Capítulo 274 – A Guia e o Templo Central
Do encontro com o representante Diente, faltava amanhã pras duas semanas prometidas.
Na verdade, os subordinados do Kōgyoku estavam grudados monitorando os arredores do Diente e os mensageiros enviados às outras cidades, então eu já tinha uma ideia mais ou menos clara de como as coisas estavam se desenrolando.
Parece que o representante do norte trouxe argumento cauteloso, mas no fim se decidiram pela postura da Central, que está no templo — "decidir só depois de se encontrar pessoalmente". Mais do que confiar na minha palavra, deve ser que eles mesmos querem ouvir diretamente.
Ainda bem que não fui rejeitado de cara. Bom, ainda falta conversar mesmo.
Já avisei os representantes da Aliança Leste-Oeste sobre o contato com a Ilha Parelius. Os principais alvos de comércio seriam Paruhu, Elfrau, Hanok, então, a rigor, não tem tanta relação direta com os países da Aliança. Mas, por precaução, pra não causar transtorno pra Ilha Parelius, já fiz o trabalho de base com eles.
Aliás, esse comércio em si não é lá grande coisa pros nossos países. É só mais uma rota de comércio a mais, no máximo. Então, mesmo que recusem o comércio, não vai fazer tanta falta. Bom, o material das feras gigantes é bem valioso, mas.
— Mesmo assim, o legado do velho Parelius, hein. Um pouco… não, bastante interessante isso.
— A Doutora já conheceu ele?
— Bom, mais ou menos. Era um excêntrico e tanto, viu. O artefato de visão do futuro que usei pra te encontrar. Aquilo também é baseado na teoria do velho Parelius.
Ser chamado de excêntrico pela Doutora é dizer alguma coisa. Deve ter sido um velho bem peculiar mesmo.
— Touya-kun, será que dá pra você me levar também nessa Ilha Parelius? Se eu conseguir ver esse tal legado, talvez descubra alguma coisa.
— Hmm, tudo bem, mas… nada de fazer besteira, viu? Prometido, hein? Já é um momento delicado o suficiente sem você.
— Já sei, já sei. Já entendi isso. Confia na sua amante, viu.
— Quem é sua amante aqui.
Enquanto conversávamos assim na garagem do "Hangar", a Monica gritou lá de cima do guindaste.
— Ei, seus dois! Se não vão ajudar, saiam daqui! Não dá pra concentrar!
— Ops, foi mal. Então vamos checar o sistema de tração.
— Já terminei essa parte. Ainda não terminei de inserir toda a fórmula de ativação da magia de canto, então cuida do resto disso.
— Entendido.
A Doutora sobe, num guindaste diferente do da Monica, até o cockpit do Frame Gear em pé na garagem. Cor do corpo perto de rosa. É o Rossweisse, Frame Gear especializado em suporte de combate em grupo, exclusivo pra Sakura.
Do tipo trombeta de gramofone, os cornos se estendem das costas até os ombros dos dois lados. Olhando assim, parece até canhão. Claro, não é canhão nenhum saindo do ombro — é equipamento pra amplificar a magia de canto da Sakura. Além disso, parece que também consegue ataque de som em alto volume. Claro, quando não em uso, dobra de volta dos ombros pras costas, transformando pra não atrapalhar.
Saindo da garagem do Rossweisse, entrando dessa vez na garagem em frente, tinha lá parado um corpo verde-esmeralda.
No cockpit dá pra ver a figura da Rosetta. Aos pés da máquina, os mini-robôs correm de um lado pro outro, ajudando a Rosetta.
Este é o Waltraute, Frame Gear de troca de equipamento pra combate de guerrilha, exclusivo pra Lu.
Uma máquina que troca de equipamento conforme a situação: combate corpo a corpo, combate à distância, armamento pesado, alta mobilidade. Digamos, é uma máquina que reúne o melhor de cada uma das máquinas dos outros.
Claro, o desempenho fica um pouco abaixo do das máquinas exclusivas de cada um. Por isso, não tem uma força especializada. Mas, como consegue se adaptar a qualquer situação, tem a força de não ter fraqueza em nenhum tipo de combate.
