Capítulo 259 – Os Deuses e o Banquete
— Então, o local é mais ou menos onde?
— Foi mais ou menos por aqui. Como desapareceu rápido, não dá pra saber o local exato.
Ao voltar pro castelo, chamei o mapa no jardim interno e pedi pra irmã Karen identificar o local onde sentiu o poder divino. O lugar que a irmã apontou era na direção sudeste daqui, atravessando a Teocracia de Ramish, dentro da Grande Selva que chega perto do Reino de Lyle.

Hmm, área ampla, hein. Será que dá pra encontrar. Ou melhor, pensando bem, a irmã Moroha também esteve na Grande Selva antes. Será que a Grande Selva tem algum marco que atrai descidas de deuses?
— Ou melhor, essa pessoa… ou deus, né… pode usar poder divino neste mundo?
— Precisamente falando, a regra é "não interferir neste mundo usando poder divino". Então, tipo, aplicar "humanização" em si mesmo com poder divino tá tudo bem, e, contanto que não use o poder divino pra interferir, não tem problema. Existem várias brechas.
Bom, as irmãs também só usam poder divino quando envolve deus subordinado mesmo. Aliás, a irmã Moroha chega a ser suspeita se realmente não usa, de tão invencível que é.
— Provavelmente, do lado de lá também tentaram sentir poder divino, mas, diferente de antes, o poder divino do Touya-kun já tá bem contido, então talvez não tenham conseguido localizar aqui.
Ugh. Isso significa que preciso ir buscar? Não tô muito animado com isso. Será que não precisava ir buscar… Já basta gente incômoda aumentando… AAII!
— Tá pensando em algo grosseiro de novo, né?
— Itaita, para, para, deixa!
A irmã Karen beliscou minha bochecha. Essa perspicácia dela é quase divina, hein. Bom, é deusa mesmo.
— O que tá fazendo?
— Ah, Moroha-chan.
Enquanto eu pensava nisso, outra irmã apareceu de algum lugar. Se a irmã Karen sentiu o poder divino, faz sentido a irmã Moroha sentir também.
— Parece que a irmã Karen também sentiu.
— É isso mesmo. Tava pensando se vamos buscar agora.
— Bom, não me incomodo de ir encontrar. Fico curiosa em saber quem veio. Só espero que não seja deus destruidor.
Perigoso demais, isso!? Se for alguém assim, quero pedir pra voltar imediatamente!
— Por precaução, sem permissão do Deus do Mundo, não conseguem descer, então acho que não vem deus inadequado, mas. Será deus da forja, ou deus da agricultura, algo assim?
— Nnnh… deus da forja e deus da agricultura ainda vá lá, mas deus comercial… é incômodo, viu.
— A irmã Karen não se dá bem com deus comercial mesmo, né.
Ouvindo essa conversa das duas sobre deuses, parece que existem deuses que se dão bem e deuses que não se dão bem entre eles mesmos.
— No meu caso, gostaria que viesse deus da espada, ou deus da lança, ou deus da guerra. Ficaria menos entediada. Ultimamente, o Touya-kun não me acompanha mais.
Não, poupa, por favor. Servir de parceiro de treino da irmã Moroha me deixa exausto de verdade. A ponto de ficar inutilizado o dia inteiro. Porque ela vem cortando a sério mesmo! Aliás, em duelo só de espada, meu placar é 52 derrotas em 52 partidas, alguma objeção?
Não conheço bem deus da espada ou deus da lança, mas devem ser do mesmo tipo, com certeza. E ainda por cima, ser feito enfrentar mais alguém desse tipo… não, se servir de parceiro pra irmã Moroha, seria bom pra mim… será?
— Bom, tanto faz. De qualquer forma, vamos até o local. Se eu liberar poder divino lá, deve ter alguma reação.
— É verdade. O outro lado também deve conhecer o Touya-kun. Provavelmente, tá tudo bem assim.
