Capítulo 276 – A Ajuda Divina e a Reflexão
Como assim? Aquele "Portão" não era um simples portão de teletransporte, mas sim um portão de transferência dimensional pra outro mundo?
Será que, sendo o Arrelias Parelius um especialista em magia espaço-tempo, isso também era possível? Não, não era possível — fui eu, essa anomalia, quem tornou isso possível.
— Senhor Touya? Tá tudo bem?
O Senhor Sancho fala comigo, vendo que eu tinha ficado calado.
— Ah, não, tá tudo bem. Fui parar bem mais longe do que pensava, e fiquei surpreso…
— Parar? Então, Senhor Touya, o senhor veio até aqui por magia de teletransporte ou algo assim?
— É… parece que sim…
Respondo, com o coração pesado, ao Senhor Sancho que me observava preocupado. Aliás, então existe magia neste mundo também, hein.
Recusei a oferta do Senhor Sancho de me levar até a capital do reino, e nos despedimos. Tenho meio de transporte de sobra, e agora tava com vontade de pensar um pouco.
Sendo insistentemente lembrado pelo Senhor Sancho, que tem loja na capital, pra passar lá se eu for até a capital, vi o caranguibus se afastar ao longe.
Certo, o que fazer.
— [Gate].
Ativo a magia de teletransporte, mas não conecta a lugar nenhum. Eee…
C-como será que eu volto, hein…
Isso pode ser bem grave, viu… Se eu ficar desaparecido do outro lado, deve estar dando um alvoroço enorme…
Já quase entrando em pânico leve, o smartphone no bolso avisa uma ligação chegando. Tiro do bolso e vejo escrito "Chamada de Deus".
Ooohh! Literalmente, ajuda divina!
— A-alô!?
— Ooh, conectou. Touya-kun, tá bem?
— Bem, bem eu tô, mas tô meio em pânico…
— Hahaha. Realmente não esperava que fosse se teletransportar pra outro mundo. Vou mandar alguém pra te buscar agora, espera aí.
Buscar? Antes mesmo do ponto de interrogação surgir na minha cabeça, a luz se concentrou na minha frente, e, junto com um clarão, alguém surgiu de dentro dela.
— Francamente… você dá trabalho, viu.
— Karen-nee…
Quem saiu de dentro da luz foi a Deusa do Amor, a irmã Karen. Com expressão de quem tá cansada, mão na cintura.
— Do outro lado, a Kohaku e as outras sumiram do nada, o telefone não conectava, foi um corre-corre achando que tinha acontecido alguma coisa. A Yae ficou até ligando chorando.
Achaa… entendi, deve ser que a energia mágica que eu fornecia pra Kohaku e as outras deixou de chegar. Faz sentido mesmo pensar que algo aconteceu.
— Nós também não conseguíamos sentir sua presença direito, e foi assim que percebemos que você tinha sumido deste mundo. Aí entramos em contato com o Deus do Mundo e pedimos pra procurar você.
— Desculpa o trabalho…
Achei que não tinha passado nem uma hora, mas parece que, ao atravessar o portão de teletransporte, se passaram umas 10 horas.
Se a Kohaku, que estava bem na frente dela, sumiu de repente, faz sentido que a Yae fique preocupada. Deve ter concluído que eu não estava mais num estado normal.
— E, como faço pra voltar pro mundo original?
— Seria melhor se você conseguisse usar "[Transferência Interdimensional]", mas ainda é carga pesada demais pra você. Por isso, vamos primeiro até o Mundo dos Deuses, e de lá voltamos pro mundo original.
Que piada ruim, ir até o mundo dos deuses ser mais fácil que ir a outro mundo qualquer.
Bom, em vez de atravessar as duas "barreiras do mundo", daqui e de lá, talvez o "mundo que só deus pode entrar" seja mais fácil pra mim mesmo. Embora, pra qualquer outra pessoa, seja absolutamente impossível.
Por ora, usando [Gate], vou até o Mundo dos Deuses, e o Deus do Mundo estava, como sempre, sentado na sala de quatro tatames e meio, esperando.
— Desculpa o transtorno que causei…
— Não, não, não é nada demais. Transitar entre mundos é algo que acontece com frequência, viu.
Parece que é assim mesmo. O mundo tá cheio de transferências pra outros mundos. O que a gente chama de "desaparecimento misterioso" no nosso mundo também deve ser esse tipo de coisa.
— De qualquer forma, é melhor voltar logo pra deixar todo mundo tranquilo, né. Conversamos mais outra hora.
— Sim. Foi mal mesmo.
Pedindo desculpa mais uma vez ao Deus, abro [Gate], e eu e a irmã Karen voltamos pro último andar do templo da Ilha Parelius, o lugar original de onde eu tinha me teletransportado.
