Capítulo 270 – O Sequestro e a Merecida Punição
Magia nula [Cracking] intervém na fórmula de ativação de artefato, reescrevendo a condição de ativação ou configuração dele.
Por exemplo, digamos que existe um artefato mágico onde, ao girar a torneira, sai água. Reescrever isso pra sair suco ao girar a torneira seria difícil, mas reescrever pra "não conseguir girar a torneira", ou "sair só um pouco de água mesmo girando", ou até "sair água em quantidade absurda" é simples de fazer.
Magia que encontrei na "Biblioteca", mas surpreendentemente útil. Combinando com [Analyze], dá pra entender do fluxo de energia mágica até a ativação, tudo como se estivesse na palma da mão.
Só que existe artefato que meu conhecimento não alcança, e, se o processo for complexo demais, pode gerar efeito inesperado, então preciso ter cuidado.
Quanto à "Coleira de Escravização", neutralizar o "efeito" de "obediência absoluta ao dono" ou "ação forçada" é meio difícil.
Mas reescrever a onda de energia mágica registrada como autoridade de nível mais alto, pra ser a minha, e apagar as demais, foi simples de fazer. Já testei isso com a coleira que consegui do comerciante de escravos.
E agora, reescrevi o registro de mestre de todas as "Coleiras de Escravização" existentes nesta cidade, pra que só eu seja o mestre. Ou seja…
— O que foi com vocês! Façam logo!
Obedecendo à ordem do Rei de Sandra, os soldados escravos apontaram a espada na minha direção. Mas todos os soldados ali, com algo de confuso, se entreolharam.
Faz sentido mesmo. Não estão sendo forçados a agir. A ação de agora foi só o corpo se movendo automaticamente diante da ordem, não é o efeito da "coleira".
— Cortem! Matem esse cara!
Mesmo o Rei de Sandra gritando de novo, os soldados escravos não reagiram. Alguns escravos até levaram a mão ao pescoço, achando que a coleira tinha saído, mas a coleira continuava lá, intacta.
— I-isso é o quê, afinal…
— O que aconteceu, afinal!? Por que os escravos não obedecem!?
Os altos funcionários ao redor também começaram a se assustar com a situação estranha.
— Inútil, inútil. Escravo com "Coleira de Escravização" não aceita ordem de ninguém além do dono. E o dono deles, desde agora há pouco, sou só eu.
— O QUÊ, ISSO É…!?
— Parece que dois terços da população humana e demi-humana de Sandra são escravos. Ou seja, a maioria absoluta deles obedece a mim incondicionalmente. Quer que eu explique de forma mais simples? Este país… eu sequestrei.
— O QUÊ… É ISSO…!?
Por um instante, o Rei de Sandra ficou atônito, mas rapidamente canalizou energia mágica na pulseira dourada que usava no braço, tentando "re-registrar". Deduzo que aquilo seja o artefato de "registro".
Mas, que pena. O registro de mestre já foi reescrito de forma que não pode mais ser sobrescrito. A rigor, a ordem do rei ainda alcançaria as outras cidades, mas não tenho obrigação nenhuma de contar isso a ele.
— Isso é um absurdo…! O registro de dono da "Coleira de Escravização" só pode ser feito por essa "Pulseira do Rei Escravo" e por alguém do sangue da nossa família real…! Ha! Não me diga que você carrega o sangue da nossa família real…
— Não fala coisa nojenta, seu idiota.
Só de pensar que sou parente de você, já sinto arrepio na espinha. Não carrego sangue de orc nenhum, viu.
Os soldados escravos, incapazes de acompanhar o que estava acontecendo de repente, moviam o olhar entre mim e o Rei de Sandra.
— Certo, prezados soldados escravos, eu não vou dar ordem nenhuma a vocês. Se não forem escravos por crime, prometo também a libertação da escravidão. Se foram trazidos de algum país, são livres pra voltar pra terra natal também.
Levantando da cadeira, falei aos soldados ao redor. A espada já estava abaixada. Alguns até começaram a chorar.
— De… de verdade… vamos ser libertados…?
— Prometo. Vocês vão ficar livres. Não são mais escravos.
Respondi assim a um dos soldados escravos que falou comigo. Então, os outros soldados também começaram a falar, com voz misturada de soluço.
— Não somos… escravos…
— Nós não somos escravos…
— …Podemos, viver, normalmente…
— Posso voltar pra terra natal… recuperar minha vida…
Segurando o choro, a voz tremendo, os homens derramavam lágrimas. Alegria, ressentimento, raiva, vazio — vários sentimentos misturados, provavelmente.
— Absurdo… os escravos, os escravos estão…
— [Apport].
— HÃ!?
Do braço direito do Rei de Sandra, desabado no trono, a pulseira desapareceu e surgiu na minha mão. Então essa é a "Pulseira do Rei Escravo".
— De-devolve!
— Ah não, já não precisa mais disso, né?
