Capítulo 293 – O Terceiro Dia e a Noite
Já encontrei aquele ali antes, no castelo real de Zenoas. Espécie dominante beligerante. Assassino cruel e arrogante.
Corpo inteiro coberto por pele cristalizada — o Gira, sem dúvida, direciona seus olhos vermelhos pra minha direção.
Em direção ao Gira, o tentáculo do mutante se estende afiado. Com largura tipo mureta de proteção, o Gira, meio irritado, para isso com uma mão só e o esmaga sem dificuldade.
Com um som "bakyari" tipo metal rangendo, a parte apertada se amassa de forma distorcida. Em seguida, puxando aquilo assim, arremessa o mutante com força bruta.
O mutante arremessado desaparece na escuridão da planície árida. Que força absurda.
Mas Phrase inferior atacando espécie dominante, hein… de fato, aquele mutante parece ser um ser que escapou do jugo que rege os Phrase. E, felizmente, o Gira não parece estar do lado do deus maligno.
O Gira vira o olhar em minha direção, e devagar estende o indicador e o médio da mão direita. Uma pequena esfera de luz surge na escuridão, se concentrando na ponta desses dedos. …Perigo!
Zua! Junto com um clarão ofuscante, um feixe tipo laser é disparado da ponta dos dedos do Gira.
— [Reflection]!
Ativo a magia de reflexo, montando um ângulo na frente.
— Kuh…!
O jorro de luz é rebatido pela minha parede de reflexo e desaparece no horizonte do céu noturno.
Foi bastante poder, mas provavelmente aquilo nem foi a sério. Já recebi um ataque parecido antes, e aquele tinha mais poder que esse. Deve ser tipo uma saudação leve pra mim. Cara folgado. Então eu também preciso retribuir a saudação.
Tiro do [Storage] um martelo grande feito de material cristal, e ergo com força reforçada por [Power Rise].
— [Teleporte].
— !?
Me teletransporto num instante pras costas do Gira, e balanço o martelo já erguido, com o ímpeto de acertar um home run.
Go! Um instante antes de impactar as costas do Gira, ativo [Gravity], aumentando o poder destrutivo.
Ao mesmo tempo em que golpeio até o fim, solto o martelo. O Gira e o martelo voam cada um pra uma direção diferente.
O corpo dele rola dezenas de metros pelo chão da planície árida.
Mas, assim que esse impulso para, ele se levanta como se não fosse nada. Tsc, será que realmente não fez tanto efeito assim.
— Ei, Touya. Ataque surpresa, hein, isso foi bem feito, viu.
— Hoje não tenho tempo pra ficar só com você, sabe. Seria ótimo se você continuasse deitado aí mesmo.
Encaramos frente a frente, ele com o sorriso beligerante e eu. Tiro do [Storage] a espada-arma de fogo Brunhild, coloco em modo arma, e seguro na mão direita.
— Tô ocupado igual você, cara. Preciso arrebentar logo aquele desgraçado do Yura. …Não que eu ache isso, mas, Touya, não é que você tá escondendo ele, né?
— …O quê?
Como assim? Aquela espécie dominante que parecia estar em conluio com o deus NEET… Yura, se não me engano. Será que ele fez alguma coisa?
Mas, mais que isso.
— …Como assim, "escondendo"? Não me diga que essa espécie dominante, o Yura, já veio pra este mundo!?
— …Parece que você realmente não sabe mesmo. Tsc, que saco. Onde esse desgraçado se meteu, afinal.
Franzindo o rosto, o Gira estala a língua. Deduzindo, ele deve estar procurando o paradeiro do Yura. Não sei se como aliado, ou como inimigo.
De qualquer forma, se essa espécie dominante, o Yura, já tiver vindo pra este mundo, é algo grave mesmo. Mesmo sendo repelido de volta pra fenda dimensional pelo "efeito de retorno", se isso se repetir várias vezes, a existência dele acaba se fixando neste lado. Se isso acontecer…
— …O que aconteceu com o casulo do deus maligno. Aquele mutante veio de lá, né? Isso foi obra desse Yura?
— Hã? Tá falando do "ovo brilhante"? Você sabe o que é aquilo? Deve ser algo que o desgraçado do Yura deixou pra trás, viu, não pega nem arranhão nem batendo nem cortando. Que raios é aquilo, afinal? Absorve nossos soldados e transforma numa coisa nojenta e estranha.
