Capítulo 313 – A Extinção do Mundo e o Administrador
Depois de trazer os tripulantes do McClane de volta pro mundo original, ainda no mesmo dia, fizemos o navio flutuar numa praia deserta de Lifris, e levamos os tripulantes de volta pro interior do navio.
Eventualmente, ao acordarem dentro do navio, os tripulantes veem a praia bem na frente, e, felizes, pulam no mar, todos desembarcando em segurança. Bem perto tem uma estrada, e, andando, chega em cerca de trinta minutos até uma vila de pescadores.
Bom, até esse ponto, também já plantei tudo com [Hipnose].
— Por ora, com isso já podemos ficar aliviados.
— Que bom, hein.
Espiamos de longe os tripulantes escondidos na sombra da vila de pescadores. Recebendo comida do povo, explicam sobre o que aconteceu durante a deriva, mas parece que a memória do mundo sombrio foi apagada corretamente.
Voltamos todos via [Gate] pra Brunhild.
Mas por que raios o McClane foi parar naquele mundo, afinal?
No nosso mundo também existe a expressão "desaparecimento misterioso" (kamikakushi), será que aquilo se refere a pessoas teletransportadas por acidente pra outro mundo? Será que o McClane também, por acaso, se misturou no mundo sombrio igual esse tipo de gente? Será isso mesmo…
Opa, falando em desaparecimento misterioso, o Deus me chamou. Se perguntar pro Deus, talvez descubra algo.
Aviso à Yumina e ao pessoal que vou sair um pouco, e, da cozinha do castelo, embalo em caixa alguns doces — pudim, bolo, dorayaki — pra levar de presente. Como a chefe de cozinha, a Clara-san, não estava, acabei pegando sem autorização, mas, se ela brigar comigo depois, vou pedir desculpa.
— Então, vou indo rapidinho.
— Manda um recado bom lá, tá~
Do mesmo jeito, tendo conseguido bolo da cozinha, a irmã Karen acena, se despedindo. Será que isso também vai contar como eu tendo comido escondido… bom, tanto faz.
Usando [Gate], salto pro Mundo dos Deuses. Como sempre, na sala de quatro tatames e meio flutuando no mar de nuvens, o Deus estava sentado na almofada.
— Ooh, chegou, hein.
— Quanto tempo. Ah, isso é presente.
— Ora, obrigado.
Recebendo a caixa de doces, o Deus coloca o pudim e o bolo na pequena geladeira num canto da sala (mesmo dizendo "sala", continua sem parede nem teto, como sempre), e coloca o dorayaki na mesinha baixa, junto com o chá.
— E, o assunto é…
— Sim… por onde começo, hein… primeiro, vou falar sobre o que é o "mundo" que nós, deuses, gerenciamos.
O Deus do Mundo, acariciando a longa barba branca, começa a falar.
— Como você sabe, existem incontáveis mundos gerenciados pelos deuses. E, o que gerenciamos é o "mundo", não os que vivem nele. Mesmo que a civilização se desenvolva ou entre em colapso, os deuses não interferem à força. Porque até a destruição é parte do fluxo do "mundo". E, infelizmente, o mundo destruído é extinto pelo deus da destruição. Porque isso é o papel dele. E, então, eu crio um novo mundo.
O deus da destruição de quem já ouvi falar, hein… Pelo jeito que o Deus do Mundo fala, parece ser um deus decente, diferente do nome, mas o nome é assustador mesmo…
— Além disso, mundo "que saiu do padrão" e que pode gerar mau efeito em outros mundos, também é alvo do deus da destruição. Tipo mundo onde deus maligno nasceu e não tem mais como conter.
— Espe, espera aí. Isso é…!
— Não, precisamente, seu mundo ainda não entra nessa categoria. Não é que o deus maligno tenha se materializado e ficado descontrolado. Mas, de fato, está à beira disso.
Quer dizer o quê? Se o deus maligno se materializar, vira alvo de extinção pelo deus da destruição!?
