Capítulo 294 – Depois do Festival e o Dia de Folga
Quando dei por mim, o festival já tinha acabado.
Deve parecer estranho eu dizer isso, mas, em resumo, eu dormi por mais de 24 horas. Precisamente, 36 horas.
O combate em estado de divinização deve ter causado um cansaço mais intenso do que eu imaginava, e levou tanto tempo assim pra recuperar.
Depois que perdi a consciência, parece que a Yumina e o pessoal, junto com a Ordem de Cavaleiros e a irmã Moroha, cuidaram de limpar os Phrase e mutantes restantes.
O mutante é subordinado do deus maligno. Mesmo envolto em poder divino, sendo algo fraco, não deve ser um adversário impossível de derrotar.
Deuses não podem exercer poder divino de forma que afete diretamente o mundo terreno, mas, mesmo assim, com as irmãs, não devem ter tido dificuldade nenhuma contra um mero mutante.
Depois de derrotar o mutante, parece que todos voltaram pra Brunhild via [Gate] do Deus do Mundo. E eu, direto pra cama. Depois de exame da Flora, foi confirmado que era só cansaço mesmo, e continuei dormindo assim… por 36 horas.
Enquanto eu dormia, o torneio de artes marciais do terceiro dia do festival avançou sem problemas, e, pra resumir o resultado, a final foi um confronto intenso entre o Rei Cavaleiro de Lestia e o Jūtarō-san, com o Jūtarō-san levando a vantagem por pouquíssima diferença.
Parece que a alegria do pessoal de Ishen, incluindo o Ietasu-san, na arquibancada, foi imensa. E o pessoal que mora em Brunhild também comemorou junto. Pensando bem, faz sentido, sendo essa cidade cheia de imigrantes de Ishen. Faz sentido ficarem felizes com o sucesso de um conterrâneo.
Como eu tava naquele estado, o primeiro-ministro Kōsaka-san assumiu a cerimônia de premiação em meu lugar. Campeão: Jūtarō-san. Vice-campeão: Rai Haruto (nome falso), ou seja, o Rei Cavaleiro de Lestia. E, o terceiro lugar, surpreendentemente, foi a aventureira dragonoide, a Sonia-san.
Também teve outros confrontos interessantes, tipo o duelo entre pai e filho, General Leon e o Rion-san, ou o combate intenso entre o Rei das Feras de Misumido e o velho Baba — foi uma pena ter perdido isso.
No fim, o Kōsaka-san também conduziu a cerimônia de encerramento, e, depois disso, com a festa noturna final, a vila-castelo ficou animada a noite toda, dizem.
E, assim, o festival divertido terminou, chegou a manhã, todo mundo voltou pra casa, e eu, finalmente, acordei um pouco antes do meio-dia.
No meu quarto, talvez por consideração, estavam reunidas só as nove noivas, mais o ursinho de pelúcia.
— Mentira, né…
Ouvindo a explicação da Yumina e do pessoal reunido, seguro a cabeça na cama.
Que decepção, hein… deixar os convidados largados enquanto eu dormia sem parar, que decepção mesmo…
Como eu tinha explicado direitinho a situação de antemão, em vez de ficarem chateados, parece que os reis de países próximos de Eurono, tipo Lodmea, Felsen, Hanok, Zenoas, ficaram até gratos. Mas, mesmo assim…
Os reis e convidados de cada país parece que voltaram cedo pra seus respectivos países pelo [Gate] aberto pelo Deus do Mundo.
Parece que os reis ficaram surpresos com outra pessoa além de mim conseguindo usar [Gate], mas, quando apresentado como meu avô à Papisa de Ramish, todo mundo se convenceu.
— Que decepção, hein…
— N-não tem jeito mesmo! Depois de um duelo tão intenso desses! Desabar é natural!
A Lu me console gentilmente, mas isso dói ainda mais no coração.
Já tava ciente de certo risco ao me divinizar, mas nunca imaginei que ia dar nisso. Causei transtorno pra muita gente…
Bom, digo que a hora foi ruim, mas… haa. Aquele desgraçado do Gira.
— Não precisa ficar tão desanimado assim. O festival em si foi um grande sucesso, afinal.
Bom, é verdade o que a Elsie diz, mas. Queria ter conduzido tudo direitinho até o final mesmo.
— Ano que vem, eu também quero participar do torneio de artes marciais, viu.
— Eu também. Meu irmão também deve estar querendo revanche com o irmão da Yae, né.
A Yae e a Hilda conversam rindo sobre o ano que vem. Ou melhor, então vai ter de novo ano que vem, é? Se for fazer, dessa vez preciso dar mais tempo de preparação.
