Capítulo 316 – A Magia dos Espíritos e a Descoberta
— Aliás, já é meio tarde pra perguntar, mas, como que tá a magia dos espíritos atualmente?
No Mundo dos Espíritos, brilhante e branco-leitoso, reúno os grandes espíritos e pergunto algo que tava me deixando curioso.
Agora, flutuando no espaço, coloco a cadeira e a mesa que tinha no [Storage], e fazemos uma sessão de chá com doces e chá preto.
Sensação estranha, mas, como o Mundo dos Espíritos não tem chão, só dá pra fazer assim mesmo. Mas, antes, o espírito da tempestade que mandei voando ficou quicando, hein. Não entendo bem.
— Se não me engano, existia aquela "magia antiga dos espíritos", né?
A Charlotte-san, feiticeira da corte de Belfast, deve estar pesquisando isso… Faz tempo que não a vejo, será que ela tá bem.
— «Mesmo agora, se o contrato for realizado, nós emprestamos poder ao contratante. Só que o método correto de exercer isso quase não existe mais no plano terreno atualmente. Parece que até nossa língua já se perdeu.»
— «De vez em quando, algum subordinado é invocado por acaso, mas parece que só ficam falando coisa sem sentido de forma unilateral, sem ninguém que consiga conversar direito. Só ficam pedindo emprestado poder, emprestado poder.»
O espírito da luz e o espírito do fogo respondem à minha pergunta.
Contrato com espírito é algo igualitário. Os espíritos só emprestam poder mesmo. Diferente de fera invocada.
O que diferencia de fera invocada é que o espírito também pode desfazer o contrato. Mesmo sob contrato, não atende desejo que não agrade.
Se fera invocada é tipo funcionário empregado que recebe salário e trabalha, espírito é só amigo mesmo. Impor exigência absurda a um amigo, tratando feito servo, é natural que ele perca a paciência.
Bom, se fizer isso até com funcionário empregado, com certeza também vai gerar antipatia.
— Nesse ponto, acho melhor divulgar isso com ênfase. Que espírito é existência igualitária, amigo do humano, esse tipo de coisa.
— «Do nosso ponto de vista, também é um problema ser dependido demais, ou tratado com intimidade excessiva.»
O espírito da terra inclina levemente a cabeça, mão no rosto.
Espírito, digamos, é a própria natureza. Desde tempos antigos, humanos veneram montanha, rezam pro mar, temem tempestade, agradecem a bênção da terra. Justamente por isso, viram membros dos deuses, criando esse mundo e vigiando o plano terreno.
— Bom, mesmo não chegando a grande espírito, pelo menos, fazendo contrato com o subordinado, dá pra usar magia dos espíritos, né?
— «Isso mesmo. No meu caso, seria a salamandra e tal. Fazendo o contrato, deve dar pra usar magia dos espíritos do fogo.»
Com biscoito de chá numa mão, o espírito do fogo fala isso. Se o poder da magia cresce ou não depende do talento da pessoa, parece.
A diferença entre magia dos espíritos e magia comum é justamente não estar preso à aptidão.
Magia normal, se não tiver aptidão de pelo menos um dos atributos — fogo, água, terra, vento, luz, trevas, sem atributo — não dá pra usar.
Mas magia dos espíritos, em teoria, qualquer um consegue usar. Se conseguir fazer o contrato, claro. Ao contrário, isso é justamente a parte que exige talento, então não dá pra dizer qual é mais fácil.
Claro, quem tem aptidão de água tende a ser bem-quisto pelo espírito subordinado da água também. Pensando assim, dá pra entender por que a magia dos espíritos decaiu.
Ter atributo de água, com magia de água livre pra usar sozinho, versus magia dos espíritos, que só dá pra exercer pedindo emprestado o poder do espírito da água. Se for pra escolher qual estudar, normalmente escolhe magia de água mesmo.
Mas magia dos espíritos também tem vantagem, e a maior delas é que, por mais poderosa que a técnica usada seja, quase não consome energia mágica.
Faz sentido mesmo. Quem tá usando a técnica é o próprio espírito. O praticante só usa energia mágica pra invocar.
