Capítulo 280 – A Líder do “Gato Vermelho” e a Cura da Maldição
O distrito leste da capital Aren, do Reino Sagrado de Arento, era uma área onde viviam pessoas comuns, relativamente menos abastadas.
Guiado pela Senhorita Esto, vice-líder do "Gato Vermelho", pela garota de rabo de cavalo Yuni, e pela garota de cabelo ondulado Yuri, entro nessa área.
Diferente da região central, caminho observando o povoado meio decadente e as pessoas cansadas.
Eventualmente, saímos da rua principal e entramos num beco deserto. Virando a esquina no fundo, chegamos a um beco sem saída.
Ao redor, tudo cercado por paredes de prédio, e, na parede do fundo, tinham empilhadas várias caixas de madeira vazias, de uns 1 metro quadrado.
Contornando pra trás dessas caixas, no chão que não dá pra ver de fora, tinha uma tampa tipo bueiro de metal.
— Isso é…
— É a entrada de uma passagem subterrânea antiga que existe na capital desde os primórdios. Tem vários lugares assim espalhados pela cidade.
A Senhorita Esto abre a tampa e desce pro subsolo. Sigo atrás, e, descendo direto por uma escada fria pro subsolo, logo chegamos a uma passagem bem espaçosa.
— Isso é quase uma masmorra, hein…
A passagem, mesmo sendo subterrânea, é iluminada. A cada 10 metros, tem algo brilhando pendurado na parede por um barbante.
Pegando na mão, é um cilindro de vidro do tamanho de uma pilha AAA, com algo tipo líquido e pedra dentro. Essa pedra brilha vagamente.
— O que é isso?
— Hã? Não conhece? É pedra de mágica-luz, viu. Tem até nas ruas da cidade, não tem?
— …Cheguei na capital hoje mesmo. Sou do interior, sabe.
Então essa é a pedra de mágica-luz que o dono do armarinho mencionou. Parece que é um mineral que reage com água e emite luz. Por isso, só extraem esse mineral em noite de chuva.
Então, o neon usado na placa da loja também usa isso. Provavelmente, dentro daquele vidro fino, tem pó de pedra de mágica-luz bem triturado. Passando água ali, vira letreiro de neon brilhante.
Esse é um mineral que não existe no mundo real…
Recebendo o olhar desconfiado da Yuni, sigo caminhando pela passagem, guiado pela Senhorita Esto.
Numa curva da passagem, a Senhorita Esto para, e começa a bater com o punho da adaga na parede, num ritmo específico. Como se marcasse alguma cadência… e, enquanto eu pensava isso, uma parte da parede desliza lateralmente feito porta, revelando uma nova passagem. Uma porta secreta.
Ao entrar na nova passagem, dois homens que estavam escondidos atrás fecham a porta de novo. Haha, então o som de agora há pouco era o sinal, controlando abertura e fechamento. Bem cuidadosos.
Avançando pela nova passagem, começo a ver, aqui e ali, em nichos da parede, homens sentados com bandana vermelha.
Os homens, ao verem a gente, se levantam, fazem um cumprimento silencioso, e voltam a se sentar. Devem ser membros do "Gato Vermelho". Será que estão de folga.
Continuando reto pela passagem, chega uma porta de ferro pesada, com um guerreiro de armadura vermelha em pé na frente. Altura de mais de 2 metros.
Gente grande… não, aquilo não é humano. É um golem. Tem formato tipo guerreiro samurai japonês, mas as articulações e as frestas da armadura são mecânicas, e, mais que tudo, os olhos brilham.
Da cabeça, dois chifres grossos se projetam pra fora, dos dois lados — parece o capacete de grande chifre de búfalo que dizem ter sido presenteado por Kuroda Nagamasa a Fukushima Masanori.
— Golem da vice-líder, "Akagane".
A Yuni sussurra baixinho pra mim. Até o nome é jeitão japonês? Talvez exista mesmo um país tipo Ishen neste mundo sombrio também.
O guerreiro-golem vermelho, "Akagane", abre a porta pesada e nos guia pra dentro. Assim que todos entram, a porta se fecha de novo. Aquele golem deve ser o guarda daqui.
