Capítulo 260 – Os Novos Parentes e a Magia de Canto
Decidimos tratar os novos deuses como meu tio e os filhos dele, ou seja, primos. Afinal, seria complicado aumentar ainda mais o número de irmãos.
Bom, chamar de "irmão" alguém com aparência de quase quarenta anos, o deus da agricultura, causaria estranheza, e "pai do rei" também seria complicado.
Por isso, ficou decidido: tio, e três filhos dele.
Tio, Mochizuki Kōsuke. (Deus da Agricultura) Filho mais velho, Mochizuki Sōsuke. (Deus da Música) Filha mais velha, Mochizuki Karina. (Deusa da Caça) Filha mais nova, Mochizuki Suika. (Deusa do Vinho)
Em termos de idade, só a deusa do vinho seria mais nova que eu, então o tratamento ficou: tio Kōsuke, irmão Sōsuke, irmã Karina, e Suika.
Antes mesmo de "ser meu parente", todos ficaram surpresos com a Suika completamente bêbada, mas a desculpa que ela deu foi algo tipo "tenho um ataque misterioso se não beber", parecido com dependência alcoólica — mas todo mundo acreditou mesmo assim.
Depois, perguntando pra Leen, parece que existem até crianças de anões que já bebem nessa idade normalmente. A Suika não é anã, mas, como não tem mãe, talvez tenham presumido que a mãe fosse anã.
— De novo aumentou de uma vez, hein.
— Desculpa. Aconteceu muita coisa.
Caminhando pela estrada em direção às terras agrícolas do leste do castelo, conversava com a Yumina ao meu lado.
A Yumina e as outras já sabem que eu e as irmãs não temos laço de sangue, e que eu vim de outro mundo. Devem entender que esse tio e primos novos também não significam "laço de sangue" real.
— Então, quer dizer que… o tio e os outros também são como a irmã…
— Ah… bom, cada um tem algo em que se destaca. Não é área de combate, mas… a irmã Karina, a habilidade com arco dela é absurda.
Afinal, é deusa caçadora que nunca deixa presa escapar. Além do arco, deve usar armadilha, arma de fogo, facão, machado também… ué? Não seria versátil demais, mais até que a irmã Moroha, que só usa espada? Não, em força pura, a irmã Moroha, especializada em combate, deve ser mais forte.
Os quatro já se acostumaram rápido com este país, e começaram a fazer o que queriam fazer. Dizem que é pra me ajudar, mas vim conferir hoje o que estão fazendo, exatamente assim.
— Ah, aquele ali não é o tio?
Na direção que a Yumina apontava, vi o tio Kōsuke, o deus da agricultura, cravando a enxada na plantação. Chapéu de palha, toalha no pescoço, roupa de trabalho agrícola, suando na testa enquanto trabalhava. Combina demais.
Não, é claro que combina, sendo deus da agricultura.
— Ei, Touya-kun, Yumina-san. Boa tarde.
Cumprimentou com o sorriso de olhos fininhos de sempre. Como direi… discreto.
— Tá cultivando a terra pessoalmente? Não seria melhor usar gente…
— Não, não, não é aquele negócio de "quem não trabalha não come"… mas, sim, eu mesmo quero fazer isso. Abrir terreno, desenvolver terra agrícola, e isso virar novo sustento pro povo — não é maravilhoso?
Dizem que, se usasse poder divino, conseguiria chegar até a colheita num instante, mas, se fizer assim, não sente carinho pela terra, dizem que fica sem graça. Aliás, é proibido usar mesmo, então não teria como usar de qualquer jeito.
Mesmo assim, sendo deus da agricultura, o conhecimento dele parece útil até neste mundo.
Vi ele espalhando algo agora há pouco, e perguntando, era osso de fera mágica triturado fino. Explicou algo sobre a energia mágica contida no osso de fera mágica, mas não entendi bem. Só a Rakushe, Alraune, colocada como assistente dele, parecia bem impressionada.
Parece que ele também vai olhar não só o campo seco, mas o arrozal também, então, sinceramente, é uma grande ajuda. Mas a cena é discreta demais, chega a fazer duvidar se é mesmo divindade.
Ao voltar pra cidade depois da inspeção agrícola, a praça central com a torre do relógio parecia meio agitada.
