Capítulo 283 – O Rei-Menino e a Garota Gênio
— É, prazer, Vossa Majestade! Rei do Reino de Paruhu, Ernest Din Paruhu, é isso! …Haa, consegui falar…
No pátio do castelo de Paruhu, o menino, que despejou tudo de uma vez como se estivesse fazendo uma declaração de vida ou morte, soltou a respiração de alívio imediatamente depois.
Parece estar terrivelmente nervoso.
— Prazer, Vossa Majestade Rei de Paruhu. Sou Mochizuki Touya, Príncipe do Principado de Brunhild. Muito obrigado por permitir esta visita repentina.
— N-não, imagina, eu que agradeço!
Curvando levemente a cabeça, o rei-menino de Paruhu balança a cabeça freneticamente, atrapalhado. Que menino de reação exagerada em tudo, hein.
Ouvi que ele tem 10 anos. Então é mais novo que a Sue. A altura é parecida, mas. O rei-menino tem cabelo loiro cortado reto, vestindo um traje formal e uma capa completamente branca desproporcional ao corpo. Sinceramente falando, não combina nada. Dá pra sentir claramente que é roupa imposta.
— O Rei de Paruhu tava ansioso pra conhecer Vossa Majestade, sabe. Sempre ouvindo eu falar sobre isso.
O Rei de Riinie, Cloud, que estava ao meu lado, fala isso, e o rei-menino, ficando completamente vermelho, se esconde atrás da mulher ao lado.
Com expressão meio constrangida, sorrindo, a mulher curva levemente a cabeça em minha direção.
— Desculpe. Ele é uma criança um pouco tímida… por favor, não leve a mal.
— Não, não, sem problema.
Essa mulher é a Lucienne Dia Paruhu. Irmã mais velha do atual rei-menino de Paruhu, e a pessoa que ocupa o coração do Rei Cloud de Riinie.
Cabelo loiro levemente ondulado, igual ao do irmão, e olhos cor de jade. Sinceramente falando, não é do tipo extremamente bonita. Mas é alguém que carrega um clima meio reconfortante.
Não tem o esplendor de rosa, a força de girassol, nem a elegância de lírio. Se fosse comparar, seria uma mulher com a singeleza de um dente-de-leão. Se andasse pela cidade vestida de moça comum, talvez ninguém percebesse quem ela é.
— Olha, não tem um pedido pro príncipe, tem? Precisa falar com a própria boca.
— Pedido?
Empurrado pela irmã, o rei-menino avança timidamente. O que será?
— A-aquilo! S-será que dá pra me mostrar o soldado-gigante!?
— …Soldado-gigante? Ah, tá falando do Frame Gear, é? Sem problema, mas… posso chamar aqui?
Não posso simplesmente chamar dentro do castelo de outro país sem mais nem menos, então, por precaução, viro o olhar em direção aos altos funcionários de Paruhu alinhados no canto do pátio, pedindo permissão.
Um deles, um homem de aparência gentil, de uns 50 anos, vestindo manto branco, abre a boca. Se não me engano, esse deve ser o Duque Donovan Rembrandt, o regente… irmão do falecido rei, e, pra esses dois, o tio deles.
— Sem problema. Mostre a Vossa Majestade. Ele estava ansioso por isso.
Recebendo a permissão, estalo os dedos e abro um portão de teletransporte no ar.
De lá, com um "zun!" de tremor de terra, surge um Cavaleiro Pesado, o Frame Gear cinza, pousando no chão de Paruhu. Sem equipamento, totalmente padrão, modelo de produção em massa puro.
— Uwaaaaaah…!
O rei-menino de Paruhu fica paralisado, olhando pra cima em direção ao Cavaleiro Pesado.
Operando pelo smartphone, faço o Cavaleiro Pesado se ajoelhar num joelho, abrindo a escotilha do cockpit. O gancho de içamento, na lateral do peito, desce até bem na minha frente.
— Quer subir e ver? Claro que, pra não causar transtorno, não vou movimentar.
— …! S-sim!
