Capítulo 233 – O Dragão do Mar e o “Laboratório”
No sudoeste deste continente, indo pro oeste a partir da Grande Selva, dá pra ver uma ilha grande e alongada verticalmente, e, ao lado, duas ilhas de cerca de um terço do tamanho dela, alinhadas.
A ilha maior é Igurando. As menores são Marlet. As duas ilhas juntas formam o reino chamado Iguret.

O Reino de Iguret não tem recurso especialmente notável, mas dizem que é um país esplêndido, cercado de mar, com clima ameno e paisagem pitoresca.
Culturalmente, parece ser um interior meio atrasado, mas, mesmo assim, este país tem algo que não perde pra nenhum outro.
É a existência do dragão do mar.
Esse dragão mora nas proximidades do mar de Iguret, e é reverenciado pelo povo de Iguret como divindade protetora. Há cerca de cem anos, quando o Reino de Sandra invadiu, dizem que esse dragão lendário afundou apenas os navios de Sandra.
Nessa ilha, existe até um ditado de que, no dia em que o dragão do mar é visto, a pesca é abundante.
— Então, esse dragão do mar é seu conhecido?
《Sim. É um dos meus parentes. Originalmente, é uma espécie que gosta de conviver com humanos, então provavelmente acabou gostando das pessoas dessa ilha.》
Ouvindo que existia um dragão, fui em direção ao Reino de Iguret levando a Ruri comigo. Voando montado nas costas da Ruri, transformada num dragão gigante, seguimos rumo à ilha. Bem confortável, viu. O vento é forte, então mantenho [Shield] ativado.
— Ah, já dá pra ver.
Ao longe, na linha do horizonte, uma ilha apareceu solitária. Aquilo deve ser o Reino de Iguret.
《Senhor. O dragão do mar está vindo nos receber.》
— Hã?
Diante da voz da Ruri, olhei pra baixo, e um dragão espiava o rosto pela superfície do mar. Retorcendo o corpo tipo serpente, ele subia e descia na superfície da água. Que enorme. Maior que a Ruri. Dentro d'água, com a flutuação ajudando, o corpo sofre menos carga, então é mais fácil nascer criatura grande. Será esse o motivo.
《Há quanto tempo, dragão do mar.》
《Ao Imperador Azul, minhas saudações. E ao senhor do Imperador Azul, Mochizuki Touya-sama, bem-vindo a Iguret.》
— Ué? Você me conhece?
《Sim. O incidente na Ilha Dragoness já se espalhou entre os dragões.》
Ah, então é isso. Parece que virou um boato e tanto por aí. Bom, faz sentido, derrotei mais da metade dos dragões da ilha. Se não guardaram rancor, provavelmente é graças à Ruri também.
Basicamente, dragões não tentam entrar em conflito com humanos. Isso porque sabem que, se um humano tentasse derrotar um dragão a sério, seria um adversário e tanto. Mas, ao longo de muitos anos, dragões jovens que não sabiam disso causaram descontrole, gerando aquele incidente. Se dizer que foi falta de educação, é isso mesmo.
— Mesmo assim, como você soube que a gente viria?
《Ouvi dos pássaros familiares. Aquela ruína que Touya-sama procura estava no fundo da caverna que uso de covil.》
— Ah, é isso? Então, será que dá pra você me guiar?
《Como desejar.》
Seguimos o dragão do mar, que virou o corpo com um "zazaa" e começou a nadar.
O dragão do mar se aproximou do penhasco da ilha menor do Reino de Iguret, Marlet, e entrou numa caverna estreita entre rochas. Continuando atrás dele, avançamos dentro da caverna e chegamos num espaço bem amplo.
Parece um lugar tipo base secreta. Desci das costas da Ruri no terreno rochoso da caverna.
《Ali no fundo, atravessando aquela caverna, está a ruína que procuram.》
Na direção do olhar do dragão do mar, dava pra ver uma caverna que continuava mais fundo. Entendi, é ali então.
Achando que deviam ter assunto acumulado pra colocar em dia, deixei a Ruri com o dragão do mar e segui sozinho pro fundo da caverna.
Será que, quando a maré sobe, esse lugar também vira parte do mar — a superfície da rocha estava excessivamente lisa e molhada. Avançando por aquela caverna tipo corredor por um tempo, finalmente cheguei ao que estava no fundo.
