Capítulo 282 – A Consulta e o Reino de Paruhu
— Bom dia, Touya-san.
— …Bom dia, Yumina. E, por que você tá aqui?
Ao acordar na cama do meu próprio quarto, tinha uma garota de olhos heterocromáticos montada em cima de mim, por cima do edredom.
— …Se não me engano, meu quarto devia estar trancado por dentro, né?
— Já destranquei. Assim, com um jeitinho.
Destrancou… como assim, você consegue fazer isso!? Diante da minha pergunta bem cabível, a Yumina, com sorriso de anjo, responde como se não fosse nada de mais.
— É uma das minhas sete habilidades especiais, sabe.
Isso não é resposta nenhuma!? Que isso, hein! As outras seis, quais são!?
Ser acordado de manhã pela garota que gosto não é sentimento ruim, mas faz mal ao coração. Ainda por cima, a Yumina também tá desprotegida, de pijama, o que faz ainda pior pro coração.
Já fazem dois anos que nos conhecemos, e ela cresceu bastante de várias formas. O corpo dela ficou bem mais feminino comparado a quando nos conhecemos, mas essa parte imprevisível dela não mudou.
Mesmo assim, ela já tem 14 anos, então gostaria que evitasse esse tipo de ação.
— Já aproveitei bastante seu rosto dormindo, então hoje tô satisfeita.
— Desde quando você tava montada aí…
Eu que não percebi também sou eu. Por ora, peço pra Yumina sair, e me troco rapidinho.
Antes do café da manhã, vou até o campo de treino, e, como sempre, misturados com todo mundo da Ordem de Cavaleiros, a Yae, a Hilda e a Elsie treinavam.
Já que não vejo a Lu por aqui, talvez ela esteja fazendo o café da manhã hoje. Se for isso, o café de hoje deve ser comida japonesa. Ansioso.
— Ei, Touya-kun, bom dia. Já que é assim, será que dá pra ser meu adversário?
Enquanto ia dar bom dia pra todo mundo, fui pego de surpresa pela irmã Moroha, que se aproximou sorrateiramente por trás. Droga, descuido meu. Baixei a guarda.
— …Sem problema, mas segura a mão, viu.
— Precisa disso mesmo? Bom, como sempre, sem magia nem poder divino dos dois lados.
Nos posicionamos frente a frente, e, com o sinal da Elsie, que se ofereceu como juíza, trocamos golpes de espada de madeira. Espada de madeira, mas com reforço de durabilidade aplicado. Senão, já teria se despedaçado no primeiro golpe.
Claro, se atingisse o corpo, quebraria osso. Só que, no meu caso e no da irmã, acho que não chegaria a tanto dano assim. Mesmo assim, dói, dói mesmo, então não quero ser atingido.
— Ei!?
Fui varrido de surpresa na perna. Perdendo o equilíbrio pra trás, caindo, num instante veio uma estocada afiada em minha direção.
Rolando de lado às pressas, desviando disso, salto de volta usando só a força do braço, voltando a ficar de pé no chão. Quase!
Essa aí, hein. Falei pra segurar a mão.
Se é assim que quer, então vamos assim mesmo. Segurando firme a espada de madeira de novo, me preparo pra continuar.
— «Senhor, tá tudo bem?»
— Uuh~n…
Cutucado de leve pelo Kohaku, eu aguentava a dor no corpo todo.
Não teve intenção nenhuma de segurar a mão… o nome de Deusa da Espada não é à toa mesmo.
Aplico [Healing] e [Refresh] no corpo inteiro e me levanto. Se não fosse a magia, não conseguiria mexer nem um dedo.
A irmã Moroha já foi rapidinho procurar a próxima presa, dando instrução de treino.
Ai, ai. Exercício em excesso demais antes do café da manhã.
Por ora, vou pro refeitório pegar o café da manhã, e a Lindsey, a Leen ainda meio sonolenta, e a Lu estavam se alimentando.
Como cada uma tem coisas próprias pra fazer, raramente comemos todos juntos no café da manhã. A Sakura, inclusive, come com a mãe, a Fiana-san, umas metades das vezes na semana.
O café da manhã, como esperado, era comida japonesa feita pela Lu. Arroz, sopa de missô com nabo, peixe grelhado pescado na Ilha da Masmorra, omelete, kinpira de bardana, tofu gelado, picles de nabo.
A Lu, talvez por saber que eu gosto, tá cada vez mais especializada em comida japonesa. Parece que fica perguntando pro pessoal de Ishen sobre vários tipos de prato, aprimorando a técnica. Fico até preocupado se não vou engordar de tão gostoso.
Terminando o café da manhã, enquanto resolvia o trabalho da manhã, o smartphone no bolso avisa uma ligação. Quem é… oh? Raro. Nada menos que o cunhado Reinhardt, o Rei Cavaleiro de Lestia.