Sorrindo, arremessei a pulseira pra cima, e, quando caiu, cortei em dois com a Brunhild em modo lâmina. A pulseira caída no chão se partiu esplendorosamente ao meio. Com isso, os escravos deixaram de obedecer ao rei completamente. Por ora, os escravos de outras cidades ainda precisam obedecer ao dono atual deles, mas pretendo libertá-los também, aos poucos.
— Seu desgraçado! Como ousa! Com que direito tira escravos do nosso país!
— Isso é interessante o que você fala. Então, com que direito vocês tiraram a liberdade deles, pode me responder?
— Ugh…!
Os soldados escravos ao meu redor lançavam olhar de raiva intensa em direção ao rei. Tiveram a vida roubada sem razão, tiveram a dignidade humana manchada. É natural sentir raiva.
Nesse momento, do lado de fora vieram muitos gritos e relinchos de fera. Ao mesmo tempo, também ecoava algo tipo impacto violento. Começou, hein.
— O-o que é isso!? O que tá acontecendo!?
Os altos funcionários entraram em pânico, sem entender nada. Ao salão de audiências, o homem de manto que nos guiou até aqui entrou correndo, desesperado.
— É… é grave! As feras mágicas controladas pelo batalhão de guerreiros estão descontroladas! Não obedecem em nada!
— O QUÊ, ISSO É…!?
Bom, era de se esperar. Os escravos humanos ainda têm razão, e, com a coleira ainda no pescoço, não devem agir de forma precipitada, a menos que algo grave aconteça. Mas fera mágica é diferente. Se libertada, vai agir puramente por instinto. Será que conseguem contê-las?
— Já disse, né? A "Coleira de Escravização" já está sob meu controle. Não aceita ordem de ninguém além de mim.
— Ugugugu…!
Aliás, ordenei às feras mágicas pra fugirem desta cidade, tentando ao máximo não matar humano. Provavelmente, a cidade inteira deve estar em pânico.
— Seu… como ousa, como ousa, como ousa…!
— Por isso perguntei várias vezes, né? Se querem guerra. Sou pacifista, mas não sou pacifista passivo. Se me batem, bato de volta. Foram vocês que declararam guerra contra nós. Não vou aceitar que digam agora que não estavam preparados pra apanhar.
— Cala, cala, cala a boca!
O Rei de Sandra me encarava com olhar de ódio profundo. Certo, agora só preciso amarrar esses aqui, arrancar informação de onde produzem a "Coleira de Escravização", e destruir completamente.
Pensando assim, no instante em que dei um passo à frente.
A escrava mulher ao lado do Rei de Sandra, sem que eu percebesse quando pegou, ergueu uma espada com joia incrustada e a golpeou lateralmente com toda força.
— Fuhieh?
No instante seguinte a essa voz meio boba que ouvi, a cabeça daquele humano parecido com orc já voava pelos ares, esplendorosamente.
Diante do absurdo da cena, mesmo eu não consegui me mexer. Não, talvez eu conseguisse ter intervindo, mas o corpo não se moveu, ou melhor, não tive vontade de salvar. Resultado, talvez eu tenha deixado o Rei de Sandra morrer de propósito.
Enquanto pensava nisso, atônito, a cabeça decepada do rei veio voando na minha direção.
— UWOA!?
Sem querer, chutei pro lado a cabeça do rei que veio rolando aos meus pés. Ah, não! Não é desrespeito com o morto nem nada disso, foi só o susto mesmo! Se uma cabeça decepada vem voando "poon" na sua direção, claro que assusta!
A cabeça arremessada foi voar esplendorosamente até embaixo da cabeça careca do primeiro-ministro, rolando e parando ali.
— HIIIIIIIIIII!!
O primeiro-ministro desabou no lugar, sem forças nas pernas, e, em seguida, o corpo do rei, jorrando sangue com força do pescoço, também desmoronou na frente do trono.
Bushu-bushu, o sangue jorrando ritmicamente escorria devagar do palanque.
Quanto a mim, meu pé que tinha chutado ficou coberto de sangue, e fiquei com os olhos marejados.
Aah… [Slip] nem teve chance de entrar em ação… Sem eu fazer nada, ele saiu de cena sozinho. Fui ridicularizado várias vezes, queria dar pelo menos um soco… ah, espera, já chutei agora há pouco.
— Ah… por ora, [Paralyze].
— Ugh!?
— Guah!?
Apliquei magia de paralisia nos altos funcionários presentes, impedindo o movimento deles. Com ajuda dos soldados escravos, amarrei todos.
Perdida de forças, sentada no chão feito zumbi, a escrava mulher se curvou em minha direção.
— …Graças a você, consegui vingar minhas irmãs… Muito obrigada, muito obrigada mesmo…
Ouvindo dela, parece que essa pessoa era aventureira junto com as irmãs, originalmente. Foi atacada por bando de bandidos em Regulus e vendida pra comerciante de escravos.
