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Isekai wa Smartphone to Tomo ni – Capítulo 279

A Capital Aren e o Golem

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Capítulo 279 – A Capital Aren e o Golem

Chegando na frente da vila-castelo do Reino Sagrado de Arento, deparei com um probleminha. Parece que, pra entrar na capital, precisa de documento de identidade ou uma quantia mínima de dinheiro. Tem gente enfileirada na frente do portão.

Isso em si não é nada raro, nem surpreendente, mas o meu cartão de guilda não deve funcionar neste mundo. Claro, também não tenho dinheiro daqui.

Fiquei um pouco pensativo, mas acabei rindo sem querer da minha própria burrice. Não tem nada demais, é só passar direto, né. Já que tô invisível com [Invisible], mesmo.

Deslizando ao lado do guarda do portão, entro na capital. No fim, era só descer direto dentro da capital desde o início mesmo.

Num beco afastado da rua, confirmando que não tem ninguém por perto, desfaço o [Invisible].

Desativando a magia e saindo de novo pra rua, sinto na pele a agitação das pessoas. Os prédios e as ruas são de tijolo ou paralelepípedo, parece não ter tanta diferença do nosso mundo. Em alguns lugares, tem até algo tipo poste de luz. A roupa das pessoas também não muda muito, se fosse dizer alguma diferença, seria que quase não vejo gente com jeitão de aventureiro?

Não, espera. Aquela placa de loja ali, é neon? Tem algo tipo tubo fino instalado no formato das letras. Como não é noite, não tá brilhando, mas… será que brilha com eletricidade? Ou energia mágica?

— Então, nos detalhes menores, é diferente mesmo, hein…

Andando de um lado pro outro, olhando ao redor com cara de turista deslumbrado, um homem parecido com comerciante passa cruzando o cruzamento à minha frente, montado numa máquina parecida com avestruz, fazendo "gachan gachan".

Precisamente, era só do pescoço pra baixo de uma avestruz, com pernas, e um bagageiro instalado.

Enquanto eu ficava boquiaberto, dessa vez, do outro lado, vem deslizando pelo chão uma máquina tipo aranha, com oito rodas nas pontas das pernas. Nas costas dela, tinha instalado algo tipo assento de carruagem, onde um casal de aparência rica conversava rindo.

Sigo com o olhar sem me mexer, e fico meio tonto do choque cultural. Queria entrar em algum café pra acalmar o clima, mas não tenho dinheiro.

Primeiro, é isso mesmo.

Como consigo ler as letras, entro numa loja parecida com armarinho, por ora. Vou vender alguma coisa e conseguir dinheiro.

— Olá, seja bem-vindo.

A loja, de frente pra rua, parecia ser um estabelecimento individual chamado "Armarinhos Clones". Dentro da loja, não muito espaçosa, tinham vários tipos de miudezas — agulha e linha, tesoura, tecido de cama, coisas fáceis de identificar de cara, mas também tinha coisa esquisita tipo um recipiente de vidro com líquido e mineral dentro, sem entender o que é.

— Procurando alguma coisa?

O dono da loja fala comigo, enquanto eu olhava os produtos com olhar curioso. Será que me achou suspeito.

O dono, sentado no balcão, era um homem de uns 30 anos, com barba ruiva.

— Não, na verdade, tô precisando de dinheiro, e queria saber se dá pra vender algo aqui…

— Vender? Fio de Rukushi ou pedra de mágica-luz, compro bem caro.

Não conheço nenhum dos dois. Mas, "pedra" de mágica-luz deve ser algum mineral. Se mineral vende, talvez ouro ou prata vendam também.

— Ouro e prata, o senhor compra também?

— Ouro e prata? Isso não dá. Aqui é difícil fazer avaliação, e acabaria comprando bem barato demais. O cliente sairia perdendo, viu. É melhor ir numa loja de metais preciosos.

Que dono de loja educado, hein. Mas, então, loja de metais preciosos compraria. Com isso, o dinheiro deve resolver. Ah, é verdade. Vou aproveitar e perguntar sobre o Senhor Sancho.

— Deve ter um comerciante chamado Pedro Sancho nesta capital, o senhor sabe onde fica?

— Ué, você conhece o Senhor Sancho? A loja dele fica indo reto pro norte, nesta mesma rua. Na "Companhia Sancho", com certeza compram ouro e prata pelo preço justo.