— Alô, sim?
— Ah, Vossa Majestade. Desculpe incomodar num momento ocupado. Queria pedir um conselho… sobre o Rei de Riinie.
— Do Rei de Riinie?
O Rei do Reino de Cavaleiros de Lestia, cunhado (previsto) Reinhardt, e o Rei Cloud do Reino de Riinie, sendo próximos em idade, mantêm uma amizade estreita.
Originalmente, o Cloud passou toda a vida sendo maltratado pelo falso príncipe Zabun, então tem poucos amigos de verdade. O Reinhardt também, pela posição de príncipe, provavelmente não tinha muita gente com quem conviver casualmente. Faz sentido que dois de personalidade parecida ficassem amigos.
Um pedido de conselho sobre esse amigo, será que aconteceu alguma coisa?
— Daqui uns 10 minutos já dou uma pausa, vou ouvir você aí mesmo. Vou até a frente do castelo de Lestia.
— Entendido. Vou esperar.
Desligo o telefone, organizo os documentos, e aviso o primeiro-ministro Kōsaka-san sobre pra onde vou, por precaução. Pensei em chamar a Hilda também, mas, sendo assunto sobre o Rei de Riinie, decidi ir sozinho no fim.
Ao me teletransportar via [Gate] pra frente do portão do castelo de Lestia, já tinham dois cavaleiros de Lestia esperando. Guiado por eles, avançando pro interior do castelo, chego a uma sala afastada, e o cavaleiro que caminhava na frente abre a porta com reverência.
— Ah, desculpe incomodar assim. Não sabia com quem mais conversar sobre isso.
O Reinhardt, sentado no sofá do quarto, se levanta pra me receber. Digo "incomodar assim", mas, sendo consulta importante, achei melhor conversar pessoalmente do que por telefone.
Aceitando o convite, sento no sofá em frente ao cunhado. Depois de mandar sair o cavaleiro que estava no quarto, o Rei de Lestia começa a falar sobre essa tal consulta.
— Você sabe que Riinie e Paruhu chegaram quase à beira de guerra, antigamente, né?
— Ah, pela trama do antigo primeiro-ministro, o Waldock, né? Foi perigoso, mas, depois que o Rei de Riinie assumiu o trono, mudaram pra linha de amizade, e conseguiram evitar, não foi?
Localizada a noroeste do continente, a maior ilha do mundo real, Ilha Parunie, é dividida entre Paruhu ao norte e Riinie ao sul, mantendo há muito tempo pequenos conflitos repetidos.
O país ao norte, Paruhu, foi atingido por uma grande fome causada por frio severo. E, aproveitando o momento em que a morte do rei e do primeiro-ministro se somaram a essa desgraça, o então primeiro-ministro de Riinie, o Waldock, tentou provocar guerra.
Bem em cima da hora, com nossa intervenção, o Waldock foi derrubado do poder, e a guerra foi evitada. Depois disso, o novo Rei de Riinie, o Cloud, deve ter aprofundado a amizade com Paruhu por linha de cooperação.
— A relação com Paruhu é geralmente boa. O Rei de Paruhu faleceu, o príncipe assumiu como rei, e internamente já se acalmou. O comércio também vai bem. Só que tem um probleminha…
— Problema?
— O falecido Rei de Paruhu tinha dois filhos. Uma é a Princesa Lucienne Dia Paruhu. O outro é o irmão mais novo dela, Príncipe Ernest Din Paruhu. Essa irmã mais velha, a Princesa Lucienne, ficou amiga do Rei de Riinie. Tá indo bem entre eles.
— Hoo, que interessante.
Então chegou a primavera pro Cloud também, é isso? Depois de tanto tempo, aquele príncipe idiota (falso) grudado nele. Espero que ele consiga aproveitar a juventude perdida em amor e sonhos, esquecendo aquela adolescência trágica sem liberdade.
Mas, qual é o problema, afinal?
— O irmão mais novo que mencionei, o Príncipe Ernest. Esse príncipe assumiu o trono, mas ainda é uma criança de 10 anos. Mesmo apoiado pelo tio-regente e os altos funcionários ao redor, ainda é criança mesmo. E esse menino é grudadíssimo na irmã.
— Haha, então tá com ciúmes do Rei de Riinie, achando que vão tirar a irmã dele?
— Bom, resumindo bem, é isso mesmo.
Dizendo isso, o Rei Cavaleiro ri, meio sem graça.
Bom, dá pra entender também. O pai morreu, ele foi meio que empurrado pro trono sem entender direito, e agora até a irmã tá prestes a deixá-lo. Deve ser difícil de aceitar pra uma criança de 10 anos.
— E, o que pensam os altos funcionários de Paruhu sobre isso?