— O problema não é só isso. Esse deus maligno está tramando algo, usando os próprios subordinados, através da fenda dimensional. Olha isso.
O Deus do Mundo estende a mão direita sobre a mesinha baixa, e projeta o mapa tridimensional do nosso mundo.
Em seguida, estendendo a mão esquerda também, surge o mapa do mundo sombrio. Feito refletido num espelho, os dois mundos, simétricos horizontalmente, ficam parados em cima da mesinha baixa. Ou melhor, aquele mundo é um mundo plano mesmo?
— Isso é os dois mundos de meio ano atrás. E…
Os dois mundos vão se aproximando aos poucos, e uma parte se sobrepõe.
— Isso é o mundo atual. Os desgraçados do deus maligno estão tentando conectar os dois mundos. Não, já começaram a se conectar.
— O QUÊ…!
Já tinha achado que tinha algo tramado por trás, com o mutante aparecendo no mundo sombrio, e o incidente do McClane também… mas conectar os dois mundos!? Isso é possível!?
— Por que raios o deus maligno faria isso…
— Se os dois mundos se conectarem, isso já vira um mundo diferente, único. E quem criou isso não sou eu, o Deus do Mundo. Ou seja, sai da minha mão. Provavelmente, isso é ideia incutida pelo deus subordinado absorvido.
— O quê…!
Sair da mão do Deus do Mundo!? Isso é…!
— Normalmente, mundo que "saiu" da mão dos deuses assim é destinado, por decisão dos deuses, a ser extinto pelo deus da destruição. Porque, se deixar junto com outros mundos, existe risco de passar por evolução própria e causar mau efeito. Mas isso não é o que a gente quer.
O Deus do Mundo me encara com olhar afiado. Engulo saliva sem querer.
— Então, aqui vamos. Decidimos deixar todo esse problema a cargo do Touya-kun.
— Hã!?
Espe, espera, como assim!?
— Fazer cessar a situação anormal que está acontecendo nesses dois mundos. Se conseguir fazer isso, em nome do Deus do Mundo, vou te reconhecer como deus de alto escalão.
— Hããã!?
Deus de alto escalão!? Deus de alto escalão é acima da irmã Karen e do pessoal, e da irmã Moroha!? Como assim, de repente!?
— Sinceramente falando, mesmo derrotando o deus maligno, esses dois mundos… bom, viram um só, mas… não vai ter deus pra gerenciar isso. Já que saiu da minha mão uma vez, incorporar de novo como novo mundo é crescimento demais pra isso. Seria ótimo se alguém gerenciasse.
— E você quer que eu faça isso? Não consigo imitar um deus!
— Não é imitar, é virar deus mesmo… Não é nada difícil. Só precisa tomar cuidado pra não chegar num ponto que precise chamar o deus da destruição de novo.
Não deixar chegar num ponto que precise chamar, francamente… mesmo com o Deus do Mundo cuidando, já tá quase chegando nesse ponto agora! Tá tudo bem mesmo!?
— Claro, não é que, derrotando o deus maligno, você entra imediatamente pro time dos deuses. Pode passar um período de treinamento vivendo no plano terreno, sem problema.
— Aliás, quanto tempo seria isso…
— Vamos ver, uns dois, três mil anos?
Longo! Período de treinamento longo demais! A Companhia Deus S.A. orienta cuidadosamente os novos funcionários!
Ou seja, resolvendo o problema do deus maligno, admissão oficial confirmada, até a cerimônia de admissão, uns dois, três mil anos de treinamento no plano terreno, depois disso, cargo de gerência daquele mundo, é isso. Sim, várias coisas estranhas nisso.
— Isso é obrigatório mesmo…?
— Não. Se recusar, tudo bem também. Acho que subir aos poucos desde deus de baixo escalão também é opção. Só que, se for assim, seu mundo sai do gerenciamento divino. Se, por acaso, "mundo que saiu" for julgado como causando mau efeito… depois de resolver com tanto esforço o deus maligno, ser extinto pelo deus da destruição depois seria desperdício total, né?