Sem demora, abri [Gate] e saí do lado do Reino de Lyle. Já vim até aqui pra derrotar aquela fera gigante, o escorpião Scorpinas. Daqui, seguimos rumo à Grande Selva.
— As irmãs conseguem voar?
— Não é que não consiga, mas precisa usar poder divino, então é meio chato.
Respondeu a irmã Moroha. Ir andando até a Grande Selva também seria chato… ah, será que uso aquilo que encontrei outro dia no "Armazém".
Tirei "aquilo" guardado no [Storage] e estendi no chão. Tamanho de uns quatro tatames e meio.
— Touya-kun, o que é isso?
— Um tapete mágico, digamos. Bom, tanto faz, sentem, sentem.
Sentei as duas, ainda confusas, no tapete, e sentei na frente delas também. Então, o tapete flutuou de leve, subindo uns 1 metro.
— Certo, vamos partir.
O tapete começou a avançar devagar. Aliás, assim que o tapete se move, uma barreira se forma ao redor, então não corre risco de cair sem querer. Por isso, também não recebe vento diretamente. De quebra, já apliquei [Invisible], então ninguém ao redor percebe.
— Hee. Isso é bem confortável.
— O problema é que só dá pra voar por muito tempo se o operador tiver bastante energia mágica.
Como as duas já se acostumaram, aumentei altitude e velocidade. Claro, sem fazer manobra acrobática.
Por fim, chegamos acima da Grande Selva, e paramos o tapete, parado no ar.
— Vou liberar um pouco de poder divino por aqui.
Ativei [Divine Release] de leve, e, da floresta distante, um poder divino parecido veio de volta. Será que perceberam a gente e estão indicando a própria posição?
— Hmm?
— Ora?
Sentadas atrás no tapete, a irmã Karen e a irmã Moroha fizeram uma expressão meio de dúvida.
— Aconteceu algo?
— Não, é que esse poder divino agora há pouco…
— Senti mais de uma presença.
Como assim? Eu não consegui perceber até esse ponto… Então, o quê? Tem mais de um deus ali?
— O que isso significa?
— Sei lá… De qualquer forma, indo lá, entendemos. Touya-kun, avança!
Opinião meio vaga, mas, de fato, indo lá deve esclarecer. Por ora, avancei o tapete voando em direção onde senti o poder divino.
Vi alguém num espaço aberto da floresta. Não, várias pessoas.
Ao descer perto dali, ouvimos música animada. Risada divertida e cheiro gostoso de comida.
— …Como assim isso?
— Ora, ora…
— Aacha… né…
Banquete. Isso mesmo, banquete.
Um jovem tocando um instrumento parecido com bandolim dentro da floresta, uma menina bebendo com rosto vermelho, uma mulher assando carne sobre fogueira, e um homem de meia-idade comendo fruta e noz com sorriso no rosto.
O que é isso?
Descendo do tapete, olhei pra irmã Karen atrás de mim.
— Deus da música, deus do vinho, deusa da caça e deus da agricultura.
Opaa!? Quatro deuses desceram!?
Enquanto eu ficava atônito, a menina, percebendo nossa presença, acenou o braço com força.
— Ooooh! É a deusa do amor e a deusa da espada! Vamos beber junto!
Uma menina de aparência mais nova que a Sue, parecendo uns 7 anos, cabelo azul comprido e translúcido, balançando uma garrafa grande que parece só uma garrafa de saquê. Ei, isso tá tudo bem!? Essa criança é a deusa do vinho!?
Quem segura aquele bandolim deve ser, claro, o deus da música. Um jovem loiro bonitão, uns vinte e poucos anos. Sorri gentilmente pra nossa direção, mas a mão que toca o instrumento nunca para.
Será que essa pessoa expressa sentimento pelo instrumento? De fato, mudou o estilo da música assim que percebeu a gente.
O homem de meia-idade comendo fruta parece sempre sorrindo. Olhos fininhos. Ar simples e cabelo castanho discreto, presença tranquila. Esse deve ser o deus da agricultura.