— Pros altos funcionários, parece que veem como uma boa oportunidade de aprofundar o laço entre os dois países, então encaram de forma favorável.
— E os próprios envolvidos?
— Pelo menos o Rei de Riinie parece querer que a Princesa Lucienne se torne rainha, mas a princesa em si é que…
— Não quer casar?
— Não é isso, mas é mais tipo, ela não consegue casar deixando o irmão ainda pequeno pra trás, digamos. Se não me engano, a princesa tá com uns 19 anos agora. Esperar o Rei Ernest crescer significaria um casamento bem tardio, e o Rei de Riinie também tem o problema da sucessão. Continuar esperando pode ser difícil.
Se o Príncipe Ernest, ou melhor, o Rei Ernest, ficar independente aos 15, faltariam mais cinco anos… esperar até fazer 24 é bastante tempo, hein.
Neste mundo, as mulheres geralmente casam por volta dos 20 anos. Se for família real ou nobreza, isso cai ainda mais, sendo comum noivado aos 13, 14. Mas casar só aos 24, sendo considerado tardio demais, ainda causa uma sensação estranha pra mim.
Parece que a Princesa Lucienne também tinha um noivo, nobre de alto escalão de Lifris, mas, sem nunca chegarem a se encontrar, o rapaz faleceu de doença, e, depois disso, com o assunto do antigo rei, ela acabou ficando pra trás, digamos.
O Cloud, Rei de Riinie, parece disposto a esperar cinco anos até o Rei Ernest amadurecer, mas… isso, mesmo permitido individualmente, é difícil como rei.
Também em Riinie, só o Cloud é da família real. Deve ter vozes entre os altos funcionários de Riinie desejando um herdeiro. Deve ter quem pense em arranjar uma esposa rapidamente. E deve ter bastante nobre querendo que seja a própria filha, se possível.
Normalmente, acho que até uma segunda esposa resolveria…
— Primeira esposa sendo nobre, e segunda sendo princesa, isso ia ficar ruim mesmo. Pro pessoal de Paruhu, pode parecer desrespeito. Se fosse como Vossa Majestade, que pode desposar múltiplas princesas, seria outra história.
Opa, o assunto voou pra cá agora, hein.
No meu caso, não é que decidi primeira esposa, segunda esposa, mas, socialmente, parece que a Yumina é vista como primeira esposa, e a Lu como segunda. Aliás, dizem que a terceira esposa é a Hilda, irmã do próprio Rei Cavaleiro na minha frente.
A Elsie, a Lindsey, a Yae são de origem plebeia, então, se for decidir por linhagem, será que a quarta é a Sue, quinta a Leen, sexta a Sakura?
A Sakura carrega o sangue do Rei Demônio do Reino Demoníaco de Zenoas, mas é filha ilegítima, e esse fato não é conhecido publicamente. A Leen era chefe da tribo das fadas, então talvez fique acima da Sue.
Bom, de qualquer forma, não tenho intenção nenhuma de estabelecer ordem entre elas.
Mas parece que, em outros países, não é assim que funciona.
— Mais ou menos entendi a situação… e o que eu deveria fazer?
— Na verdade, esse Rei Ernest… admira demais Vossa Majestade. Normalmente ele quase nem conversa com o Rei de Riinie, mas, quando o assunto é Brunhild ou o príncipe, parece que ele fica animadíssimo pra ouvir. Será que criança também admira herói assim?
— …Sério mesmo?
Não, é meio feliz, mas também meio complicado. Não fiz nada pra ser chamado de herói. Foi só resultado de várias coincidências se acumulando, ou me debater numa situação sem escapatória. Ou, dito de outro jeito, ser levado pela correnteza.
— Ou seja, o conselho é…
— É pedir a Vossa Majestade que convença o Rei Ernest. Pelo futuro brilhante de Paruhu e Riinie.
Já imaginava mesmo. Pensei que ia chegar nisso.
Pelo pensamento de Paruhu, deve ser vantajoso de várias formas mandar a princesa se casar. Só que é complicado saber se é certo tirar a irmã de um garoto por causa disso.
Não quero convencer à força, e sim que ele deixe a irmã se casar de coração, mas será que vai ser simples assim. O outro lado é criança, afinal.
— Por ora, vamos até o Rei de Riinie e ouvir a opinião dele. Talvez ele mesmo já tenha alguma ideia também.
Não adianta nada uma terceira pessoa sem relação nenhuma ficar discutindo isso. Se a própria pessoa não tiver vontade, é só intromissão desnecessária mesmo.
Entro em contato com o Rei de Riinie pelo smartphone, e, como o compromisso seguinte dele foi cancelado justamente agora, consigo marcar audiência. Já que o Rei Cavaleiro de Lestia tem compromisso depois disso, decido ir sozinho. Fui pedido pra fazer o melhor possível. Que bom amigo o rei de Riinie arrumou, hein.