Segurando o rei-menino, colocando o pé no gancho, subimos automaticamente até o cockpit. Sentado no assento, o Rei Ernest de Paruhu segurava o manche do Frame Gear com os olhos brilhando.
Mesmo em outro mundo, parece que existe mesmo esse tipo de admiração de menino por robô ou veículo assim.
— Foi com isso que Vossa Majestade derrotou fera gigante e fera mágica de cristal, né. Se eu subisse nisso, será que eu também conseguiria lutar…
— Desculpe, mas isso não seria possível. Pra pilotar esse Frame Gear é preciso um treino considerável. Não só a técnica de operar o Frame Gear, mas, sem treino básico de artes marciais próprias também, seria difícil.
— Uh…
O Rei de Paruhu, pelo corpo franzino, parece um típico menino frágil. De fato, dizem que ele prefere ler livro a se mexer fisicamente.
Sendo rei, não é que precise ir pra linha de frente, então talvez não precise de tanta força assim. Mas acho que seria bom ter, ao menos, força suficiente pra se proteger.
— …Vossa Majestade não tem medo de machucar as pessoas? Não é difícil ser odiado, gerar rancor por causa disso? Eu… tenho medo tanto de bater quanto de apanhar.
— …É verdade. Se possível, eu também não quero machucar ninguém. Mas tem coisa que não dá pra proteger sem fazer isso. Eu tenho mais medo disso. Não ter força na hora que precisa lutar, e não conseguir proteger o que é importante. Isso, sim, eu acho absolutamente insuportável. O Rei de Paruhu também deve ter algo que quer proteger, né?
— …Sim.
O rei-menino desvia levemente o olhar pra baixo e assente pequeno. Lá embaixo, estava a figura da irmã dele, conversando animadamente com o Rei de Riinie.
— A irmã é importante pra você?
— …Sim. Quero que minha irmã seja feliz. Sei que o Rei de Riinie deseja ela como esposa. Mas tenho medo. Medo de minha irmã desaparecer. Será que eu, sem ela, consigo dar conta de ser rei…
Ei, esse menino entende bem as coisas, hein. É mais maduro do que aparenta.
Essa insegurança deve vir da falta de confiança, mas isso não tem jeito mesmo. Ainda é criança, afinal. Não, criança normalmente teria confiança sem fundamento nenhum também, mas esse rei parece meio fraco de espírito mesmo.
Conectar os castelos de Riinie e Paruhu com um portão-espelho por onde só a Princesa Lucienne pudesse passar resolveria o problema, parece, mas não deve ser algo tão simples assim.
Mesmo indo pela via da amizade, Riinie e Paruhu repetiram pequenos conflitos por séculos. Se ficar sabido que só a Princesa Lucienne consegue ir e vir livremente entre os dois países, não é garantido que não apareça gente descontente com isso.
Existe possibilidade de surgirem boatos de traição ou espionagem de qualquer um dos dois lados. O que é possível em Brunhild não necessariamente funciona em outros países. Bom, é só uma possibilidade, no fim.
O melhor seria esse rei conseguir se tornar independente, mas ainda deve ser impossível.
Acho que ele tem bastante súdito confiável. Disse que é tímido, então talvez, tendo assumido o trono há pouco tempo, ainda não se acostumou direito. Mesmo assim, parece confiar pelo menos no tio, o regente Duque Rembrandt.
Se conseguisse um pouco mais de autoconfiança, será que ficaria um pouco mais parecido com rei?
— O Rei de Paruhu tem algo que se destaca, tipo espada ou magia?
— Al-algo que se destaco? Espada não sou muito bom, e magia só tenho aptidão pra um atributo só…
Dizendo isso, o rei-menino ficou abatido. Droga. Como assim eu vou tirar ainda mais confiança dele!
Enquanto pensava em como consertar isso, o Ernest virou o olhar pra imagem externa exibida na câmera do cockpit.
— Ah.
— Hm?
Diante da voz que o rei-menino soltou, também viro o olhar pro monitor lateral do cockpit. Lá, dava pra ver o Duque Rembrandt, o regente, e, ao lado dele, uma garotinha pequena em pé. Será que essa menina tava lá desde antes… ué? Parece que tá olhando pra cá com cara de raiva?