Ou seja, mesmo uma criança com pouca energia mágica, se conseguir formar amizade com um espírito poderoso e pedir emprestado o poder dele, consegue usar magia dos espíritos poderosa.
Isso também mostra o quanto importa a relação com os espíritos.
Proponho espalhar de novo pelo mundo a magia dos espíritos, e os espíritos aceitam também. Claro, o contrato em si fica livre pros espíritos. Se não quiserem, não precisam. Isso é óbvio. Contratante e espírito devem ser iguais.
Só que uma parte que era do exército rebelde declarou: "a gente é casado, ou tem namorada, jamais faria contrato com esses aí!"… bom, isso também é livre.
…Aquela máscara que eles ficam fazendo, escrito "inveja", que negócio é esse? Não entendo bem, então decido ignorar.
— O problema é que tem pouca gente capaz de ver espírito, né.
— «Uma vez que reconhece, quem consegue ver, passa a ver mesmo. Raça das fadas, por exemplo, deve conseguir ver rapidinho. De vez em quando também tem humano com um olho especial, chamado "olho espiritual".»
Como o espírito do vento diz, raça das fadas, boa em magia, talvez consiga usar rapidinho. Mas, originalmente, a raça das fadas já usa muita magia mesmo.
De qualquer forma, primeiro vou consultar a Charlotte-san. Acho que é quem mais entende de magia dos espíritos.
— …A, agora, o que você disse…?
Trancada na sala de pesquisa mágica de Belfast, pesquisando a magia antiga dos espíritos, a Charlotte-san deixa cair da mão, espalhando, um maço de papéis.
— Então, se ela não tem vontade de aprender magia dos espíritos, digo.
— Hã? Hã? Espera aí. Magia dos espíritos? Touya-sa… Vossa Majestade, por acaso, sabe usar?
— Sei sim, olha.
Invoco a sylph, subordinada do espírito do vento. Como está visível, a Charlotte-san também deve conseguir ver o espírito, forma de menina fofa, tipo miniboneca de proporção de três cabeças.
— Por queêêê!? Por que consegue usar!? Eu, que pesquisei tanto assim, ainda não consigo usar, isso é injusto, viu!
— É, é… foi mal por isso…
Diante da moça inteligente, com óculos de intelectual, ficando meio-brava tipo criança, acabo pedindo desculpa sem querer.
As assistentes ao redor, provavelmente, seguram e acalmam a Charlotte-san. Aliás, essas assistentes também usavam o óculos de tradução que dei à Charlotte-san antes.
Levando dezenas de minutos pra finalmente se acalmar, a Charlotte-san me pergunta em detalhe, e, dessa vez, empolgada, começa a observar o espírito ao lado.
— Fuaah… espírito de verdade… eu, quando criança, já vi uma vez só. Desde então, querendo ver de novo, pesquisei sem parar. Não é poder meu, mas fico feliz de poder ver de novo…
Entendi. Então foi por esse motivo que a Charlotte-san pesquisou a magia antiga dos espíritos.
— Prometi aos grandes espíritos, existência superior a esses espíritos, espalhar de novo a magia dos espíritos. Por isso, primeiro, pensei em pedir ajuda da Charlotte-san, mas…
— Vou ajudar! Deixa eu ajudar! Deixa eu ajudaaaar!
A Charlotte-san se aproxima, levantando a mão pressionando. Calma, calma, se acalma. A fala tá saindo estranha.
Felizmente, as outras pesquisadoras também parecem ter aceitado, então, escrevendo no quadro-negro da sala de pesquisa, falo sobre os espíritos. Sinto que virei professor de escola.
— Primeiro, existem os grandes espíritos, e, abaixo deles, os espíritos, e, abaixo desses, os subordinados. Basicamente, grandes espíritos quase nunca fazem contrato com humano, então, normalmente, pra usar magia dos espíritos, precisa fazer contrato com espírito, ou com o subordinado dele… digamos, pequeno espírito.
Hmm, hmm, a Charlotte-san e o pessoal anotam com atenção o que ouvem, "kari kari".
— O que mais não quero que esqueçam sobre o contrato com espírito é que somos iguais. Não é familiar, nem fera invocada. Conseguir tratar como amigo, ou não — esse é o ponto crucial que decide se vira ou não um invocador de espíritos.
