Capítulo 252 – Os “Onis” e os Candidatos
— Certo, entrei na floresta, mas o que fazer agora.
Por ora, preciso garantir água. Com o cantil entregue na entrada da floresta, decidi buscar a fonte, o rio. Se não me engano, deve fluir do norte pro sudeste, mais ou menos no meio da floresta.
Ao começar a caminhar pela floresta, outros candidatos parecem ter pensado o mesmo, e vejo, aqui e ali, figuras andando à frente.
Mas o campo de visão é ruim, hein. Com tantas árvores assim… Opa, coelho avistado. …Mas achei um, e, no momento, só tenho uma espada comum pendurada na cintura.
Como, oficialmente, magia não funciona dentro da barreira, não posso usar magia por questão de aparência.
Na verdade, nós, pessoal de Brunhild, estamos isentos do efeito da barreira, então conseguimos usar magia. Mas nunca se sabe quem tá observando de onde. Não posso simplesmente tirar arco e flecha do [Storage].
Se aquilo fosse fera mágica, viria atacar na minha direção, mas, com tanta árvore assim, será que consegue fugir. Chato, mas não tem jeito. Vou desistir. Ainda não tô com fome também. Ou melhor, na verdade, tenho comida no [Storage]. Na verdade, tenho água também, mas seria estranho um candidato não ir até o rio.
Esse exame, basicamente, é focado em cavaleiro de combate, além de cavaleiro de guarda do castelo, cavaleiro de patrulha da cidade, cavaleiro secreto sob comando da Tsubaki-san — esse é o principal foco. Pessoal de escritório, planejo recrutar depois, ou aproveitar quem se destacar entre os aprovados dessa vez. Por ora, não precisamos tanto de força mágica também.
No mínimo, quero gente com capacidade suficiente pra sobreviver a esse teste de sobrevivência. Lutar até o fim, ou fugir sem parar, tanto faz. Dentro das regras, quero que consigam cumprir o objetivo de permanecer três dias na floresta.
Pensando nisso enquanto caminhava, comecei a ouvir o som de água correndo, riacho fino.
Ao sair da mata, além de um leito de pedras rolantes, o rio corria. A largura era de uns 6 metros, dava pra atravessar. Não parecia tão fundo também.
Enchi logo o cantil de água, e, de quebra, bebi um gole. Sim, gostosa.
Olhando ao redor, vejo outros candidatos que também conseguiram água, reunidos. Aqui a visibilidade é boa, e tem rio também, conveniente. Mas, justamente por isso, chama atenção, mais fácil de ser encontrado pelo "oni".
Já enchi o cantil de água, melhor não ficar aqui mais. Quem já entende isso já saiu daqui.
Quem continua ficando aqui, deve estar em risco de não passar.
Voltei pra dentro da floresta e subi numa árvore alta. Certo, então.
— [Long Sense].
Estendi visão e audição, sondando ao redor. Tem alguns se movendo em grupo, e alguns sozinhos.
Ah, tem alguém subindo em árvore igual eu. Não dá pra ver o rosto por causa da máscara, mas, todo vestido de preto, parece um ninja mesmo. …Ué?
Tá olhando pra cá? Não pode ser. Tá a 1km de distância, com obstáculo pelo meio? Ah, acenou a mão. Sem pensar muito, acenei de volta, e o outro lado também pareceu surpreso de alguma forma. Ele mesmo acenou primeiro, gente estranha. Será que queria confirmar se eu conseguia ver de lá também?
Se for ninja, talvez seja alguma técnica ninja. Ou terá olho mágico? Será recomendação da Tsubaki-san?
— «Opa, oni! Guh!»
— «Droga! Uwaa!»
— «F-fujam!»
De repente, uma voz irrompeu na minha audição, e voltei atenção pra direção do leito do rio.
O pessoal reunido no leito do rio estava sendo abatido, um atrás do outro, por dois membros da nossa Ordem de Cavaleiros de máscara de oni. Girando o bastão elétrico, derrubando todo mundo com um golpe só. Ou melhor, aquilo é o velho Baba e o velho Yamagata, né…
Os dois, num clima tipo "Yahoo!", derrubavam os candidatos sem piedade, roubando o crachá. Aquele visual é puro bandido de montanha. Combina demais.
Os candidatos que tiveram o crachá roubado foram teletransportados pro quartel-general, e nenhum sobrou ali. Parece que nenhum deles tinha talento notável.
Os outros candidatos que ouviram o grito reagiram de formas diferentes: alguns fugindo, alguns indo espiar a situação, outros se escondendo em silêncio.