Do outro lado da porta, era uma sala grande cheia de coisas espalhadas desordenadamente, com algo tipo lâmpada fluorescente brilhando no teto. Aquilo também deve usar pedra de mágica-luz. Na parede, tinham instalados alguns canos, parece que até água encanada tem por lá.
Na mesa no centro da sala, tinham espalhados objetos tipo equipamento de comunicação conectado a fone de ouvido, e plantas de algum tipo de mansão. Até algo parecido com foto. Então existe fotografia neste mundo? Surpreendente. Essa sala deve ser algo tipo sala de comando operacional.
Mas o que chamou minha atenção mesmo foi a garota dormindo, desleixada, numa cadeira grande na frente dessa mesa, rosto virado pro teto, roncando alto.
— Quem é aquela?
— …É nossa líder, a Senhorita Nia.
A Yuri, de cabelo ondulado longo, responde com cara de constrangimento.
Líder… quer dizer que aquela ali é a líder desse grupo de bandidos justiceiros? Ééé?
A vice-líder caminha decidida até a líder que continua roncando, e, com um som seco e satisfatório, dá um tapa na cabeça dela.
— FUBUOH!?
Batan! A líder, tombando pra trás junto com a cadeira, olha pra Senhorita Esto com olhos sonolentos.
É uma garota de cabelo vermelho longo, em duas maria-chiquinhas, da minha mesma idade. Vestindo jaqueta vermelha e shorts, num visual descontraído e prático.
— Que é isso, hein! …Ah, é a Esto.
— Não fica dormindo com essa cara desleixada. Postura imprópria pra uma donzela, viu.
— Que problema tem isso, ninguém tá vendo…
Enquanto retrucava fazendo bico, o olhar da Nia me encontra e para.
— Quem é esse aí?
— É a pessoa que talvez consiga curar a maldição da Doutora. Encontrei na cidade e trouxe aqui. É o Senhor Mochizuki Touya.
— Sério mesmo!?
Batan, a Nia chuta a cadeira e se levanta.
— Você realmente consegue curar? Parece meio pouco confiável, viu…
— Não sei sem examinar antes.
Que falta de educação, hein. Faço uma pose de brincadeira diante do olhar desconfiado da Nia.
Bom, é verdade que não dá pra saber sem examinar mesmo.
— Bom, tanto faz. De qualquer forma, examina a Doutora. Aviso logo, se fizer alguma coisa estranha, não vai ficar barato, ai!?
Um golpe de kung fu certeiro atinge o topo da cabeça das maria-chiquinhas, que me encarava com olhar de bandido malandro.
— Você entende sua posição, né? Estamos pedindo um favor a ele, sabia? Não sei quantas vezes já falei pra parar de agir sem pensar.
— Aiii! Aiii! Tá, tá bom! Entendi! Entendi mesmo! Para, para…
Zubishi, zubishi, os golpes implacáveis da vice-líder continuam. A ruiva das maria-chiquinhas já tá com os olhos marejados. De algum jeito, entendi a relação de poder entre essas duas.
— De qualquer forma, primeiro examine ela. Por aqui.
Abrindo a porta no fundo da sala de comando, atravessamos uma passagem estreita, e chegamos a outra porta de ferro. A Yuni e a Yuri ficaram na sala de comando, então só eu, a Nia e a Senhorita Esto entramos nessa sala.
Dentro, uma sala de uns 12 tatames, com uma cama fixada na parede, onde alguém estava deitado.
E, embaixo dela, um cachorro… não, será lobo? — observando a gente que entrava na sala.
— «Senhorita Nia, Senhorita Esto, quem é essa pessoa aí?»
— Falou!?
O lobo fala com uma voz grave de barítono masculina, que ecoa bem. Espírito invocado!?
— Este é o Senhor Mochizuki Touya. Talvez consiga curar a maldição da Doutora. Senhor Touya, este é o Fenrir. É o golem da Doutora… da pessoa que está sob a maldição.
— Golem!?
Fico surpreso com a apresentação da Senhorita Esto. Esse lobo é um golem? Pela aparência, parece um lobo de verdade completamente… quer dizer, então tem golem que fala também!