— Não tem opção de escolha nenhuma, francamente…
— Desculpa mesmo. Isso ainda foi o método que escolhi tentando causar o menor rebuliço possível.
— …Não, se deixasse quieto, ia acabar sendo extinto junto com o deus maligno pelo deus da destruição de qualquer jeito, né? Ainda é uma bênção poder tentar de novo. E também, já que aquele deus maligno tá fazendo o que quer, preciso dar um soco nele pra ficar satisfeito, então até que cai bem.
Bebo de uma vez o chá já morno. Ficou complicado, mas é um caminho que ia percorrer eventualmente. Não sei se dou conta de virar gerente, mas, com uns dois, três mil anos, deve acostumar.
Não, primeiro preciso arrebentar o deus maligno mesmo.
— Obrigado por aceitar. Eu também não queria que aquele mundo desaparecesse.
Dizendo isso, o Deus do Mundo também bebe o chá. O Deus do Mundo também desceu uma vez, afinal. Será que criou certo apego também.
— Se aquele mundo fosse julgado como problemático, o que aconteceria com a gente?
— Você e seus subordinados… as senhoritas, eu evacuaria pra outro mundo. Fora isso, tanto o mundo quanto as pessoas, tudo seria extinto pelo deus da destruição. Nem cinza sobraria.
Ouvindo isso, sinto um arrepio. Todo mundo do país, os reis de cada país, todas as pessoas que conheci, desaparecendo deste mundo. Nem quero pensar nisso.
Normalmente, o trabalho do deus da destruição seria extinguir tudo junto, deus maligno e Phrase. Ele ter aberto exceção nisso foi só porque, por acaso, eu estava naquele mundo. Se é assim, só resta fazer o que precisa ser feito.
Decidi no coração fazer o meu máximo pra fazer o que eu conseguisse.
…Devia ser assim, mas, depois de voltar do Mundo dos Deuses, percebendo de novo a gravidade da situação, eu rolava pela cama do meu quarto. Será que realmente não dá conta, hein…
— Gerenciar o mundo, hein… eu conseguiria fazer isso? Sendo que já é duvidoso se consigo gerenciar direito nem um país só…
Abraçando o travesseiro, rolo pra frente e pra trás na cama. Muu, sei que é cedo demais pra ficar preocupado com isso, mas. Primeiro, preciso dar um jeito no deus maligno.
— Aah… mas, hein, uuh…
Será que é essa a sensação de um funcionário novo recebendo um trabalho grande demais? Não, pra início de conversa, não deveriam confiar trabalho tão grande assim a um funcionário novo.
Normalmente, esse tipo de coisa tem sênior confiável ajudando…
— Não dá… a única pessoa que parece confiável é o tio Kōsuke…
Só tenho gente que adora fofoca de romance, viciada em luta, caçadora, maníaco de música, e bêbada. Até o tio Kōsuke deve ser inútil fora de agricultura.
Deus de baixo escalão deve ser exatamente isso, deus especializado assim mesmo, mas… muu…
— O que tá te preocupando?
— Ah, um pouco de coisa complicada…
Diante da voz que surgiu de repente, levanto a cabeça sobressaltado da cama. Ali estava a Yumina, de pijama.
— Por que você tá aqui…?
— O Touya-san estava meio estranho. Também comeu pouco no jantar, e parecia estar pensando em algo, distraído.
— Ah… foi mal.
Parece que a deixei preocupada. Um homem desses vai gerenciar mundo? O mundo também deve ficar incomodado. Ah não, de novo autodepreciativo.
— E, então? O que aconteceu? É algo que não pode me contar?
— Não, não é isso, mas…
Já contei sobre o Deus à Yumina e o pessoal, e, já que a divinização já está em andamento, isso também é algo que preciso contar a elas.