— Ah, é verdade, o mundo… quer dizer, o vovô? Já foi embora?
— Sim, de manhã. Voltou por magia de teletransporte.
Achaa. Recebi tanta ajuda dele, e nem consegui agradecer direito. Depois preciso ligar pra pedir desculpa.
De qualquer forma, levanto da cama e mexo o corpo, mas não sinto nada de errado. Achando que já daria pra me mexer normalmente hoje mesmo, todo mundo me empurra de volta pra dentro da cama à força.
— De qualquer forma, já cancelamos todos os compromissos de hoje, então descansa tranquilo o dia inteiro. Descansar direitinho também é importante. E, se você não descansar, fica difícil pros de baixo descansarem também.
Diante da fala firme da Leen, não tenho como retrucar.
Relutante, me enfio de volta na cama, e todo mundo sai do quarto. Em vez delas, chegam o Kohaku e a Ruri. Parece que ficaram encarregados de me vigiar.
— «Certo, senhor, por favor descanse.»
— Mas, digo, já dormi mais de 30 horas, sinceramente não tô com sono nenhum…
Ao contrário, sinto o corpo pesado de tanto dormir. Deve ser bem melhor me mexer um pouco.
Sair escondido da cama por magia de teletransporte não seria difícil, mas não sei o que vão dizer depois se descobrirem.
— Aliás, o Sango, o Kokuyou e o Kōgyoku?
— «O Sango e o pessoal foram pro bar com a Senhorita Suika, e o Kōgyoku foi checar a situação da cidade com os subordinados dele.»
— Bar, hein…
Diante do relatório do Kohaku, solto um riso sem querer. O Sango e o Kokuyou, talvez tenham aprendido gosto por bebida recentemente, andam sempre junto com a Suika. Dizem "grande bebedor, cobra grande", então faz até sentido combinar.
— «Francamente… esses aí abusam demais da tolerância do senhor…»
— Você consegue falar isso? Você, que até véspera do festival ficava dormindo tipo gato no jardim, feito preguiçoso?
— «O QUÊ!? Olha quem fala! Você que sempre pedia lanche extra pra Clara-dono na cozinha, né!»
— «…Aquilo era degustação. Eu checava pra ver se combinava com o gosto do senhor.»
— «Não vem com desculpa esfarrapada!»
Enquanto ficava enjoado com a briga barulhenta que começou dentro do quarto entre o filhote de tigre e o de dragão, do lado de fora da janela, duas pequenas penas vermelhas em chamas voam e acertam certeiras a testa dos dois.
— «« QUENTE!? »»
Enquanto os dois se contorcem, esfregando a testa no chão, o Kōgyoku entra pela janela batendo as asas, suave, e pousa em cima da mesa.
— «Fazendo bagunça na frente do senhor descansando, que negócio é esse. Tenham mais consideração.»
— «« Mas foi ele! »»
— «O que foi?»
Os dois, que iam retrucar, se calam de repente diante do olhar afiado do Kōgyoku. Ooh, que medo.
Normalmente calmo, mas, quando fica bravo, talvez seja o mais assustador de todos.
— Bem-vindo de volta, Kōgyoku. Como tava a situação da cidade?
— «Sim. Todo mundo parecia ocupado com a limpeza pós-festival. Pela manhã, todas as lojas limparam a rua da frente, e devem reabrir só à tarde.»
Hmm, bom, faz sentido mesmo. Deve ter que limpar o lixo que sobrou da festa noturna final. Isso também é tema pra pensar até a próxima edição. Talvez vale instalar lixeira pela cidade toda. Um grande incinerador também seria útil, talvez.
— «Os hóspedes que estavam hospedados também parecem estar começando a partir cada um. Deve voltar ao estado normal em alguns dias.»
Então a estalagem "Lua de Prata" finalmente vai ficar livre da correria. Será que a Mika-san ficou bem.
…Aliás, deixei o Lantz lá ajudando o tempo todo, né. Durante o festival, ele trabalhou não como membro da Ordem, e sim como garçom do refeitório. Depois preciso dar um bônus especial do meu bolso. Um valor que dê pra comprar algo pra Mika-san.
— Aliás, o que aconteceu com quem foi preso durante o festival?
— «Não teve ninguém que merecesse ir pra mina, então devem ser soltos depois de cumprir a punição adequada. A maioria foi gente que causou confusão bêbada.»
Neste mundo, carregar arma é algo comum, afinal. Casos de briga de bêbado terminando em morte não são raros. De qualquer forma, ainda bem que o dano foi mínimo.
— Todo mundo, bom trabalho. Certo, hoje fiquem à vontade também, Kōgyoku e o Kohaku, descansem.
— «…Tá pensando em fugir escondido, né?»
