de plantar bandeiras estranhas assim.
O Reino do Rei Demônio Zenoas continua, como sempre, sem intenção de manter relação com outros países, mas parece que vai mandar pessoas pra Brunhild na forma de "envio de recursos humanos".
Comparado a outros países onde ainda existe discriminação contra demônios, no nosso país eles podem trabalhar com tranquilidade. O único receio é se o próprio Rei Demônio vai vir pessoalmente visitar a Sakura, aproveitando essa desculpa.
— Por ora, pretendo construir a escola aqui.
— Boa escolha. É perto da cidade, e parece um bom lugar pra ir e vir.
Eu tava guiando a Fiana-san até o terreno reservado pra construção da escola. Junto, o velho Naitou, responsável pela construção, e a Kōgyoku, como guarda-costas.
— Primeiro, vamos começar com um prédio pequeno, e ir ampliando aos poucos. Por enquanto, só a Fiana-sama como professora, então não dá pra receber muita gente, né?
— É verdade. Gostaria de começar com uns 20 alunos. Nessa quantidade, acho que consigo dar conta.
O velho Naitou foi ajustando os detalhes conforme o pedido da Fiana-san. Espero que isso aumente as opções de futuro pras crianças.
Mas, já que vou construir uma escola, quero resolver logo o assunto da outra escola também.
Escola de aventureiros. Uma escola onde aventureiros iniciantes aprendem técnica. Essa, sendo questão de vida ou morte, precisa ser resolvida com urgência ainda maior.
Já que estava perto, decidi passar na Guilda e conversar com a Mestra da Guilda, Relisha-san.
Me despedi da Fiana-san e fui em direção à Guilda. A Guilda continuava movimentada como sempre, e a exploração da masmorra parece avançar aos poucos. Guiado pela já familiar recepcionista fera-humana gata, entrei na sala da Mestra da Guilda.
Contei rapidamente a ideia que tinha em mente, e a Relisha-san ficou pensativa por um tempo, mas, depois, abriu a boca.
— Acho que não é má ideia. Ainda preciso pensar melhor no conteúdo das aulas, mas isso traz vários benefícios. Reduzir a morte inútil de iniciantes, e dar aos veteranos aposentados a chance de atuar de novo, por exemplo.
— E também, se quem se formar nessa escola tiver bom desempenho, vira propaganda também.
— É verdade. Não precisamos definir taxa de matrícula muito alta. O período de treinamento seria de meio ano a um ano, talvez.
Anotando no bloco de notas, a Relisha-san foi organizando as ideias. Parece que já tem um plano grandioso se formando na cabeça dela.
— E também, talvez seja melhor separar por idade. Tipo, 13 a 15 anos, 16 a 20, e acima de 20. A forma de ensinar deve mudar conforme a experiência de vida acumulada, né?
— Entendi. Faz sentido mesmo.
Assenti diante da fala da Relisha-san. Essa escola vai ser administrada, basicamente, pela própria Guilda. Só dei a ideia. Então, professores e instrutores devem ser providenciados pela própria Guilda.
Provavelmente, poucos vão querer virar aventureiro depois dos 20 anos, mas, por exemplo, alguém da Ordem de Cavaleiros que deixe o cargo pode virar aventureiro, não é impossível. Afinal, se der certo, aventureiro pode ganhar muito mais dinheiro de uma vez.
— Entendido. Vou propor essa ideia na próxima reunião de Mestres de Guilda.
— Por favor. Se precisar de alguma estrutura, é só falar com o Naitou aqui, que devemos providenciar.
Sentindo uma resposta satisfatória, sinceramente fico aliviado. Técnica básica de aventureiro, postura mental, cuidados a tomar, forma eficiente de lutar contra fera mágica — tem muita coisa pra aprender, afinal.
Normalmente, isso se aprende na prática mesmo, mas, pra aventureiro, um passo errado significa morte. Se conseguir aprender esse know-how com quem já tem experiência, isso vira uma arma poderosa.
— Aliás, Vossa Majestade, ouvi dizer que ficou noivo da princesa do Reino do Rei Demônio Zenoas.
— Ugh, como sempre, a informação corre rápido, hein…
Que decepção. Bom, pra Guilda, informação é praticamente questão de vida, afinal. Devem ter algum informante infiltrado em Zenoas também.
— Aliás, tenho um pequeno pedido a fazer.
— O que seria?
O que a Relisha-san disse foi que gostaria de estabelecer uma filial da Guilda de Aventureiros também em Zenoas. Pediu pra eu servir de ponte pra isso, mas, só de pensar que preciso encontrar aquele Rei Demônio de novo, já sinto um certo desânimo.
De fato, foi justamente por Zenoas não ter placa de detecção que acabei enfrentando o Gira sem preparo nenhum.
Nunca se sabe se Zenoas também não vai sofrer ataque de Phrase. Deve ser necessário mesmo.
No fim, aceitei o pedido da Relisha-san, e, dias depois, fui de novo até Zenoas.
Levei a Relisha-san e também a Sakura junto pra tratar do assunto da Guilda, e foi aceito com facilidade. Fácil demais.
Depois disso, o Rei Demônio ficou puxando assunto com a Sakura de vários jeitos, mas foi cortado com um "chato" na cara.
Vendo o Rei Demônio desanimado, sinto um leve receio quanto ao futuro, pensando em ter uma filha um dia. Pensar que aquilo pode ser meu próprio reflexo futuro, hein…
Aconselhei a Sakura a ser um pouco mais gentil com o Rei Demônio, e recebi de volta uma resposta tipo "o que mais eu deveria fazer além disso?".
Nu, ugh.