Capítulo 269 – O Rei dos Escravos e a Reescrita
Gatan-goton, a carruagem avançava pela cidade da capital do Reino de Sandra, Curei. O caminho pavimentado dificilmente pode ser chamado de bom, mas a suspensão especial da Rosetta parece absorver bem esse impacto.
A paisagem urbana visível pela janela da carruagem, sinceramente, parece bem antiquada. Aqui e ali, dava pra ver paredes descascadas e telhados desmoronados. Misturado com casas de tijolo avermelhado-marrom, tinha até casa de madeira tipo barraco improvisado.
Aqui, parece que é a área residencial da classe baixa, área onde moram os chamados cidadãos de segunda classe.
— As pessoas não parecem muito felizes.
— Bom, vivendo assim, hein…
O jovem cavaleiro novato Lanz, sentado à minha frente, olhando pra fora da janela do mesmo jeito, comentou.
Ao avisar o primeiro-ministro Kōsaka-san que eu ia até Sandra como emissário, ele me disse pra levar o Lanz como vigia. Sem confiança nenhuma em mim, hein… Não que eu vá causar confusão, a menos que provoquem uma briga séria comigo.
Parece que, na verdade, queriam pôr a vice-capitã Nicola-san junto, mas seria estranho ter alguém de posto mais alto que emissário como escolta, então acabou sendo o Lanz.
Além dele, tem mais quatro, mas todos estão na outra carruagem que vem atrás.
Podia ter ido de uma vez com [Fly] ou algo assim, mas, sendo oficialmente "emissário de Brunhild, encarregado de entregar carta de protesto da tribo do rei da árvore", vim de forma comum assim até aqui.
Até fora da capital, vim de [Gate], mas.
A Pam, que confiou a carta de protesto a nós, com ar bem furioso, disse pra dar um tapa na cara do rei de Sandra sem cerimônia! Mas, se as tribos de lá invadissem assim, com certeza viraria guerra. Pessoalmente, a Pam deve querer invadir também, mas, como chefe de tribo, tem posição a manter.
— De fato, tem bastante escravo mesmo. Como Vossa Majestade disse, muitos parecem não receber comida suficiente, e estão emagrecidos ao extremo. Só os escravos de combate parecem receber comida razoável.
— Bom, sendo escravo pra lutar, não tem jeito, se estiver com fome não consegue lutar. Em troca, a vida deles serve de escudo.
Mesmo cidadão de segunda classe parece poder possuir escravo, e dava pra ver alguns pela cidade. Escravo de aparência robusta deve ser escravo de combate, tipo segurança de loja.
Entre os escravos, tinham demi-humanos também, tipo fera-humano. Talvez tenham sido sequestrados de algum lugar também. Todos vestiam roupa surrada e maltrapilha, e os braços e pernas visíveis eram magros e desgastados.
— Aliás, Lanz, "Vossa Majestade" é perigoso. Nunca se sabe onde alguém pode ouvir.
— D-desculpe. Então, como devo chamar…?
Percebi, diante da pergunta encabulada do Lanz, que nem tínhamos decidido o nome pra eu usar. Nnnh.
— Vou me chamar de "Doran". Nome do pai da Mika-san.
— Es-espera, Vossa Majestade!? Eu e a Mika-san não temos nada, viu!
O Lanz corou e ergueu a voz. Ku-ku-ku, já sei bem que você continua frequentando a "Lua de Prata" sem parar! Principalmente por informação da irmã Karen.
Bom, chega de provocar por hoje. Vamos ver, então.
— …"Robin Hood"… não, vou me chamar de "Robin Locksley".
— Robin Locksley, é? Então, embaixador Locksley?
— Isso mesmo. Sou ruim com arco, mas.
— ?
Como a roupa de emissário que estou usando é verde clarinho, acabou saindo esse nome sem querer.
Aliás, não tô com [Mirage] cobrindo o corpo inteiro. Só mudei um pouco o estilo e cor do cabelo, e a cor dos olhos. Só isso já muda bastante a impressão. Bom, acho que quase ninguém por aqui me conhece de vista mesmo.
A carruagem atravessou a área da cidade de segunda classe e chegou no portão da área de primeira classe.
Soldados vestindo armadura de couro de qualidade se posicionaram no caminho, parando a carruagem.
— A partir daqui, só passa quem tem autorização! Digam quem são!
— Ora, ora. Somos do Principado de Brunhild. Nossa vinda já deveria ter sido avisada ao país de vocês antecipadamente.
