Capítulo 257 – A Rainha e a “Bênção da Vida”
O castelo de Elfrau parece ter magia de aquecimento aplicada, mantendo temperatura agradável. Por isso, mesmo o quarto de hóspedes onde fui guiado, apesar de bem espaçoso, não tem lareira nenhuma. Ar-condicionado e aquecimento de piso completo, é.
Já vi vários castelos, de Belfast, Mismede, Regulus, mas o castelo de Elfrau é mais bonito que qualquer um deles. Diferente de luxo, é uma decoração comedida, mas com trabalho e desenho detalhado, transmitindo um charme sem exagero.
Não é a beleza do ouro, mas uma beleza tipo prata branca, digamos.
Sentei no sofá indicado, e uma criada trouxe chá. Um recipiente pequeno com geleia vermelha, acompanhado de uma colherinha também pequena.
Será tipo chá russo? Se não me engano, li em algum lugar que aquilo não se coloca a geleia dentro do chá — coloca na boca, saboreia a geleia, e depois bebe o chá, apreciando junto?
Sem saber bem, tentei beber desse jeito, e o doce da geleia combinado com o amargor do chá ficou bem gostoso.
— Primeiro, agradeço por ter derrotado o Snorawolf. Mesmo sendo repentino, agradeço a rapidez com que resolveu. Claro, a recompensa será paga corretamente.
— Ah, sim. Muito obrigado.
Diante de Sua Majestade sentada em frente, curvando profundamente a cabeça, acabei respondendo de forma meio boba.
Vendo isso, Sua Majestade abriu um sorriso.
— É exatamente como a Relisha descreveu.
— Ué? Conhece a Mestra da Guilda, Relisha-san?
Ambas elfas, devem se conhecer razoavelmente. Aliás, por que uma elfa é rainha aqui? Será que posso perguntar isso.
Pensando nisso, coloquei a geleia na boca e bebi mais um gole de chá.
— Mais do que conhecida, é minha sobrinha. Filha da minha irmã mais nova.
Quase engasguei com o chá, mas engoli à força. Sobrinha!? A Relisha-san é da realeza de Elfrau!?
Percebendo minha surpresa, Sua Majestade riu baixinho.
— De fato, a Relisha é minha sobrinha, mas não tem relação com Elfrau. Deixa eu ver… Vossa Majestade estava se perguntando por que a Rainha de Elfrau é justamente eu, uma elfa, não é?
— Ah, sim, bom, isso mesmo.
Como não adiantaria esconder, assenti com sinceridade.
— Elfrau é um reino fundado há uns 1200 anos, mas, naquela época, esta terra não era um lugar que humano pudesse habitar. Mas, com a tribo Frau, que vinha fugida de um país destruído na época, e o poder de um aventureiro, essa terra foi desenvolvida, e o Reino de Elfrau foi fundado.
— Aventureiro?
— Sim. O nome desse aventureiro era El Cartelead. Primeiro rei deste país, e meu marido.
— O QUÊ!?
Marido!? Fundado há 1200 anos… não me diga que Sua Majestade a Rainha já vive desde aquela época!?
— O nome "Elfrau" vem do nome dele e da tribo que o seguiu. Depois que ele faleceu, a única pessoa capaz de sustentar este país era eu mesma, esposa dele e também aventureira. Com a recomendação do chefe da tribo Frau, assumi o trono como rainha. Desde então até hoje, continuo sustentando este país.
— Com todo respeito, entre Vossa Majestade e o rei, não tiveram filhos…?
— Não tivemos. Já pensei várias vezes que gostaria de ter tido.
Bom, se for elfo, espécie de vida longa, a questão de sucessão do trono deve dar pra adiar bastante mesmo. Igual ao Rei Demônio de Zenoas. Lá, tem herdeiro cabeça-dura, mas ao menos existe.
Aqui em Brunhild, será como fica isso. Mesmo se eu virar "divinizado" e perder a mortalidade, ficar no trono por milhares de anos também não parece certo. Talvez seja mesmo passar o trono pro filho normalmente e me aposentar em Babylon.
Ainda não sei de qual das nove esposas vai nascer o filho, mas. Claro, se o filho, ou até neto, governar mal, com certeza vou lá dar uma bronca.