Ao me teletransportar via [Gate] pro portão do castelo de Riinie, depois de tanto tempo, um dos dois guardas do portão desabou de susto. Droga, devia ter aparecido num lugar com menos gente. Mas o outro guarda parece ter me reconhecido, entrando em contato imediatamente com o interior do castelo, e, pouco depois, veio um velho conhecido.
— Ora, ora, Vossa Majestade o Príncipe de Brunhild. Quanto tempo.
— Marquês Coop… ah, Primeiro-Ministro Coop, desculpe a visita repentina.
O músculo firme, impróprio pra um idoso, ainda dá pra notar por baixo da vestimenta de primeiro-ministro. Esse homem careca de barba branca, como braço direito do Rei Cloud de Riinie, parece estar se esforçando pra reconstruir a Riinie devastada.
— Fui meio que pedido pelo Rei Cavaleiro de Lestia. Sobre o rei daqui e a princesa do país vizinho.
— Entendo. De fato, também estamos preocupados com isso. Sua Majestade parece não ter intenção nenhuma de ter outra esposa… bom, por causa do assunto do falecido rei, talvez ele pense que casamento sem amor só traz infelicidade.
Ah, entendi. É isso.
O falecido Rei de Riinie, pai do Cloud, casou sem amor com a Rainha Dakia. Como resultado, foi enganado, e teve a vida inteira mexida pela criação daquele príncipe idiota como se fosse filho biológico. Talvez, por causa disso, ele evite instintivamente casamento político sem amor.
De fato, como rei, deveria priorizar o país primeiro, mas talvez isso seja cruel demais de cobrar.
Bom, aquele mesmo antigo rei parece estar feliz agora, aposentado tranquilamente com a Rainha Eria, mãe do Cloud.
De qualquer forma, sem perguntar ao próprio interessado, não começa nada. Guiado pelo Primeiro-Ministro Coop até a sala de visitas do castelo, encontro com o Cloud e decido ouvir o que ele realmente pensa.
— De fato, desejo a Princesa Lucienne, do Reino de Paruhu, como esposa. Mas, por isso, não quero magoar o coração do jovem Rei de Paruhu. Só preciso esperar, isso é tudo.
— Ele fala isso, mas, como súdito de Riinie, o que acha?
— Sinceramente, individualmente acho que tudo bem assim… mas é fato que estamos recebendo bastante pressão dos nobres do país. Pra nosso reino, sucessão é o assunto que deve vir antes de qualquer coisa.
O Primeiro-Ministro Coop responde com expressão séria. Faz sentido mesmo. Se o Cloud, que não tem irmãos, não tiver filho, a linhagem real de Riinie se extingue. Mas, mesmo sendo um problemão, também não parece ser algo tão urgente assim. Ele ainda é jovem, afinal.
— Que tal só fazer o noivado por ora?
— Noivado, mas esperar cinco anos até o casamento? Eventualmente, o povo vai perceber o motivo. Isso seria como divulgar que o Rei de Paruhu é um rei egoísta que não quer se separar da irmã. O outro lado talvez mostre relutância.
O que o Primeiro-Ministro Coop diz faz sentido, mas, sendo uma criança, acho que não tem jeito mesmo. Deve não ser algo que ele desejou, mas virar rei tão cedo assim não é fácil mesmo.
— Os altos funcionários do outro lado desejam o casamento dos dois, né?
— A maioria sim. Só uma parte, entre os nobres que pensam em casar a princesa com o próprio filho, parece se opor.
Hmm, será que não é esse pessoal que anda incutindo coisas no jovem rei? Falando que, se mandarem ela casar em Riinie, vai ser infeliz, esse tipo de coisa.
Sinceramente, por causa daquele príncipe idiota (falso), a reputação da família real de Riinie não devia estar tão boa assim.
Ser visto como "irmão daquele Zabun" já daria uma imagem péssima. Na realidade, ficou provado que não tinha nenhum parentesco de sangue, mera coincidência de estranhos, e isso já deve ter sido comunicado a Paruhu também.
— Bom, por ora, entendi o sentimento do Rei de Riinie. Separado disso, gostaria de encontrar com o Rei de Paruhu também. Será que dá pra intermediar esse encontro?
— Com o Rei de Paruhu? Isso seria ótimo. Ele vai ficar muito feliz. Poder conhecer o príncipe que tanto admira.
Um rei admirar outro rei também é uma história estranha, hein.
Deixando de lado a questão de convencer ou não, tenho vontade de conhecer. Claro, o melhor seria ele conseguir se soltar um pouco da irmã.
Se complicar e virar um complexo de irmã pesado demais, também seria problema.
Espero que apareça alguma boa solução. Ai, ai.