Aquele ninja mascarado de antes já tinha sumido também, sem perceber. Rápido, hein. Deve ser ninja mesmo.
Depois de um tempo, os dois onis, tendo caçado todo mundo do leito do rio, desapareceram de volta pra dentro da floresta.
— «Ele tem o olho direito ferido! Contornem por esse lado! Ataquem sempre pelo ponto cego!»
Ah? De novo uma voz veio de algum lugar. Estendendo a visão, do outro lado da floresta, bem distante do leito do rio, três candidatos lutavam contra um King Ape. Não, um tamanho maior que King Ape. Será uma subespécie?
— «Mira nas pernas! Primeiro, imobiliza o movimento!»
O homem que parecia líder dos três era de cabelo prateado curto, passado dos vinte anos. Vestia uma cota de peito antiga mas de boa qualidade. Dando comandos bem precisos. Provavelmente, um grupo formado de improviso, mas parecia aproveitar bem a característica de cada um.
Observei a caçada deles por um tempo, e, por fim, derrotaram com sucesso a subespécie de King Ape.
E, ainda por cima, aquele líder lutava prestando atenção corretamente ao redor. Provavelmente, tava atento a um possível ataque de "oni". Na verdade, enquanto um candidato luta contra fera mágica, não é atacado por "oni", mas ele parecia bem atento mesmo assim. Aquele homem pode passar mesmo.
Por ora, desci da árvore e fui caminhando pro sul, e encontrei dessa vez um garoto deitado no chão, cavando a terra.
— …O que tá fazendo?
— !? …Ah, é, tô tentando garantir comida.
Ao falar comigo, o garoto, achando que fosse "oni", assustou-se por um instante, mas, percebendo que era outro candidato, soltou um suspiro de alívio.
— Comida, como assim?
— Ah, é, essa trepadeira é de inhame-gigante, e, nessa época, dá pra comer o tubérculo debaixo da terra. Daqui a uns três meses, fica tóxico e não dá mais.
— Hee…
— Ah, não dá pra fazer fogo, senão o oni encontra. Se for assim, só resta encontrar essas coisas. Tem bastante erva e fruto silvestre comestível aqui.
Ah, faz sentido. Mesmo pegando um coelho, sem poder acender fogueira, não dá… Comer cru também. Não é que seja impossível, mas dá uma certa resistência.
Nas mãos do garoto, tinha várias ervas colhidas. Tinha também alguns frutos e frutas silvestres. Alguns tipos que eu já conhecia. Parece bem conhecedor desse tipo de coisa.
— A-ali pro sul daqui, tinha uma árvore de pashimo, se for lá deve conseguir. Eu só colhi um pouco, ainda deve ter.
— Certo, obrigado. Vou lá dar uma olhada.
Se eu ficasse aqui mais tempo, ia parecer que eu tava de olho no inhame dele, então saí do local.
Me despedindo do garoto cavador de inhame, fui até o sul como ele disse, e realmente tinha uma árvore de pashimo. Pashimo é uma comida parecida com caqui, com textura tipo pera. Já que tenho comida no [Storage], colhi só um pra comer. Gostoso.
Subi de novo numa árvore próxima e passei o tempo até o entardecer, monitorando com [Long Sense]. Aqui e ali, oni atacando candidato, ou candidato sendo atacado por fera mágica. Por ora, parece que nem os onis nem os candidatos tiveram ferimento nenhum.
Já tem gente desclassificada, mas ainda tem bastante gente. Gostaria de reduzir pra menos de 500, será que consigo.
O sol foi se pondo. A partir daqui, é a parte principal.
Confirmei, com a função de busca do smartphone, que não tinha ninguém ao redor, e tirei do [Storage] a máscara de oni. Vestindo isso e trocando de roupa toda preta, saltei de galho em galho, correndo pela floresta.
De repente, avistei luz do outro lado da floresta, e, estendendo [Long Sense], vi que, ao redor de uma fogueira, muitos candidatos reunidos, tomando cuidado com o entorno, assando a presa capturada, fazendo refeição.
Entendi, então é essa a estratégia — com tanta gente reunida assim, oni não consegue atacar tão fácil. Cercando o grupo que come, digamos, um grupo de escolta fica atento ao perímetro externo.
De fato, é meio difícil de atacar. Não, se a nossa Ordem de Cavaleiros for a sério, dá pra aniquilar todos, mas.
Por ora, fiz busca ao redor pelo smartphone, e, sabendo onde os onis estavam reunidos, corri pra lá.
