Capítulo 278 – A Remoção da Barreira e o Outro Mundo de Novo
— Como resultado da nossa deliberação, decidimos remover a barreira desta ilha e passar a ter intercâmbio com o mundo externo. Contamos com sua ajuda.
— Muito obrigado. Também nós, de Brunhild, vamos cooperar pela paz da Ilha Parelius.
Aperto a mão estendida pela Guia Central. A Ilha Parelius decidiu remover a barreira e conviver com o mundo externo.
Sem demora, pra desativar a função do artefato mágico que era o núcleo da barreira, fomos até o subsolo do templo central. No fim da escada em espiral que descia até o subsolo, no centro daquele nível subterrâneo, tinha uma placa de pedra preta em pé, com uma grande pedra mágica vermelha brilhante embutida.
O tamanho era de uns 1 metro de largura, 2 metros de altura, e uns 20 centímetros de espessura. Do tamanho de uma porta grande.
— Então esta é a fonte da barreira…
— As placas de pedra parecidas, espalhadas pela ilha, parecem gerar a barreira em sincronia com esta aqui. Por isso, desativando esta central, todas as barreiras devem desaparecer.
Ouvindo a explicação da Guia Central, estendo a mão em direção à placa de pedra. Aí, sinto um contato tipo almofada de ar, e a mão não consegue chegar mais perto da placa. Barreira mágica de proteção. Talvez um dispositivo de segurança.
Isso também deve ser efeito desta placa. Se for isso, aplicando a "Inicialização" nessa própria barreira, com certeza dá pra anular.
Eu poderia desativar com [Cracking], mas esse deve ser o papel dela. A Guia Central tira do bolso a "Inicialização" que entreguei antes, e se aproxima da placa de pedra.
Ao longo de 5000 anos, protegendo — ou aprisionando — a ilha, liberar essa barreira. Que sentimento seria esse, não tenho como saber, sendo um estranho de fora. Mas dá pra perceber que ela tomou essa decisão com bastante determinação.
Segurando firme a "Inicialização" em formato de seringa, no instante em que a ponta toca a barreira mágica, a Guia pressiona com o polegar o êmbolo da seringa.
Energia mágica explosiva flui de uma vez pra placa de pedra. O encantamento de "nulidade" vai sobrescrevendo, e a pedra mágica que emitia brilho vai perdendo a luz.
A barreira que cobria esta ilha por 5000 anos acabou de desaparecer.
Pra confirmar, mando comunicação mental pro Kōgyoku, que está no céu da ilha, e pro Sango e o Kokuyou, que estão no mar.
— E aí? A barreira sumiu?
— «Sim. A barreira de dispersão de energia mágica que cobria o céu da ilha parece ter se dissipado.»
— «Aqui também tá igual. A névoa clareou. Com isso, os navios de fora devem conseguir atracar.»
Transmito o relatório dos espíritos invocados pra Guia Central. Com isso, esta ilha está livre.
Falta a faxina geral, agora.
O disparo de agulhas do corpo de uma fera gigante tipo ouriço é desviado, à direita e à esquerda, com rapidez de pernada pelo Waltraute pilotado pela Lu.
Efeito da "Unidade B" equipada nas costas. Com propulsores em várias direções, permite movimento rápido e aceleração — equipamento de suporte exclusivo do Waltraute. Aliás, o B é de BOOSTER.
Ao se aproximar do ouriço, o Waltraute manda de volta a Unidade B nas costas, e invoca, dessa vez, a "Unidade A", com quatro espadas guardadas nas costas e na cintura. Aliás, o A é de ATTACKER.
O encaixe com a unidade termina em cerca de um segundo. Imediatamente, saca as adagas da cintura dos dois lados, e vai cortando, uma atrás da outra, as agulhas do corpo do ouriço, que tenta fugir.
De repente, o ouriço se enrola, virando bola, e salta em direção ao Waltraute. A máquina desvia sem dificuldade desse ataque, mas o ouriço continua rolando, tentando fugir do local.
Só que a Lu, sem se apressar, retira a Unidade A da cintura, e faz surgir no ombro direito um canhão grande. Segurando com as duas mãos, crava as âncoras dos calcanhares no chão. É a "Unidade C" de tiro à longa distância. Aliás, o C é de CASTER.
Com um estrondo, o projétil disparado atinge com precisão o ouriço em fuga, derrubando-o no chão.
— Ooh, acertou?
