Capítulo 303 – Os Sentimentos da Princesa-Cavaleira e o Amor e a Paixão
— Então o dano de fera gigante diminuiu bastante mesmo, né?
— Sim. Diminuíram bastante os avistamentos frequentes de antes. Aos poucos, estamos expandindo a área de moradia pra fora da muralha da cidade.
Numa sala do templo central na região central da Ilha Parelius, estava frente a frente com a Guia Central, representante da ilha. Ela também parece estar bastante ocupada, correndo de um lado pro outro.
— O Reino de Paruhu e o Reino de Elfrau compraram o material das feras gigantes, então, com esse dinheiro, começamos a importar vários tipos de produtos. Também tá surgindo um plano de construir uma cidade portuária perto da cidade sul.
— Entendi. De fato, esta ilha não tem um lugar apropriado pra navio atracar.
Era uma ilha fechada, afinal. Necessidade de navio praticamente não existia. Até hoje, os navios de Paruhu e afins ancoram no alto-mar, e desembarcam por barco pequeno. Precisa mesmo de uma cidade portuária de verdade.
Frutas e colheitas que só se conseguem nesta ilha são raras no continente, então dá pra estabelecer comércio bem viável. Além disso, os artesãos desta ilha são hábeis, especializados em fazer trabalho artesanal esplêndido.
Trabalho artesanal, geralmente é coisa de anão, mas eles vivem majoritariamente na região do Reino de Lyle, ao sul. Comparado a comprar de lá, pra Paruhu, a Ilha Parelius fica muito mais perto.
— Estava com receio do que aconteceria depois de remover a barreira, mas parece que foi preocupação desnecessária. Terminando a vida com medo de fera gigante, e expandindo a área de vida além da barreira da cidade, esta ilha deve ficar ainda mais próspera. Devo muito a Vossa Majestade. Muito obrigada.
— Não, imagina. Nós também aproveitamos aqui pra treinar Frame Gear contra fera gigante, então é ganho mútuo mesmo.
Sorrindo um pro outro, decidimos conversar sobre relações diplomáticas futuras e a possível adesão à Aliança Mundial.
Voltando da Ilha Parelius, ligo pra mestra da Guilda de Aventureiros, a Relisha-san.
É pra relatar que recebi da Guia Central permissão pra abrir filial da Guilda de Aventureiros na Ilha Parelius. Com isso, mesmo que Phrase apareça na Ilha Parelius, deve dar pra lidar de algum jeito.
A Ilha Parelius, pelo efeito de acúmulo de energia mágica, tem muita fera mágica poderosa. Mesmo sem chegar a fera gigante, existem bastante espécies maiores que o comum.
Pra aventureiro veterano, pode ser considerado um terreno rentável, então, igual nossa masmorra, deve atrair gente.
Desligando o telefone, como não tinha compromisso depois disso hoje, caminho tranquilamente pela cidade de Brunhild.
A rua principal estava animada, cheia de vida. Na frente da loja da Companhia Strain do Olba-san, tinham várias máquinas de brinquedo-cápsula alinhadas, e crianças com moedinha na mão giravam, "gacha-gacha".
Parece frente de loja de doce barato, penso, quase rindo sem querer. Hmm, será que vale a pena vender doce barato nesse tipo de lugar também.
A Companhia Strain do Olba-san tem várias filiais em Brunhild (se não me engano, três lojas), e essa aqui é uma loja de hobby de brinquedo, geralmente sem produto tão caro assim, tipo pião e bambolê.
Será que aquele modelo de trem mágico também vende aqui.
Não, que tal vender um modelo pequeno de carro mágico, e fazer corrida aqui mesmo. Deixar personalizar várias peças diferentes, ajustando conforme a pista…
— Touya-sama?
Interrompendo meu raciocínio diante de uma voz familiar, levanto o rosto, e lá estava a Hilda em pé. Vestindo armadura leve da Ordem de Cavaleiros, com a espada de cristal que dei pendurada na cintura. A manopla estava tirada, pendurada na cintura junto com a espada.
— Ué? O que faz aqui?
— Voltando da masmorra, junto com a Yae-san e a Elsie-san. As duas se separaram pra comprar peixe no porto da ilha e voltar.
Então foram na masmorra de novo, hein. Bom, mesmo mergulhando, costuma ser só umas meio dia, não chegam até o andar mais profundo.
