Capítulo 234 – A Doutora e a Terra
— Essa garota é a Doutora Babylon… como assim isso?
— Sim. Explicando de forma simples, cultivamos um novo corpo, extraímos o cérebro do corpo original da Doutora, transplantamos com magia, fundimos, otimizamos, e, ao longo de bastante tempo, sincronizamos a energia mágica desse indivíduo. É isso que temos aqui.
Ugh. Achei que fosse algo tipo clone humano, mas é diferente. Transplantaram o cérebro direto!?
— Mas essa aparência parece ter uns dez anos…
Pelo menos, na gravação que a Shesca me mostrou, a aparência dela deveria ser de vinte e poucos anos. Será que rejuvenescer é sonho de toda mulher mesmo. Não, mas isso é jovem demais.
— Se crescer mais que isso, a sincronização de energia mágica fica difícil, com risco de prejudicar a memória da Doutora.
— …O cérebro de adulto foi colocado na cabeça de uma criança?
— Isso foi feito assim, tipo, com magia, apertadinho.
A Tica fez um gesto tipo apertando um bolinho de arroz. …Melhor não perguntar mais fundo. Parece coisa grotesca. Pela minha experiência de todos esses anos, já aprendi que tecnologia mágica não segue senso comum científico nenhum. Pensar demais é inútil.
Ouvindo a história, parece que ela não foi transplantada depois de morrer de causa natural, mas fez isso por vontade própria, ainda viva.
O corpo dos Números de Babylon tem durabilidade muito maior que a de um humano comum. Afinal, pelo que a Fam contou, parece que funcionaram continuamente por 5000 anos. Chego a achar que é quase imortalidade. Talvez usem célula de elfo ou de outra raça de vida longa.
— E aí, o que quer que eu faça?
— Gostaríamos que canalizasse a energia mágica necessária pro despertar. Sendo o Mestre, com a mesma frequência vital que a Doutora original, com certeza conseguirá despertá-la.
Gnn. Fico pensando se não seria melhor não despertar ela. Com certeza essa pessoa é do tipo chato pra caramba.
Pelo que ouvi até agora, talvez seja gênio, mas cheira forte a "pessoa problemática". O que fazer, hein~. Com certeza quem vai levar a bronca no fim das contas sou eu. Deixar ela dormindo em paz, assim mesmo, também não seria uma opção?
— Desculpe incomodar enquanto pensa, mas não temos tempo, então, se puder se apressar…
— Hã?
Enquanto eu resmungava, pensativo, a Tica, ao meu lado, interrompeu.
— Como assim, não tem tempo?
— A partir do momento em que o Mestre se teletransportou pra cá, um temporizador que desliga o suporte de vida desta cápsula foi ativado. Nesse ritmo, em cinco minutos, a Doutora vai falecer.
— O QUÊ…!? Que isso!? Por que tem um temporizador desses!?
— Foi vontade da própria Doutora. Se não puder ser despertada aqui, viver não tem sentido nenhum, segundo ela.
Que suja! Antecipou minha relutância e já tinha um plano B armado!
Ugh… não dá pra deixar alguém morrer assim, na minha frente… Ela deve ter previsto até esse meu pensamento. Quase disse "seu desgraçado, Kongming!" sem querer. Mas não vou dizer, viu!
— …Onde canalizo a energia mágica?
— Coloque a mão nessa pedra mágica da cápsula e canalize um pouco.
Coloquei a mão na esfera de pedra mágica, tipo cristal, apontada pela Tica, e canalizei energia mágica de leve. Depois de um tempo, as máquinas ao redor da cápsula começaram a piscar e emitir um zumbido baixo. A cápsula, que estava na horizontal, começou a se mover sozinha, ficando na vertical.
O líquido fosforescente que preenchia o interior da cápsula foi drenado por uma bomba, e um som tipo "gashun" de algo parando ecoou.
— Onda vital em valor normal, sincronização de energia mágica sem problema. Função corporal funcionando normalmente.
A Tica foi manuseando os interruptores no painel ao lado da cápsula, "pachi-pachi". Por fim, ela apertou um botão grande, e, com um som tipo ar escapando, "pushu", a tampa da cápsula deslizou pro lado e se recolheu.
De lá surgiu uma garota completamente nua, de uns dez anos. Cabelo dourado se estendendo até a cintura. Estranhamente, não senti nada de indecente. Afinal, é criança. Ou melhor…
— …Por que você tá respirando tão forte assim?
— Haa haa… não se preocupe! Por favor, não se preocupe!