Ao confirmar, com meu [Long Sense] projetando a visão, o falecimento da fera gigante, o representante Diente dá sinal, e os soldados da cidade sul vão cuidar da carcaça do ouriço.
Retirada de material. Sendo o material que é, é um trabalho que dá trabalho, mas, como todo o material vai ficar pra eles, não vamos interferir.
Do Waltraute, que já mandou a Unidade C de volta pra Babylon, a Lu desce.
— Ei, bom trabalho. Como foi?
— Sem problema nenhum. A troca de equipamento também funcionou sem falhas, e consegui movimentar exatamente como planejei. Acho que dá pra ajudar bastante todo mundo no campo de batalha.
O Waltraute, máquina da Lu, tem como foco principal combate de guerrilha. Não tem habilidade que se destaque muito, mas foi feito pra conseguir lidar com qualquer situação de combate. Um tipo, digamos, versátil. Com essa capacidade, a função dessa máquina é atravessar o campo de batalha e dar vários tipos de suporte.
Claro, mesmo sozinha, tem um potencial considerável.
Além daqui, já enviamos tropas de caça a feras gigantes pro leste, norte e oeste também. Com a barreira removida, agora dá pra localizar as feras gigantes via busca da Babylon. É questão de tempo até elas serem exterminadas desta ilha.
Claro, mesmo com a barreira removida, ainda existem pontos de "acúmulo de energia mágica" espalhados pela ilha. Não é que as feras gigantes vão sumir todas de uma vez, mas ainda assim, comparado a antes, a preocupação de ser atacado por fera gigante fora da cidade deve diminuir bastante.
Por ora, com isso, a ameaça de fera gigante também diminui, e, primeiro, uma frota comercial de Elfrau deve chegar em breve — depois disso, é conversar entre eles pra decidir vários detalhes. Como a moeda é diferente, deve dar um trabalho no início.
Sinceramente, o que me preocupa mais do que a ilha ou as feras gigantes é o casulo do deus maligno.
Mesmo sendo de escalão inferior, deus é deus. Nem imagino que tipo de existência vai ser esse deus maligno que devorou e absorveu esse poder.
Se fosse como no meu caso, com o Deus do Mundo reconstruindo, ainda vá lá, mas, tentando construir sozinho um recipiente capaz de conter poder divino, não deve ser algo que nasce fácil assim, aquele casulo, ao que parece…
As irmãs, diante desse acontecimento inesperado, decidiram observar por um tempo, e ainda continuam no mundo terreno. Parece que, deixando de lado o assunto do deus subordinado, essas deusas também têm o papel de me instruir, já que sou o novo deus. Não me lembro de ter recebido instrução nenhuma, mas.
Bom, é bom ter com quem conversar, de qualquer jeito.
— O que foi?
— Ah, não, nada não.
Parece que fiquei absorto em pensamento, e a Lu ficou preocupada. Não, não, agora preciso resolver as coisas na minha frente, uma de cada vez.
Aliás, a Guia Central me mostrou o material de pesquisa deixado pelo Arrelias Parelius. Sendo coisa de 5000 anos atrás, elas não conseguiram decifrar, mas nós temos alguém que viveu naquela época.
Copiei todos os documentos e mandei pra Babylon, e a Doutora está trancada no "Laboratório" pesquisando se descobre algo sobre a barreira do mundo.
Fico pensando que é impressionante um livro de 5000 anos ter sobrevivido sem se desfazer, mas parece que também tem aplicado um encantamento de proteção, igual [Protection].
Parece que, entre os métodos de encantamento de proteção, existe um que separa parcialmente o fluxo do tempo, estagnando a mudança causada pela passagem temporal. Faz sentido que um mago chamado até de "Sábio do Tempo" conseguisse fazer isso.
Enquanto pensava nisso, recebi uma ligação da própria pessoa que estava investigando aquilo.
— Alô, sim?
— É o Touya-kun? Achei algo interessante nos documentos de pesquisa do velho Parelius. Será que dá pra você dar uma olhada…
— Entendido. Por aqui também já deu uma acalmada, então já vou passar aí daqui a pouco.
Respondendo assim, desligo o telefone. Algo interessante? Será que descobriu alguma coisa?
— Dá uma olhada nisso.
No "Laboratório" onde a Doutora estava trancada, no Segundo Laboratório, em cima da mesa, me mostrou algo tipo um caderno de anotações.
Na página aberta, tava desenhado algo tipo uma armadura. Só que as articulações e partes específicas eram estranhamente mecânicas.