É num andar relativamente seguro, tipo patrulha vendo se não tem problema na masmorra, mas nunca se sabe o que pode acontecer numa masmorra. Não quero que baixem a guarda. Sinceramente, prefiro que não vão tanto assim.
— Então, vamos voltar juntos?
— Sim!
Sorrindo, a Hilda começa a caminhar se aproximando do meu lado esquerdo.
A Hilda fica mexendo a própria mão inquieta, tentando falar algo comigo timidamente, mas cala a boca de novo. O que foi?
…Ah.
— Vamos de mãos dadas?
— Ah, não! Tô suja de tanto lutar, e suada também, então…!
Com o rosto completamente vermelho, ela fala isso, mas, sem me importar, seguro a mão direita dela. "Hawawa", o rosto fica ainda mais vermelho.
— Não precisa se preocupar com isso, sabe. A Hilda é mais reservada que as outras. Acho que podia ser mais egoísta também.
— Uh, aha, ha, sim. Bom, aquele… seguir disciplina e reprimir a si mesma é o ensinamento de cavaleiro, então…
— Comigo, pode esquecer isso. O que eu preciso não é da cavaleira Hilda, e sim de você mesma, a garota Hilda.
— …Sim.
Fica corada e abaixa a cabeça de vez. Pelo que ouvi do irmão dela, o Rei Cavaleiro de Lestia, a Hilda, mesmo nascida princesa, desde pequena segurou espada seguindo os costumes do Reino de Cavaleiros, e foi criada com a crença de o que significa ser cavaleiro incutida profundamente.
Proteger o povo, virar escudo e espada dos fracos, esse coração nobre também.
Por isso, deve ter sido tratada raramente como garota comum. Fico com um pouco de pena disso, mas seria falta de respeito com a Hilda pensar assim.
A irmã Karen disse que, pra mim ser o primeiro amor dela, deve ser algo e tanto mesmo.
Trocando conversa fiada, caminhamos pela colina em direção ao castelo. Podia ter voltado usando [Gate], mas esse tipo de momento também não é ruim.
— …Er, tem uma coisa que queria perguntar pro Touya-sama.
— Hm? O que foi?
— A-aquilo… o senhor, gosta de mim?
Congelo sem querer. Diante de mim, que parei de andar, a Hilda mostra um sorriso forçado, meio triste, e balança a mão apressadamente.
— A-ah, esquece! Desculpa perguntar coisa estranha!
— …Por que perguntou isso?
— …Eu não sou lá muito feminina, só sei lutar… fico pensando se aceitou meu noivado só por causa do assunto de Lestia… esse tipo de coisa, um pouco…
Então era isso que ela pensava.
Ah… achei que já era óbvio a essa altura, mas parece que, sem colocar em palavras claramente, não se transmite mesmo. Fico com raiva da minha própria burrice.
Encarando a Hilda de frente, seguro firme as duas mãos dela. Foi negligência minha ter deixado ela ficar tão insegura assim. Preciso transmitir isso direitinho.
— Como já falei agora há pouco, o que eu preciso não é da princesa de Lestia, e sim de você mesma. Quero valorizar você, quero proteger você. Quero deixar você feliz, igual todo mundo.
— Ah…
— Eu gosto de você. Isso não é mentira. Por isso, não pensa desse jeito.
— Sim… de-desculpa… u, u~…
Distorcendo o rosto, começando a derramar lágrimas, abraço a Hilda com força.
Que decepcionante. De que adianta ser noivo se faço a garota que gosto chorar assim. Desse jeito, provavelmente vou continuar causando transtorno pra ela.
— É a chance, viu. Aí, um beijo gentil!
— Uwaaa!?
— Kya!?
Diante da voz da irmã Karen, que se aproximou sorrateiramente por trás sem eu perceber, me viro de repente, ainda abraçando a Hilda. Como sempre, o aparecimento dela é repentino demais!
— Susto! Já falei pra parar com isso! Por que você tá aqui, hein!?
— O radar de amor da irmãzinha detectou "o Touya-kun tá se agarrando com uma garota". Não posso deixar passar um evento importante desses.
Que radar chato, hein! Normalmente, nessa situação, o certo seria observar com carinho de longe, né! Mesmo sendo deusa do amor, que falta de tato…!
— A-aquilo, Touya-sama, tá sufocando…
— Hã? Ah, desculpa!
Só agora percebo que continuava abraçando a Hilda com força, e solto rapidinho.