Se a negociação der certo, seria bom fazer o extermínio de feras gigantes servindo também de teste pra essas duas máquinas. Bom, por ora, é conversar com o outro lado amanhã primeiro.
Ao teletransportar pro mesmo lugar de duas semanas atrás, dezenas de cavaleiros de armadura, iguais aos de antes, estavam alinhados, com o Diente esperando à frente.
Do nosso lado também, trouxemos cem Frame Gears, igual da vez passada.
— Boa tarde, representante Diente. Então, conseguiram conversar?
O conteúdo da resposta eu já sabia pelo relatório do Kōgyoku, mas fingi não saber e trouxe o assunto assim mesmo.
— Por ora, gostaríamos que o senhor se encontrasse com todos, incluindo a Senhora Central. Depois disso, decidimos dar a resposta. Desculpe o incômodo, mas será que poderia vir até o templo central da ilha?
— Templo central, é? Entendido. Então vamos por magia de teletransporte.
— Hã?
Teletransportei de uma vez todo mundo que estava ali, pra perto da colina onde fica o templo central. As quatro cidades desta ilha e o templo central, já com a memória recolhida dos subordinados do Kōgyoku, dá pra ir por [Gate].
— I-isso é…!
— É… é o templo central! Num instante…!
Os cavaleiros da cidade sul ficaram agitados. Já sabiam que eu consigo usar magia de teletransporte, desde da última vez, mas não devem ter imaginado que iriam experimentar isso na própria pele. O Diente também mostrou um pouco de agitação, mas mandou um mensageiro correndo até o templo central. Parece que os representantes das outras cidades já estavam reunidos, então fomos direto pra dentro sem problema. Parece que, pro pessoal dentro do templo, esse desenrolar já era esperado.
Mandei metade dos cavaleiros da cidade sul de volta pra cidade por [Gate]. Lá do outro lado, devem estar em pânico com o sumiço repentino deles.
Deixando a Rain-san e o pessoal dos Frame Gears, quem vai em direção ao templo somos eu, a Doutora, e, como escolta (só de forma, mas), a Yae e o Kohaku.
O Kohaku, já grande, carrega nas costas a Doutora, vestida num jaleco branco enorme demais pro corpo de menininha dela. Precisa mandar fazer um do tamanho certo com o Zanack-san, hein.
O prédio na frente, mesmo chamado de templo, é um prédio circular de cinco andares, com formato de torre. É tipo a Torre de Pisa endireitada. Mas parece mais baixo que a Torre de Pisa.
Guiado pelo Diente, subimos a escadaria de pedra da entrada, e, ao entrar no templo, o clima era de castelo de pedra antiga. Sensação de castelo antigo mesmo.
Passando entre os cavaleiros de guarda, subimos a escada em espiral até o segundo andar. Ao abrir a porta pesada e imponente que fica no corredor do segundo andar, era uma sala bem espaçosa. Sala de reunião, talvez.
No centro, numa mesa redonda, dois homens e duas mulheres, e ao redor, alguns cavaleiros que pareciam escolta, esperavam.
Três deles, vestindo armadura parecida com a do Diente, eram um homem idoso, um jovem, e uma jovem mulher de cabelo vermelho curto.
Provavelmente, pela aparência, esses três são os representantes das outras cidades.
E, a última pessoa restante, essa mulher, vestia manto branco e carregava um cajado de madeira nodosa na mão. Cabelo castanho ondulado, chegando até a cintura, e olhos azuis penetrantes. Idade parece uns 25 anos. Parece mais velha que a mulher de cabelo vermelho ao lado, e tem um sorriso de aparência gentil.
Depois de eu entrar, o Kohaku entrou carregando a Yae e a Doutora, e todos ficaram assustados por um instante, mas se acalmaram assim que entenderam que era meu espírito invocado. Bom, faz sentido assustar se um tigre aparece do nada, né.
A mulher de manto branco se levanta e estende a mão pra mim.
— Prazer em conhecê-lo, Vossa Majestade Príncipe de Brunhild. Sou Central Parelius, descendente de Arrelias Parelius. Sou a guia desta ilha.
