Capítulo 235 – O Rei Prolífico e a Análise
Contei pra todo mundo tudo o que aconteceu até eu chegar neste mundo.
Que morava num país chamado Japão, na Terra; que era estudante; que não tinha como voltar mais pra aquele mundo.
Por causa dos Phrase, todo mundo já entendia, de certa forma, que existe algo tipo "outro mundo", um mundo diferente do próprio.
— Então era isso… Sinto que finalmente entendi o quão fora do comum o Touya-san é.
— Nunca imaginei que veio de outro mundo… Que surpresa, decerto.
A Yumina e a Yae soltaram um suspiro profundo, deixando escapar exclamações de surpresa.
— Ou melhor, quer dizer que a Karen-san e a Moroha-san são…
— É, não são irmãs de sangue. Mas, sem dúvida, são minha família aqui deste lado. Sinceramente, parece que ainda tem mais gente assim.
Respondi com sinceridade à dúvida da Lindsey. Como despertei o poder divino, parece que virei uma espécie de parente do Deus do Mundo. Parece que tem vários deuses que seriam meus parentes por extensão.
Por ora, deixei de lado o assunto sobre o Deus do Mundo e o fato de as duas irmãs serem deusas subordinadas. Não quero que dependam demais dos deuses, e também é informação meio pessoal, afinal. Vou contar sobre isso depois de conseguir permissão.
Mais do que a questão de outro mundo, fico inseguro se vão acreditar nisso. Se fosse como da vez da Papisa, bastaria fazer Deus descer pessoalmente que resolveria na hora, mas chamá-lo só pra isso seria meio desrespeitoso, ou algo assim.
— Então aquela bicicleta e a arma de fogo são tecnologia do mundo de onde você veio?
— Isso. Lá é algo comum. Ah, não, arma de fogo não era tão comum assim no país onde eu morava.
Corrigi pra Lu, pra não gerar mal-entendido. Não quero que pensem que disparar esse tipo de coisa era vida cotidiana normal.
— Bom, mesmo vindo de outro mundo, isso não muda nada, né.
— Concordo. Nosso carinho pelo Touya-sama continua o mesmo.
— Ao contrário, fico até meio irritada por não ter contado antes.
A Leen, a Hilda e a Elsie falaram, uma atrás da outra. Nas expressões delas, não havia hesitação nem constrangimento nenhum. Deve ser prova de que, mesmo sendo de outro mundo, isso não muda nada pra elas.
— O Touya é o Touya. Fico feliz que tenha contado, viu?
— Um, eu também.
— Obrigado. Sue, Sakura.
Fico feliz de ser aceito assim. Sinceramente, mesmo achando que não seria odiado, achei que pudesse causar uma certa distância. Aqui, pessoa de outro mundo talvez seja igual a alienígena, e, por causa dos Phrase, talvez tivessem a imagem de que quem vem de outro mundo é invasor — foi isso que me preocupou.
— MARAVILHOSO!!
Diante do grito repentino da Doutora garotinha, todos ficamos paralisados. Uaa, que susto!
— Visitante de outro mundo! Tecnologia e cultura ainda desconhecidas, conhecimento e história! Existe algo mais emocionante que isso!? Não, não existe! Touya-kun, casa comigo!
— «« «« «« «« «« NÃO! »» »» »» »» »»
Uoou. Reprovação em uníssono de todas as noivas. Todas se posicionaram ao meu redor, como que me protegendo. Meio assustador. Ela disse que não ia aumentar mais o número de esposas…
— Então tá bom ser amante. De qualquer forma, nós não conseguimos ter filho mesmo. E aí?
— «« «« «« «« «« AÍ TÁ BOM »» »» »» »» »»
— SÉRIO ISSO!?
Não consegui evitar essa intervenção. Ué!? Normalmente, esposas não deveriam odiar esse tipo de coisa!?
— Não aumentar mais o número de noivas do Touya-san é pra evitar problema desnecessário. Aturar realeza e nobreza de outros países insistindo "case com minha filha" já é cansativo demais.
— E também tem a questão da sucessão do trono quando nascerem os filhos. Contanto que se defina claramente a linha entre esposa oficial e amante, não tem problema.
Ouvindo a conversa da Yumina e da Leen, não acho meio estranho isso? Será que é só porque não tenho costume com poligamia mesmo.
Bom, é bem melhor do que ficar tipo "esse homem é só meu! Fica longe, sua gata ladra!", mas dá um certo sentimento de solidão. Acho que entendo que possessividade e amor não são a mesma coisa, mas.