— Isso é… um Frame Gear?
— Não, é diferente. Frame Gear é uma criação original que eu mesma construí do zero, e, mesmo tendo completado uma versão provisória há 5000 anos, nunca mostrei pra ninguém. E ainda por cima, esse tamanho aqui é pequeno demais. No máximo, do tamanho de um humano.
Pequeno? Será algo tipo uma armadura motorizada? Armadura mecanizada que um humano veste, permitindo agir em vários ambientes? O Sábio do Tempo até fazia esse tipo de coisa?
Mas, diante do meu raciocínio, a Doutora balança a cabeça negativamente.
— Se fosse isso, o texto escrito nesse artefato mágico é meio estranho. Escrever, sobre algo que você mesmo fez, "fonte de energia seria energia mágica atmosférica e luz solar?" ou "tipo autônomo, pensamento próprio, extrai consciência mais do que humano?" Tem esse jeito de quem tá registrando algo nunca visto nem ouvido antes. E ainda por cima, aqui.
A Doutora aponta pra uma frase escrita na margem do caderno. Não consigo ler letra de Parteno sem usar magia, sabe. Percebendo isso, a Doutora fala a frase em voz alta.
— "A engrenagem do tempo e o portão dimensional, o visitante do mundo vizinho." O velho Parelius pesquisava portão dimensional. É só uma possibilidade, mas… será que o velho Parelius não conseguiu partir rumo a outro mundo, mas conseguiu, sim, invocar alguém desse outro mundo pra cá?
Invocar de outro mundo? Isso é possível? Não, magia de invocação é algo parecido, né. Não é impossível, então.
Mas, de qualquer forma, o design daquele portão dimensional precisaria de uma quantidade absurda de energia mágica, né?
— Ou então, se encontrou com um visitante vindo de outro mundo, digamos.
— Hmm… acho que isso é mais provável, viu.
Tem gente que tem habilidade de atravessar mundos, tipo o Ende.
— Talvez, ao se encontrar com esse visitante, o velho Parelius tenha decidido tentar construir o portão dimensional.
Não é algo impossível… mas, se for isso, essa armadura mecânica seria o tal visitante de outro mundo? Mais que pessoa de outro mundo, seria robô de outro mundo?
Bom, devem existir vários tipos de mundo por aí, então talvez exista mesmo um mundo só de máquinas. Planeta de forma de vida mecânica? Espero que não se transformem em carro nem nada disso.
Visitante do mundo vizinho, hein… O outro lado do portão dimensional, digamos, o mundo invertido… será que, de lá, alguém veio visitar este mundo há 5000 anos?
Aliás, agora que penso nisso, eu vi lá uma espécie de ônibus mecânico tipo caranguejo. Achei que era só um veículo, mas talvez fosse mesmo uma forma de vida mecânica… Talvez, naquele mundo, esse tipo de coisa seja normal.
De novo, tenho essa sensação de que o velho Parelius de alguma forma teve relação com a restauração da barreira do mundo há 5000 anos. Ainda é só intuição, mas.
— Aliás, o portão dimensional já ficou pronto?
— Mais ou menos. Montei no "Jardim Suspenso" da Shesca. Junto com o tanque de energia mágica também. Mesmo sem o Touya-kun presente, dá pra extrair energia mágica dali pra vários usos, então injeta energia mágica ali quando tiver tempo livre. Como consegue comprimir bastante, a capacidade de energia mágica deve ser considerável. E ainda dá pra amplificar usando a "Torre" da Babylon.
Entendi, então tá sincronizado com a "Torre". Se for assim, dá pra esperar uma quantidade e tanto. Bom, não é que uso tanto assim continuamente.
Pro fornecimento de energia mágica pra Kohaku e os outros espíritos invocados, deve ser mais que suficiente. Acho que dá pra durar umas dezenas de anos. Espero não precisar ficar dezenas de anos longe deste mundo.
— E, gostaria que fizesse o experimento de ativação do "Portão"… Levar eu também pro outro lado é…
— Impossível. Levar é possível, mas só você não conseguiria voltar sozinha. Se realmente quiser, primeiro prepare lá do outro lado um local e material pra instalar um portão dimensional parecido.
— Muu. Não tem jeito, vou ter que aguentar por enquanto…
No meu caso, consigo voltar passando pelo Mundo dos Deuses, mas, como a Doutora, um humano comum (precisamente falando, não tão comum assim) não consegue passar por essa rota. Só consegue ir ao Mundo dos Deuses quem é deus, ou quem é chamado pelo Deus do Mundo.