— Prazer, Guia Central. Sou Mochizuki Touya.
Trocamos cumprimentos leves e apertamos as mãos. Essa pessoa deve ser a representante desta ilha mesmo.
Em seguida, os três atrás dela também foram apresentados.
O idoso de cabelo e barba branca é o representante da cidade leste, Morgan East.
O jovem de cabelo castanho e olhar afiado é o representante da cidade norte, Sagitta North.
E a mulher de cabelo vermelho é a representante da cidade oeste, Millie West.
Somando o Diente South, são os quatro representantes. Que jeito impressionante de nomear leste, oeste, sul, norte, hein.
Talvez, há 5000 anos, algum tipo de título tenha virado sobrenome direto assim.
Sentando na cadeira vaga da mesa redonda, primeiro repito, de novo, pra todos, a explicação que já dei ao Diente.
Abro o mapa no ar, explico a situação do mundo, sobre os Phrase, que, pelo efeito da barreira, feras gigantes nascem com frequência bem alta, e que também existe um método pra desativar essa barreira.
— Já disse isso ao representante Diente, mas, se decidirem recusar essa proposta, tudo bem também. Não é que pensamos em forçar a convivência com esta ilha — só achamos que seria bom, se der certo. Claro, nesse caso, vamos recuar e parar completamente de interferir nesta ilha.
— Posso fazer duas, três perguntas?
A mulher de cabelo vermelho, a representante Millie da cidade oeste, levantou a mão levemente. Faço sinal pra ela continuar.
— Se recusarmos, podemos considerar que também não haverá interferência de outros países?
— A barreira desta ilha é poderosa. Sinceramente falando, sem o poder de nós, de Brunhild, outros países dificilmente conseguiriam sequer chegar até aqui. Portanto, não precisam se preocupar com isso.
— E, se removermos a barreira, existe possibilidade de outros países invadirem nosso território?
— Pra atacar esta ilha, precisariam vir com uma frota bem grande, seria difícil… mesmo que atacassem, a barreira da cidade não seria facilmente destruída, e uma invasão prolongada nesta ilha cheia de feras gigantes seria impossível. Bom, não posso dizer que é absolutamente impossível.
Removendo a barreira, as feras gigantes diminuem, e, com ajuda de algum infiltrado interno, seria possível derrubar uma cidade.
Mas, sinceramente falando, esta ilha não tem valor tão grande assim. Terra cultivável é escassa por causa das feras gigantes, e a produção industrial também é claramente pequena. Se tiver algo, seria jazida mineral, mas será que valeria a pena invadir só por isso…
O material das feras gigantes é atraente, mas conseguir isso exigiria muitos sacrifícios.
Primeiro, entre os países que poderiam atacar até aqui, nenhum tem frota tão grande ou folga de poder nacional assim. Se Eurono ainda existisse, seria perigoso. O outro seria o Reino Demoníaco de Zenoas, no máximo. Ou melhor, se Zenoas começasse a invadir, iria pra Eurono primeiro mesmo.
Então, por que buscar relação diplomática com uma ilha sem valor tão grande assim? Não quero que me entendam mal, mas os outros países também não estão tão obcecados assim. Como já disse, é só um "seria bom se der certo". Cultura diferente é estímulo, e pode virar gatilho pro desenvolvimento da civilização também.
Só que, pro povo desta ilha, vivendo num território tão limitado por causa das feras gigantes, acho que não é má ideia.
— Se removermos a barreira, é verdade que Vossa Majestade vai exterminar as feras gigantes da ilha?
O representante da cidade leste, Morgan, também lançou uma pergunta. Respondo olhando pra fora, pela janela de veneziana de madeira (não de vidro), onde dá pra ver os Frame Gears.
— Aqueles Frame Gears são armas contra os Phrase. Fera gigante serve perfeitamente pra treino, ou teste de máquina nova. Claro, vou ficar com o material das feras, mas devolvo uma parte pra vocês. Afinal, estaríamos fazendo isso livremente na terra de vocês.