— «Que bom! Isso é uma bênção. Enquanto a Mestra não acorda, não posso partir em viagem.»
O golem tipo lobo balança o rabo, feliz. Até nisso, é idêntico ao real.
— …Bom, de qualquer forma, vamos examinar.
O golem tipo lobo também me deixa curioso, mas confirmo a mulher deitada na cama. Idade parece uns 20 e poucos anos. O cabelo prateado longo e desgrenhado entra até dentro do edredom. Na mesinha de cabeceira, tem um óculos redondo grosso. Deve ser dela. Sendo chamada de "Doutora", deve ser alguém importante.
O fluxo de energia mágica é normal. Não parece ser tipo colapso mental.
— Ela caiu em coma por um artefato mágico amaldiçoado, né?
— «Sim, isso mesmo. Estava dentro de uma caixa de joias que um nobre possuía. Parece que amaldiçoava quem abrisse.»
Diante da minha pergunta, o Fenrir responde.
— Essa caixa de joias, tem aqui?
— Tem. É esta aqui.
A Senhorita Esto abre a gaveta da mesinha de cabeceira e tira uma caixa de joias com decoração impressionante. Por precaução (por segurança, talvez), estava amarrada com corda pra não abrir.
Pedindo pra colocar em cima da mesa, uso a magia de análise.
— [Analyze].
Hmm… tem aplicado a maldição de "coma", hein. Ainda bem que é maldição simples, mas, pensando que os meios de cura neste mundo são limitados, deve ser um problemão. Como maldição, é continuar dormindo até morrer.
No estado fechado, passa energia mágica e fala uma palavra-chave, ativando a maldição. Maldição típica de proteção antifurto. É tipo usar maldição no lugar de chave. Provavelmente, o nobre que possuía isso configurou. Bom, isso dá pra desfazer com [Recovery].
— Tá tudo bem. Isso dá pra curar.
— Sério mesmo!?
Diante da Nia se aproximando ansiosa, concentro energia mágica na mulher dormindo na cama.
— [Recovery].
Uma luz suave envolve a mulher, e vai desaparecendo aos poucos. Com isso, a maldição já deve estar desfeita, mas…
— Uh…
— «Mestra! Sou eu, tá reconhecendo?»
— Uuh? Fenrir? Desculpa, mais cinco minutinhos…
— «Não fica cochilando de novo!»
— GUFUUH!?
Numa mulher tentando dormir de novo, o Fenrir dá um pulo e crava um golpe de corpo por cima do edredom. Tanto faz, mas como será que funciona o peso de um golem, hein. Da cama, veio um som "GISHI!" de impacto bem pesado. Se aquilo for uma massa de ferro, não devia ter quebrado osso…
— Ooh! Mandou bem, você!
Dizendo isso, a Nia me dá tapinhas nas costas, com força. Isso dói, viu. Essa aqui é do mesmo tipo do General Leon de Belfast, né. Deve ser burra de músculo mesmo.
Como a Doutora (parece se chamar Elka Patrache) que acordou pediu pra trocar de roupa, voltamos pra sala de comando.
Ao ouvir que a Doutora Elka tinha acordado, a Yuni e a Yuri, que esperavam ansiosas, pareciam aliviadas.
— Nesta ocasião, agradecemos muito de verdade. Sobre a recompensa, quanto seria?
— Hmm… já recebi recompensa por desfazer maldição antes… ah, do Duque Ortlinde, ou do Rei de Belfast, recebi bastante, viu.
— Belfast?
— Ah, não, nada.
Respondo vagamente à Senhorita Esto. Bom, precisamente, aquilo não era maldição, mas.
Se não me engano, do duque foi dinheiro e uma medalha garantindo status, do rei foi dinheiro e uma mansão.
Seja lá o que for, receber de um grupo de bandidos me dá certa resistência.
— Bom, por ora, não precisa de nada… Vou pensar em algo até a próxima vez que a gente se encontrar.
— Mas nós vamos mudar daqui pro próximo destino em breve, sabe?
— Hã? Sério?