— Quem é aquela?
— É a filha do tio… o Duque Rembrandt, se chama Rachel… é, minha candidata a noiva.
Hoo. Esse garoto não é bobo, hein. Bom, sendo família real, faz sentido ter alguém assim mesmo. Parece que a relação deles é de primos.
A garota exibida no monitor tinha cabelo loiro ondulado, com uma tiara preta bem marcante. Talvez por serem primos, ela se parece bastante com a Princesa Lucienne, irmã do Rei Ernest. Parece até irmã mais nova dela.
Mas o clima é bem diferente — comparada à Princesa Lucienne, meio suave, essa garota tem olhar bem mais afiado, com jeitão de personalidade forte. Está com a mão na cintura, encarando pra cá o tempo todo.
— Quantos anos ela tem?
— A mesma idade que eu.
Mais nova que a Sue, mas já com essa presença, num certo sentido, impressionante… egoísta, moleca, atrevida… essas palavras passaram pela minha cabeça.
— A Rachel é incrível, sabe. Tem aptidão pra quatro atributos de magia, e a habilidade de espada dela não perde nem pra adulto. Chamam ela de "gênio que só nasce uma vez a cada cem anos"…
Nossa, que incrível mesmo. Criança prodígio, filha de duque, e ainda por cima candidata a noiva de rei. Faz sentido a personalidade ficar forte assim. Seria estranho se não fosse.
Mesmo assim…
— Por que ela tá olhando pra cá com essa cara de raiva, hein?
— É… deve ser culpa minha. Na verdade, hoje tava marcado um chá com ela. Mas, como Vossa Majestade veio visitar de repente…
Espera aí! Quer dizer que ela tá brava porque o chá foi cancelado? Ou melhor, essa raiva não tá direcionada pra mim também não!?
Muu… de qualquer forma, ficar aqui assim só deve aumentar a raiva dela. Melhor descer logo. Ela tá batendo o pé no chão, tan-tan. Será que tá irritada?
Descendo junto com o Rei de Paruhu pelo gancho de içamento até o chão, a garota da tiara se aproxima decidida, para bem na minha frente, e, segurando a barra da saia com as duas mãos, faz uma reverência elegante. Isso é o tal courtesy.
— É um prazer conhecê-lo. Vossa Majestade o Príncipe de Brunhild. Sou Rachel Rembrandt, filha primogênita da Casa Rembrandt. Sou noiva de Sua Majestade o Rei Ernest.
— Ah, muito prazer.
Noiva? O Ernest disse "candidata", mas, pra essa aqui, já é assunto decidido mesmo?
— Peço desculpas por não ter conseguido recebê-lo devidamente por causa da visita repentina. Se tivesse avisado com um pouco mais de antecedência, isso não teria acontecido.
— Ah… hahaha, então da próxima vez faço assim.
O rosto tá sorrindo, mas ainda parece brava mesmo, viu. Dá pra sentir espinhos nas entrelinhas da fala dela. Deve ser desabafo por ter atrapalhado o chá agradável com o amado rei-menino, imagino. Bom, mesmo sendo criança prodígio, ainda é coisa de criança, então até dá certa graça.
— R-Rachel, esse jeito de falar não é…
— Que foi? Você tá do lado do Príncipe?
— É… não é bem isso…
Ah não. Se esses dois se casarem, com certeza o rei vai ficar debaixo do dedo dela. Será que a falta de confiança do rei não é culpa dessa aqui, hein.
Sendo visivelmente forte e insistente assim, dá que a garota. Reprimir o próprio rei desse jeito, francamente.
A Rachel fica emburrada com o rei-menino que gaguejava sem terminar a frase, mas, eventualmente, bate as duas mãos e vira o olhar em minha direção.
— Ah, é verdade. Se não me engano, Vossa Majestade também é aventureiro de rank ouro. Será que poderia me dar uma aula?
— Hã?
— Gostaria de ver essa força tão famosa por aí. Poderia me conceder isso?
A garota sorri de forma feroz. Ei? Será que, por acaso, tô sendo desafiado pra briga?