Se for assim, a mulher restante, de rabo de cavalo verde, deve ser a deusa da caça. Ao lado dela, tem um arco feito às pressas.
Tá assando carne, será presa caçada por ela mesma? Antes disso, que carne enorme de mangá é aquela, de que animal e que parte é isso. Fico curioso!
— Vocês, por que desceram todos assim, reunidos? Já é demais até pra assunto de deus subordinado, não acha?
— Nyaa, não é isso. Nossa área não é deus subordinado.
Mastigando carne assada, "mogu-mogu", a deusa da caça de rabo de cavalo respondeu à irmã Karen. Que pessoa… deusa, selvagem. Não é deus subordinado? Como assim isso?
— Nosso encargo é você. Mochizuki Touya-kun.
— Eu!?
O deus da agricultura, de olhos fininhos, senh… não, o senhor, apontou o dedo pra mim. Sem perceber, também apontei pra mim mesmo.
— Como assim, o Touya ser o "encargo" de vocês?
A irmã Moroha, em meu lugar, verbalizou a dúvida.
— Sim. Ele, mesmo sendo mortal, recebeu o poder divino do Deus do Mundo, e está prestes a se divinizar como parente dele. Como sênior, nosso trabalho é dar suporte e acompanhamento pra que esse novo deus jovem trilhe corretamente esse caminho…
— É o que decidimos que seria, agora há pouco! Viemos pra brincar!
Ei ei! Deusa do vinho, você contou tudo!
O quê? Vocês desceram à Terra usando eu como desculpa? Deuses ficam tão entediados assim!?
Ouvindo isso, a deusa da caça riu, "kekeke".
— Ahh, faz várias dezenas de milhares de anos que não descemos à superfície, então mesmo "humanizados", o corpo ainda não se acostumou. Cacei uns dois, três feras mágicas, tentei — caçar sem usar poder divino também é interessante, viu.
— Eu também! Faz tempo que não bebo bebida que não seja vinho sagrado! Fico bêbada! É maravilhoso!
— Eu também sinto de novo, depois de um tempo, a bênção da terra. Realmente delicioso.
Concordando com os três, o deus da música tocava o instrumento animadamente. Esse aí não fala mesmo!?
— Que absurdo, hein. Como o Deus do Mundo permitiu isso?
— Ah, não, quando falei "quero ir", ele disse "tudo bem", com bastante facilidade. De fato, ele pediu pra cuidar direitinho desse rapazinho aí.
— Não me chame de rapazinho, por favor…
Nnnh. Talvez Deus tenha tido boa intenção, mas todos esses aqui parecem gente complicada, cada um com sua peculiaridade…
— Calma, calma, não se preocupa não! Vamos, bebe, bebe!
A deusa da caça empurrou pra mim um copo de madeira com bebida. Não é que eu não beba, mas que insistência forçada!
— Ou melhor, de onde conseguiram essa bebida?
— Hã? Ajudamos uma tribo sendo atacada por fera mágica na floresta, e deram isso de agradecimento. Sou deusa do vinho, mas o vinho do mundo celestial não tem impureza nenhuma, então é meio sem graça. Essa bebida daqui é ótima! Tem um toque afiado, tipo "esse é o meu sabor, tem alguma objeção?"!
Kekeke, riu a deusa do vinho. Será que já tá bêbada? Difícil de saber. Como a aparência é de criança, fico preocupado. Rosto tá vermelho, será que tá tudo bem!?
A deusa do vinho, cambaleando, veio até mim e se agarrou na minha perna. O que é isso?
— Touya-onii-chan~. Quero petisco. Lula seca, edamame, yakitori~. Você tem, né~?
Ugh. Como sabe disso! De fato, tenho no [Storage]! Isso é poder divino mesmo, é!?
— Ooh, ótimo~. Se tiver comida, tira aí. Já tava meio insatisfeita. Todos os deuses juntos, sem formalidade, vamos fazer festa.