Formato de esfera perfeita. À primeira vista, parece só uma bola preta de mais de cinco metros de diâmetro, mas, na superfície da esfera, havia pedras mágicas tipo bolinhas de gude incrustadas, com fendas finas formando um padrão geométrico.
— Por ora, isso deve significar "canaliza energia mágica aqui".
Canalizei energia mágica de fogo na pedra vermelha. Então, ao longo da fenda que se estendia da pedra pra superfície da esfera, uma luz vermelha percorreu.
De vez em quando dobrando o caminho, essa luz deu uma volta completa e voltou pro lugar original, na pedra vermelha.
Do mesmo jeito, azul, verde, marrom, amarelo, roxo — uma linha de luz de cada vez foi se liberando em sequência. Por fim, quando a luz branca, do atributo nulo, percorreu a esfera, tipo um quebra-cabeça, a superfície deslizou, "gasha-gasha", parte por parte, e uma pequena entrada se abriu.
Ao dar um passo pra dentro, a entrada fechou em silêncio, e, na luz fraca e difusa, dava pra ver um círculo mágico desenhado no chão. Todo desmontado.
— Pera, espera aí. Isso aqui é…
Em algo tipo lajotas em formato de grade, havia padrões desenhados. Cada uma independente, e possível de mover.
Quebra-cabeça deslizante. Aquele clássico de organizar números corretamente.
[01][02][03][04] [05][06][07][08] [09][10][11][12] [13][14][15][16]
Um quebra-cabeça onde se retira a peça [16], criando um espaço vazio pra deslizar as outras e embaralhar, depois organizando de volta.
Isso estava aplicado no chão, com um círculo mágico. Provavelmente, ao organizar corretamente, ativa a magia de teletransporte.
O problema é a quantidade de peças. Contando, são 10×10, ou seja, 100 peças. Não, precisamente, uma foi removida pro espaço de movimento, então são 99. E, ainda por cima, se fosse número seria mais fácil, mas, sendo desenho, a dificuldade de um quebra-cabeça deslizante aumenta absurdamente.
— Que trabalheira, sinceramente…
Resmungando, fui deslizando as peças do chão.
Ah, é verdade, lembro que meu avô falou uma vez que existe um truque pra quebra-cabeça deslizante.
[01][02][03][04] [05][06][07][08] [09][10][11][12] [13][14][15]
Se quiser chegar a esse arranjo, primeiro organiza a borda externa:
[01][02][03][04] [05] [09] [13]
Depois, a próxima camada interna:
[06][07][08] [10] [14]
E, por último:
[11][12] [15]
Fazendo assim, dá pra completar mesmo com número bem grande.
O problema é quando são peças de imagem. Se não souber qual parte do todo cada peça representa, não dá pra saber como mover.
Se tivesse a imagem original, ajudaria bastante…
Fui movendo o quebra-cabeça, em silêncio, gastando tempo. Como levava tempo demais, avisei a Ruri por telepatia pra voltar antes.
99 peças é uma quantidade e tanto mesmo… E, ainda por cima, não é imagem, é padrão, isso aqui… Difícil até de saber se está encaixado direito lado a lado.
Mesmo assim, repetindo esse trabalho monótono, quando finalmente completei o quebra-cabeça, luz jorrou do círculo de teletransporte no chão, e, num instante, fui teletransportado.
Envolvido pelo redemoinho de luz de sempre, quando os olhos, ofuscados, se acostumaram, diante de mim se estendia a já familiar paisagem de Babylon.
Entre as árvores balançando ao vento, dava pra ver um prédio branco. Aquilo deve ser o "Laboratório".
Ao dar um passo do círculo de teletransporte na direção de lá, alguém veio caminhando do outro lado. Deve ser o gerente do "Laboratório". Cabelo castanho trançado e preso, vinha na minha direção com movimentos ágeis. Aparência de um ou dois anos mais nova que eu.
— Bem-vindo ao "Laboratório". Eu sou o terminal e gerente deste "Laboratório", Atlantica. Por favor, me chame de Tica.
Vendo a garota se curvar educadamente pra cumprimentar, recuei um pouco, surpreso. Movimento igual secretária de presidente de empresa. Uma garota séria e disciplinada, hein. Fala fluente também. De certa forma, seria o oposto exato da Monica desleixada.