Surpreendentemente (desculpa a franqueza), o Senhor Sancho parece ser um comerciante bem conhecido nesta capital.

Agradeço e me despeço do dono, e sigo caminhando pela rua rumo ao norte.

Nesse meio-tempo, também testemunho um robô tipo cavaleiro de armadura mecânica caminhando atrás de um homem com jeitão de aventureiro.

Os moradores até olham pra ele, mas não fazem alarde nenhum. Parece que esse tipo de cena é do cotidiano neste mundo.

O estranho é que, mesmo tendo esse tipo de robô, a tecnologia científica não parece tão avançada assim. Carruagem comum também anda por aí.

Fico com uma impressão meio desencontrada. Será por ser outro mundo diferente? Pensando nisso, caminhando pela rua rumo ao norte, avisto uma placa chamativa.

— Ooh, é aqui a "Companhia Sancho".

Uma fachada uns três vezes maior que o armarinho de antes. Uma loja de construção de tijolo com jeitão de luxo, e, ao lado, tem algo tipo um estacionamento, onde o tal caranguibus estava parado. Sem dúvida. Aqui deve ser a loja do Senhor Sancho mesmo.

Subo uns três degraus de escada e abro a porta decorada com bom gosto. A campainha da porta toca "chirin", e uma mulher de uns 20 e poucos anos, de avental, que estava dentro da loja, vira o olhar em minha direção.

— Bem-vindo. …Ara? Ara, ara, ara! O senhor é aquele de outra hora!

— Hã?

Assim que viu meu rosto, essa mulher, com cabelo castanho preso num coque com um grande prendedor, se aproxima sorrindo. E, na minha frente, curva levemente a cabeça.

— Naquela ocasião, muito obrigada pela ajuda.

— Er…?

— Ah, imagino que não se lembre. Meu marido só falou com o senhor mesmo. Sou a esposa do Pedro, me chamo Mona. Naquela hora, eu tava dentro da carruagem-golem, sabe?

— Golem?

— Olha, aquela ali, na frente.

Pro lugar onde a Senhora Mona aponta, através do vidro da loja, dá pra ver o caranguibus estacionado ao lado. Parece que dá pra ir da loja até aquela espécie de garagem.

Quer dizer, chama golem, aquilo? Não é goolem?

— Já vou chamar meu marido.

— Ah, desculpa o incômodo.

A Senhora Mona sai correndo em direção à escada no fundo.

Pra não atrapalhar outros clientes ou funcionários, me movo em direção ao lado da loja de onde dá pra ver a garagem.

Dentro da loja, tem vários tipos de produto. Sendo armarinho, mas, diferente da loja de antes, os produtos aqui parecem caros de algum jeito. Tomando cuidado pra não tocar muito nos produtos, olho casualmente o caranguejo mecânico, chamado de golem, do outro lado do vidro.

— Tem algo tipo assento de piloto, mas não tem volante nem alavanca. Será que é autopilotado?

Por ora, analiso enquanto tiro foto com a câmera do smartphone. Se isso for um veículo, será que vende em algum lugar? Se vender, se eu comprar e levar pra casa, a Doutora deve ficar feliz. Bom, parece ser bem caro.

— Ah, que bom vê-lo de novo, Senhor Touya! Fico feliz em encontrá-lo outra vez!

— Ah, Senhor Sancho. Olá.

Ao ouvir a voz, me viro, e lá estava o Senhor Sancho, com aquele rosto bondoso de Ebisu. O corpo também tem esse jeitão de Ebisu.

Apertando a mão estendida, comemorando o reencontro brevemente, começo a explicar o motivo de ter vindo até esta loja.

— Na verdade, tô em apuros com dinheiro. Ouvi dizer que aqui compram ouro e prata.

— Compra, é? Sem problema. Por ora, poderia me mostrar o material em si?

Tiro do [Storage] um lingote de ouro, e o Senhor Sancho arregala os olhos.

— O que foi?

— Não, já tinha visto sua habilidade derrotando aquela fera mágica, e já imaginava que não fosse pessoa comum… mas parece ser bem versado em magia mesmo… fiquei surpreso.

Hmm? Será que, neste mundo, magia não é algo tão difundido assim?

— Usar magia de armazenamento sem nem usar cartão…

— Cartão?

— Isso mesmo. Não conhece? O "Cartão de Armazenamento". Deve ter vindo mesmo de um lugar bem distante, hein.