Enquanto ouço a fala do Gira, solto um suspiro de alívio. Então o casulo ainda não eclodiu. E ainda tá na fenda dimensional. Ainda bem que não veio pra este mundo junto com o Yura.
Ou seja, o Yura se separou dos outros, tipo o Gira, das outras espécies dominantes? Parece que ele abandonou o casulo do deus maligno e tá agindo sozinho, mas isso me passa uma sensação bem sinistra. Não deve ser que ele descartou o casulo do deus maligno de vez. Droga, não faço a menor ideia do que tá acontecendo, afinal.
— Bom, tanto faz o que aquele desgraçado tá tramando. Se atrapalhar meus planos, só vou destruir.
— …Vocês são a mesma espécie dominante, né? Não são aliados?
— Nunca tive esse tipo de coisa, viu. Quem atrapalha meus planos é inimigo, seja quem for. Igual você.
O Gira transforma o braço direito num tipo lança de cristal e avança pra cima de mim.
— [Slip]!
— Gah!?
O Gira, com o pé escorregando pela magia de tombo, mergulha de cara no chão. Tento cravar um projétil de cristal contra ele caído, mas o Gira escapa do local antes disso.
Com o cotovelo do braço-lança, dispara feito âncora numa rocha próxima, e, puxando isso, arranca o corpo inteiro do alcance do [Slip].
— Seu! De novo você usou uma técnica esquisita!
O Gira, com rosto distorcido de raiva, me encara. Que falta de educação. É uma magia eficaz em combate, ora.
— Se você gostou, posso derrubar você quantas vezes quiser, viu?
— Ke, dá trabalho, mas basicamente é só não tocar o chão, né.
Dizendo isso, o Gira faz surgir algo tipo pequenas protuberâncias na região do calcanhar dos dois pés. Aí, o corpo dele flutua levemente pra fora do chão, parado no ar. Ei, ei, isso não é meio injusto?
Mas, pensando bem, existe até Phrase tipo voador, então faz sentido espécie dominante conseguir voar também.
— Com isso, não escorrego mais. Então, vamos recomeçar!
Mesmo flutuando, o Gira avança em minha direção como se corresse pela terra.
Preparando a Brunhild em modo arma, disparo projétil de cristal em sequência contra o Gira, mas o ímpeto dele não para. Mesmo recebendo balas no rosto e no peito, sem se abalar, ele estende em minha direção o braço transformado em ponta.
— Tsc, [Accel]!
Um instante antes da lança de cristal chegar no meu peito, uso magia de aceleração e desvio por pouco.
Mas o Gira, vendo esse movimento, chuta o chão com o pé flutuante com força e muda de direção bruscamente pra cima de mim, avançando com força.
No instante que vira uma espécie de investida de ombro, percebo que várias espinhas afiadas se projetam do ombro do Gira. Perigo! Isso não dá pra desviar!
— [Shield]!
Ativo instintivamente um escudo invisível, evitando pelo menos que as espinhas cravem no corpo, mas não consigo anular o ímpeto da investida, e sou arremessado feio, rolando pelo chão.
Pra recompor a postura, tento me levantar imediatamente, mas a figura do Gira não está mais lá. Olhando pra cima, o Gira, com o braço-lança de volta ao normal, erguia o punho no ar, prestes a golpear pra baixo em minha direção.
Desviando com um salto lateral, um estrondo tipo "gogaa!" ecoa, junto com um impacto forte o bastante pra sacudir o chão. O soco disparado pelo Gira escava fundo o chão, exibindo claramente aquele poder destrutivo. Que força absurda.
— Não é ruim desviar rapidinho desse jeito, hein.
Dizendo isso, o Gira mostra um sorriso arrogante.
Kuh, com ataque tão rápido assim, fica difícil desviar com [Teleporte]. Aquilo precisa reconhecer o destino do teletransporte, então esse instante pode ser fatal.
Mesmo assim, é um cara que consegue acompanhar até a velocidade do [Accel]. Não vou conseguir fazer ataque surpresa igual da primeira vez de novo.
E ainda por cima, essa dureza. O projétil de cristal que cravei tá enfiado na cabeça e no peito dele, mas não deve nem ter passado de 2 centímetros.
Sendo espécie dominante, também é Phrase, então deve ter núcleo também. Só que não sei onde é.