Bufando forte pelo nariz, a garota de tranças ao meu lado, encarando fixamente a garota nua, começou até a sangrar pelo nariz. Claro que fico preocupado! Já entendi que essa também não é normal!
Os olhos da garota foram abrindo. Esfregando os olhos de cor jade, ela começou a olhar ao redor. Por fim, percebendo minha presença ali na frente, abriu um sorriso maroto e saltou da cápsula direto pro chão.
— Yaa yaa, Mochizuki Touya-kun. Prazer, ou será que já nos conhecemos? Já andei te observando de vez em quando pela "Joia da Visão do Futuro", então não sinto que seja a primeira vez.
— Você… é mesmo a Doutora Babylon?
Sorrindo de forma maliciosa, a garota respondeu à minha pergunta.
— Isso mesmo. Eu sou Regina Babylon. Magi-engenheira e magi-técnica do Sagrado Reino de Partenon, e sua namorada eterna…
— Isso aí não precisa, obrigado. E vista logo uma roupa.
— Ué!? Que reação fria!?
Já aprendi que reagir a cada coisa dessas me esgota demais.
Resmungando, a Doutora puxou um jaleco pendurado na parede do laboratório e vestiu, mas, sendo enorme demais pra ela, e sem botões na frente, não escondia nada. Completamente exposta na frente.
Já ouvi falar de avental sem roupa ou camisa sem roupa, mas jaleco sem roupa, sendo assim completamente exposto, é só perversão mesmo… Pelo menos vista uma calcinha.
— Não teve sentido nenhum vestir isso…
— Ao contrário, ficou ÓTIMO!
Vendo a Tica erguer o polegar, sangrando pelo nariz, sinceramente, recuei. Onde foi parar aquela garota séria de quando nos conhecemos?
— Ei, Doutora, essa aqui tá estranha, viu?
— Ah, a Atlantica gosta de garotinhas, sabe.
— Não fale coisa tão incômoda com tanta naturalidade!
Então era por isso que ela não me beijou como as outras.
— Aliás, eu também não sou contra isso.
— Imaginei!
Afinal, essa aqui é a origem de toda a série Babylon! É a chefona vilã de tudo isso!
— Que problema. Óbvio que não tenho roupa desse tamanho. Isso não esperava.
Será que peço emprestado da Rene ou da Sue no castelo… Não, se eu mesmo pedir isso, com certeza vou receber um olhar estranho… Não posso pedir pra emprestar até roupa de baixo. Melhor pedir pra Yumina e as outras explicarem a situação…
— Aliás, esse jaleco, não me diga que é de 5000 anos atrás?
— Isso mesmo. Ah, tem magia de proteção aplicada, então continua sempre limpo e não se deteriora.
Com razão, parecia novo em folha. Meu casaco também tem [Protection] aplicado, então não precisa de lavagem.
De qualquer forma, deixar aberto desse jeito na frente é problemático, então puxei o cinto do meu casaco e ajustei a frente do jaleco da Doutora, amarrando na cintura. Ficou parecido com um yukata, mas, como remédio provisório, deve servir.
Hmm, por ora, vou deixar o "Laboratório" seguir rumo a Brunhild.
A Tica manipulou um monólito no canto do cômodo, e o "Laboratório" começou a se mover. Alguém limpa esse sangue do nariz dela logo, por favor.
— Esse corpo é mais fácil de mover do que imaginei. É uma pena que o crescimento vai parar por aqui. Bom, tenho que aceitar isso como o preço a pagar.
— Hã? Não vai mais crescer?
— Esse corpo é feito de um tecido diferente do humano. Só dá pra crescer dentro da cápsula; uma vez despertado, fica fixo. A Atlantica também é sempre assim, né?
De fato. A Tica e as outras também não devem viver eternamente, mas, provavelmente, permanecem com essa aparência até morrer. Já deve ser tipo uma raça própria, igual elfo ou anão. Só que, sem capacidade reprodutiva, não devem aumentar naturalmente.
— Bom, eu observei suas ações de vez em quando pela "Joia da Visão do Futuro", mas só tenho memórias fragmentadas. Você mesmo me interessa, mas o que me interessa ainda mais é o artefato que você carrega.
— Artefato? Do que tá falando?
— Aquele objeto tipo comunicador em formato de placa preta. Você chamava de "smartphone", não era?
— Ah, isso.
Tirei o smartphone do bolso e mostrei pra Doutora.
— Isso, isso mesmo. Tentei fazer algo parecido, mas não entendia direito a função. Será que dá pra me emprestar um pouco?
