Capítulo 320 – O Reino de Primula e o Transferido
— Medo, medo, voar dá medo demais…
— «Uuuuunh…»
A engenheira Elka, agachada no chão, murmurando, e o Fenrir, ao lado, completamente mole.
Será que foi tão assustador assim? Ficar flutuando, tipo andar num avião de alta velocidade todo de vidro… bom, talvez dê medo mesmo.
Justamente quando chegamos ao destino, Reino de Primula, em uns cinco minutos, já fazem mais de dez minutos que esse pessoal continua nesse estado.
— Já chega, me leva logo até o castelo. O combate já começou, né?
— Ah. Isso mesmo. Precisamos nos apressar!
Ajeitando o óculos que tinha escorregado, a engenheira Elka volta a si.
Estamos atualmente na beira da estrada, um pouco afastados da capital do Reino de Primula, Primulet. Andando daqui, dá pra chegar rapidinho na capital.
Chegando na capital, a engenheira Elka mostra algo tipo cartão pro guarda de segurança, e imediatamente providenciam uma carruagem-golem de seis rodas. Parece que "ser próxima" não era mentira mesmo.
Entrando na carruagem-golem, seguimos, guiados por um cavaleiro de Primula, rumo direto ao castelo real.
As pessoas da cidade que via da janela pareciam, de algum jeito, sombrias, talvez por causa da guerra se aproximando furtivamente.
Ao chegar no castelo real de Primula, maior que o castelo de Brunhild, imediatamente um homem robusto, barbudo, vestindo roupa bem talhada, vem correndo em nossa direção. Combinando com o físico, corre com todo esforço, mas de algum jeito dá uma impressão cômica.
— Elka-donaaa!
— Ora, chefe-mordomo Evely.
— «Quanto tempo, hein.»
Recuperando o fôlego na nossa frente, o homem de uns cinquenta anos, chamado chefe-mordomo Evely, cumprimenta com aperto de mão a engenheira Elka e o companheiro dela, o Fenrir. Bom, aperto de mão pro Fenrir mais parecia "pata".
— Que bom que veio. Sua Majestade também vai ficar feliz. Com isso, a Primulage também pode lutar com toda a força.
— Primulage?
— É o golem exclusivo da família real deste país. Máquina antiga. Faço manutenção nele de vez em quando, a cada tantos anos.
Diante de mim, que interrompo sem querer, o mordomo Evely-san vira o olhar na minha direção.
— Ora? E essa pessoa?
— Ajudante. Talvez consiga parar a invasão do exército do Sacro Império.
— Co, co, como assim!
Arregalando os olhos, o mordomo Evely fica parado numa pose tipo ator de kabuki fazendo pose dramática. Que jeito cômico esse homem tem em cada movimento, hein.
— Será que dá pra conseguir audiência com Sua Majestade agora mesmo? Queria pedir num local não oficial. Talvez vire um assunto meio complicado.
— Entendido. Um momento, por favor!
Batendo no próprio peito, "don", tossindo, o mordomo Evely sai correndo de novo. Esse homem me lembra vagamente o Humpty Dumpty da Mother Goose.
— Touya-kun, por que você acha que eu acreditei na sua história?
— …? Não é porque te mostrei a Reginleif… o Frame Gear? E também, aquele "Coroa do preto"? Porque você já conhecia a habilidade daquele golem?
Sem entender a intenção da engenheira Elka, perguntando isso de repente, inclino a cabeça.
— De fato, isso também. E mais uma coisa, foi por causa da história deste país. Este país tem a história mais antiga deste mundo. Há 5200 anos, depois que o mundo foi destruído na grande guerra mundial antiga, nasceram vários países novos, mas, desde aquela época até agora, só este país continua existindo.
Grande guerra mundial antiga… Foi aquela guerra que envolveu o mundo, liderada pelas duas grandes potências antigas, né? Se não me engano, com o combate intenso usando vários golems diferentes, o mundo sombrio entrou em colapso uma vez.
Perdendo a civilização, perdendo até a tecnologia de fazer golem, o mundo foi se regenerando aos poucos, junto com os poucos golems restantes que ainda funcionavam… foi isso mesmo?
5200 anos atrás, quer dizer, entrou em colapso antes até da grande invasão de Phrase do mundo real…
— Existe uma tradição que continua nesta família real, sabe. Depois do colapso de 5000 anos atrás, neste território onde várias tribos brigavam, apareceu um homem. Esse homem falava língua estrangeira, e usava poder de magia misteriosa. Eventualmente, esse homem foi acolhido por uma tribo, e foi conquistando as tribos vizinhas uma atrás da outra. Esse foi o primeiro rei deste país. Esse rei deixou pras pessoas próximas dele estas palavras: "eu vim de um mundo diferente deste"… isso.
— O QUÊ…!