— Brunhild…? Tsc, esperem aqui, vou confirmar.
O soldado, espiando pela janela, falando com arrogância, estalou a língua e desapareceu pro fundo do portão.
— Esse tipo de atitude com o emissário de um país… Que tipo de educação eles têm?
— Sandra quase não tem intercâmbio com outros países. Talvez seja só falta de costume com esse tipo de coisa…
Mesmo assim, sendo tratado como se fosse trabalho extra chato, fico um pouco irritado.
Depois de esperar bastante, finalmente veio a autorização.
— Passem. Não causem confusão.
Mesmo sabendo que somos emissário oficial, essa atitude ainda. Já dá pra ver que somos completamente desprezados. Sandra, por ser geograficamente isolado, nunca sofreu invasão de outro país. Bom, se disser que é por causa de longos anos sem relação com outros países, tanto faz, mas será que nem pensam que impressão isso passa pro emissário de outro país.
Assim que a carruagem começou a andar, fiquei surpreso com a mudança na paisagem urbana. Bem diferente da cidade de segunda classe de agora há pouco, ruas de paralelepípedo bem cuidadas, e casas de parede branca reluzente enfileiradas. Moradores vestidos com adorno luxuoso caminhavam, levando escravos consigo.
Diferente dos escravos de segunda classe de antes, a roupa não estava surrada, mas mesmo assim não pareciam felizes.
— Ouvi dizer que a desigualdade era severa, mas até esse ponto…
O Lanz murmurou, espiando pela janela. De fato, entre a cidade de primeira e segunda classe, a diferença é abismal.
À frente da estrada, num morro suave, erguia-se um castelo luxuoso, feito de muralha de pedra sólida. Aquele castelo de formato quadrado tinha torres cilíndricas nas quatro direções da muralha, criando uma atmosfera estranha.
Será que aquele castelo também foi construído por escravos.
Ao chegar no portão do castelo, dessa vez parece que a comunicação já tinha chegado, então nos deixaram passar sem demora. Mesmo assim, o guarda do portão ainda olhou com cara feia.
Descendo da carruagem, guiados por um homem de manto mal-humorado que saiu do castelo, avançamos pelo corredor do palácio real. Eu, o Lanz, e os cinco cavaleiros seguindo atrás, tivemos todas as armas, exceto adaga, retiradas na frente do salão de audiências.
Bem cauteloso. Bom, faz sentido, já que vamos encontrar o rei agora.
Fomos conduzidos ao salão de audiências e forçados a ajoelhar. Ao redor, provavelmente altos funcionários e generais de Sandra, além de soldados escravos de guarda, alinhados em fileira. Sendo tanta gente assim, nem precisaria se preocupar com uma ou duas espadas.
— Então, você é o emissário vindo de Brunhild. Diz que veio atender a exigência do povo da floresta. Que trabalheira, hein.
Um homem careca vestindo manto vermelho e preto, provavelmente o primeiro-ministro, abriu a boca. Homem de tom sarcástico irritante.
No trono brilhando ouro puro ao fundo, com olhos sonolentos, tragando cachimbo, estava sentado um homem gordo e balofo. Por um instante, achei que fosse orc…
Ao lado do trono, uma mulher escrava, quase nua, vestindo pano fino, com "Coleira de Escravização", estava ajoelhada segurando um cinzeiro.
Acima da cabeça calva desse tipo orc, uma coroa de ouro puro estava colocada. Esse deve ser o Rei de Sandra, Abdul Jabbar Sandra III. Não parece rei sábio de jeito nenhum, olhando assim. Bom, sei que não devo julgar pela aparência.
Dos dois lados do trono, mais armadura e espada douradas, decorativas. A espada também tinha pedra preciosa incrustada, mas parece ser uma espada de uso real. Ou melhor, com certeza esse orc não caberia naquela armadura, né? Pelo tamanho.
Sem deixar transparecer esse pensamento tão rude, comecei a falar com o Rei de Sandra.
— Sou Robin Locksley. Sem demora, a exigência do povo da floresta é: devolvam imediatamente os membros da tribo capturados pelo batalhão de guerreiros feras mágicas de vocês,
— Recuso.
Interrompendo minha fala, quando eu começava a explicar o assunto, o rei bateu o cachimbo no cinzeiro segurado pela escrava. Fez a mulher escrava recarregar o fumo, e, pegando de volta o cachimbo já aceso, tragou de novo.