— É. Isso aqui foi só uma base montada porque era conveniente pra conserto do meu golem. A base de verdade fica numa montanha ao norte da capital. Já deve estar quase descoberta pelos cavaleiros, então logo vamos precisar fugir daí.
Bom, mesmo sendo bandido justiceiro ou o que for, ainda é grupo criminoso mesmo. Se pegarem, deve ser perigoso. Quer dizer, então a Nia também tem um golem próprio, é isso?
— A Doutora Elka é técnica de golem de primeira linha, viu. Agora, tá consertando meu golem. No mundo inteiro, quem consegue consertar "Coroa" é só a Doutora "Rainha da Regeneração" ou o "Professor". Mesmo assim, segundo a própria Doutora, só consegue consertar uma parte.
"Coroa", ainda não entendi bem, mas parece que o golem da líder quebrou, e pediram pra Doutora Elka consertar. Enquanto reuniam o material necessário pro conserto, foi atingida pela maldição daquela caixa de joia e caiu em coma, é isso.
— Bom, eu também consigo usar magia de busca, então, se quiser encontrar de novo, dá. Não precisa se preocupar.
— …Isso consegue encontrar qualquer coisa?
— Se for algo ou alguém que eu já conheça. Por isso, mesmo que peça pra achar a mãe da Senhorita Esto, não consigo. A menos que tenha foto.
Mesmo assim, agora mesmo, a entrada de mapa ainda não terminou, então o alcance é limitado. Por enquanto, só dá pra fazer nos arredores desta capital. Se invocar umas dezenas de milhares de pássaros, deve terminar em alguns dias.
— Você é útil pra várias coisas, hein. Não quer entrar pro "Gato Vermelho"?
— Recuso.
— Ah, que isso! Não custa nada! Ah, me ensina magia também! Aquela que faz dobabaaan! e joga o inimigo longe!
A Nia sacode meu braço freneticamente, falando isso. Nossa, essa daí é chata mesmo.
— Magia só dá pra aprender se você tiver aptidão pro atributo, sabe. Por isso, tem gente que, por mais que tente, não consegue aprender nada.
— Então testa se eu tenho essa tal aptidão. Se não tiver, eu desisto.
— Fica pra próxima.
Não sei se seria certo ensinar magia, que não é tão difundida assim neste mundo, pra um grupo fora da lei, mesmo sendo bandido justiceiro.
— Ééé, que é isso, hein! Sovina! Me ensina magia! Magia! Não é como se fosse gastar nada, ai!?
No topo da cabeça da idiota que ficava puxando meu braço com força, zubishi! O golpe de kung fu da Senhorita Esto atinge de novo.
— Você não tem capacidade de aprender, não? Já falei pra pensar na sua posição antes de agir. Foi por agir sem pensar nas consequências desse jeito que a "Rouge" acabou precisando ser consertada.
— Se eu aprender magia, vou ficar ainda mais forte, né? Aí, da próxima vez, não erro desse jeito de novo. Por isso, Touya, me ensina magia!
Enquanto a Nia puxava meu braço de novo, e a Senhorita Esto já se preparava pro golpe, ouço o som da porta de trás abrindo.
— Parece uma conversa interessante, também tenho interesse nisso.
Virando em direção à voz, lá estava o golem tipo lobo, o Fenrir, e a Doutora Elka, já livre da maldição. Só que…
Cabelo prateado longo desgrenhado, jaleco branco todo amassado, e, ainda por cima, um óculos grosso feito fundo de garrafa de leite — uma aparência lamentavelmente relaxada. Acho que o material de base não é ruim, mas será que não seria melhor cuidar mais da aparência.
— Deixa eu me apresentar de novo. Sou Elka Patrache. Sou técnica de golem. Obrigada por me ajudar.
— Mochizuki Touya. Não precisa se preocupar.
A Doutora Elka curva a cabeça. Sinceramente, foi mais por curiosidade mesmo que ajudei, não é nada demais.
— Aah, que bom que a Doutora ficou boa. Com isso, a Rouge também vai ficar consertada, né?
— Por isso, já disse pra pensar antes de falar… para de tratar a Doutora como se fosse um extra qualquer.
— Aitt!?