O que vi ali foi a Yae sentada em seiza na frente do "Portão", a Doutora investigando o "Portão", e os cavaleiros subordinados dos quatro representantes desta ilha observando tudo à distância, cercando ao redor.
— Cheguei.
— T-touya-dono…? Touya-dono!
Ao falar, a Yae se levantou de um pulo, feito mola, e veio se jogar em cima de mim, me abraçando. Guh. A Sue não é comparável a isso em vários sentidos…
— Fi-fiquei preocupada… fiquei muito preocupada, viu… a Kohaku também sumiu, e nem dava pra contatar… achei que tivesse voltado pro seu mundo original… uuuh~
Então era isso que ela tava preocupada. Abraçando a Yae, que chorava soluçando, acaricio o cabelo negro sedoso dela.
— Eu não iria deixar vocês pra trás e sumir por aí sozinho, né?
— Snif… verdade mesmo…
— Odeio interromper esse clima bonitinho, mas tem mais uma pessoa preocupada aqui, viu.
Olhando pro lado, a Doutora me encarava com olhar de reprovação.
— Desculpa por preocupar você. Foi mal.
— Meio decorado isso, tem uma diferença enorme comparado com a Yae, hein… bom, deixa isso de lado por ora. E então, esse "Portão" tava conectado a onde afinal, pode me contar?
— Ah, é sobre isso…
Vendo a Guia Central subindo a escada de baixo, fico sem saber como explicar direito. Hmm. O que fazer, hein.
— Outro mundo…? Um "Portão" de teletransporte pra outro mundo, é isso…?
A Guia Central e, claro, os quatro representantes, e até a Doutora, arregalaram os olhos diante desse fato chocante. No fim, decidi contar a verdade mesmo. De qualquer forma, ninguém além de mim consegue ativar isso. Se iam acreditar ou não já é outra questão.
— Digamos, um "mundo sombrio". Parece com o nosso mundo, mas é um mundo diferente em vários aspectos.
Como tinha tirado foto com a câmera do mapa que o Senhor Sancho me mostrou, transcrevi com [Drawing] e mostrei pra eles.
— Então era isso que o Senhor Arrelias Parelius chamava de "nova terra"…
O Diente murmurou baixinho. Provavelmente, isso está certo. Precisamente falando, o Arrelias Parelius, que pesquisava transferência interdimensional, morreu, e os Quatro Grandes Discípulos que herdaram isso devem ter tentado usar aquilo pra partir rumo a um mundo sem Phrase.
Mas os discípulos ficaram muito, muito aquém de um gênio do calibre do Arrelias Parelius. No fim, não conseguiram completar, e os descendentes deles ficaram presos nesta ilha.
— Certo, com isso, aumentaram as opções de vocês. Continuar como até agora, vivendo em conflito com feras gigantes. Ou destruir a barreira e viver em contato com o mundo externo. Ou manter a barreira, mas libertar só quem deseja ir pro mundo externo. Ou, ainda, atravessar o "Portão" e partir rumo ao outro mundo.
A sala de reunião fica em silêncio total. Sem me importar com isso, continuo falando.
— Só deixando claro: se forem pro outro mundo, considerem que é pra sempre, sem chance de voltar. Eu, por sorte, consegui voltar, mas, pra vocês, seria praticamente impossível. Lá, nem a língua se comunica, e nem sabem nada sobre a situação política do mundo. Quero que decidam a resposta cientes disso.
Sinceramente, é um mundo onde dinossauro de duas cabeças anda por aí. Não deve ter segurança tipo o Japão moderno. Deduzindo, deve ser mais ou menos do mesmo nível daqui. Só o fato de não vir Phrase é que talvez seja mais seguro que este mundo.
— Não conseguimos dar resposta agora mesmo… será que podemos ter alguns dias?
— Sem problema. Não é como se estivéssemos com pressa. Conversem com calma.
Diante da fala da Guia Central, assinto em silêncio. O que ela diz faz sentido, e é uma decisão que vai definir o destino futuro dos moradores desta ilha. É melhor conversar direitinho mesmo.
Por ora, vamos voltar por hoje. Tô cansado de várias formas.
Voltando pra Brunhild, fui cercado por todo mundo. Fico feliz que se preocuparam comigo, mas não tá meio exagerado isso, gente?
De novo, invoquei a Kohaku e as outras, e me desculpei por elas terem sido bruscamente enviadas de volta. Devem ter se assustado bastante.
Também chamo de volta a Snow, a Snow Rat que tinha deixado com o Lop e os outros aventureiros novatos.
— Foi mal, hein. Certo, volta pro pessoal.