— Boa ideia. Também gostaria de provar o que essa terra produz.
Concordando com a fala da deusa da caça, o deus da agricultura assentiu, e o deus da música tocou "pororoloron" no instrumento. A irmã Karen e a irmã Moroha soltaram um suspiro resignado.
— Ah, bom, não tem jeito.
— Já foi, já foi. Touya-kun, se tiver comida, tira, por favor.
Seguindo o pedido das irmãs, fui colocando comida e bebida do [Storage] na mesa que também tirei junto.
A deusa da caça devorou com gosto, o deus da agricultura saboreou devagar, a deusa do vinho bebeu usando de petisco, cada um terminando a comida da superfície. Só o deus da música não largava o instrumento, tocando uma melodia triste, mas, quando a deusa do vinho, com pena, enfiou um yakitori na boca dele, o tom da música ficou alegre. Será que aquilo realmente tá ligado à emoção dele? Ou melhor, larga o instrumento.
Depois de um tempo, as irmãs também começaram a ficar bêbadas, e virou banquete de verdade mesmo. Banquete dos deuses.
O que é isso, afinal?
— O que tá acontecendo, afinal?
— Ah, é que eles também trabalharam duro por muitos anos. Achei que era hora de dar férias.
Este mundo não é destino de viagem de relaxamento dos deuses, ou é?
Afastado do grupo de deuses que ainda continuava o banquete, liguei pro Deus do Mundo, e essa foi a resposta que veio.
Achei estranho tantos deuses descerem assim tão fácil, mas, pensando na mitologia da Terra, os deuses de lá também costumavam descer com bastante frequência.
— Bom, acho que não vão atrapalhar, então conto com você. Talvez dê trabalho, mas.
Ele disse "trabalho" agora!? Disse, né!? Então vai dar trabalho mesmo!?
— Dizendo isso, eventualmente, seu grau divino vai ficar acima do deles. Melhor se acostumar desde já, né?
De alguma forma, imaginei a cena de um filho do dono, futuro presidente, sendo jogado como novato numa empresa dirigida pelo próprio pai, com "acostuma com o trabalho!" gritado nele.
Desliguei a ligação e soltei um suspiro profundo. O que fazer, hein~…
— Touya-onii-chan! Não fica de mau humor num lugar desses, vem beber com a gente! Vinho é a vassoura que varre a preocupação, esquece as tristezas do mundo mortal, e, primeiro, um copo!
Nyahahaha, a deusa do vinho se agarrou em mim. Que péssimo comportamento bêbado, essa menina! E, ainda por cima, sendo puxado com força. Que força absurda!? Não me diga que é aquele estilo de luta que fica mais forte quanto mais bêbado!?
Levado à força até a mesa, a irmã Karen despejou bebida sem parar no meu copo.
— E entãoo~? Até onde você chegou com aquelas garotas, Touya-kun~? Conta pra irmãzinha aqui~.
A irmã Karen, rosto vermelho, sorria com um ar malicioso.
— …Tá bêbada, né, irmã Karen?
— Não tô bêêbada não~. Nada bêbada de jeito nenhum~. Muhh.
Tá bêbada sim! Completamente bêbada! Toda bêbada fala isso mesmo. E, ainda por cima, já tá até enrolando a fala.
Tentando pedir ajuda pra irmã Moroha, ela já tava desabada na mesa, dormindo. Que fraca!? A deusa da espada, fraca pra bebida assim!?
Bom, é bem melhor do que ficar bêbada brandindo lâmina por aí, mas gostaria que ela desmaiasse só depois de me salvar.
A deusa do vinho bebia sem parar, a deusa da caça ria alto, o deus da agricultura saboreava a comida com prazer, o deus da música continuava tocando instrumento. Nenhum aliado.
Aaah, mooh, agora entendi bem o sentido de "não mexa com deus que não te aborrece".