— Será que aconteceu algo?
Ao ir até lá com a Yumina, ouvimos uma música animada. Não me diga…
Abrindo caminho entre a multidão, diante da fonte da praça central, vi o deus da música, ou melhor, o irmão Sōsuke, tocando esplendidamente uma guitarra.
Ou melhor, aquela guitarra é um dos instrumentos que fiz a pedido da Sakura. Será que trouxe do castelo?
Empolgado depois de fazer o piano, resolvi tentar fazer também flauta, trompete, castanhola, e todo tipo de instrumento. Mas ficaram sem uso, deixados no dormitório da Ordem de Cavaleiros, sem ninguém praticar. Alguns membros até demonstraram interesse e disseram que queriam praticar.
Assim que a apresentação do irmão Sōsuke terminou, uma salva de aplausos veio da plateia. Tinha até quem chorava de emoção. Tanto assim?
— Que apresentação incrível!
— Bom, ninguém deve conseguir superar aquela apresentação…
Neste mundo, comparado ao nosso, música não se espalhou tanto como algo popular, então não tem jeito mesmo. Se vender flauta doce simples, guitarra, gaita, talvez se espalhe mais. Talvez seja boa ideia pedir pro irmão Sōsuke ensinar música na escola também.
Deixando o irmão Sōsuke, que voltou a tocar, fomos em direção à rua onde fica a Guilda. Ao lado da Guilda, tem um bar, e, falando em bar…
— O que é isso, afinal…?
Na entrada do bar, vários homens bêbados caídos.
Desviando desses homens e entrando na loja, como já esperava, a Suika estava bebendo numa mesa do bar.
Na cadeira à frente da Suika, um homem desmaiado, ainda segurando o copo com força.
— Ah, Touya-onii-chan! Onii-chan também quer competir bebida comigo~. Se eu ganhar, a conta é sua~.
— Quem vai competir isso.
Falei isso pra Suika, que erguia o copo rindo, "kekeke".
Dentro da loja, tinha mais clientes bêbados desmaiados, e funcionários arrastavam eles pra fora, enfileirando. Todos esses aqui, foram derrubados na bebida pela Suika? Ou melhor, desde quando ela tá bebendo?
— Bom, bom, primeiro três copos de boas-vindas…
— Não vim beber, viu. Já chega, para com isso.
— Auu.
Tirei a garrafa que a Suika segurava. Entre os quatro deuses que vieram dessa vez, essa aqui deve ser a de personalidade mais problemática.
Peguei a Suika pelo colarinho e pedi desculpa ao dono do bar. Mesmo sem graça, parece que teve lucro, então respondeu com sorriso.
— Sinceramente… não bebe tanto assim, tá?
— Fazia tempo, então acabei exagerando um pouco~. Normalmente bebo com mais calma, viu~? Yumina-chan, vem beber junto no castelo~?
— Não, eu não bebo…
A Yumina agitou a mão, com sorriso forçado.
Sinceramente, achei que essa loja também tinha problema em servir bebida pra alguém com aparência de criança assim, mas parece que a Suika usou meu nome por conta própria.
Perguntei por que acreditaram na palavra de uma menina suspeita, e parece que ela trouxe um membro da Ordem de Cavaleiros do posto próximo pra confirmar. Preciso pedir desculpa pra esse membro depois…
— Ora, não são o Touya e os outros.
Ao sair do bar, a irmã Karina saiu da Guilda vizinha ao mesmo tempo.
Essa aqui, se registrou rápido na Guilda de Aventureiros e começou a atuar como caçadora. Parece que faz principalmente pedidos de extermínio, sem entrar em masmorra. Dizem que não tem intenção de caçar algo que não dê pra comer.
Dessa vez também deve ter cumprido algum pedido. Na mão, pendurava uma ave selvagem grande.
— Que bom que encontrei vocês. Esse aqui é o jantar de hoje. Passa pra chef Clara, por favor.
— Certo.
De fato, graças à irmã Karina trazer várias presas diferentes, a mesa recentemente ficou mais variada. Recebi a ave da irmã Karina e guardei no [Storage].
— Um dia desses, quero caçar presa bem maior, viu. Aqui parece que não tem muita coisa assim, então, algum dia, me leva a outro território de caça.