— Guh.
Perspicaz. Desvio o olhar do Kōgyoku, aos poucos. Não tenho jeito, né. Não sou bom em ficar parado.
— «Nós somos servos do senhor. Se quiser fugir escondido, obedeceríamos, e até fingiríamos não ver. Mas, se isso for descoberto pelas esposas, o senhor está preparado?»
— Uh.
Falando isso, não tenho como retrucar mesmo… muu.
Ultimamente, a Yumina e o pessoal ganharam habilidade de saber onde eu tô, não importa aonde vá… se eu fugir, com certeza vou ser descoberto mesmo, né…
— Não tem jeito, vou ter que dormir quietinho mesmo…
— «Isso seria o mais sensato.»
Isso aqui é meio-cárcere privado, francamente. Haa. Descanso não devia ser só dormir.
Como não tenho o que fazer, deitado na cama, dou uma olhada nas notícias online do mundo original pelo smartphone. Ah, aquele ator faleceu… que pena… dissolução do parlamento e eleição geral, é? Queria ter ido votar pelo menos uma vez.
Ah, é verdade, vou aproveitar e mandar mensagem de desculpa pros convidados. Depois ligo direito também, mas agora talvez estejam ocupados.
Pros representantes de países que não recebi smartphone… vou ter que mandar carta usando o [Gate Mirror] depois.
Hmm, que trabalho, hein. Melhor logo firmar aliança e entregar smartphone de vez. Deve ser bem mais conveniente pras relações entre países também.
Pensando assim, o festival teria sido a chance perfeita, hein. Que desperdício. Parece que os outros líderes, exceto eu, fizeram vários encontros diplomáticos na festa noturna final, então acho que foi proveitoso mesmo.
Pelo menos o Reino Demoníaco de Zenoas já declarou intenção de aderir à aliança, então preciso conversar bem sobre isso.
Já que tô tão sem fazer nada assim, tiro do [Storage] os livros que trouxe do mundo sombrio. O original já entreguei pra "Biblioteca" da Babylon, então isso aqui é a cópia feita na "Oficina". Já traduzido devidamente do idioma Arento também.
Começo a ler um deles, o "Manual Explicativo de Magia Ledia".
Basicamente, é um livro técnico de magia escrito por alguém chamado Ledia-algo-assim. Mas o conteúdo, comparado ao nosso mundo, era bem mais rudimentar.
Naquele mundo, magia parece ser algo tipo técnica rara que só pessoas com aptidão conseguem usar.
O motivo de a magia estar tão decadente… ou melhor, tão pouco desenvolvida assim, parece ser mesmo por causa dos golems.
Faz sentido, né, entre uma bola de fogo conseguida com anos de treino, e uma bola de fogo disparada por um golem de corpo antigo com mais poder, todo mundo escolhe a segunda opção.
Sem precisar de treino nenhum, qualquer um consegue usar a mesma capacidade de magia, só possuindo aquele golem.
O problema, se tiver, seria a dificuldade e o preço alto de conseguir um, e o fato de não dar pra alternar entre diferentes tipos de magia, ou melhor, de habilidade, conforme a situação? Parece que um golem com capacidade de disparar fogo só consegue fazer isso mesmo.
Mas isso também é igual pra um mago que só tem aptidão de atributo fogo, né.
Enquanto pensava nisso, lendo o livro, chegou uma ligação da Doutora da Babylon, trancada no "Laboratório".
— Alô, sim?
— É o Touya-kun? Aquele negócio finalmente ficou pronto. Com isso, dá pra ir e vir daquele mundo!
— Ooh!?
Aquele negócio… é aquilo, né, o portão dimensional pra instalar do outro lado!
Só com o portão dimensional instalado na Babylon, não dá pra ir e vir livremente. É só ida sem volta. Pra voltar, sempre preciso passar pelo Mundo dos Deuses.
Pra tornar possível ir daqui pra lá, e de lá pra cá, preciso instalar do outro lado também um portão dimensional conectado entre si. Isso ficou pronto.
Agora, só falta guardar isso no [Storage], levar pro outro mundo, e instalar num lugar seguro.
— Só que, como sempre, precisa de energia mágica absurda, então só dá pra teletransportar com você junto, Touya-kun.
— Não, não, acho até melhor assim, do que qualquer um conseguir usar de forma insegura.
— Bom, é isso mesmo… e, já que estamos nisso, queria fazer o teste de ativação. Que tal agora?
— Ah… foi mal, agora tô em meio-cárcere privado.
— Hã?
Explico a situação atual detalhadamente, e combinamos que o experimento fica pra depois de amanhã.
Parece que, a partir de amanhã, vai ficar movimentado de novo.