O Senhor Sancho tira do bolso um cartão e sacode levemente em cima do balcão. Aí, do cartão, caem algumas moedas de prata. Ooh? Será que é um cartão com magia de armazenamento aplicada?

— É item essencial pra nós comerciantes, viu. Tem "Comum", "Incomum", "Raro" e "Lendário", cada um com capacidade de armazenamento diferente. Esse é um cartão Incomum.

— Hee… primeira vez que vejo.

Olho o cartão que o Senhor Sancho segura. Entendi, com isso, acho que consigo fazer um igual. Deve ser bem útil de vários jeitos. Perguntando com mais detalhe, parece que só armazena, sem parar o tempo dentro, diferente do meu [Storage].

— Não é algo tão raro assim, mas… Senhor Touya, quem exatamente o senhor é…

— Querido. Isso é falta de educação com quem salvou sua vida.

— Ops, desculpe. Curiosidade demais da minha parte. Então, deixe-me examinar isso aqui.

O Senhor Sancho, que estava com olhar desconfiado, é repreendido pela esposa e começa a examinar o lingote que ofereci. Coloca na balança pra pesar, encosta algo tipo uma barra, e vai anotando números num papel.

— Hmm… é ouro puro mesmo. O senhor quer vender isso tudo?

— Sim.

— Certo… Que tal dez moedas de platina?

— Sem problema. Combinado então.

Bom, também não sei o valor do ouro por aqui, né. Mesmo assim, moeda de platina, hein. O valor da moeda talvez não seja tão diferente assim. A menos que aqui um pão custe uma moeda de ouro ou algo assim.

Pelo relato do dono do armarinho, acho que não deve ser esse o caso.

— Aliás, no caminho pra cá, vi bastante máquina parecida com aquela ali…

Digo, apontando pro caranguibus do outro lado do vidro.

— Golem, é? Sendo capital, deve ter visto vários modelos diferentes, né? Além dos tipos de transporte de fábrica, tipo o nosso, às vezes até dá pra ver corpo antigo.

— Esse golem, dá pra eu comprar também?

— Acho que não é impossível comprar. Só que, com dez moedas de platina, acho que não dá pra comprar nada muito bom.

Parece ser algo bem caro mesmo. No nosso mundo original, seria tipo nível de carro importado de luxo?

Certamente não é algo que o povo comum compra assim, fácil. E ainda por cima, o preço varia conforme o uso também.

— Parece que o Senhor Touya não sabe muito sobre golem, né? Se quiser, posso explicar?

— Desculpa. Por favor, então.

A seguir, o que ouvi do Senhor Sancho sobre golem.

Antigamente, houve uma guerra. A rivalidade entre dois antigos reinos acabou se transformando numa guerra mundial que envolveu o mundo todo. No meio disso, nasceram bonecos mecânicos que obedecem aos humanos e lutam no lugar deles.

Isso é justamente o que se chama de golem, o boneco mecânico. Vários tipos diferentes de golem foram criados sucessivamente, e a guerra foi escalando cada vez mais com o poder dos golems. Chegou a um ponto que nem os antigos reinos que começaram a guerra conseguiam mais parar.

Como resultado, este mundo foi destruído uma vez.

Mas a humanidade se reergueu a partir disso, e construiu uma nova civilização.

Escavando os golems, herança de tempos antigos, analisando os corpos chamados "corpo antigo", e fazendo cópias, conseguiram criar versões de produção em massa com qualidade rebaixada. O que é chamado de "produzido em fábrica" é o tipo de golem geralmente popular hoje em dia.

— Então, aquele lá fora também é um tipo de produção em massa de fábrica, é isso?

— Isso mesmo. Já corpo antigo é algo bem difícil de conseguir. Raramente aparece no mercado. Se quiser um, só escavando você mesmo em ruínas antigas mesmo.

Deve ser algo bem raro. Mas também não parece ser algo impossível de conseguir.

— De fábrica e escavado tem diferença tão grande de desempenho assim?

— Isso também, mas o corpo antigo é conhecido também como "portador de habilidade". Muitas vezes tem habilidade especial. Solta raio, controla gelo, esse tipo de coisa. Pro Senhor Touya, que consegue usar magia, talvez não faça tanta falta, mas.

Entendi. Por isso o corpo antigo é mais valioso. De fato, é herança de reino antigo mesmo. Isso também é parecido com o que a gente chama de artefato mágico, no nosso mundo.