— Governar um país por 1200 anos deve ser cansativo, hein…
— Não tanto assim. Originalmente, a tribo Frau é gentil, educada, e, sinceramente, boa gente, então, basicamente, tranquila. Por isso, não temos grandes conflitos, e outros países também nunca invadiram essa terra coberta de neve e gelo. Teve conflito pequeno, mas, sendo rainha há mais de 1000 anos, com o tempo, a gente se acostuma. E também, tenho gente competente ao redor que me apoia.
Essa pessoa, existindo desde a fundação do país, deve ser, digamos, o próprio símbolo do país, um dicionário vivo, uma existência absoluta.
Elfrau tem tamanho de território similar à Teocracia de Ramish, mas a maior parte é terra inabitável. Isso era efeito do espírito do gelo que habita esta terra, mas, negociando com esse espírito de gelo, Elfrau ganhou território habitável.
E a pessoa que negociou isso foi Sua Majestade a Rainha, na época de aventureira. Elfo tem afinidade excelente com espírito mesmo.
Se algo acontecer com Sua Majestade a Rainha, essa terra pode voltar a ser permafrost fechado igual há 1200 anos.
Mas, espírito, hein. Depois do espírito das trevas e do espírito da Grande Árvore, esse é o terceiro que conheço.
Talvez Sua Majestade a Rainha receba alguma proteção do espírito de gelo. Um dia, gostaria de conhecê-lo.
— Aliás, sobre aquele Snorawolf, será que dá pra vendê-lo pro nosso país?
— Ele?
— Sim. A pele do Snorawolf é de qualidade excelente, e dificilmente se consegue uma pele desse tamanho. Se possível, gostaria de comprar. Vamos pagar o preço justo de mercado.
— Sem problema. Deve ter mais demanda por aqui mesmo.
Por um instante, achei que fosse desperdício, mas, sinceramente, não preciso da pele agora mesmo. A carne do Snorawolf parece dura e não muito saborosa mesmo.
— Muito obrigada. Então, aguarde um pouco enquanto preparamos o dinheiro, e, nesse meio tempo, será que dá pra escolher a outra recompensa?
— Certo.
Ah, é verdade, tenho direito de escolher algo do tesouro real.
Guiado por Sua Majestade, que se levantou, entrei no tesouro subterrâneo, onde tinha, organizado e alinhado em prateleiras, tanto tesouro obviamente valioso quanto coisas que faziam pensar "por que isso tá aqui?".
Fui perguntando um por um sobre o que me chamava atenção, mas, sinceramente, não tinha nada que eu quisesse de verdade. Afinal, no "Armazém" de Babylon, tem coisas de qualidade muito mais alta que aqui, aos montes.
Achei que ia pegar algo qualquer e ir embora… e, então, "aquilo" entrou no meu campo de visão.
— Isso é…
À primeira vista, um machado comum. Não, machado de guerra. Talvez usasse Hihi'irokane como base metálica, tinha um tom avermelhado por todo o corpo.
Mas não foi isso que chamou minha atenção. Foi o que estava gravado na lateral daquele machado.
Era o mesmo pictograma encontrado na antiga capital de Belfast. Parecido, mas ligeiramente diferente da Escrita Secreta de Artema. Sem dúvida nenhuma.
— Vossa Majestade, isso é…?
— Ah, isso foi presenteado por certa tribo, logo após a fundação deste país.
— Certa tribo?
— Se não me engano, se chamavam tribo Arcana. Se autodenominavam "Povo Vermelho". Consideravam o vermelho uma cor sagrada.
"Povo Vermelho". Confirmado. O prefácio daquela ruína, "Nós, vermelho…", deve continuar como "Nós, Povo Vermelho".
— [Reading] / Escrita Secreta de Artema.
Ativei magia de tradução discretamente. Crepúsculo… julgar? Não entendi bem. Achei que, sendo texto curto, daria pra entender, mas não deu. Aliás, quando tentei traduzir como "Escrita Secreta Arcana", não deu leitura nenhuma. Provavelmente, não existe essa nomenclatura.
— Esse machado tem nome, ou algo assim?
— Se não me engano, era "Julgamento do Crepúsculo". Parece ter o efeito de multiplicar a força física de quem o segura.
"Julgamento do Crepúsculo". Ah, então é assim que traduz. De fato, parece uma arma útil, mas não é muito necessária pra mim.