— Tica, hein. Prazer. Eu sou…
— Mochizuki Touya-sama, né. Já ouvi falar do senhor pela Doutora.
— Pela Doutora?
— Sim. Com a "Joia da Visão do Futuro" que a Doutora construiu, já se sabia, pelo menos, que Touya-sama viria ao "Jardim" e ao "Laboratório".
Ah, é verdade, tinha um artefato desses no "Armazém". Tentei usar, mas não ativou. Segundo a Paruche, gerente do "Armazém", talvez fosse porque não existisse ninguém com a mesma onda vital, ou seja, com todos os atributos, no futuro alcançado pela joia.
Ou seja, no mínimo pelos próximos cinco mil anos, não deve nascer mais ninguém com todos os atributos. Se o fluxo da história não mudar.
Testei, deixando a Lindsey usar, e apareceu um velho qualquer sem sentido, então acho que não está quebrado. Pensar que talvez aquele velho esteja vivendo, agora, nesta época, como criança, é uma sensação estranha.
— Então, Touya-sama, quantas "Babylon" já encontrou?
— Aqui é a última. Já achei e conectei todas as outras.
— Entendi. Como candidato, é suficiente. Então, vamos proceder à transferência do "Laboratório" e de mim, Atlantica, e ao contrato de Mestre.
Dizendo isso, a Tica tirou do bolso do peito um bastão pequeno com algo tipo algodão redondo na ponta, e me entregou.
— Por favor, morda isso.
Fazendo como pedido, mordi o bastão e, depois de um tempo, foi pedido que eu o tirasse da boca. Recebendo de volta o "cotonete-mãe", a Tica mordeu diretamente por conta própria.
— Registro completo. Memorizei o gene do Mestre. A partir de agora, a posse do "Laboratório" e de mim, Número de Babylon 22, Atlantica, é transferida ao Mestre.
— A-ah?
— Aconteceu algo?
— Não, nada em especial…
Não é beijo, como das outras vezes, hein. Não, não é que eu tivesse ansioso por isso!? Fiquei meio anticlimático, digamos.
Essa garota parece séria, então talvez ela mesma trace uma linha nesse tipo de conduta.
— Então, por aqui. Antes de explicar o "Laboratório", tem um trabalho que gostaria que o Mestre fizesse.
— Trabalho?
Guiado pela Tica, entrei num dos prédios do "Laboratório".
O "Laboratório" está dividido em vários prédios, cada um usado conforme a finalidade.
O prédio onde entramos se chama Laboratório Um, e foi ali que a Shesca e os outros Números de Babylon nasceram, segundo ela.
Igual ao que já vi na "Torre Alquímica", vários objetos tipo cápsulas gigantes de sono estavam instaladas junto às paredes. Havia líquido de cultura luminoso e misterioso fluindo por tubos transparentes, e também cápsulas com algo tipo material flutuando, tipo conservado em formol.
Realmente parece um "Laboratório" suspeito. De alguma forma, parece uma instalação de experimento humano (talvez seja mesmo isso), então me sinto meio desconfortável. Parece até um lugar que fabricaria humano modificado… ah, fabricou mesmo. Bom, mais do que humano modificado, deve ser humano artificial mesmo.
A Tica me levou até o cômodo mais no fundo, onde havia uma máquina cilíndrica instalada, e apontou pra uma parte parecida com a janela de um caixão.
Através do vidro, dava pra ver o rosto de uma garota jovem, flutuando num líquido de brilho verde claro. O cabelo loiro-platinado parece comprido, mas, pela janela, só dá pra ver da testa até o queixo, então não dá pra confirmar direito. Como os olhos estão fechados, é difícil de identificar, mas tem uma semelhança vaga com a Tica na minha frente — ou melhor, com todos os Números de Babylon.
— Essa garota é…
— Número de Babylon, a última, número 29. Nossa irmã mais nova, a última.
Então existia uma décima… Será que foi abandonada no meio do desenvolvimento, ou existe algum motivo pelo qual ela não foi despertada?
Enquanto eu pensava nisso, a Tica jogou uma bomba e tanto na minha direção.
— E, ao mesmo tempo, essa garota é também nossa criadora, a Doutora Regina Babylon. Gostaríamos que o Mestre ajudasse a despertá-la.
……………….Hã?