— Bom, tudo bem. Mas não vai quebrar, hein?
Já tem vários encantamentos aplicados nele, então não quebra fácil assim, mas seria complicado se ela mexesse nas configurações de forma estranha.
Provavelmente, ela já entende a maior parte das funções. Senão, não teria como conseguir que a Shesca conectasse ao smartphone pra ativar magia. Talvez o interesse dela esteja mais nas funções que não são mágicas.
— Hmm. Que letras e desenhos são esses… Ah, entendi, opera tocando na tela… Que letra é essa? De que país é?
— Japão.
— Nihon? Nunca ouvi falar. Será um país desta época? É a terra natal do Touya-kun?
— Hmm… certo, já que a oportunidade surgiu, vou deixar todo mundo ouvir também. Pretendia contar um dia mesmo.
— ?
Inclinando a cabeça, confusa com minha fala, a Doutora Babylon continuou conferindo as funções do smartphone.
— Haaa… Nunca imaginei que essa garota fosse a própria Doutora Babylon, hein…
A Leen está surpresa com a Doutora, de aparência não muito diferente da dela mesma. A Elsie e a Yae também tinham expressões de surpresa parecidas, olhando pra Doutora cercada pelos Números de Babylon.
— Bom, vendo tudo que já aconteceu até agora…
— Já não parece tão impossível assim, decerto.
Diante desses murmúrios, a Lindsey, a Hilda e a Lu concordavam, assentindo.
A própria Doutora estava conversando animadamente com a Shesca, a Rosetta, a Belflora e outros. A Doutora está vestindo uma roupa emprestada da Sue. Assim vestida, parece só uma criança comum.
No sofá, a Monica se debatia, presa por trás pelo abraço da Tica. O lenço de papel entupido no nariz da Tica já estava completamente vermelho.
— Solta logo! Que nojo!
— Ufufufufufufu.
Entendi o que a Monica quis dizer com "não se dar bem" com ela. Pra Tica, com gosto por garotas novinhas, a Monica é uma presa perfeita. Aliás, a Sue, que foi abraçada de repente antes, tá com medo e não sai do meu lado.
Reuni as noivas e o pessoal ligado a Babylon num cômodo do castelo, mas só a Noel, da "Torre", continua dormindo no colo da Riola, da "Muralha", sentada no sofá. Será que precisava mesmo trazer essa aí junto…
Francesca, do "Jardim Suspenso". Hi-Rosetta, da "Oficina". Belflora, da "Torre Alquímica". Fred Monica, do "Hangar". Pre-Riola, da "Muralha". Pamela Noel, da "Torre". Iris Fam, da "Biblioteca". Lulu Paruche, do "Armazém". Atlantica, do "Laboratório".
E a Doutora Babylon.
Que família grande ficou, hein… A Fam, a Noel e a Riola basicamente não descem pra superfície.
A Monica e a Rosetta também ficam ocupadas com desenvolvimento, então quase não descem também.
A Paruche também recebeu ordem pra evitar descer o máximo possível. Quero evitar que a desastrada dela cause algum estrago.
Vendo a Tica abraçando a Monica contra a vontade dela, começo a achar melhor não deixar essa aqui descer também. Se ela fizer algo com a Rene ou outra criança, e isso virar trauma, seria imperdoável demais.
— Então, Touya-san, pra que reuniu todo mundo?
A Yumina, sentada ao meu lado, com a Sue entre nós, perguntou.
— É. A Doutora também perguntou, mas achei que, já que ia falar mesmo, seria melhor deixar todo mundo ouvir direito. Sobre mim, algo que fiquei calado até agora.
Os olhares ao redor se voltaram pra mim. Levantei, olhei ao redor pra todos, e criei coragem.
— Fiquei calado porque tinha medo de que ninguém acreditasse, mas também porque achava que não precisava falar necessariamente. Mas, pra continuar vivendo junto com vocês daqui pra frente, comecei a pensar que realmente queria que soubessem.
Manipulei o smartphone e projetei uma imagem grande na parede. Transmitindo de um site de vídeos, várias paisagens de cidades foram aparecendo, uma atrás da outra. Londres, Paris, Washington, Nova York, Jacarta, Bangkok, Nova Délhi, Pequim, Moscou, e Tóquio.
Diante de tantas metrópoles diferentes sendo exibidas, todos ficaram sem palavras.
— O que está sendo exibido aqui é o mundo de onde eu vim. Chamado de "Terra". Foi de lá que eu vim.