— Como vão~
— Uh!? …Ah, é Vossa Majestade… por favor, não me assuste assim.
— Não se aproxime sem eu perceber a presença, majestade. Quase te ataquei por reflexo.
Falando de trás do pessoal reunido, acabei sendo repreendido.
Aqui tem o Logan-san, o velho Yamagata, o velho Baba, ah, e também a Nicola-san. E mais alguns, no total uns 10. Só homem, hein.
Bom, tanto faz, é mais tranquilo assim. "Ordem de Cavaleiros é disciplina!" — não é bem esse o estilo daqui, é mais tipo reunião de família ou companheiros. Afinal, se fosse alguém que precisasse ser mantido preso por disciplina, já teria sido eliminado na entrevista da Yumina de qualquer jeito.
— E aí, como tá? Encontraram algum talento promissor?
— Tinha alguns que, se treinados, podiam virar algo.
— Eu também vi alguns bem promissores.
O velho Baba e a Nicola-san responderam. Entendi. Parece que tem gente aproveitável mesmo. Eu também vi um ninja, um homem de armadura, e um garoto do inhame, todos promissores, mas talvez já tenham sido caçados pelos onis desde então. Especialmente o garoto do inhame, que não parecia tão forte assim.
— Aliás, o que fazemos agora? Vamos atacar aquele grupo?
— Hmm. A gente é só 10, né. O outro lado deve ter uns 100. Não é que não vá dar pra vencer, mas não dá pra medir a moderação certa. Impossível avaliar a qualidade individual assim.
O velho Yamagata cruzou os braços, gemendo. De fato, seria contraproducente assim. Se lutar de acordo com o adversário, corre risco de ser cercado. Sem cerimônia, um golpe fatal seria mais fácil, mas isso frustraria o objetivo original, né.
Tem outros onis também, mas não a ponto de reunir todo mundo pra atacar esse grupo, e ainda tem vários outros candidatos além dos da fogueira.
Mesmo assim, usar fogo de forma tão chamativa assim, será que já estão preparados pro risco de serem atacados?
— O que Vossa Majestade faria?
— Eu? Deixa eu ver… Ataca um pouco, finge derrota de propósito e foge. Aí, se alguns vierem perseguir, emboscamos eles nesse meio tempo. Que tal?
— Ei, ei, será que caem nessa isca assim?
— Não, quem cair nessa isca também não vai servir pra nós de qualquer jeito. Se não caírem, isso também vira material de julgamento.
Como o velho Baba diz, seria melhor mesmo que não caíssem na isca. No smartphone, com [Long Sense], projetei na tela o pessoal cercando a fogueira do outro lado.
— Tem uns que ficam atentos ao redor direitinho, e tem uns que relaxam demais.
Como a Nicola-san diz, tem quem observa ao redor tenso, e tem quem boceja ou fica batendo papo com o vizinho. Será que, sendo em grande número, ficam relaxados demais… Opa?
Notei que umas dez pessoas ao redor da fogueira estavam expulsando outro candidato que tinha vindo até lá. Curioso, aumentei o volume do smartphone.
— «Não pode, não pode! Vai embora! Aqui já tá lotado!»
— «Por quê!? Não tô pedindo comida nenhuma! Só queria usar o fogo um pouco!»
Os candidatos que vieram de lá eram dois demi-humanos e dois demônios, homem e mulher. Nas mãos, carregavam alguns coelhos. Devem ter vindo pedir pra assar ali, já que aqui o risco de ataque de oni é menor.
— Fera-humana leão, e espécie alada, e os demônios são um Wardog e uma Aracne… acho.
A Nicola-san murmurou, olhando pra tela. Hee. O lado fera-humana, tudo bem, mas os demônios são raças que vejo pela primeira vez.
Wardog não é tipo a Norn-san, fera-humana lobo, com orelha e rabo de lobo num corpo humano — é literalmente um homem-cachorro, da cabeça ao rabo. O corpo inteiro coberto de pelo, feito lobisomem. Não se transforma em humano, e é cachorro, não lobo, pelo visto.
A Aracne era uma mulher de cabelo preto curto, cortado reto acima da sobrancelha, tipo corte "princesa", bem fofinha, mas, das costas dela, saíam vários membros tipo aranha. E os olhos são vermelhos.
— «De qualquer forma, vão embora daqui! Se ficar gente como vocês por perto, o cheiro pode atrair fera mágica!»
— «Isso mesmo, isso mesmo! Vocês fedem a bicho!»