De novo, o golpe da Senhorita Esto explode. Quantas vezes já apanhou, essa aí.
Observando a interação das duas, a Doutora Elka abre a boca.
— Ainda falta um pouco de material. Entre eles, conseguir o metal divino é bem difícil. O rei deste país até deve ter, mas…
— Se o rei deste país fosse um tirano, eu tomaria sem hesitar.
— Que é isso, hein! De novo, vai ter que juntar informação de onde tá o negócio?
A Nia se joga de cara na mesa da sala de comando.
— Se for oricalco, eu tenho.
Diante das minhas palavras casuais, a Nia se levanta de um pulo da mesa e me encara fixamente.
— Metal divino… você tem?
— Tenho. Olha.
Abro o [Storage] e tiro um lingote de oricalco, colocando na mesa. A Doutora Elka pega na mão, e, tirando algo tipo bastão do bolso, examina.
— É de verdade. Primeira vez que vejo metal divino com pureza tão alta assim. …Será que, por acaso, você também tem adamantita ou hihiirokane?
— Isso aí, é o que tenho menos, na verdade. Mas tenho.
Do mesmo jeito, tiro do [Storage] lingotes de adamantita e hihiirokane. A Doutora Elka examina do mesmo jeito, e confirma que são autênticos.
— Senhor Touya, com licença, mas será que poderia vender isso pra mim? Vou pagar o preço justo, claro.
— Sem problema. Nessa quantidade, não é nada demais pra mim.
— Você é filho de algum nobre rico…?
Não, sou rei — não posso dizer isso, então disfarço com um sorriso vago.
— Seja como for, com isso dá pra consertar a "Rouge". Se der um dia…
— É-é grave!
De repente, do golem-samurai vermelho, o Akagane, um homem se joga pra dentro da sala pela porta aberta. Homem jovem com bandana vermelha na cabeça, respiração acelerada, encharcado de suor. Deve ter corrido em disparada até aqui.
— O esconderijo da montanha norte tá sendo atacado! Os cavaleiros vêm em grande número, e…!
— O QUÊ!?
— Já mandei mensageiro pra avisar eles também, mas se vão conseguir escapar…
A Nia se levanta e muda de expressão. Será que a base de verdade que ela mencionou foi descoberta.
— Droga, a Rouge não pode ser usada… devia ter deixado o Akagane lá também mesmo… o que fazemos, Esto?
— Não sei se dá tempo de voltar agora… o melhor seria abandonar eles e fugir daqui…
— Como assim vamos abandonar eles!? "Gato Vermelho" não abandona companheiro!
Dan! A Nia bate na mesa. Ela é gente que se importa com os companheiros, hein. Precisa ser assim pra ser líder mesmo.
— Quer que eu ajude?
— Ah!?
Não precisa encarar assim. Sei que tá nervosa, mas.
— Exibir mapa. Arredores da capital Aren.
— «Exibindo!»
— UOH!?
Diante do mapa desta região projetado no ar, a Nia e os outros soltam um grito de surpresa.
Hmm, parece que só exibe o alcance visual de quando voei com [Fly]. No mundo original, o Deus fazia a entrada de mapa pra mim. Não posso pedir de novo esse tipo de favor descaradamente, né. Não tem jeito.
— Consigo usar magia de teletransporte, indo instantaneamente pra lugar onde já estive antes. Sendo primeira vez nesta capital, só consigo ir aos lugares que aparecem neste mapa.
— Magia de teletransporte…! Quer dizer que, dentro deste mapa, consegue teletransportar instantaneamente? Quantas pessoas dá pra levar?
— Talvez qualquer número dê certo. Já teletransportei mais de cem pessoas de uma vez.
— Yuni! Reúna todo mundo aqui, na passagem de fora, agora mesmo! Preparação pra combate!
— E-entendido!
A Yuni reage à voz da vice-líder e corre pra passagem externa às pressas.
— Você realmente consegue de tudo, hein… não é um "Coroa" tipo humanoide?
— "Coroa"?
— É o tipo de golem chamado Série Coroa. São corpos antigos com habilidade especial excepcional. Um dos golems de mais alto nível deste mundo.