— Essa tribo Arcana, será que os descendentes ainda existem hoje em dia?
— Como será? Naquela época, eram uma tribo errante… Se encontraram algum lugar pra se estabelecer, não seria estranho que os descendentes ainda existam.
Hmm. Pena, mas vou me contentar em saber pelo menos da existência do "Povo Vermelho".
— Vai querer esse machado então?
— Ah, não, foi só curiosidade… o que é esse aqui do lado?
Peguei o que parecia um pingente pendurado ao lado do machado. Uma pedra em formato de ovo, de uns 3 centímetros, brilhando em cores do arco-íris. Não era pedra preciosa tipo diamante, mais parecido com pérola.
— Isso é um artefato mágico chamado "Bênção da Vida" — quando usado por uma mulher, tem o efeito de aumentar a probabilidade de conceber um filho entre casal. No meu caso, com meu marido, por algum motivo, não teve efeito, mas, quando emprestei a casais de nossos vassalos, a taxa de gravidez foi bem alta. Talvez precise de alguma aptidão específica.
Hmm. Talvez o motivo de Sua Majestade a Rainha não engravidar fosse alguma questão do lado do falecido rei.
Mesmo assim… isso, de certa forma, é um item dos sonhos? Casais que querem filho devem desejar muito isso. Como parece só aumentar a probabilidade, não deve ser garantia absoluta, mas.
Se isso fosse vendido normalmente, pareceria golpe suspeito, algum tipo de fraude, mas tem energia mágica canalizada direitinho, sem dúvida é um artefato mágico. Só não sei bem o grau de eficácia.
— Ouvi dizer que o Príncipe tem muitas noivas. Melhor gerar herdeiro logo, não acha?
Talvez por experiência própria, Sua Majestade a Rainha disse isso.
Nnnh… Não me diga que, no futuro, minha prole numerosa é culpa desse item…
Encarei o pingente diante de mim. Não, não é que eu ache ruim que meus filhos nasçam, e realmente quero ter pelo menos um filho com cada uma delas, mas.
— Vai querer esse então?
Nnnnnnh…
— E aí, é isso que eu recebi.
— Ora, ora.
O Duque Ortlinde observava com interesse a "Bênção da Vida" colocada na mesa.
No fim, recebi isso do tesouro de Elfrau, e vim direto pra cá, mansão do Duque Ortlinde, no Reino de Belfast.
— Então, você tá me emprestando isso?
— Sim. Sua Majestade a Rainha disse pra eu fazer o que achasse melhor. Primeiro, quero testar o efeito.
— Hahaha, então eu sou a cobaia, hein.
Bom, sinceramente, é isso mesmo.
Se a Sue vier morar comigo como noiva, essa casa vai ficar completamente sem herdeiro. Não é bem expiação, mas não seria má ideia.
— Ainda tem daquele afrodisíaco que te entreguei outro dia, não é?
— Ah, ainda tenho. Dei alguns comprimidos pra um conhecido. Todos ficaram surpresos.
Faz sentido mesmo. É coisa capaz de deixar até um velho murcho animado de novo. Ao contrário, se der pra um jovem, chega a dar medo de exagerar. Será que aguentaria três dias e três noites seguidas.
— Não vai vender isso?
— Por ora, não pretendo.
Mesmo tendo fundado o país há pouco tempo, ficaria estranho ter reputação de "afrodisíaco é de Brunhild". Imagem ruim. E se falarem "Principado Erótico"?
— Bom, por ora, vou emprestar isso. Parece que, se a esposa usar, tem efeito. Dizem que não tem efeito colateral estranho nenhum, então vamos observar por um ano mais ou menos.
— Mas será que tudo bem, sendo tesouro de Brunhild? Testar não precisava ser justamente conosco…
— Hmm… sinceramente, eu mesmo duvido se é verdade. Ainda não chega a ser "tesouro" mesmo. Se a Sue ganhar um irmãozinho ou irmãzinha, aí sim vou considerar tesouro. E também, sempre fui bem cuidado pela família ducal Ortlinde.
Bom, mesmo que aconteça, não teria como provar que foi graças a esse item. Será mesmo item fraudulento? Nnnh. Se dissessem "com certeza absoluta", seria diferente, mas.
Enquanto observava o duque se alegrando, fiquei pensando nisso.