Deixando a Snow com um bilhete de desculpas pro Lop e os outros, solto ela lá fora. O espírito invocado rato-de-neve desaparece rapidinho na escuridão do entardecer.
Hmm. Pra não acontecer isso de novo, será melhor preparar em algum lugar um tanque de energia mágica exclusivo pra mim? Guardando energia mágica tipo bateria, e, na hora do aperto, conseguir abastecer daqui — será que resolveria de algum jeito?
— Mesmo assim, outro mundo, hein… Pelo que o Touya-san já contava, eu já meio que sabia que existia esse tipo de mundo, mas…
Ainda de pijama branco, a Yumina murmura isso rolando em cima da minha cama.
Não só a Yumina. Todas as outras noivas também tinham invadido meu quarto. Digamos que é castigo por ter me preocupado, mas claro que não tenho intenção de fazer nada… por enquanto.
A cama, considerando esse tipo de coisa (não vou dizer que tipo de coisa), é um item sob encomenda especial, grande o bastante pra 10 pessoas dormirem tranquilamente. Bom, dessa vez até um ursinho de pelúcia extra veio junto, mas isso ainda tá dentro do tolerável.
Sinceramente, só a cama já tem uns 14 tatames. Quando durmo sozinho, uso a cama individual do lado.
— Ei, Touya, como era o mundo do outro lado?
A Sue, de pijama amarelo fofo, abraça minhas costas. Deve estar animada por ser dia de pijama…
— Hmm, não fiquei lá tanto tempo. Não deu pra observar muita coisa. Pensei que todo mundo estaria preocupado, então achei que precisava voltar logo.
— Todo mundo ficou preocupado, viu.
— Preocupada… fiquei…
A Lindsey e a Sakura lançam olhar meio acusador em minha direção. Já pedi desculpa várias vezes, será que já dá pra perdoar…
— Quando a Kohaku sumiu bem na minha frente, achei que meu coração ia parar, viu…
— Eu também, quando recebi contato da Yae, não sabia o que fazer.
— Mas que bom que você voltou em segurança.
Não só a Yae, parece que deixei a Elsie e a Hilda preocupadas também. Nem eu esperava que isso fosse acontecer dessa vez, mas.
— Mas, Touya-sama… como conseguiu voltar daquele outro mundo direitinho? [Gate] também não funcionava, né?
— Ah… é, bom, como direi…
— …Escondendo alguma coisa de novo, hein?
Diante da minha hesitação com a pergunta da Lu, o olhar da Leen brilha afiado.
Nn, nn, nnh. Será que já conto logo. Não é que estejam me proibindo de falar, e continuar escondendo coisas delas também dói no coração.
Contei pra todas, incluindo sobre os deuses, como vim parar neste mundo, e no que estou gradualmente me tornando.
No começo, achando que era brincadeira, foram ficando cada vez mais caladas, e, por fim, soltaram um suspiro grande junto com uma expressão de espanto.
— …Nem sei por onde começar a questionar.
A Elsie solta uma voz de espanto profundo.
— Nosso Darling é uma pessoa de outro mundo e subordinado dos deuses, então é isso… nunca fui tão surpreendida assim em toda minha longa vida.
— Mas, assim, várias coisas fazem sentido agora.
Diante da fala da Leen, a Lu concorda sozinha, meio convencida. Ficar convencida com isso também me deixa num sentimento meio complicado.
— Então quer dizer que a irmã Karen e as outras também são…
— São da raça divina. Mas parece que, no mundo mortal, é proibido usar poder divino.
— Pensando assim, esse país é um absurdo, hein… Sem brincadeira nenhuma, é invencível no mundo todo.
A Leen solta mais um suspiro, já perdi a conta de quantos.
— Bom, seja lá o que o Touya-san seja, ele continua sendo nosso querido marido, sem mudar nada. Sem problema nenhum.
Assim resumindo a Yumina, todo mundo assente levemente, cada uma do seu jeito. Sinceramente, minhas noivas todas têm um sangue-frio impressionante.
Apesar de feliz, de algum jeito fico com vergonha, e me enrolo às pressas no canto da cama, me cobrindo com o edredom.
Ouço a voz da Yumina e das outras rindo baixinho, mas finjo não ouvir e vou dormir logo.
Amanhã mesmo vou até o Deus e agradecer por dessa vez. Preciso levar algum presente, hein.
Pelo que a irmã Karen contou, parece que, se eu aprender a técnica divina "[Transferência Interdimensional]", vou conseguir ir até aquele mundo sozinho, mas acho que não vai rolar tão cedo assim. Antes disso, preciso instalar o tanque de energia mágica, pra não ter problema mesmo que eu vá de novo.
Enquanto pensava em várias coisas assim, o sono foi me dominando aos poucos, e acabei viajando pro mundo dos sonhos.