— N-não, não me incomoda, não…
Com o rosto completamente vermelho, a Hilda assente pequeno. Vendo isso, por algum motivo, sinto meu rosto ficar quente também. Que negócio é esse?
— Fiuu fiuu, quente, quente. Bom, esse tipo de coração acelerado só dá pra sentir agora mesmo, então aproveitem bastante.
— Como assim, "agora mesmo"?
Sentindo como se estivesse sendo zombado, retruco com força sem querer. Parece que ela tá insinuando que nosso sentimento vai esfriar eventualmente.
— Paixão e amor são coisas diferentes, sabe. Paixão nasce sem esforço nenhum, mas amor não cresce sem esforço. Os dois são maravilhosos e inseparáveis, mas são coisas diferentes mesmo.
Muu… entendo o que ela quer dizer, mas não consigo me convencer vindo dela, hein.
— Tudo bem não entender agora. Vai entender quando crescer.
— Ché.
Bom, tanto faz, sou criança mesmo… e ficar emburrado assim já é coisa de criança também, imagino.
— Ué? Não é o Touya e o pessoal? O que tão fazendo?
A Elsie e a Yae vêm em direção à colina onde estamos. As duas carregavam balde com peixe na mão. Voltando do porto, hein.
— A Hilda-dono também tá. …Ué, Hilda-dono, tava chorando?
— Ei, espera, Touya!? O que você fez com a Hilda!?
Percebendo rapidinho o rastro de lágrimas da Hilda, as duas se aproximam de mim, pressionando. Essas três são especialmente próximas, então até entendo a preocupação, mas.
— Não fiz nada, viu! Fala, Hilda!
— S-sim. Não é nada do que vocês estão preocupadas…!
Eu e a Hilda enfileiramos palavras tipo justificativa. Mas, ouvindo isso, o olhar das duas fica cada vez mais desconfiado.
Não é que estivesse fazendo nada de suspeito, e não precisava ficar tão apressado assim, mas sinto uma vergonha estranha. Num certo sentido, é fato que a fiz chorar, afinal. Isso sim é vergonhoso.
— Tá suspeito, hein…
— Éé mesmo, né…
— O Touya-kun tava se agarrando com a Hilda-chan até agora há pouco. Bem quentinho.
— UOOOI! O que tá dizendo, Irmã Karen!?
A irmã idiota solta isso casualmente, sem cerimônia. Isso é só do seu ponto de vista objetivo, viu!?
— Detido!
— Combinado!
Gashi! Meus dois braços são segurados pela Elsie e pela Yae, e sou levado à força em direção ao castelo. Ai, ai, ai! O braço! Não dobra pra esse lado!
— A-aquilo, Irmã Karen!? O Touya-sama é…
— O Touya-kun precisa cultivar amor de forma igualitária com todo mundo, sabe? Se você aceitou isso, é confiar e observar com carinho. Isso também é amor, sabia.
— S-sim. É isso mesmo!
Hilda, não se deixa enganar! Essa aí só tá se divertindo! Olha, tá rindo maliciosa agora mesmo!
— Vamos perguntar em detalhe, na frente de todo mundo, o que aconteceu.
— É mesmo. Bom, se perguntar pra Hilda, ela conta na hora mesmo. A gente decidiu que não esconde esse tipo de coisa entre nós.
Sério mesmo? Primeira vez que ouço isso… quer dizer que fica tudo exposto, quem fez o quê com quem?
Não, não é que tenha nada pra esconder, mas, como direi, essa sensação de desamparo…
Na frente de garota apaixonada, homem é impotente mesmo, hein.
— Homem é ser que suporta.
Naquela noite, ao ponto de querer rolar no chão de vergonha, todas as nove, cada uma, acabaram me fazendo confessar o quanto eu gosto delas.
Na verdade, ao voltar pro meu quarto, rolei no chão mesmo! Ah, sim, o Kohaku e o pessoal me olharam com cara estranha, sim! Aaaaaah, com certeza a Leen gravou aquilo no smartphone! Nunca imaginei que fosse dizer aquele tipo de frase até pra Sue… aaaaaah!
As palavras que falei, sem mentira nenhuma, são meu sentimento verdadeiro, mas vergonha é outra coisa.
Só de lembrar já dá vontade de rolar de novo, então vou dormir logo!
………Kuuuuh!
Gorogorogoro! Gorogorogoro!