Capítulo 288 – O Segundo Dia e a Manhã
Segundo dia do festival.
Hoje tem a final de beisebol e a classificatória de shogi.
O beisebol, desde a manhã, no primeiro estádio Lestia contra Misumido, e no segundo estádio Belfast contra Regulus, respectivamente.
E, os times vencedores decidem quem é o melhor à tarde, definindo o campeão.
Antes disso, por volta do meio-dia, também tem a disputa de terceiro lugar. Dependendo do time, vai virar jogo dobrado, mas isso se resolve rapidinho com a poção especial de recuperação de energia da Flora, orgulho do "Prédio de Alquimia".
Já o shogi, também tem classificatória desde a manhã até o fim da tarde. Isso porque os participantes foram surpreendentemente numerosos, e também por questão de tempo.
Normalmente, shogi tem o que se chama de tempo de jogo. Mas, sinceramente, isso é complicado e dá trabalho, então, só nesse torneio, decidi que cada jogada tem que ser feita em até dois minutos.
Usando peças especiais, depois de um minuto do adversário jogar, a peça fica cinza, e, depois de dois minutos, a própria peça fica preta. Isso significa derrota.
Se jogar antes de ficar preta, a cor volta ao normal.
Por precaução, pra dar chance de pensar até o limite, também preparamos ampulheta de dois minutos na mesa de jogo.
Sinceramente, queria que fosse mais ágil, mas, diferente do beisebol e do torneio de artes marciais, sendo um jogo que não depende de idade nem gênero, o número de participantes acabou sendo bem grande.
Dali, alguns classificados na fase eliminatória, junto com os convidados cabeça de chave, disputam a fase final de amanhã.
O local já estava animado com participantes e espectadores. O Dolan-san, convidado cabeça de chave da "Lua de Prata", e o rei-menino de Paruhu, disfarçado com o distintivo, espiavam as partidas dos participantes da classificatória, assistindo com atenção quando achavam interessante.
Do meu lado, como não tenho tanto entusiasmo assim por shogi, só faço uma ronda leve.
Agora há pouco, um dos participantes, parecendo prestes a perder, virou o tabuleiro de propósito. Mas o nosso tabuleiro de shogi especial registra a posição das peças até um instante antes de ser virado, então foi só esforço em vão. Claro, ele foi desqualificado.
Aliás, pra essa classificatória, convocamos o velho Naitō, que ontem estava de folga. Parece meio de ressaca ainda.
— Hmm, não dá pra negar que é meio sem graça mesmo, hein.
— Mas parece que todo mundo tá se divertindo, viu. Olha, naquela mesa ali, um velhinho e uma criança jogando bem alegres.
Na mesa que a Yae aponta, de fato, tem um idoso e o neto jogando. Pela expressão, parece que a criança está levando vantagem.
— Aliás, a Yae não precisa ficar com o Jūtarō-san?
— Meu irmão tá se concentrando no torneio de artes marciais de amanhã, treinando desde a manhã cedo no campo de treino da Ordem de Cavaleiros. Não quero atrapalhar, então… bom, hoje eu queria ficar com o Touya-dono…
Enrubescendo, a Yae entrelaça os dedos das duas mãos, agitada. Claro que não tenho motivo nenhum pra recusar.
— Então, que tal ir assistir o beisebol? Já deve estar quase decidido quem vai pra final.
— A-ah, então, será que dá pra esperar um pouco na "Lua de Prata"? Eu vou trocar de roupa rapidinho…
— ? Sem problema, mas…
Dizendo isso, a Yae saiu correndo em disparada em direção ao castelo. Não achei que precisasse trocar de roupa… será que suou no treino da manhã?
Por ora, caminhando pela cidade rumo à "Lua de Prata", de repente sinto a barra do meu casaco sendo puxada, quase caindo de susto.
Achando "o que é isso, afinal", me viro, e lá estava a nossa pequena deusa do vinho, a Suika, se agarrando em mim. Ei, espera aí, sua.
— Ei, o que você tá fazendo…?
— Touya-onichan, um favor de vida toda. Empresta grana pra comprar bebida. A Karina-chan tomou de mim agora há pouco. Mesmo sendo festival, ficar sem bebida é cruel demais!