Fora isso, quem consegue fazer espírito obedecer é só a existência chamada Rei dos Espíritos, ou seja, só eu.
Sinceramente falando, não dá pra me machucar com magia dos espíritos. Espírito não empresta poder pra prejudicar o Rei dos Espíritos.
…Talvez tenha algum espírito que empreste, uma parte só. Aqueles de máscara estranha. Bom, tanto faz esse pessoal.
— Espírito, basicamente, é existência invisível. Pra formar amizade com eles, precisa saber falar a língua deles. Falando nessa língua, o espírito deve mostrar a forma dele.
— Sim! Isso é a língua antiga dos espíritos?
— Parecida, mas diferente. Aquilo foi criado na era do reino antigo, digamos, tipo abreviação. Com aquilo, só fala palavra parecida, o significado não chega direito ao espírito.
Pros grandes espíritos ou alguns espíritos superiores, dá pra conversar normal mesmo.
Tiro do [Storage] um livro. Título "Língua Verdadeira dos Espíritos". Livro didático de língua dos espíritos, feito com ajuda do poder do espírito do livro, na "Oficina" da Babylon.
— Lendo isso, deve conseguir conversar até certo ponto. Vou dar de presente.
— Éé, pode mesmo!?
— Pode sim. Em troca, como já falei antes, quero que ajude bastante gente a formar amizade com espírito. Pra que o espírito continue neste mundo como amigo do humano.
Quando os dois mundos virarem um só, se o poder dos espíritos enfraquecer, vira problema de vários jeitos. Desastre natural, claro, mas também existe possibilidade de mudar o ecossistema.
Pra fortalecer esse poder dos espíritos, é simples, eu, como Rei dos Espíritos, poderia emprestar poder temporariamente. Mas, assim, não dá pra continuar por anos, décadas, séculos daqui pra frente. As pessoas do plano terreno e os espíritos precisam se conectar de coração, fortalecendo juntos.
É o que a irmã Karen fala. Assunto de prazo longo, hein.
Mas, se for pra gerenciar este mundo daqui pra frente, esse tipo de coisa também deve ser necessário.
Afinal, no mundo sombrio, magia quase não se desenvolveu, então existe possibilidade de a magia dos espíritos também quase não ter se espalhado lá.
Deve ter espírito na natureza, mas o ponto de contato com humano é escasso. Por isso, só resta fortalecer pelo lado do mundo real mesmo.
— Então, não sei se vai conseguir fazer contrato, mas vamos tentar invocar. Quantos atributos a Charlotte-san tem mesmo?
— Ah, cinco. Fora sem-atributo e trevas.
Tem até cinco, hein, impressionante. A Leen, minha mestra, tem seis, fora trevas, então, de fato, é feiticeira da corte de Belfast mesmo.
— Primeira vez, deve ser pequeno espírito do vento ou da água. Subordinado do vento é curioso demais, e pequeno espírito da água tem temperamento dócil e gentil.
— Então… pequeno espírito da água.
Movemos pra fora, indo até a frente da fonte no pátio do castelo de Belfast.
Pra quem não fez contrato nenhum invocar o espírito, precisa de mais material catalisador. Pra invocar subordinado do espírito da água, água é bem óbvio.
A Charlotte-san, com o livro "Língua Verdadeira dos Espíritos" numa mão, fala pra água a palavra de invocação.
Eventualmente, a água da fonte começa a parar no ar, formando um pequeno espírito. É a undine, pequeno espírito da água. Forma de menina fofa, tamanho mini de três cabeças, com a parte de baixo do corpo tipo sereia.
Vendo a Charlotte-san surpresa, a undine também inclina a cabeça curiosa.
— Olha, precisa fazer o contrato.
— A, ah, sim! É, então…
Virando a página, a Charlotte-san, mesmo desajeitada, fala na língua dos espíritos.
Como frase, ficou algo tipo "eu quero ficar bem amigo com você. Por favor vira meu amigo. Por favor".