Depois de acariciar a bochecha da jovem escrava com toque libidinoso, ele abriu a boca com sorriso maroto, nem olhando pra nossa direção.
— Falta escravo. Não posso devolver.
— …Atacaram a tribo da floresta pra capturar como escravos?
— E daí? Não vou receber ordem de outro país. Bom, país pequeno recém-fundado se metendo, não muda nada.
Com sorriso maroto, o Rei de Sandra disparou as palavras.
Sabendo exatamente o que faz, hein. Então, foi mesmo por ordem oficial do país que invadiram a floresta.
— …Deseja guerra com a tribo da floresta?
— Guerra? Não vai virar guerra nenhuma. No fim, são só um punhado de tribos pequenas. Que oponham ao nosso batalhão de guerreiros feras mágicas.
— A tribo do rei da árvore mantém amizade com nosso Brunhild. Pretende confrontar a nós também?
O rei ergueu a sobrancelha bruscamente, se inclinou pra frente na cadeira.
— Não se exceda, viu? O rei de vocês parece ter algum mal-entendido, mas não importa quantos soldados gigantes tenham. Se vocês pretendem se opor a Sandra, é melhor cuidar bem pra não terem a garganta cortada enquanto dormem. Nós controlamos gente habilidosa em qualquer tipo de assassinato. Podemos matar seu rei quando quisermos.
Diante da fala do Rei de Sandra, risadinhas abafadas vieram de todo lado. Sem esperança, esses aqui. Todos, sem exceção, só idiotas. Já de cara, disposto totalmente a confrontar. Nem imagino de onde vem essa confiança. Parece completamente cego pra situação mundial.
O Rei de Sandra estalou os dedos. Os soldados escravos ao redor sacaram a espada em uníssono.
Nós também nos levantamos, e o Lanz e os cavaleiros de escolta sacaram a única arma que tinham, a adaga.
— O que significa isso?
— Ora, significa que nenhum emissário veio a este castelo. Desde que a cidade de Astal desapareceu, tá faltando escravo. Estamos reunindo de outros países também, mas, dentro de um mês, vocês também vão renascer como escravos obedientes. Nosso país tem excelentes domadores.
Ku-ku-ku, ele riu, e, sinceramente, fiquei sem palavras diante disso. Como imaginava, parece que também sequestram gente de outros países. Como os outros reis disseram, país sem esperança nenhuma mesmo. Fui idiota por esperar, mesmo que pouco, alguma decência.
Não é que eu tenha perdido a paciência, mas, sendo tão desprezado assim, senti nojo de continuar ajoelhado, dócil. Se o outro lado assume essa postura, também não preciso ter consideração nenhuma.
Esperava mais um pouco de troca de farpas cautelosa, mas o adversário se revelou mais idiota do que esperava.
— …Que ridículo.
— O quê?
Soltando um suspiro, tirei do [Storage] um sofá esplendoroso, não perdendo nem pro trono do Rei de Sandra.
Sentando ali, me recostei em direção ao rei, cruzei as pernas e apoiei o cotovelo no braço da cadeira.
— Sendo tudo idiota assim, até quem tem que lidar com isso vira idiota junto. Certo, chega, todo mundo. Vamos encerrar esse teatrinho. Já que eles querem guerra mesmo.
— Você… entende a situação?
O rei se levantou, encarando com raiva na minha direção. Ora, ora, será que tá bravo? O rosto tá ficando vermelho.
— Situação nada. Só fico feliz de ter entendido a verdadeira natureza deste país. Rei idiota demais e vassalo tapado. Ei, você conhece a expressão "sapo de poço não conhece o oceano"? Significa que o sapo dentro do poço não conhece o oceano imenso,
— MATEM ELES!
— Escuta até o fim.
Os soldados escravos que vieram cortando foram bloqueados por uma parede invisível a dois metros de nós. Bom, sempre mantenho [Shield] ativado.
— O QUÊ!? V-você, disse que se chamava Robin! Quem é você, afinal!?
— Ah, isso é nome falso. Nome verdadeiro é Mochizuki Touya. Aquele que você disse que podia matar a qualquer hora — Príncipe de Brunhild. Prazer em conhecê-lo, Vossa Majestade Rei de Sandra.
Desfiz [Mirage] e voltei a cor de cabelo e olhos ao normal. Já que o outro lado assumiu confronto total, não tem mais necessidade de esconder.
— O Príncipe de Brunhild!? Absurdo, por que o rei de um país estaria num lugar desses…!