No Phrase comum, como o corpo é transparente, dá pra ver o núcleo, mas, no caso da espécie dominante, a parte de cristal que se projeta do corpo é transparente, mas o resto é opaco.
Pensando em termos de órgão humano, seria cérebro ou coração… cabeça ou peito… droga, se soubesse que ia dar nisso, devia ter perguntado antes pra Rise, a mesma espécie dominante que o Ende trazia.
— Não é hora de ficar escolhendo meio.
Amplifico poder divino, fazendo circular pelo corpo todo. Com o efeito de [Liberação da Majestade Divina], um poder divino explosivo é liberado.
— Ah? Que negócio é esse?
O Gira franze a testa diante da minha mudança.
A cor do cabelo parece ter mudado, mas não cresceu. Será que já consigo controlar isso até certo ponto?
— Se é pra blefar, que tal se transformar em algo mais decente, hein!
Num instante, o Gira invade minha guarda e dispara aquele soco que rachou o chão. Consigo enxergar claramente esse punho se aproximando com um rugido.
Seguro firme o punho do Gira com a mão esquerda envolta em poder divino.
— Q-quê?
Ignorando o Gira arregalando os olhos, aplico força no punho que segurei.
Mekimeki, um som rangente, e, eventualmente, mudando pra bakibaki!, o punho do Gira se estilhaça em pedacinhos.
— Ts! Seu desgraçado!!
O Gira salta pra trás, apontando a mão esquerda intacta em minha direção. No instante seguinte, os cinco dedos se estendem em velocidade absurda tentando me perfurar.
Consigo ver. Derrubo todos esses dedos com a lâmina da Brunhild reforçada por poder divino. Os cinco dedos se estilhaçam de novo em pedaços.
— Seu! O que você fez, hein!?
— Um truquezinho pequeno. Sem folga nenhuma, então acabei usando.
Falo brincando, mas, na verdade, não tenho folga nenhuma mesmo. Combate em estado divinizado, por [Liberação da Majestade Divina], sobrecarrega o corpo. Por ora ainda tá tudo bem, mas, mesmo que eu vença esse cara nesse estado, ao voltar pro corpo normal, existe possibilidade de desmaiar.
Preciso decidir a luta o quanto antes. Além dos Phrase, ainda tem o mutante restando também.
— Fazendo folga, mesmo sendo humano, francamente! Então também não vou pegar leve! Se prepara!!
Bakibaki, o punho direito estilhaçado e os dedos da mão esquerda do Gira vão se regenerando. Mas a mudança não parou por aí.
A parte de cristal do corpo do Gira cresce numa velocidade absurda. Até a parte que estava exposta, da testa ao peito e barriga, vai sendo coberta, e o corpo inteiro, exceto os dois olhos, fica preenchido por massa de cristal.
As unhas se transformam num formato feroz, e várias pontas afiadas de cristal se projetam das costas. Um chifre único surge na testa, e, por fim, até um rabo comprido cresce.
Será que dá pra chamar de "cristalização de fera"? Digamos, um homem-fera de cristal. A forma se parece com a raça dos dragonoides, mas a ferocidade não é comparável.
Será que essa é a verdadeira forma da espécie dominante?
— ORAAAH!!
Das garras que o Gira desfere pra baixo, algo tipo onda de choque é disparado. Graças aos meus olhos divinizados, consigo detectar isso e desviar por um triz. Mas os vários Phrase que estavam atrás são cruelmente cortados em pedaços.
Disparo projéteis de cristal envoltos em poder divino continuamente contra o Gira. Ele cruza os braços tentando bloquear as balas, mas o projétil revestido de poder divino crava fundo no braço dele.
— O quê!? Estilhaçar meu braço reforçado!?
Isso! Com poder divino, dá pra atravessar até aquela armadura. Mas o projétil cravado no braço do Gira, assim que o ferimento se regenera, é empurrado pra fora e cai no chão.
Assim, por mais que eu corte ou destrua com armamento de poder divino, não faz efeito nenhum. De fato, parece que, sem destruir o núcleo, não dá pra derrotar aquele cara.
— Seu desgraçado…! Não subestima!! Vou te matar, Touyaaaa!!
O Gira solta um rugido de raiva. Não dá pra ver a expressão, coberta pela armadura, mas deve estar furioso mesmo, o corpo inteiro tremendo em pequenos espasmos.