Dizendo isso, se agarra ainda mais chorando. Para, isso vai grudar ranho em mim! Nossa, será que essa aqui é deusa mesmo?
Se ela fosse a deusa espiritual do vinho, achando que conseguiria fazer bebida surgir do nada, seria um grande engano — parece que isso conta como poder divino, então não pode ser usado no mundo terreno. O que essa aqui consegue fazer é conhecimento de bebida, degustação por análise, e não ficar bêbada por mais que beba, no máximo. Pensando bem, isso é bem chato… ah, também consegue usar punho bêbado, né? …Ainda mais chato isso.
Fazia sentido ela sempre parecer meio levemente embriagada mesmo, sem ficar tão bêbada assim.
— Você não tem algum artefato divino tipo copo que faz jorrar bebida?
— Tenho, sim! Mas esse jorra só saquê divino, e já enjoei! Já enjoei mesmo! Eu quero, nesse festival, beber várias bebidas raras de vários lugares diferentes!
Finalmente começou a fazer birra. Até entendo, mas queria que ela se comportasse mais. É deusa, afinal… será que não tem orgulho nenhum de deusa… Dizem que "não dá pra vencer bêbado e criança", mas nunca imaginei que viesse combinado, dobrado.
Droga, os olhares ao redor observando a gente já tão doendo.
Solto um suspiro, e me agacho pra ficar na altura do olhar da Suika.
— Depois que o festival acabar, tá bom. Se ajudar sóbria as criadas do castelo, fechamos negócio. Combinado?
— Fácil demais! Se eu conseguir beber nesse festival, tudo bem descansar o fígado por um tempo depois!
Uma criança de aparência infantil falando em "dia de descanso do fígado" já tem algo bem estranho, mas, tanto faz. Não quero mais confusão que isso.
— Toma, tá bom assim? E leva isso também. Se algum esquisito te agarrar, não vai machucar ele, viu?
Tiro do [Storage] uma moeda de ouro, e um saco com carne feita de dragão… ou melhor, "beef jerky", quer dizer, "dragon jerky", e entrego pra ela.
Uma moeda de ouro é demais pra gastar em bebida, mas, tanto faz, essa aqui bebe muito mesmo. Bebida cara, bebida barata, tanto faz.
Aliás, parece que gosto de bebida boa ou ruim também não importa tanto assim. Se for ruim, tem sabor de "ruim mesmo", segundo ela. De qualquer forma, o que importa é conseguir beber vários tipos de bebida do mundo terreno. Será que ela é meio idiota de paladar?
Bom, de qualquer forma, com isso deve dar pra aguentar os outros três dias. Melhor que ficar sendo agarrado de novo depois.
— Iuhuu! Valeu! Amo você, Touya-onichan!
Recebendo a moeda de ouro e o saco de jerky, a Suika me dá um beijo leve na bochecha e sai correndo em disparada rumo à barraquinha de bebida. Francamente, que amor de deusa barato, hein.
Depois de me separar da Suika e chegar na "Lua de Prata", como esperado, tava mais movimentado que o normal.
No refeitório, mesmo sendo antes do meio-dia, tava lotado de gente aproveitando a refeição. Parece que os clientes estão esperando bem mais que ontem… ah, é isso, hoje o Dolan-san foi assistir shogi, então tá faltando gente.
Normalmente, não ficaria tão lotado assim, e alguns funcionários já bastariam.
Ao dar uma olhada na cozinha, de fato, a Mika-san tava correndo pra terminar prato atrás de prato, apressada. Impressão de campo de batalha mesmo.
— Opa. Precisa de ajuda?
— Preciso, preciso! Já queria até pedir emprestada a mão de um gato! Por ora, leva isso pra mesa número três!
Falei meio de brincadeira, mas fui empurrado com a bandeja de carne com legumes refogados e sopa. Ué? Sério mesmo?
Não deu pra recusar a essa altura, e, sem alternativa, levo a comida pra mesa. Assim que ponho na frente do cliente da mesa número três, o cliente da mesa vizinha levanta a mão olhando pra mim.
— Rapaz, me traz peixe polo grelhado com sal, ensopado de batata, e salada de feijão.
— Hã? Ah, tá, tá, peixe polo grelhado com sal, ensopado de batata, salada de feijão, tá.