A Doutora Elka explica. Então até esse tipo de golem existe. Enquanto eu ficava impressionado, a Senhorita Esto continua a explicação.
— Na verdade, o golem da Nia, "Blood Rouge", também é um "Coroa", mas ficou fora de ação depois de lutar contra outro "Coroa".
— Aquele bastardo pegou a gente de surpresa… o "Roxo", da próxima vez que encontrar, não vai ficar barato.
Não entendi muito bem, mas será uma briga interna? Fico curioso pra ver esse tal "Coroa", mas não é hora pra isso.
— Vice-líder, tá todo mundo reunido!
A Yuni grita, espiando pela porta. Respondendo, a Senhorita Esto também vai pra passagem, e dá ordem aos membros alinhados em duas fileiras ali.
— Primeiro esquadrão fica de prontidão aqui! Segundo esquadrão vai comigo pra reforço na fortaleza! Vamos nos mover direto pro local via magia de teletransporte, então preparem-se pra combate imediato!
— Sim!!
Voltando da passagem pra sala de comando, a Senhorita Esto observa fixamente o mapa projetado, e aponta pra um ponto específico.
— Consegue teletransportar pra essa posição, na montanha norte?
— Consigo. Quem vai são os membros que estão lá, e todo mundo que tá aqui?
Pelo que ouvi agora há pouco, seria o tal segundo esquadrão, mais a líder, a vice-líder, a Yuri, a Yuni, e a Doutora Elka, e os golems Fenrir e Akagane?
— Não, a Doutora e o Fenrir ficam aqui. Na verdade, gostaria que a Nia também ficasse, mas…
— Vou com certeza.
A Nia cerra o punho, respirando com força pelo nariz.
— Sem a Rouge, não creio que a senhorita seja de grande ajuda.
— Que cruel!? Vou ser útil sim! Mesmo sem a Rouge, eu já sou razoavelmente forte!
Razoavelmente, hein. Meio duvidoso. Bom, se ficar perigoso, posso ajudar, mas, com certeza, vão me considerar cúmplice do bando de bandidos também.
Virar procurado no mundo sombrio, hein. Mesmo podendo fugir de volta pro mundo real, ainda assim. Melhor fazer sem ser percebido.
Mesmo assim, não vou lutar contra quem não é bandido, e, se conseguir despistar bem os cavaleiros e tirar os membros do "Gato Vermelho" cercados… espera, ué?
— Exibir marcadores. Membros do cavaleiro em azul, membros do bando em vermelho.
— «Exibindo!»
— UOH, que é isso, esses pontos?
A Nia se surpreende com os marcadores vermelhos e azuis que aparecem perto da base na floresta. Um aglomerado de pontos vermelhos, sendo cercado, aos poucos, por um grupo de pontos azuis.
— O azul são os cavaleiros, o vermelho são os membros do "Gato Vermelho". Ainda parece que o combate não começou. Parece que todos estão concentrados na fortaleza, então talvez dê certo assim…?
— Do que o senhor tá falando?
Confirmo com a Senhorita Esto, que pergunta isso.
— Se os membros ficarem a salvo, tudo bem abandonar essa fortaleza? De qualquer forma, já era plano de vocês fugirem em breve, né?
— Hã? É, sim, tem coisa que seria ruim se descobrissem, mas não tenho apego tão grande assim. O que pretende fazer?
— Vamos entrar lá, e teletransportar todo mundo diretamente pra cá. Depois disso, é só explodir essa fortaleza.
Assim, evita combate, e resolve mais fácil. Por que não pensei nisso antes? Será que já tô com o vício de resolver tudo na força bruta. Ultimamente, só tem sido combate direto mesmo…
— Isso é possível?
— Moleza. Só queria que alguém viesse comigo. Não acho que vão obedecer as minhas palavras assim.
— Eu vou!
A Nia levanta a mão primeiro. Sendo a líder, não teria problema nenhum, mas será que tá tudo bem mesmo?
De relance, olho pra Senhorita Esto, que solta um longo e profundo suspiro, e ordena ao próprio golem ao lado, o Akagane.
— Akagane. Acompanhe a Nia. Ordeno que proteja a segurança dela.