— Certo. Vou tentar pedir pra Mismede.
Brunhild não tem fera mágica de porte tão grande assim. Mismede deve ter bastante. Fica perto da Grande Selva também.
De qualquer forma, entre os quatro, exceto a Suika, todos parecem que vão ajudar de várias formas.
— Muum. Senti que pensou algo grosseiro sobre mim, né?
Perspicaz. Assim como a irmã Karen, deus não deve ser subestimado mesmo.
— Rei-sama, o que é isso?
— Isso se chama microfone, e serve pra amplificar som. Bom, não é só isso.
A Sakura inclinou a cabeça, olhando o microfone de pedestal colocado à frente.
Pra fazer um pequeno teste no campo de treino da Ordem de Cavaleiros, chamei a Sakura e a escolta dela, a Elfa das Trevas Spica-san.
— Deixa eu ver, então… primeiro, música animada deve ser mais fácil de entender. O alvo do microfone tá ajustado pra Spica-san, então, será que dá pra ficar de pé por ali?
— Sim. Fico bem aqui?
Segurando espada e escudo especial, a Spica-san se afastou de nós e ficou de pé no centro do campo de treino.
— Certo, então Sakura, tenta cantar alguma música animada. Ah, canaliza energia mágica no microfone também.
— …Não entendi bem, mas tá bem.
A Sakura assentiu com sinceridade e começou a cantar diante do microfone de pedestal. Ué, essa música?
Um clássico famoso de pop francês no Japão… bom, é animada, sim.
Se não me engano, o "Chérie" dessa música não é nome de mulher, e sim, em francês, significa "pessoa querida", né?
— Certo, Spica-san, será que dá pra se mover?
— Sim. Ué!?
Só andando um pouco, ela se moveu com velocidade absurda. A própria Spica-san, que correu, ficou surpresa.
Parando e saltando, ela saltou quase 3 metros de altura.
— O corpo tá incrivelmente leve! Como se tivesse crescido asas!
Ignorando a Spica-san pulando de um lado pro outro, pedi pra Sakura parar de cantar.
— Ah.
A velocidade de corrida da Spica-san caiu visivelmente. Hmm. Como imaginava, só funciona enquanto ela canta. E também, confirmado que o efeito muda conforme o ritmo da música.
— Rei-sama, isso é…
— É um tipo de magia de encantamento. Batizei de magia de canto. Usando a energia mágica e o canto da Sakura como catalisador, dá pra aplicar magia de suporte em área ampla. Não sei ainda quais efeitos existem, só testando pra descobrir, mas, sendo magia de suporte pra aliados, não deve colocar a vida do adversário em risco.
Dependendo do uso, talvez até a apresentação do irmão Sōsuke consiga gerar efeito.
— Certo, agora canta uma música que a Sakura gosta.
— Certo.
A Sakura foi cantando, uma atrás da outra, pra Spica-san. Mas, como direi, escolha de repertório meio nostálgica, hein… Bastante música estrangeira, mas principalmente dos anos 60 a 80. Bom, meu gosto musical, especialmente música estrangeira, vem do meu avô, então não tem jeito mesmo. Deve ter algo que tocou o coração da Sakura.
Sobre os efeitos da magia: aumento de ataque, aumento de defesa, aumento de agilidade, aumento de resistência mágica, encantamento elemental — mais ou menos isso. Deve ter vários outros efeitos ainda, mas, por hoje, tá bom assim.
O ponto forte dessa magia é que o efeito alcança qualquer área onde a canção chegue. Não importa quantos alvos tenha, o consumo de energia mágica é sempre equivalente a uma música. Só que, quando a música termina, o efeito se desfaz, então, se cantar continuamente, a carga recai sobre a Sakura — esse é o problema.
Melhor preparar um item com efeito de [Refresh] aplicado.
Atualmente, a Doutora tá construindo uma máquina equipada com a função de ativar essa magia. Como funciona até através de rádio comunicador, o ideal seria transmitir como música de fundo.
Mas o problema é que não dá pra separar efeitos — tipo, formação da direita recebe aumento de ataque, formação da esquerda recebe aumento de defesa. Também parece que gravação não tem efeito nenhum.
Observando a Sakura continuar cantando animadamente, fui refletindo sobre várias possibilidades.