…Bom, contrato com espírito é sentimento mesmo. Mesmo com palavra certinha, se o coração não chegar ao espírito, não adianta nada. Isso deve ser igual entre humanos também.
A undine fica olhando a Charlotte-san por um tempo, mas, flutuando suavemente no ar, toca a mão dela e sorri.
Depois disso, feliz, gira ao redor dela, "guru guru", pousa na mão dela, e desaparece junto com uma luz.
E, na mão da Charlotte-san, resta um cristal azul do tamanho de bolinha de pinball.
— Vo, Vossa Majestade, isso é…
— Parabéns. O contrato foi feito. Isso é pedra espiritual. É a prova do contrato com o espírito. Segurando isso, tente falar de novo, no coração, com a undine.
— Si, sim!
Segurando a pedra espiritual, a Charlotte-san fecha os olhos como se rezasse. Então, da fonte à frente, a undine de antes salta pra fora, começando a voar ao redor da Charlotte-san de novo, "guru guru".
— No começo, talvez precise de bastante material catalisador pra invocar, mas, eventualmente, deve conseguir invocar até com só um copo de água. Depois disso, é questão de quanto consegue ficar amigo do espírito.
— Sim! Vou me esforçar!
Brincando com a undine que gira ao redor, "guru guru", a Charlotte-san responde feliz. Em seguida, as assistentes também invocam outras undines e sylphs, fazendo contrato.
— Pedra espiritual, encaixando em anel ou pingente, deve facilitar de carregar. Só toma cuidado pra não machucar nem quebrar a pedra nessa hora.
Ué, será que tão ouvindo? Fico meio decepcionado vendo o pessoal absorto nos espíritos. Bom, era o sonho deles se realizando, então não tem jeito mesmo.
— O que é esse alvoroço todo?
Aí, chega o Rei de Belfast, trazendo a Rainha. No braço da Rainha, o Príncipe Yamato está no colo.
Explico que estava ensinando magia dos espíritos à Charlotte-san, e, como sempre, sou olhado com desânimo, mas já não me importo mais com isso a essa altura.
Pretendo entregar o livro "Língua Verdadeira dos Espíritos" não só pra Belfast, mas pros outros países também.
A Charlotte-san e o pessoal, levando os espíritos, se retiram da presença do rei. Devem ir brincar com os espíritos por ali. Formar amizade é ótimo, mas.
— Aliás, o Príncipe Yamato já cresceu bastante, hein.
Quando digo isso, vendo o príncipe se animando no colo da Rainha Yuel, o rei ao meu lado assume um sorriso bobo, balançando a cabeça repetidamente.
— Né, né. Tá crescendo saudável e cheio de energia. Ah, tenho até foto de quando começou a engatinhar. Olha, olha.
Tirando o smartphone branco de produção em massa, o rei me mostra a foto tirada. Que isso, chato pra caramba.
Faz sentido ele ficar animado, sendo o filho homem tão esperado. Daqui a pouco, deve me mostrar até álbum de crescimento grosso…
Será que eu também vou virar assim? Não, preciso usar isso como exemplo do que não fazer.
…Hã?
Agora… senti uma sensação estranha… A Rainha Yuel? Não, do Príncipe Yamato?
Peço pra Rainha me deixar segurar o príncipe, e examino um pouco. A quantidade de energia mágica é normal… mas tem algo…
Ativo [Olho Divino] pra confirmar, vendo o príncipe se animando feliz, "kya, kya"… e entendo essa sensação estranha. Entendi mesmo.
Com a mão tremendo, devolvo o príncipe à Rainha Yuel.
— O que foi, Touya-dono. Sua cor tá ruim, hein.
— Hã? Ah, não, segurar criança dá nervoso mesmo. Pra não deixar cair.
— Isso não é bom, hein. E se tiver um filho com a Yumina? Melhor se acostumar desde agora, senão vai passar trabalho.
Ouvindo a risada do rei, não conseguia decidir se devia contar isso agora ou não.
O que vi com [Olho Divino], escondido no coração do Príncipe Yamato. Aquilo, sem dúvida… é o "núcleo" de Phrase.
O núcleo do "Rei" que os Phrase perseguem, atravessando mundos, até destruindo outras espécies pra buscar.