Trocando esse tipo de conversa, recebo do Senhor Sancho as dez moedas de platina. Como o valor é grande, peço pra trocar uma delas em dez moedas de ouro.

Com isso, consegui fundo. Primeiro, vou pegar várias informações deste mundo. Deve dar pra entender mais sobre golem também.

— Tem alguma livraria por aqui?

— Três lojas ao lado é livraria. Não é muito grande, mas.

Que perto. Vou começar por lá primeiro.

Agradecendo ao Senhor Sancho e a esposa, saio pra rua. De fato, dava pra ver a placa de livraria à direita.

Diferente da loja do Senhor Sancho, ao abrir a porta antiga, era uma livraria com clima bem de sebo mesmo. Logo na entrada, tem uma escada, e parece que tem livro no segundo andar também.

No balcão do fundo do primeiro andar, sentado, um velhinho de óculos redondos, cabelo branco, barba branca comprida. Parece que exala jeitão de diretor de alguma escola de magia.

— Bem-vindo. Procurando alguma coisa?

— Er, tem livro relacionado a história ou cultura?

— Relacionado a história? Deste país? Ou história mundial?

— Ah, os dois.

— Então, na estante do fundo direito do segundo andar, segunda e terceira prateleira de cima. Pode olhar à vontade, mas não suje os livros, viu.

Curvo levemente a cabeça pro velhinho, e subo a escada de madeira já gasta pelo tempo. Rangendo "gii, gii", subo a escada, rumo à estante do fundo direito do segundo andar.

— Certo, é aqui. Vejamos… "Livro Histórico de Arento", "Trajetória do Reino Sagrado", "Registro das Origens do Ocidente", "Crônicas de Matrack"…

Tem bastante coisa, hein. Como cada livro nem chega a custar uma moeda de prata, e dá trabalho escolher, decido comprar tudo mesmo.

Vou retirando da estante os livros que vejo pela frente, empilhando tudo no chão.

— Ah, é verdade, vou comprar sobre golem também.

Como não tinha livro específico tipo enciclopédia de golem, empilho os livros relacionados a reino antigo.

Além disso, também livro sobre fera mágica, livro de etiqueta, e, como souvenir pra Lindsey e afins, livro de romance também empilho.

— Mais ou menos isso, acho.

Faço flutuar com [Levitation] os mais de cem livros retirados da estante, e desço pro primeiro andar.

O velhinho no balcão fica de olhos arregalados vendo eu chegar com aquela montanha de livros flutuando, mas logo começa a somar todos.

Deu no total nove moedas de ouro e meia, então entrego uma moeda de platina, e, em vez de troco, escolho mais um monte de livros interessantes que tinham no primeiro andar, valendo mais meia moeda de ouro, e coloco tudo junto no [Storage].

— Volte sempre, hein…

Deixando o velhinho meio zonzo pra trás, saio de novo pra rua da cidade.

— Certo, agora falta comer alguma coisa. Tô com fome, vou comer algo.

Caminho pela cidade procurando algum lugar pra comer. Podia ter voltado na loja do Senhor Sancho e perguntado, mas esse tipo de coisa é mais divertido entrando de improviso, por inspiração. Tirar a sorte grande com uma escolha ruim também é parte da graça da viagem.

Encontro um café ao ar livre, e peço um lanche leve na mesa do terraço. Graças à magia de tradução, também consigo ler as letras do Reino Sagrado de Arento, mas, mesmo assim, tem coisa complicada.

No cardápio, "Sanduíche de Shinshin" ou "Suco de fruta Grefull", consigo ler, mas não faço ideia do que seja "Shinshin" ou "Grefull". Foi um pedido bem emocionante, mas o que veio foi um sanduíche tipo carne de ave, e um suco roxo tipo uva.

O gosto não era ruim. Bem gostoso, na verdade. Decido não pensar muito sobre que carne ou que fruta é. Se tá gostoso, isso já basta.

Enquanto relaxo comendo com calma, fico olhando a rua que se vê do terraço.

De vez em quando, passa algum golem diferente, e é divertido observar.

Aliás, ainda não vi nenhum demi-humano ou elfo nesta capital. Será que simplesmente não tem nesta cidade ou país, ou será que não existe neste mundo? Espero que não seja porque são perseguidos ou hostis aos humanos.

Bebendo algo com cor de suco de uva, mas sabor mais parecido com suco de tomate, fico olhando a rua.