Hmm, o Morgan se recosta na cadeira e fica em silêncio, pensativo. Dessa vez, a Guia Central levanta a mão.
— O senhor disse que vai eliminar a barreira desta ilha, mas de que forma? Esta ilha é coberta pela barreira aplicada pelo Senhor Arrelias. O artefato mágico central disso fica no subsolo deste templo, mas está protegido por camadas e camadas de barreira, impossível de tocar ou destruir…
Então era isso mesmo. Já imaginava que fosse algo assim, então tiro do bolso aquele artefato parecido com seringa.
— Este artefato mágico tem o efeito de anular o efeito de outros artefatos mágicos. Ou seja, retira toda magia aplicada. Usando isso, o artefato mágico da barreira perde toda a força, e nunca mais volta ao normal. É de uso único, descartável, no entanto.
Todos os olhares se concentram no pequeno artefato "Inicialização" que coloquei na mesa.
Ofereço, estendendo em direção à Guia Central.
— Vou dar de presente. Usar ou não é decisão de vocês.
Pedir pra apagar a barreira que sempre acreditaram estar protegendo do inimigo externo. Sei que não é decisão simples de tomar assim, de repente. Talvez seja difícil chegar a uma conclusão agora mesmo.
A Guia Central me encara firmemente.
— Se, digamos… a barreira continuar assim mesmo, e só quem deseja escapar pro mundo externo for teletransportado por Vossa Majestade — isso é possível? E, nesse caso, existiria país disposto a receber essas pessoas que saírem?
Entendi. Então é essa a ideia — separar quem fica na ilha e quem sai.
— Não é impossível. Deve ter país disposto a receber. Mas não recomendo muito. Não vão conseguir viver do mesmo jeito que aqui, e vão ter que recomeçar tudo do zero.
Talvez deixem de ser atacados por fera gigante, mas viver sem nada, sem apoio nem contato, vai ser bem difícil. Ainda mais se for junto com a família toda.
— De qualquer forma, já que entreguei essa "Inicialização", a decisão é de vocês. Remover a barreira ou não. Queremos respeitar ao máximo a resposta que vocês derem. Pensem bem.
— …Muito obrigada. Vou conversar de novo com calma, com todos.
Segurando a "Inicialização" na mão, a Guia Central curva a cabeça.
Por ora, deixo o resto com eles. Se decidirem remover a barreira, vou ajudar; se decidirem manter assim, não vou interferir. Mesmo que removam daqui a algumas décadas, tudo bem também. Bom, nesse caso, talvez eu não consiga mais ajudar.
De repente, a Doutora puxou a barra da minha roupa. Ah é, é verdade. Quase esqueci.
— Tenho uma pergunta nossa também, se puderem responder.
— O que seria? Se for algo que possamos responder…
— O legado que o "Sábio do Tempo" Arrelias Parelius deixou… o "Portão", certo? Seria possível nos mostrar isso?
— O "Portão", é? Sem problema. Digamos que seja em troca do artefato mágico que recebemos. Não é como se estivesse escondido, também.
A Guia Central sorri gentilmente, mas, ouvindo isso, o representante da cidade norte, Sagitta, interrompeu.
— Senhora Central. Não sei se é prudente deixar estranhos se aproximarem do "Portão", que é praticamente o legado do Senhor Arrelias. Se, por acaso, for destruído…
— Que ganho teria em destruir algo cuja finalidade nem sabemos, depois de 5000 anos sem uso, inacabado? Pelo contrário, acho que, mostrando a Vossa Majestade, talvez descubramos algo sobre o "Portão".
Diante das palavras da Central, o Sagitta se cala. De fato, eu e a Doutora conseguimos usar a magia [Analyze] pra analisar estruturas. Mesmo que eu analise, provavelmente não vou entender, mas a Doutora talvez descubra alguma coisa.
— Por aqui, por favor. O "Portão" está instalado no último andar do templo.
Guiados pela Guia Central, subimos a escada em espiral até o último andar do templo.
O "Portão" que dizem guiar a uma nova terra. Será que tem alguma relação com a restauração da barreira do mundo? Ou será que…