Recebi o pedido. Espera aí. Eu não sou funcionário daqui, viu.
Mas, já que recebi o pedido, volto pra cozinha e passo o pedido pra Mika-san. Aí, imediatamente já sou empurrado com a bandeja do próximo prato.
Ei, espera aí, tô dizendo!
Já ia abrir a boca pra reclamar mais um pouco, mas, diante do olhar intenso da Mika-san dizendo "vai logo!", engulo as palavras. Guerreira. Tem uma guerreira aqui.
Dizem que "quem tá de pé, mesmo que seja pai, usa", mas até rei acaba sendo usado, hein…
Levo a comida pra mesa indicada, e recebo outro pedido. Droga, não consigo sair!
— Vossa Majestade!? O que tá fazendo aqui!?
Na entrada da "Lua de Prata", parado olhando pra mim, congelado, era o Lantz, novato da nossa Ordem de Cavaleiros.
Veio almoçar? Deve ser de olho na Mika-san, mas ela agora tá em modo guerreira. Ou melhor, foi salvo!
— Lantz! Dou uma ordem real a você!
— Hã!? A, sim!
— A partir de hoje, você fica sob comando da gerente da "Lua de Prata"! Vou avisar a Ordem de Cavaleiros por você! Basicamente é anotar pedido e levar comida! Cumpra a missão imediatamente!
— Hã? Ah, sim!
O Lantz, em posição de sentido, recebe minha ordem e corre pra cozinha rapidinho. Como esperado de alguém nascido no Reino Cavaleiro de Lestia, fiel à missão, admirável.
Colocando avental, o Lantz logo leva a comida pra mesa indicada, e, do mesmo jeito que eu fazia agora há pouco, recebe pedido novo de outro cliente.
Não leva a mal, tá. Considera isso um passo pra conquistar a Mika-san.
Não aguentando ser usado mais que isso, deixando o sacrificado pra trás, saio correndo da "Lua de Prata".
Fico esperando ali mesmo, perto da entrada, pela Yae, e aviso pelo smartphone o comandante da Ordem de Cavaleiros, o Rain-san, sobre o Lantz. Ainda bem que deu pra suprir só uma pessoa faltando.
Que isso, deveria abrir uma vaga de trabalho temporário na Guilda de Aventureiros ainda hoje. O Dolan-san também não vai estar amanhã.
— Desculpa a demora.
— Ah…
Diante da voz que chegou de repente por trás de mim, me viro, e lá estava a Yae, vestida de yukata, cabelo preso pra cima.
Yukata de tecido roxo-glicínia estampado com flores-de-corda, obi azul-claro, e getas pequenas — visual exatamente de mulher bonita japonesa em yukata. Isso… é bom.
— Como era festival, minha mãe fez pro meu irmão trazer pra mim. C-como ficou…?
— Não, ficou bom. Ficou bom demais, quase não sei nem o que falar.
— É, é mesmo?
Sinceramente, dava pra ver gente de yukata espalhada pela cidade também. É porque Brunhild tem bastante imigrante de Ishen, então não é estranho ver esse tipo de roupa no festival.
Mas nunca vi uma mulher bonita combinando tanto com yukata quanto a Yae. Será que é só preferência de quem tá apaixonado?
— Claro que deixei a espada em casa, mas…
— Não, bom, faz sentido mesmo…
Yukata com espada. Se errar um pouco, vira samurai desempregado com roupa larga. Ainda bem que a Yae deixou essa parte da elegância feminina em paz.
— Mas trouxe uma faca escondida no peito, viu.
Não deixou, não.
— Bom, por ora, vamos até o estádio. Talvez já tenha decidido os times finalistas, mas pode ser que a disputa de terceiro lugar já tenha começado.
— É verdade mesmo. …A-ah, aquele, é, Touya-dono. P-posso… segurar sua mão…?
Segurando firme a mão da Yae, estendida timidamente, começamos a andar.
Levando a Yae, tímida mas visivelmente feliz, avanço pela cidade cheia de barraquinhas.
Aliás, recebi relatório ontem, e parece que teve gente que não conseguiu ficar em estalagem e acabou acampando fora da cidade, ou armando barraca. Nunca imaginei que se reuniria tanta gente assim.
Será que devia construir mais algumas instalações de hospedagem? Mas, fora do período de festival, não seria problema mesmo, então talvez tá tudo bem assim.