— «Se vocês forem atacados, o problema é de vocês, não nos arrastem junto!»
— «Como é…!»
A fera-humana leão, tentando avançar pra socar os homens ao redor da fogueira, foi contida por um jovem Wardog?, que segurou o ombro dela. Vendo o Wardog balançar a cabeça em silêncio, negando, a fera-humana leão baixou o punho, e, levando junto o homem alado e a mulher Aracne, se afastou do local.
— «Tsc, por que tem gente assim entre os candidatos. Melhor ficar quietinho em Zenoas ou Mismede. Critério de recrutamento fraco demais.»
Falou, com desdém, o homem que expulsou eles.
— «Como Brunhild acabou de nascer, deve faltar gente mesmo. Por isso usam qualquer um, fera-humano ou o que for. Ainda por cima, tem até demônio, isso já é demais.»
— «A capitã também é fera-humana, né. Se fera-humano pode virar capitã, dando um jeito de fazer mérito, talvez a gente também vire nobre logo, quem sabe.»
— «Idiota, se você vira nobre, eu viro primeiro-ministro. Afinal, até o rei era ex-aventureiro. Essa Ordem de Cavaleiros não parece Ordem de Cavaleiros de jeito nenhum, é só aparência.»
Como se contendo o riso, os presentes ali abaixaram a voz, mas meu smartphone captava a voz direitinho.
— «Não fala assim. Por isso mesmo que a gente entra pra transformar isso numa Ordem de Cavaleiros de verdade. Se demi-humanos assim tomam conta, é vergonhoso pra uma Ordem de Cavaleiros.»
— «Opa? Vai mirar posto de capitão, então?»
— «Quem sabe~. Se aumentar cavaleiro de verdade, demi-humano não vai fazer falta nenhuma. Se derrotar a capitã ou a vice-capitã num treino, dá pra virar novo capitão fácil, né? Afinal, no fim das contas, é competência que conta neste mundo.»
Gyahahahaha, rindo feito idiotas, os homens ali riam juntos. Em contraste, do lado de cá da tela, ninguém riu nem um pouco.
— …Não precisa desses aí.
— Concordo.
Diante do meu murmúrio, a Nicola-san, fera-humana raposa, fitava fixo os homens rindo na tela. A Nicola-san conhece a capitã Rain-san desde que chegaram neste país. Deve ter algo insuportável entalado no peito. Segurava o punho com força, encarando com raiva os homens na tela.
Ainda existe gente com esse tipo de equívoco, hein. Achar que usam demi-humano por falta de gente — que equívoco absurdo.
Demi-humanos e demônios raramente saem de Mismede ou Zenoas, e, sendo em número pequeno, existem regiões onde poucos humanos têm contato com eles.
Por isso, ainda existe, de vez em quando, gente que carrega imagens estúpidas tipo "demônio é aliado de fera mágica" ou "demi-humano é povo bárbaro".
Demi-humanos, no passado, chegaram a ser tratados como seres inferiores, alvo de desprezo. Dizem que já foram chamados de raça vil e bárbara, tratados como escravos numa era passada.
Hoje, com Mismede estabelecido, esse tipo de pensamento já é minoria.
Sobre demônio, quase não tem oportunidade de encontro, talvez seja discriminação nascida do medo do desconhecido, mas, de qualquer forma, gente assim não faz falta nenhuma pra nós.
De fato, somos peculiares. Se disserem que não parecemos Ordem de Cavaleiros, é isso mesmo. Mas e daí? O próprio rei já é alguém que nem parece rei. Tarde demais pra reclamar disso agora.
Se querem uma Ordem de Cavaleiros de verdade, que vão pra outro país. Que idiotice.
De fato, no começo, empurrei o comando da Ordem de Cavaleiros pra Rain-san e as outras duas por falta de gente, mas elas passaram por treinos árduos até sangrar, e, junto com os outros membros, construíram essa Ordem de Cavaleiros unida.
Desde que treinaram com a irmã Moroha, a força delas já se aproxima da Yae e da Hilda. Não é qualquer meio-talento que enfrenta a nossa capitã e vice-capitãs. Hoje, dentro da Ordem de Cavaleiros, elas com certeza estão no top 3, superando até o velho Baba e os outros. Essa força é atestada pela própria deusa da espada, a irmã Moroha.
Bom, gente que despreza só pela aparência, não precisamos disso aqui.
— Certo, então, vamos pedir pra esses aí se retirarem.
Diante da minha fala, todos os onis presentes assentiram em uníssono.