Não… o quê? O corpo do Gira, que tremia em pequenos espasmos, começa a convulsionar fortemente. Ao mesmo tempo, luz começa a transbordar do corpo inteiro dele. Não me diga que esse cara vai disparar algo tipo o canhão de partículas carregadas que a espécie superior soltou!?
A luz forma um redemoinho, tingindo os arredores de brilho ofuscante. Todo mundo que lutava ao redor percebe essa anormalidade e para o movimento.
— Perigo, se continuar assim…!
Ele certamente vai mirar em mim. Divinizado agora, talvez consiga desviar, mas, se alguém estiver na linha de tiro lutando contra Phrase, vai ser pego junto.
Sem se importar com isso, o Gira continua aumentando o brilho.
De repente, vejo algo tipo uma bolinha de vidro vermelha brilhando na garganta dele. Aquilo é… não me diga que aquilo é o núcleo da espécie dominante!
Aliás, agora que penso nisso, mesmo espécie superior, antes de disparar aquele tipo de canhão de partículas, o núcleo brilhava. Sem dúvida. Se eu estilhaçar aquilo…!!
— Isso é o fim!! Toma iss…!?
No instante em que um enorme jorro de luz estava prestes a ser disparado do corpo inteiro do Gira, um impacto tremendo o atinge.
Um grande projétil de cristal, vindo de algum lugar, atinge o Gira em cheio, se estilhaçando em fragmentos brilhantes espalhados ao redor.
O Gira não é arremessado, só cambaleia dois, três passos, mas essa brecha não escapa de mim.
Disparo, com poder divino no máximo, um projétil da Brunhild mirando na garganta dele. Um som tipo vidro se estilhaçando ecoa pelo céu noturno sem lua.
— …Ah?
Soltando uma voz boba, o Gira leva a mão à própria garganta. O buraco perfurado pela Brunhild atravessou o pescoço, junto com o núcleo.
Garagara, a armadura de cristal desmorona do corpo do Gira.
— Não… pode… se, r…
Como se a força vital fosse arrancada, o corpo inteiro do Gira vai se cristalizando. Assim, virando um bloco de cristal, ele começa a tombar pra frente, e, com o impacto de cair no chão, se despedaça em pedacinhos.
Observei mais um pouco, mas não tem sinal de regeneração à forma original. Derrotei, então?
Devagar, viro o olhar em direção à deusa distante que me deu essa última chance.
Lá, dá pra ver, flutuando na noite escura, a figura da Brunnhilde, Frame Gear prateado, abaixando o rifle sniper que segurava. Como esperado da Yumina mesmo. Acertar dessa distância… me ajudou muito.
Solto uma respiração e desativo a divinização. No instante seguinte, uma exaustão e tontura absurdas me atingem, e fico completamente incapaz de me manter em pé.
Desabando, sentindo a força saindo dos joelhos, alguém aparece do lado e me segura.
— Bom trabalho, viu. O resto deixa com a gente.
— Foi um combate e tanto de assistir. Você é bom mesmo.
Forçando abrir as pálpebras pesadas, vejo rostos familiares na minha frente. Talvez por alívio, solto um riso amarelo sem querer.
— Vocês sempre chegam tarde demais, hein, as irmãs…
Devem ter vindo voando sentindo o mutante e meu poder divino. A irmã Karen e a irmã Moroha me seguravam pelo braço, me ajudando a ficar em pé.
— Bom, não fala assim. Dessa vez fui eu que pedi pras duas não interferirem, porque eu mesmo queria ver de perto seu crescimento.
Diante de mim, surge outra pessoa também familiar. Ué? Até o Deus veio? Ah, bom, faz sentido mesmo. Agora ele tá no mundo terreno mesmo.
Não sei sobre o tio Kōsuke e o pessoal, mas a Suika, com certeza, deve estar bêbada dormindo — penso vagamente, no canto da minha consciência que ia ficando turva.
— Ah, droga. Acho que… tô no limite.
— O resto tá tudo bem. Depois de resolver aqueles ali, eu mesmo levo todo mundo de volta com magia de teletransporte. Pode descansar tranquilo.
— É… é mesmo… então, vou aproveitar… a gentileza…
Talvez por causa do cansaço, sendo dominado por um sono irresistível, perco a consciência facilmente.