— Certo, já que tenho a permissão das esposas, agora somos família também! Ah é verdade, não precisa se preocupar com a questão de sucessão do trono. Os filhos de vocês, exceto um, são todas meninas.
— «« «« «« «« «« HÃ!? »» »» »» »» »»
Ela deixou escapar algo absurdo assim, com naturalidade, agora mesmo! Exceto um, todos meninas — como assim isso!?
— C-como assim isso, decerto!?
— Ora, é que, quando espiei o futuro, tinha essa conversa. "As 9 esposas todas tiveram filho, mas só nasceu um príncipe".
…Sério isso? Quer dizer que, entre as 9, uma delas tem um príncipe, e o resto são princesas? Sinto que fui roubado de uma expectativa futura, de alguma forma…
No mínimo, 8 filhas, hein… Ué, isso parece uma trabalheira absurda. Não dá pra ficar deitado, relaxado, na casa de um pai qualquer?
Claro, é possível que, depois do que a Doutora viu, no futuro, nasça um segundo menino, mas um décimo filho? Já é demais mesmo. Não, mesmo 9 já é demais.
Tokugawa Ieyasu teve 16 filhos, e Cao Cao teve 25 filhos homens, dizem. Bom, ninguém chega no Tokugawa Ienari, que teve mais de 50 filhos.
Aliás, esse xógum, com o período de reinado mais longo entre todos os xóguns, dizem que, por gerar tantos filhos, contribuiu pra desestabilizar as finanças do xogunato. Dizem até que o colapso do xogunato começou dali. Excesso é o mesmo que falta, né.
— Hmm… mas isso pode ser algo incrível também.
— Como assim, Leen-san?
— Olha só. Filha, algum dia, vai se casar, né? Sendo pelo menos princesa de um país, o parceiro provavelmente vai ser príncipe de outro país. Ou seja, cada uma dessas famílias reais vai carregar a linhagem do Touya.
— Entendi… Vamos acabar cheios de parentes por aí. No futuro, os netos do Touya-sama podem virar reis de vários países… de fato, isso…
A Leen e a Hilda continuavam conversando algo, mas melhor fingir que não ouvi. Nem nasceu ainda, e já não quero nem ouvir falar de casar filha com alguém.
— De qualquer forma, já que viramos família, me ensina o conhecimento desse outro mundo! Vamos, vamos, vamos! O que é aquele prédio alto!? Que significado tem aquele semáforo de três cores brilhantes!? Aquela caixa de ferro correndo é movida por energia mágica!?
— Espera, espera, espera! Não dá pra responder tudo de uma vez, e tem coisa que eu mesmo não sei. Por exemplo, aquele prédio alto se chama "edifício", o semáforo de três cores se chama "sinal de trânsito", a caixa de ferro correndo se chama "trem", mas como é fabricado, ou como funciona a estrutura, eu não sei direito.
Diante da Doutora se aproximando com os olhos injetados, respondi com sinceridade, mesmo recuando um pouco. Provavelmente, o nível de detalhe que essa pessoa busca, eu não consigo dar conta.
— Entendi… Nnnh. Se existisse um jeito de obter informação desse mundo!
Olhando pra paisagem urbana projetada no ar, a Doutora soltou um suspiro decepcionado. …Ah.
— Se for informação, dá pra conseguir. Basta puxar da internet. Coisa que é difícil pra mim, talvez a Doutora consiga entender.
— C-como assim isso!? Se existe um método, me conta, por favor!
Fico em dúvida se seria certo dar informação da Terra pra essa Doutora. Se ela pegar conhecimento e construir bomba atômica com facilidade, seria problemático. Combinar magia com ciência não seria perigoso demais?
— Conhecimento da Terra tem muita área perigosa. No nosso mundo, já aconteceram duas guerras bem grandes, e dizem que, se acontecer a próxima, o mundo pode acabar. Fico em dúvida se seria certo ensinar esse tipo de conhecimento.
Aquele Einstein deixou essa frase:
"Não sei com que armas será travada a Terceira Guerra Mundial, mas a Quarta Guerra Mundial será travada com paus e pedras."
É uma mensagem carregando o aviso de que, se a Terceira Guerra Mundial acontecer, o mundo com certeza vai acabar.
— Entendi… Essa preocupação é justa mesmo. De fato, deve existir esse tipo de coisa. …Então, será que dá pra me ensinar algo mais cultural? Mitologia e histórias desse outro mundo, coisas assim.
— Certo. Já que todo mundo tá aqui, que tal assistir algum filme?
— Filme?