— Alguém! Pega esse cara! Assaltante!

Vindo do outro lado da rua, ouço essa voz, e um homem jovem de cabelo castanho, carregando uma bolsa, atravessa correndo em disparada na frente do terraço.

— …[Slip].

— Guhaaah!?

O assaltante, tombando de repente, bate a nuca com força no chão, e se contorce de dor.

Um outro homem de cabelo loiro, que vinha perseguindo, salta em cima do homem de cabelo castanho, prendendo-o com os braços pra trás.

Numa cidade grande assim, deve ter bastante crime mesmo, hein. Observando a prisão que começou bem na minha frente, com o suco na mão, dois cavaleiros vestindo armadura prateada chegam, amarram o criminoso, e o levam junto com o homem loiro pra algum lugar.

Vendo isso até o fim, pago a conta e deixo o café.

Depois disso, fico comprando souvenir pra todo mundo, dando uma olhada em várias lojas.

Fiquei surpreso de ver algo tipo arma de fogo numa loja de armas. Só que não era arma de fogo com pólvora, e sim algo chamado "Spell Caster", que dispara energia mágica carregada como projétil.

Parece que, neste mundo mesmo, "mago" capaz de usar "magia" não é algo tão numeroso assim. Mesmo todo mundo sabendo da existência de energia mágica, o número de pessoas capazes de manipulá-la como técnica parece ser limitado.

Será que a existência dos golems atrapalhou o desenvolvimento da magia? Talvez na era do reino antigo não fosse assim… isso preciso investigar com os livros que comprei. Não eu, e sim a Doutora.

Mesmo assim, esse mundo sombrio (vou chamar assim porque é chato de outro jeito) também é bem perigoso, hein. Tem gente mal-intencionada perseguindo até turista de fora que tá passeando pela cidade assim.

— Dois… não, três, é?

Tem uns caras que vêm me vigiando de longe, sem se aproximar demais, desde há um tempo. Queria elogiar a técnica de perseguição, mas ainda tão longe. Comparado ao nível da nossa Tsubaki-san, isso é amadorismo puro.

— Não me lembro de ter feito nada pra ser alvo assim…

Será que me confundiram com algum rico mimado, de tanto comprar coisa em várias lojas? Fingindo olhar produto na vitrine, confirmo pelo reflexo do vidro quem tá me seguindo atrás. Estão com capuz, então não dá pra ver bem o rosto, mas não parecem ser bandido de rua qualquer.

Bom, isso resolve perguntando direto.

Entro correndo levemente num beco. Virando a esquina e confirmando que não tem ninguém por perto, fico invisível na hora com [Invisible] e espero os perseguidores.

Do mesmo jeito, três pessoas viram a esquina e entram no beco, e corto a rota de fuga deles.

Diante de mim, surgido de repente atrás deles, os três, vestindo algo tipo manto com capuz, se assustam.

— Precisam de algo comigo?

Dos três, agitados, dois viram o olhar pro terceiro restante. Parece que esse deve ser o líder.

— Se não precisam de nada, gostaria que parassem de me seguir. Ou será que só entendem levando uma bela dor?

Já que ficar sendo perseguido dá trabalho, ameaço um pouco. Não sei o quanto isso funciona com minha aparência, mas.

— Espera aí. Peço desculpa por ter seguido você. Será que dá pra ouvir a gente um pouco?

A pessoa que parece ser o líder tira o capuz, revelando ser uma mulher de cabelo ruivo-acastanhado. Idade parece uns 20 anos, olhar castanho-avelã afiado, com jeitão de militar ou lutador. O cabelo cortado curto reforça ainda mais essa impressão.

— Agora há pouco, no terraço do café, você usou magia num ladrão, né?

— …Usei, mas o que tem isso?

Hee. Percebeu com uma ativação tão curta assim? Nem sendo alvo da magia. Bom, deve ter gente com boa sensibilidade mesmo sem conseguir usar magia. Deve ter talento de mago mesmo.

— Você consegue usar outras magias também?

— Bom, mais ou menos.

— …Magia de desfazer maldição?

— Depende do caso. Se já tiver avançado demais, desfazer a maldição pode até colocar a pessoa em risco maior.

Só de dizer "maldição", já tem vários tipos — fascínio, confusão, petrificação, drenagem de vitalidade, letargia, ilusão, selamento. Tem até algum tipo raro de "extinção da descendência".