Como todas as irmãs eram bonitas, foram oferecidas ao rei. Sendo usadas como divertimento, a irmã mais velha e a mais nova acabaram irritando o rei e foram torturadas até a morte. Ela disse que sobreviveu só pra um dia vingar essa dor.
Então era um lixo completo mesmo. Bom, se disser que foi merecido, é isso mesmo.
Certo, o que fazer com essa pessoa. Só olhando a situação, ela é a assassina do rei de um país. País inimigo… ou melhor, do nosso ponto de vista, talvez seja heroína. Será que dá pra fazê-la fugir em segredo pro exílio?
Guerra estourou entre Brunhild e Sandra. Em menos de 15 minutos, a força escrava de Sandra foi neutralizada, e o Rei de Sandra morreu em combate (?). Fim da guerra. Se fosse virar guerra mesmo, o desenrolar seria mais ou menos assim.
Foram eles que provocaram briga, afinal. Como vou explicar isso pro Kōsaka-san…
Por ora, deixo isso pra depois. Vou deixar assim mesmo. Certo.
Recuperei o primeiro-ministro careca da paralisia e o fiz levantar, guiando até a fábrica onde produzem a "Coleira de Escravização".
Surpreendentemente, essa fábrica ficava no subsolo de uma torre do lado oeste do castelo. O país produz a coleira, o comerciante de escravos compra, o bando de bandidos sequestra gente, o comerciante de escravos compra de novo. As pessoas viradas escravas pela coleira são compradas ainda mais pelos cidadãos de Sandra… esse é o ciclo, é.
Na fábrica, muitos escravos eram forçados a trabalhar, mas fiz todos pararem.
O artefato mágico instalado no subsolo, do tamanho de um micro-ondas, parece ser o que transforma coleira comum em "Coleira de Escravização".
O mais antigo, feito centenas de anos atrás por um grande mago, é o original; os outros dois são cópias recentemente concluídas. Dizem que magos levaram décadas analisando e montando isso.
Aliás, esse mago também sequestrou um técnico mágico de excelência reconhecida em Felsen, tornando-o escravo.
Mas parece que esse técnico mágico também morreu recentemente, forçado além do limite. Por isso, não existe mais ninguém capaz de fazer cópia. Parece que tinham planos de sequestrar outro técnico mágico excelente pra fazer nova cópia, mas…
— Corta o mal pela raiz, dizem por aí.
Apliquei [Gravity] nas três artefatos, incluindo o original, esmagando-os até ficarem irrecuperáveis.
Com isso, a "Coleira de Escravização" nunca mais será produzida. …Bom, precisamente falando, como a Doutora e eu já fizemos [Analyze] disso, não é que seja impossível fazer de novo, mas.
Certo, agora falta libertar os escravos…
Se libertar de uma vez, pode causar revolta. Não seria estranho se alguém, maltratado até agora, estivesse tramando vingança. Mas, se cometer crime, existe possibilidade de virar escravo de novo, então quero acreditar que não vão fazer besteira tão grave assim.
Não pretendo libertar escravo por crime, mas quem tem lugar pra voltar e gente esperando é melhor mandar de volta primeiro. O problema é a quantidade.
A maior parte de Sandra é deserto, e a população deve ser bem menor que a área do território, mas…
Quantos dias vão continuar os dias de [Recall] e [Gate], hein…
— Isso aí, vou ter que pedir ajuda de todo mundo da Aliança Leste-Oeste mesmo…
Quanto a Sandra em si, não pretendo fazer nada especial. Mas, mesmo em escala mínima, guerra é guerra. Vou receber o que é devido direitinho. Vou fazer os escravos receberem indenização mínima.
Se o país entrar em declínio por causa disso, não é da minha conta. Depois de retirar os escravos, que façam o que quiserem pra reconstruir Sandra.
Só que, sem escravo nenhum, vão ter que fazer tudo sozinhos. Escravo por crime não vou libertar, então continua no país, mas devem usar pra mina de metal raro ou carvão.
No fim, vão precisar criar um ambiente onde consigam fazer criminoso trabalhar sem depender da "Coleira de Escravização". Não pretendo deixar legado negativo.
Como o rei também acabou assim, provavelmente vai aparecer alguém se autoproclamando rei de novo, tipo Eurono. E, no fim, ou vira comunidade de cidade-estado, ou disputam hegemonia entre si.
…Não, duvido que aqueles covardes, que sempre fizeram escravo lutar por eles, consigam guerrear sozinhos agora. De qualquer jeito, Sandra deve entrar em declínio. Aliás, será que aquele rei orc tinha filho?
Bom, tanto faz. Já que perderam o poder de controlar escravo, mesmo tendo herdeiro, quantos ainda obedeceriam à família real?
No fim, acabou exatamente como os outros reis falaram. Não tinha intenção de destruir, mas nunca imaginei que fossem tão idiotas assim… Provavelmente, negociar com chimpanzé renderia conversa mais produtiva.
Haa… guerra é sempre um vazio.