Como assim!? O primeiro rei daqui era pessoa de outro mundo!? Não me diga…
— O nome do país, "Primula", vem do nome dessa tribo daquela época. Não é o nome do rei. O nome da família real deste país é a família real "Pareliusu". O nome do primeiro rei é "Reriosu Pareliusu".
— Pareliusu… será mesmo…?
Areriasu Pareliusu. O sábio dos tempos antigos, que existiu 5000 anos atrás no antigo Reino Parteno. Usuário de magia espaço-tempo, pessoa que criou a barreira da Ilha Pareliusu.
Como assim? Não era pra ser que o portão dimensional que ele tentava construir na Ilha Pareliusu ficou incompleto, não conseguindo atravessar até o mundo sombrio? Não, será que só faltava energia mágica, mas quase estava completo… será isso?
Se aquele "Coroa do preto" apareceu no nosso mundo, e depois voltou, não seria estranho se alguém tivesse atravessado junto naquela hora?
— Parece que você tem alguma ideia?
— …Conheço o nome Pareliusu. É um usuário de magia espaço-tempo que existiu 5000 anos atrás no nosso mundo. Só que o nome é "Areriasu". E tem uma ilha chamada Ilha Pareliusu, e os descendentes desse Areriasu e do discípulo dele vivem lá.
Provavelmente, o ancestral distante desta família real Pareliusu deve ser filho, ou neto, do Areriasu Pareliusu.
Se for assim, com a mestra Central da Ilha Pareliusu… quer dizer que ela e essa família real compartilham o mesmo ancestral, sendo parentes distantes.
— Isso, hein… talvez fosse melhor trazer uma pessoa da época daquele tempo.
— Hã? Como assim?
— Foi mal, dá pra esperar aqui um pouquinho? Já volto rapidinho.
Deixando a engenheira Elka piscando os olhos, ajeitando o óculos de fundo de garrafa, uso [Teletransporte Interdimensional] e volto pra Babylon, no mundo real.
Teletransportando pro "Hangar", como sempre, os miniRôbos ficam circulando de um lado pro outro, carregando ferramentas e material. Na garagem, vejo o Gerhilde da Elsie, e, no ombro dele, a Monica fazendo manutenção.
— Foi mal, Monica. Onde tá a Doutora?
— Hã? Ah, a Doutora tá ali, olha.
No local que a Monica aponta com a chave inglesa, a Doutora estava lá. Deitada no chão, dormindo largada… nada bom, isso.
Como a aparência é de criança, até que dá uma impressão fofa, mas…
— Mumu mu… uhihi, mocinha, que calcinha fofa, hein. Que tal tirar um pouquinho… vai, levanta a perninha…
Fofa, nada!
— Ei, acorda um pouco. É emergência.
— Nhã?
Tentando sacudir a Doutora, que ainda sonha com um sorriso bobo no rosto, o olhar sem foco dela aponta a mão na minha direção.
— Nhm…
— Mugh!
De repente, ela segura meu pescoço e rouba meu beijo. Tento me soltar, mas ela me prende ainda mais com as duas pernas na cintura, abraçando forte, não me soltando fácil.
Enquanto isso, a língua pequena invade, dominando dentro da minha boca. Que técnica absurda, essa aí… assustador, francamente!
— Já chega, para com issoo!
— Fugya!?
Puxo à força, jogando ela no chão. De certa forma, foi por pouco…
— Ué? Cadê minhas gatinhas fofas?
— Tava sonhando, francamente…
A Doutora, olhando ao redor confusa, coçando a cabeça. Ou melhor, o alvo do sonho era garota, francamente!
De qualquer forma, explico a situação rapidamente, e, junto com a Doutora, uso [Teletransporte Interdimensional] de novo, voltando ao Reino de Primula, no mundo sombrio.
— Desculpa a demora.
— Nowaaaah!?
Diante de nós dois surgindo de repente, a engenheira Elka e o Fenrir não se assustam tanto assim, mas o mordomo Evely, que estava na frente, recua com reação exagerada.
— Tá tudo bem. Essa pessoa é usuária de magia de teletransporte.
— A, assim é. Perdão pela falta de educação.
Respirando ofegante, mas tentando manter a compostura, o mordomo Evely. Esse homem devia virar comediante de reação, hein.
— E, essa criança também é de outro mundo?
— Ah. Essa é a Doutora Regina Babylon. Pessoa que desenvolveu o Frame Gear.
— Essa criança!?
Dessa vez, a engenheira Elka olha surpresa pra Doutora Babylon. Bom, faz sentido mesmo. A aparência é só de uma menina com jaleco branco enorme demais.
Antes, já apliquei a magia de tradução [Translation] na Doutora, então deve conseguir conversar sem problema. Por ora, vou apresentar.
— Doutora, essa é a engenheira Elka e o golem-guarda-costas dela, o Fenrir. Parece ser considerada técnica de primeira linha entre os engenheiros de golem do mundo.