Na maioria dos casos, dá pra desfazer com meu [Recovery], mas tem exceção. Por exemplo, se desfizer descuidadamente maldição em quem teve o corpo fortalecido por causa dela, o corpo pode não aguentar o esforço acumulado até então e acabar morrendo, como reação.

E também, maldição complexa às vezes não é resolvida com [Recovery]. Um exemplo é a magia de amaldiçoamento que usei antes num capanga de comerciante de escravos, [Guilty Curse].

A maldição que apliquei naquela vez faz com que, toda vez que a pessoa cometa um crime que machuque alguém, uma parte do corpo fique paralisada, e, eventualmente, chegando ao coração, morre.

No estado normal, sendo saudável, claro que [Recovery] não funciona. Se cometer algum crime e ficar paralisado, dá pra curar com [Recovery]. Mas isso não desfaz a "maldição". Se cometer crime de novo, a paralisia volta a acontecer. Não é uma solução da raiz.

Por isso, é importante identificar exatamente que tipo de maldição é…

— Tem algum conhecido amaldiçoado?

— Sim. Nossa convidada foi atingida por um artefato mágico amaldiçoado e caiu em estado de coma. Já se passaram semanas sem recuperar a consciência…

Hmm. Maldição de coma, talvez? Se não for colapso mental, acho que dá pra curar.

— Ainda não retribuímos devidamente a essa pessoa. Será que poderia desfazer a maldição dela, por favor? Faremos qualquer recompensa que precisar.

Diante da bela mulher de cabelo curto curvando a cabeça, os outros dois atrás, apressados, também tiram o capuz e curvam a cabeça do mesmo jeito. O rabo de cavalo e o cabelo longo ondulado balançam bastante. As duas parecem ter mais ou menos minha idade, ou um ano a menos. Garotas de uns 16, 17 anos, uma com cabelo castanho-claro em rabo de cavalo, e outra com cabelo castanho em ondas longas.

Certo, o que fazer, hein. Não quero muito chamar atenção. E se meter em confusão desnecessária também dá trabalho.

Mas ignorar e abandonar também deixa gosto ruim na boca. Não sendo conhecido nem nada, mas fico curioso que tipo de maldição é.

Bom, tanto faz. Se der ruim, é só voltar pro mundo original mesmo.

— Não sei se consigo curar, mas, se estiver tudo bem mesmo assim…

— Muito obrigada.

— Valeuu.

— Agradeço mesmo.

De novo, curvam a cabeça as três, cada uma do seu jeito. Bom, não dá pra saber nada sem examinar mesmo.

— Então vamos te guiar até nosso esconderijo. Desculpa a demora nas apresentações — sou Esto Floatia. Vice-líder do grupo de bandidos justiceiros "Gato Vermelho".

— Sou Mochizuki Touya. Bom, por ora, sou só um viajante… espera aí, o que é grupo de bandidos justiceiros? "Gato Vermelho"?

Bandido justiceiro? Aquele bandido justiceiro mesmo? Tipo Nezumi Kozō, ou Robin Hood, Ishikawa Goemon, Arsène Lupin!?

Não, não, tanto faz o nome, mas quer dizer que são ladrões mesmo!?

— Não conhece o "Gato Vermelho"? Deve ter vindo de bem longe do interior, hein?

A garota de rabo de cavalo fala isso, mas, vindo de um lugar ainda mais distante que o interior, é óbvio que eu não conheceria.

Pelo jeito que fala, deve ser um grupo de bandidos justiceiros bem conhecido, mas ainda são criminosos, né.

Diante de mim franzindo a testa, a mulher que se apresentou como Esto abre a boca.

— Deixando bem claro, nós só roubamos comerciante corrupto ou nobre idiota que oprime o povo. Senão, nem nos chamaríamos de bandidos justiceiros.

Bom, não é que eu vá dizer "todo criminoso é mal absoluto!" nada disso. Vindo pra outro mundo, eu mesmo já quebrei algumas leis. Ou melhor, agora mesmo, tô invadindo essa cidade ilegalmente, desculpa. Nem paguei entrada.

— …Bom, tudo bem. Isso eu pergunto depois. Antes disso, se vão me levar, queria que fosse rápido. Amanhã preciso sair da cidade.

— Entendido. Então, por aqui.

Dizendo isso, a Senhorita Esto começa a caminhar. Achando que não queria me meter em confusão nenhuma neste mundo sombrio, olha só no que deu.

Que confusão, hein.


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