— Originalmente, era aventureiro, então tenho boa mobilidade, sabe? Você também devia se exercitar mais. Claramente tá acima do peso.
O rei orc, segurando o cachimbo com força, rangendo os dentes, e a mulher escrava recuou, com expressão de terror, do rei.
— O que tá fazendo! Se ele for realmente o Príncipe de Brunhild, é conveniente pra nós! Façam logo!
Diante da fala do primeiro-ministro careca, soldados escravos e generais avançaram de novo, mas ataque físico meio-boca é totalmente bloqueado por [Shield].
— Fogo, venha, rajada carmesim, [Fire Arrow]!
Vendo que ataque físico não funcionava, um mago de Sandra recitou encantamento de fogo e disparou flechas de chamas.
— [Reflection].
Devolvi isso educadamente, com magia de reflexo. As três flechas de fogo refletidas atingiram o próprio mago que lançou o feitiço, e os vassalos dos dois lados, arremessando-os pra longe.
— Ataque sabendo que se trata do rei de um país. Posso interpretar isso como declaração formal de guerra da parte de vocês?
— Idiota. Basta matar vocês aqui e enterrar em segredo, que resolve. Não é como se o Príncipe de Brunhild estivesse mesmo num lugar desses, né?
O Rei de Sandra disse isso com sorriso forçado. Esse cara é idiota? Nem sabe que consigo usar [Gate]. Sair de um lugar desses seria fácil. Bom, não vou fugir, mas.
— Vou dizer de novo. Vocês querem guerra?
— Nosso país tem o batalhão de guerreiros feras mágicas e o exército de escravos. Soldados que continuam lutando até a morte. Não pense que vão sair ilesos por fazer de Sandra inimiga.
Haa, realmente idiota mesmo, esse cara.
— Desculpa, mas Brunhild não tem intenção de enfrentar Sandra. Não, precisamente falando, nem precisa enfrentar.
— O quê?
O Rei de Sandra franziu a testa, desconfiado.
Ainda sentado no sofá, estendi a palma da mão em direção ao Rei de Sandra e ativei magia nula.
— [Apport].
Na minha mão, apareceu a "Coleira de Escravização". Afastada do Rei de Sandra, a mulher escrava que se escondia atrás da armadura dourada, sentiu de repente a sensação de a coleira sumir, surpresa. Vendo isso, o rei arregalou os olhos, chocado.
— O QUÊ!?
— Essa "Coleira de Escravização"… na verdade, descobri que, além da onda de energia mágica do dono registrado, existe uma onda de energia mágica de nível mestre superior gravada dentro dela. Ou seja, a onda de energia mágica de você, Rei de Sandra.
Explico girando a coleira nas mãos. Principalmente pros soldados escravos ao nosso redor.
Pensando bem, faz sentido. Escravo obedece absolutamente ao dono. Se alguém que conseguisse muitos escravos assim se rebelasse contra o rei, seria um problemão.
Por isso, gravaram uma onda de energia mágica especial em todas as "Coleiras de Escravização", como comandante superior acima do próprio dono.
Provavelmente, essa onda de energia mágica deve ser transmitida de geração em geração aos reis, através de algum artefato mágico.
Senão, quando o rei mudasse de geração, o novo rei não conseguiria controlar os escravos, e, se fosse só registrado por linhagem de sangue, bastaria carregar sangue real pra controlar.
Provavelmente, é uma técnica secreta da família real de Sandra que só funciona com esses dois elementos combinados: a onda de energia mágica da linhagem real, e o artefato mágico capaz de dar ordens aos escravos.
— Ou seja, você é o "Mestre dos Escravos" capaz de dar ordem a todos os escravos.
— …Isso mesmo. Com uma única ordem minha, todos os escravos vão te atacar. Renda-se.
De fato, um poder assustador. Até agora, tava bem porque a "Coleira de Escravização" não era produzida em massa, mas, se produzirem em massa e espalharem por outros países…
Humano escravizando humano por puro desejo. Isso é o mesmo que criar novos escravos do próprio Rei de Sandra. Nascimento de um reino escravocrata de escala mundial.
Mas não vou deixar isso acontecer.
— Então, o que acontece se essa autoridade de mestre for tomada?
— O quê?
Desde antes, com [Multiple] do smartphone, eu já vinha capturando todos os alvos existentes na capital de Sandra, mas, sendo tanta quantidade, levou tempo. Certo, preparação completa, ativar.
— [Cracking].