Se garantir terreno e material lá do outro lado, e levar um portão dimensional igual esse pra lá, conectando os dois portões entre si, talvez até uma pessoa comum consiga ir e vir livremente, mas isso não é possível agora mesmo.
Por ora, decido injetar energia mágica no formato cilíndrico instalado no "Jardim", com jeitão bem de "tanque".
De fato, parece aguentar bastante. Injeto uns metade da minha própria energia mágica no tanque, e testo conectar por essa rota o caminho de fornecimento de energia mágica que vai pra Kohaku e os outros. Certo, parece que não tem problema.
Se fosse só o teste de ativação do portão, nem precisaria ir pro outro lado, mas, pra verificar coisas tipo o fluxo do tempo lá comparado com aqui, e vários outros detalhes, é mais rápido ir. E também, da última vez, tava tão apressado que nem deu pra observar direito.
Contando pra Yumina e as outras por telefone, achei que fossem me impedir, mas, surpreendentemente, deram permissão com facilidade. Talvez seja porque, depois do incidente de outro dia, fui reconhecido como deus mesmo. Por precaução, prometi levar souvenir de volta.
O período é de um dia. Bom, como tem diferença no fluxo do tempo ao atravessar, na prática deve ser umas um dia e meio.
Já fiz um conhecido lá do outro lado, e, se conseguir, através desse contato, garantir terreno e material, seria ótimo.
Bom, sob o pretexto de experimento de ativação, também tô pensando em fazer um pequeno passeio turístico. Se acontecer algo, as irmãs devem me avisar, então deve ficar tudo bem.
Injeto energia mágica na cópia do portão dimensional instalado no "Jardim". Somando com o que já injetei no tanque, gastei bastante energia mágica. Bom, em algumas horas já deve recuperar completamente.
Assim que o tacômetro instalado no portão marca 100%, uma paisagem surge dentro do portão.
Ué? Não é dentro de uma floresta como da última vez. Dá pra ver algo tipo penhasco rochoso de litoral. De qualquer forma, vamos lá.
Sendo despedido pela Doutora, atravesso o portão. De novo, aquela sensação estranha de algo se grudando ao redor, igual da última vez. Isso, sinceramente, não curto muito.
Ao atravessar o portão, de fato era um terreno rochoso litorâneo. Bem perto, dá pra ver o mar, e ouço o som das ondas e o grito das gaivotas.
Será que fui parar num lugar completamente diferente de antes?
— Por ora, preciso saber onde é isso aqui… [Busca: Humano].
Opa, achei, achei. Ainda não coloquei nenhuma informação deste mundo no smartphone, então não dá pra fazer busca de mapa. Tenho o mapa que o Senhor Sancho deixou eu copiar, só isso.
Caminhando pela linha da costa, encontro um pescador. Está de vara de pesca em cima da parede rochosa.
Usando a magia de tradução, mostro a foto do mapa deste mundo que tirei, e pergunto onde estou.
Hmm, tô bem longe de onde me teletransportei da última vez. Será que isso tem relação com o desvio entre a Ilha Parelius e Brunhild? Ou será que conectou de forma aleatória mesmo?
De qualquer forma, vou em direção à capital Aren, do Reino Sagrado de Arento, onde o Senhor Sancho disse que tem loja.
No mapa fica confuso porque tá invertido esquerda-direita, mas o local atual corresponde, no mundo original, à região do Reino de Felsen, e o Reino Sagrado de Arento corresponde à região da Federação de Lodmea.
Voando de uma vez com [Fly], chego rapidinho, é uma distância curta.
— Certo, então vamos.
Por precaução, fico invisível com [Invisible] antes de decolar de uma vez.
Vendo assim do céu, dá até a sensação de ser parecido com nosso mundo.
Enquanto eu tinha essa impressão, ao meu lado, um grande dirigível vindo do outro lado cruza por perto. Sigo com o olhar devagar, e volto o olhar pra frente de novo.
Retiro o que falei antes. Talvez seja bem diferente sim. Parece que, em termos de ciência, este mundo talvez esteja um pouco mais avançado que o nosso.
Bom, de qualquer forma, chegando na capital, deve dar pra entender várias coisas. Aumento ainda mais a velocidade, e sigo direto rumo ao Reino Sagrado.