— Hoo, hoo. Que isso, que isso. Sou Regina Babylon. Prazer. Quero conversar com você em detalhe depois.
— Sou Elka. Eu também quero ouvir sua história. Sobre a tecnologia da civilização mágica e afins, viu.
As duas trocam aperto de mão com sorriso ousado. Ei? Sinto que juntei duas pessoas que não devia ter juntado… vem à mente aquele aviso de detergente, "perigoso misturar".
— De, de qualquer forma, já que estão juntos, por aqui. Sua Majestade vai recebê-los.
O mordomo Evely, ainda meio abalado, nos guia, caminhando à frente.
Andando pelo corredor do castelo real, pergunto à Doutora Babylon sobre essa pessoa chamada "Reriosu Pareliusu", que seria o primeiro rei deste país.
— Reriosu… ah, se não me engano, ele era o segundo filho do sábio Pareliusu. Igual ao irmão mais velho, seguiu o caminho da magi-mecânica, sendo assistente do sábio Pareliusu. Só que, se não me engano, ouvi que morreu jovem…
Só que ele não morreu, e, mais que isso, voou pra outro mundo, virando rei nessa terra.
Que história estranha, mas, de certa forma, se sobrepõe um pouco com a minha própria situação, dando uma sensação estranha de familiaridade.
Na frente da porta, no fim do corredor, dois cavaleiros de aparência robusta estavam de pé, lado a lado.
O mordomo Evely abre a porta, e nos leva pro quarto. Claro, checaram se não tínhamos nada tipo arma, mas, como minha Brunnhild está guardada no [Storage], não teve problema.
O interior tinha construção sólida e simples, dando sensação de história, mais impressão de robustez sólida do que de esplendor solene.
No fundo do quarto, um homem sentado numa cadeira, atrás de uma mesa, se levanta e vem em nossa direção.
Idade aparentando meados dos quarenta, corpo robusto, mas não musculoso demais. Digamos, tipo "magro-musculoso".
Cabelo curto castanho, bigode e barba bem cuidados, rosto também entra na categoria de bonito rústico. E, em cima desse cabelo castanho, estava uma coroa dourada simples.
Esse homem é o rei deste Reino de Primula. Ou seja, descendente do sábio dos tempos "Areriasu Pareliusu".
— Quanto tempo, engenheira Elka. Que bom que veio.
— Quanto tempo, Vossa Majestade.
Os dois conversam intimamente, trocando aperto de mão. Não era exatamente atitude de rei, e sim de amigo em pé de igualdade.
O olhar do Rei de Primula se volta da engenheira Elka pra mim.
— É esse aqui que consegue parar a invasão do exército do Sacro Império?
— Sim. E também, talvez consiga decifrar a "placa de pedra" que o primeiro rei daqui deixou. Diz que é a pessoa vinda "de fora" que Vossa Majestade mencionou antes.
— …!
Diante da fala da engenheira Elka, dá pra perceber que o Rei de Primula engole saliva. O olhar dele voltado pra mim muda sutilmente, mas, eventualmente, ele abre a boca calmamente.
— "htmzt/ioiuo kzttt/aeoui hkrtymn/iaioaii sstm/oieu srhnnk/oeaaia?"
— Hã?
Por um instante, não entendendo o que ele falava, os olhos do rei se semicerram na minha direção. Mas, ao meu lado, palavras parecidas saem.
— "srhmh/oeaao u". Isso são palavras deixadas pelo filho do sábio Pareliusu, né? Infelizmente, hoje em dia, quase ninguém no nosso mundo também consegue falar a língua mágica antiga, sabia?
A Doutora fala com o rei, sorrindo maliciosa. Ah, então era língua mágica antiga. Com magia de tradução, eu também consigo falar até certo ponto.
Ou melhor, ainda bem que trouxe a Doutora comigo.
— Entendi. Língua mágica antiga, hein. Na nossa família real, é transmitida como "Palavra Antiga". Sem aprender isso, não é permitido herdar a família real.
Hee. Será que o primeiro rei acreditava, o tempo todo, que o pai dele, o sábio Pareliusu, completaria o portão dimensional e transportaria todo mundo da Ilha Pareliusu pra este mundo?
Mesmo passando gerações, um dia com certeza viria… pensando assim, dá até uma sensação de aperto no peito.
Provavelmente, ele deve ter achado que, fora a Ilha Pareliusu com a barreira, o mundo original de onde ele veio já tinha sido destruído pelos Phrase.
O descendente dele, o Rei de Primula, vem à minha frente e estende a mão. Rei bem franco, parece.
— Vamos dar as boas-vindas a vocês. Rei do Reino de Primula, Rudiosu Primula Pareliusu.
— Rei do Principado de Brunhild, Mochizuki Touya. Essa é a Doutora Regina Babylon.
Aperto a mão estendida pelo rei. Se a expressão de surpresa dele era por causa do meu título, ou do título da Doutora, ou dos dois, não consigo julgar.