Gigi, o guerreiro-golem vermelho balança a cabeça verticalmente. Diferente do Fenrir, esse golem não fala. Ou será só quieto mesmo? Talvez seja normal não falar.
Bom, tanto faz. Já que decidiram, melhor se apressar. Seria complicado se o combate já começasse.
— [Gate].
Abro [Gate] dentro da sala de comando, e, enquanto a Nia fica boquiaberta, o Akagane atravessa o portão primeiro, talvez pra confirmar segurança. Sem se deixar ficar pra trás, a Nia também salta pela porta de luz.
— Então, já vou. Já já ajudo eles.
— Contando com o senhor.
Sendo despedido com a cabeça curvada pela Senhorita Esto, teletransporto, e chegamos no meio da floresta.
Ao redor, tem a Nia olhando pra todo lado atordoada, e o Akagane em alerta ao redor.
— E então? De que direção é a fortaleza?
— Ah, ah. É por aqui.
Guiado pela Nia, corro pela floresta. Depois de avançar um pouco, ela aponta pro meio da montanha.
— Olha, dessa posição dá pra ver, né. É ali.
— Hã?
Na direção que a Nia aponta, só dá pra ver árvores da montanha. Projetando visão com [Long Sense], de fato, misturada entre as árvores, dá pra ver algo tipo cabana de log, ou fortaleza montada com troncos. Ah, tão camuflando. Só de olhar assim, de relance, não dá pra perceber.
Quer dizer, dessa distância, normalmente não daria pra ver isso.
— Certo, se eu souber o local exato, dá pra saltar de uma vez. Vamos.
— Hã?
— [Teleporte].
Tocando o braço da Nia e do Akagane, teletransportamos de uma vez pra dentro do cômodo da fortaleza montada com toras e tábuas, tipo cabana de log.
Diante de nós, aparecendo de repente, os homens ao redor colocam a mão na arma, mas, percebendo quem era, relaxam a postura.
— Chefa!? C-como você chegou aqui!?
— Ah, ah. Todo mundo bem?
Mesmo surpresa com a mudança repentina ao redor, a Nia fala com os membros ao redor. Ouvindo a voz dela, os membros que ficaram na fortaleza vêm um atrás do outro em direção à Nia.
— Reúnam todo mundo agora mesmo. Todos, viu. Vamos sair daqui. Vamos abandonar essa fortaleza.
Com a ordem da líder, os membros da fortaleza vão pulando, um atrás do outro, pro [Gate] que abro de novo.
Deixando a Nia e o Akagane, todos os outros se teletransportam pro esconderijo do subsolo da capital. Por precaução, confirmo o mapa, e parece que não sobrou ninguém além de nós. Os pontos azuis já começaram a se mover em direção pra cá.
— Opa. Os cavaleiros começaram a se mexer, hein. Melhor explodir isso aqui logo, antes de me envolver. Nia e o pessoal, voltem pra Senhorita Esto. Aqui é despedida.
— Despedida, como assim?
— Também tenho várias coisas que preciso fazer. Preciso voltar amanhã. Da próxima vez que a gente se encontrar, vou receber a recompensa dessa vez, então conto com vocês.
Talvez precise pedir ajuda de vocês em algo também. O "Gato Vermelho" parece ser famoso por aqui, então não custa nada ter esse favor a receber.
— …Entendi. Valeu, me ajudou muito. Da próxima vez que a gente se encontrar, vou mostrar meu golem. É superlegal, viu.
— Isso eu quero ver. Então, também vou te mostrar meu Frame Gear. Um golem gigante que uma pessoa monta e pilota.
— Haha, que isso.
Achando que era brincadeira, a Nia ri. Se trouxer no [Storage], dá pra levar pra este mundo, né. Se virem, deve dar um alvoroço enorme.
— Então até mais. Da próxima vez, me ensina magia, viu. Nos vemos de novo, Touya.
— É, até mais. Manda um abraço pra todo mundo.
A Nia e o Akagane atravessam o [Gate] e se teletransportam. Certo, hora do acabamento. Fico com um pouco de pena, mas.