Começo a contar à Yumina o conteúdo que aprendi com o Deus. Extinção de mundo e afins, torcendo pra não chocá-la demais.
— Entendi… então era isso que te preocupava?
— Bom, sim… de repente pedir pra fazer trabalho de deus, né. Não, ainda falta muito pra começar esse trabalho, mas.
Rio de mim mesmo de forma autodepreciativa. Contar esse tipo de coisa é meio decepcionante, mas não adianta mais fingir orgulho a essa altura.
— Tá tudo bem. O Touya-san consegue.
— Não, fico feliz com o incentivo, mas…
— Tá tudo bem. Com certeza. Esse mundo, e o outro mundo também, com certeza dá pra salvar. Porque é o Touya-san.
Os olhos heterocromáticos, retos, me encaram. De onde vem essa confiança sem fundamento? Fico feliz que acredite em mim, mas.
— E também, nós também vamos ajudar. Então, por favor, não carrega isso sozinho. Se todo mundo se esforçar junto, com certeza vai dar tudo certo. O Touya-san tem tanta gente disposta a ajudar, né?
Dizendo isso, minha pequena noiva sorri. Essa gentileza penetra fundo, e, sem perceber, estendo a mão e abraço a Yumina.
— Desculpa, te preocupei. …É verdade, eu tenho todo mundo. Por isso, não existe nada que eu não consiga fazer… foi mal, mas, será que dá pra me ajudar?
— Sim…
A Yumina também me abraça com força. Fico feliz de verdade por ter conhecido essas garotas.
Pessoas insubstituíveis e importantes pra mim… não só elas, mas todo mundo que conheci até agora, e as pessoas gentis que vivem neste mundo. Preciso fazer o meu melhor, o que eu conseguir fazer.
— Só a irmã Yumina aproveitando é injusto, viu…
— Shh! Sue, silêncio!
Ouvi alguma coisa! Viro o olhar de repente pro quarto, e percebo várias partes estranhas demais.
Cortina inflada, guarda-roupa com roupa saindo pra fora, mesa com cadeira empurrada, pé aparecendo na sombra da estante de livros.
— Desde quando!?
— Desde quando o Touya-san estava rolando na cama.
— Desde o começo, francamente!
Como se dissessem "fomos descobertas", a Elsie e as outras oito saem de trás da cortina e de dentro do guarda-roupa. Até a Poala tava lá, francamente.
Ou melhor, invadiram meu quarto e ficaram escondidas, e eu, rolando de um lado pro outro, nem percebi, francamente!
— Por que estavam escondidas, hein…
— Porque tava rolando quem ia consolar o Touya-san.
— Yumina-dono, você é forte demais em jokenpo, hein…
Decidiram desse jeito de novo, francamente… Enquanto solto um suspiro, dessa vez a Sue pula em cima de mim.
— Escuta bem, Touya. Não fica se preocupando sozinho com tudo. A gente tá aqui, né? Somos a família mais forte, né? Não vamos perder nem pro deus da destruição.
Não, o deus da destruição nem é exatamente um inimigo, mas. Bom, o sentimento dela me deixa feliz. Igual com a Yumina, abraço a Sue, e ela ri "nihehe". Assim, ela me beija na bochecha.
— Ah!? Q-que isso, cortando na frente assim!?
— Isso mesmo! Só porque é a mais nova, sempre injusto isso!
— …Não vou perder.
Passando entre a Elsie e a Lindsey, que se aproximavam pressionando, a Sakura se abraça em mim, e beija a outra bochecha, oposta à que a Sue beijou.
— «« «« «« «« Ah!? »» »» »» »»
Com isso como gatilho, todo mundo mergulha em mim, uma atrás da outra. Espe, espera! Fico feliz, mas, francamente, não vou aguentar assim!
O quê!? Quem tá tentando abaixar minha calça, hein!? Ah, é a Poala, francamente!
Enquanto sou apertado por todo mundo, tenho a certeza de que, junto com elas, consigo superar qualquer coisa.