Se for história da Terra, será que ficção forte demais é problema? Vira fantasia, afinal.
Se for assim, história histórica? Tipo Romance dos Três Reinos, Rei Arthur, os 47 Rōnin?
Ou, pra fazer entenderem a era contemporânea de onde vim, uma história de amor moderna?
Da última vez que mostrei pra todo mundo, escondi que era história de outro mundo, então passei algo parecido com este mundo daqui, mas, já que revelei tudo, não preciso mais ter esse cuidado.
Se é pra fazer entenderem o Japão, acho que vou de qualquer jeito com esta obra. "Nasci em Shibamata, Katsushika", e tal.
Manipulei o smartphone e reproduzi o vídeo que eu tinha em mente.
Depois disso, mostrei mais algumas obras, misturando filmes japoneses e estrangeiros, e parece que conseguiram entender um pouco melhor sobre a Terra.
— Ainda fico curioso, mas aquilo que o Touya-kun carrega, todo mundo naquele mundo tem uma coisa dessas?
A Doutora apontou pro smartphone, perguntando. Parece que gostou demais disso. Ah, é verdade, também apareceu no filme que mostrei agora há pouco.
— Esse que eu carrego já ganhou vários "encantamentos" depois que cheguei aqui, então já é bem diferente do original de lá. Originalmente, é um equipamento de comunicação, que serve pra trocar informação, gravar vídeo, e várias outras coisas.
— Hmm. Será que dá pra me deixar analisar só isso, pelo menos? Se eu conseguir fazer algo parecido e distribuir pra todo mundo, acho que seria útil.
Hmm. Como meio de comunicação, se todo mundo tivesse celular, seria útil mesmo. Combinando com magia, talvez consiga criar algo livre de interferência de sinal. Na prática, a Doutora já fez até equipamento de comunicação pro Frame Gear. Com ela, provavelmente dá pra converter a fonte de energia em energia mágica também.
Provavelmente, só esse smartphone consegue se conectar à internet da Terra, então vou deixar ela tentar fazer um.
— Então, será que dá pra me emprestar isso um pouquinho?
A Doutora pegou meu smartphone e começou a concentrar energia mágica na palma da mão que segurava o aparelho. Ei, ei, o que ela vai fazer?
— Análise.
Uma luz suave fluiu da palma da mão da Doutora. Isso é… magia nula?
— Hmm… ah-ha. Entendi, entendi a estrutura. Dá pra produzir com material que existe até neste mundo. O problema é…
Recebi o smartphone de volta da Doutora, que continuava resmungando algo, e conferi o funcionamento, confirmando que não tinha problema.
Curioso com a magia de agora há pouco, resolvi testar eu mesmo.
— Análise.
Uoo! Que isso? Na cabeça, surgiu algo tipo um diagrama de desmontagem do smartphone, mostrando o que tem onde. Sinceramente, não faço ideia do propósito de cada peça, mas.
Ah, dá pra analisar material também? Silicato de alumínio alcalino… o que é isso?
Será que, do lado da Doutora, isso é traduzido pras palavras deste mundo?
Será que é uma magia de análise de estrutura… Se usar em humano, será que funciona tipo ressonância magnética, mostrando até órgãos internos com clareza? Se um médico usar, deve ser uma magia extremamente útil, mas, sinceramente, não tenho vontade nenhuma de ver meus próprios órgãos internos…
— Certo! Dá pra dar um jeito! Talvez não consiga replicar exatamente igual, mas isso vai virar um artefato mágico útil! Rosetta, me ajuda! Vamos pra "Oficina"!
— Haa, tudo bem, mas o direito de me comandar já não é mais da Doutora, então preciso da permissão do Mestre primeiro…
— Hmm? Ah, é verdade. Touya-kun, será que dá pra emprestar a Rosetta?
Dando permissão, os dois saíram correndo do cômodo. Parece que a Rosetta também estava ansiosa pra isso.
— Aquela ali não sai de lá por vários dias, sabe.
— Não mudou nada. Vai ficar até pior do que quando tinha corpo de carne. O corpo atual tem resistência fora do normal, sabe.
Vendo os dois saírem, a Shesca e a Riola soltaram um suspiro.
Não quero que se esforcem demais, mas será que vai ficar tudo bem. Se conseguir produzir smartphone em massa, com certeza vai ser útil em vários aspectos, mas fico com um certo receio de que apliquem alguma função estranha nele.
Assim que deixei escapar isso, apontando pro smartphone na minha mão, a Shesca falou diretamente.
— Quem mais aplica função estranha aqui é o Mestre, viu.
Sem tréplica.