Chegando no segundo estádio, onde acontece a disputa de terceiro lugar, já tinha o resultado do jogo afixado na placa da entrada.
— Primeiro estádio, vitória de Misumido, segundo estádio, vitória de Belfast, é isso.
— Então, quer dizer que é Lestia contra Regulus, que perderam, na disputa de terceiro lugar, né.
Exatamente isso. Entrando na arquibancada, o jogo já tinha começado, terceiro turno, parte de baixo, 0 a 0, ataque de Regulus.
Assim que sentamos, um som forte ecoou vindo do box de rebatida, e, olhando pra cima, dá pra ver a bola branca voando no céu azul. Ah, será que essa vai? Vai mesmo… vê, entrou.
Imediatamente, a torcida explode em gritos. Um home run espetacular.
O jogador que rebateu ergue o punho, correndo pelas bases. Regulus tem bastante batedor forte mesmo. Não é tudo, mas dá um charme mesmo.
Como tinha corredor na segunda base, virou 0 a 2. Ainda é começo de jogo, com essa diferença ainda dá pra virar tranquilamente. Ficamos observando o desenrolar do jogo por um tempo.
No fim, dizendo o resultado direto, Regulus manteve a vantagem de dois pontos até o fim, derrotando Lestia.
Com isso, ficou decidido o terceiro lugar.
E, depois disso, no primeiro estádio, acontece a final entre Misumido e Belfast.
— Quem será que vence, hein.
— Em capacidade física, Misumido leva vantagem, mas só isso não decide o jogo, né. Belfast também virou um time equilibrado em ataque, defesa e corrida.
Do segundo estádio, os espectadores saindo em fileira, agora se dirigem ao primeiro estádio. A maioria parece pretender assistir a final direto.
Também nos deixamos levar por esse fluxo, mas, no caminho, encontramos a comitiva de Belfast. Claro, estando com aquele distintivo, deve parecer só um grupo de espectadores comum aos olhos de quem tá ao redor.
A Yumina, que acompanhava o Rei de Belfast, fala com ele.
— Veio assistir a final mesmo, hein.
— O shogi também me deixa curioso, mas. Touya-dono, da próxima vez que fizer isso, por favor, mude o cronograma. Assim ocupado, não dá conta.
Diante da fala do Rei de Belfast, sorrio meio sem graça. Bom, foi um torneio de última hora mesmo, né.
O Rei de Belfast, pra participar do torneio de shogi de amanhã, parece que queria assistir ao máximo a classificatória de hoje.
Em contrapartida, digamos assim, parece que o irmão dele, o Duque Ortlinde, ficou no local do shogi. Como o duque também vai participar do torneio de amanhã, deve ser reconhecimento do adversário. Isso, a Sue, que foi junto, deve acabar enjoando e vindo pra cá.
Enquanto conversava assim com a Yae e a Yumina, que acompanhava o grupo de Belfast,
— Ah, vovô! É o Touya! Os tios também!
Acompanhada pelo mordomo da família Ortlinde, o Reim-san, a Sue vem correndo por trás e se joga com força nas minhas costas.
Ainda tem esse jeitão infantil, hein. Bom, isso também tem seu charme.
— Sabia que ia vir mesmo. Já enjoou de shogi?
— Já chega de "pachi-pachi". O papai fica só olhando o tabuleiro murmurando sozinho, tedioso demais.
Puu, a Sue infla as bochechas. A Sue é impaciente mesmo. Deve preferir disputa clara de vencer ou perder. Bom, tanto faz. Então vamos assistir beisebol juntos.
Descendo das minhas costas, a Sue vira o olhar pra Yae, que estava ao lado.
— Essa roupa da Yae tá bonita, hein. Kimono, era isso?
— Isso é yukata. Em Ishen, no festival, se veste assim.
— De fato, ficou lindo. Na próxima vez, todo mundo devia fazer essa roupa e usar combinando, né?
— Bom, eu também quero usar!
— Então, aprenda com minha mãe. Esse aqui também foi ela quem fez.
Enquanto observava com um sorriso a conversa de garotas que começou de repente, seguimos rumo ao primeiro estádio, onde vai acontecer a final.
A batalha decisiva está prestes a começar.