Desapareço com [Invisible] e subo ao céu com [Fly]. Vendo lá embaixo a fortaleza já vazia, disparo uma magia de explosão espetacular.
— Fogo, exploda, chama explosiva do inferno, [Mega Explosion].
Com um estrondo, uma grande explosão acontece, e a fortaleza voa em pedacinhos. Não só a fortaleza, uma parte da montanha também voou. Será que exagerei?
Os cavaleiros que cercavam ficam agitados, se aglomerando em direção ao local que virou destroços. Bom, sem cadáver nenhum, logo devem perceber que todos fugiram.
Dei bastante volta, hein. Mas tive um bom proveito também.
O robô parecido, desenhado no caderno deixado pelo velho Parelius. Sem dúvida. Aquilo é um golem.
Um golem nascido neste mundo atravessou de algum jeito os mundos e chegou até lá… até o nosso mundo. Lá, encontrou o velho Parelius. Talvez tenha ensinado alguma dica de como atravessar mundos.
Já que existe golem que fala, não é impossível. Será que foi esse mesmo golem que restaurou a barreira do mundo?
Dizem que golems chamados de corpo antigo têm capacidades especiais tipo magia. E ainda por cima, o tipo chamado "Coroa" parece ter uma habilidade extraordinária ainda maior.
Se esse "Coroa" veio parar no nosso mundo há 5000 anos, e restaurou a barreira do mundo…
— Ainda é só hipótese em cima de hipótese.
O dia escurece. Por ora, vou fazer o que der até de manhã.
Pousando na floresta longe da fortaleza destruída, desativo o [Invisible].
Abro o círculo de invocação e chamo dezenas de milhares de pássaros contratados, soltando-os pelo céu. É pra reforçar o mapa, mas também pra procurar algum lugar isolado, longe de gente.
Preciso encontrar um lugar pra instalar o portão dimensional neste mundo sombrio. Até de manhã, não acho que o alcance da busca vá se expandir muito.
Se eu aplicar uma barreira igual da Ilha Parelius, talvez até essa floresta sirva. Mas não sei se algum humano curioso vai investigar por aqui. Melhor mesmo um lugar longe da cidade, tipo território inóspito, deve ser mais seguro.
Depois de soltar os pássaros, fico voando de um lado pro outro com [Fly] sem destino específico, até que a noite cai, e ao redor fica completamente escuro.
Noite sem lua, mas dá pra enxergar razoavelmente bem. Será efeito da divinização também.
E, à distância, dá pra ver a luz de uma cidade. Digo "ver"… enxergo demais?
— Que negócio é aquele…
Um redemoinho de luz de neon brilhando intensamente. Iluminado por toda parte, dói até o olho. Olho lá embaixo a cidade tão chamativa que parece até parque de diversões.
— Cassi… no. Cassino, é? Faz sentido, então.
Convencido pela letra gigante escrita na placa. Ou seja, é a cidade dos cassinos.
Certo, o que fazer. Nunca tive experiência de jogo de azar. Faz sentido, sou menor de idade. Neste mundo, não deve ter esse tipo de lei, mas simplesmente nunca tive oportunidade.
Não é que não tenha interesse. Ou melhor, tenho muitíssimo interesse.
Tenho um fundo razoável… vamos experimentar de tudo?
— Certo, vamos tentar então!
Cheio de expectativa, entro animado na cidade dos cassinos.
— …Jogo de azar é assustador mesmo…
Depois de jogar vários jogos diferentes até de manhã, acabei ficando completamente sem nada.
Claro que, se usasse magia, daria pra resolver de algum jeito, mas, sinceramente, não tive coragem de trapacear naquele lugar. No fim, ficou desse jeito.
Parece que não tenho talento nenhum pra jogo de azar.
— Numa hora até tava ganhando, mas…
Pra recuperar as perdas, apostava mais alto, e isso só aumentava a perda ainda mais, numa cadeia sem fim.
Haa, solto um suspiro sem querer.
— Por ora, vou voltar passando pelo Mundo dos Deuses… preciso entregar o souvenir pro Deus também.
Pra voltar ao mundo original, abro [Gate] rumo ao Mundo dos Deuses.