Capítulo 321 – O Sequestrador e o Segundo Príncipe
— Primeiro, por favor, dêem uma olhada nisso.
Dizendo isso, projeto uma imagem no ar pelo smartphone.
— Ooh…!
— Isso é…
O Rei do Reino de Primula, a engenheira Elka, o Fenrir, o chefe-mordomo, o primeiro-ministro, o comandante da Ordem de Cavaleiros, e o cavaleiro de escolta, todos prendem a respiração diante da imagem flutuando no cômodo, escurecido com as cortinas fechadas.
O que se desenrola ali é o combate intenso entre monstros de cristal, monstros dourados, e cavaleiros gigantes de armadura.
— O monstro de cristal é Phrase, e o monstro dourado é o mutante deles. Atualmente, nosso mundo está sofrendo ataque desse pessoal. Mesmo assim, até agora, conseguimos repelir todos.
Observando os presentes no cômodo, continuo falando. Acreditar ou não, deixo pra depois, por ora vou só declarar os fatos.
— E, esses monstros já começaram a aparecer no mundo de vocês também. Eventualmente, uma quantidade que ultrapassa dezenas de milhares deve aparecer aqui também.
— Isso é algo certo, mesmo?
— Certo. Perdoem a franqueza, mas, neste mundo, o máximo que consegue enfrentar esse pessoal deve ser só o golem de máquina antiga.
Sinto pena pelo rei, mas não adianta mentir. Se os mundos se conectarem, inevitavelmente vira isso.
— Supondo que isso seja fato, o que você… não, o Príncipe de outro mundo, deseja de nós?
— Quero que este país coopere na derrota desse pessoal. No nosso mundo, quase 90% dos países já formaram aliança, lutando unidos contra o invasor. Do mesmo jeito, os países daqui também deveriam se dar as mãos…
— Está pedindo que a gente se dê as mãos com o Sacro Império!? Pra nós, o invasor é justamente aquele pessoal!
Bam!, batendo na mesa, quem fala é o robusto comandante da Ordem de Cavaleiros, uns quarenta anos, com barba. O cabelo vermelho ardente dele chama atenção, dando impressão de homem de guerra mesmo.
— Bom, entendo que pedir pros inimigos ficarem amigos de repente seja difícil. Pelo menos, seria bom conseguir chegar num ponto de diálogo.
— Diálogo, nada. Se o outro lado não quer nem ouvir, não tem jeito. Então só resta o confronto armado mesmo.
Fala isso o primeiro-ministro magro, com tom irônico. Esse homem dá uma impressão meio resignada. Talvez não tenha jeito mesmo, nessa situação.
— Faz sentido. Se não querem ouvir, é só dar um tapa na cara pra fazer ouvir. Assunto simples.
— Ora? Pretende esmagar esse tal Sacro Império?
— Não, imagina. Nunca faria algo tão trabalhoso assim. Depois de esmagar, o que fazer com o país?
Desvio com naturalidade o comentário provocativo da Doutora, ao meu lado, que sorria maliciosa. O primeiro-ministro fica com expressão de choque diante disso, mas logo sorri meio amargo.
— Fala como se conseguisse derrotar o Sacro Império.
— Consigo mesmo? Não sei o que significa exatamente "derrotar um país", mas, um país nesse nível, destruir seria fácil. Pra mim, o governo depois disso é que seria muito mais difícil e trabalhoso. Não entendo nem um pouco a graça de invadir outro país.
Isso é verdade em vários sentidos. Até com Brunhild pequeno já dou trabalho, e ainda expandir… impensável. Preciso tomar cuidado pra não ser feito rei neste mundo também!
— E, e, então, Vossa Majestade acha que consegue salvar nosso país, que está sofrendo invasão agora?
— Consigo. Só que Frame Gear… aqueles gigantes de armadura, não vou usar contra humanos.
— Então como pretende parar a invasão do exército do Sacro Império!
De novo o comandante da Ordem de Cavaleiros levanta a voz. Primeiro-ministro e comandante, essa atitude dos dois pra com o próprio rei do país não é normal, hein.
Bom, faz sentido não acreditar fácil quando falam "sou rei de outro mundo". Ah, o rei repreendeu o comandante.
Viu, foi repreendido. Como súdito, não devia manchar a face do soberano assim.
Recompondo, pergunto ao rei.
— Quem é o comandante-geral do exército do Sacro Império que está invadindo?
— Se não me engano… deve ser o segundo príncipe do Sacro Império. Certo, primeiro-ministro Beroa?
— Sim. É o segundo príncipe, Ristin ra Toriharan.
Hoo, segundo príncipe, hein. Muito conveniente.
— Então, vou capturar esse segundo príncipe. Se fizer dele refém, deve conseguir trazer eles pra mesa de negociação, né?
Diante da minha fala, todos, exceto a Doutora, ficam de boca semiaberta, franzindo a testa. Que olhar é esse, tipo "o que esse cara tá falando?".
De fato, isso não difere muito de sequestrador, mas.
— Ele consegue usar magia de teletransporte, sabe? Entrar no acampamento inimigo e trazer o comandante-geral de volta é moleza pra ele.
Ao lado, a Doutora explica com um sorriso maroto. Bom, é isso mesmo. Sinto que soa meio covarde, mas isso deve ser o método mais rápido. Aniquilar todos os soldados do outro lado também deixaria gosto amargo. Pro príncipe, só será azar mesmo.
— Se, se isso for possível, de fato o exército do Sacro Império deve recuar, mas…
— Mas vou avisar de antemão: minha exigência, ao capturar o segundo príncipe, é só cessar-fogo. Não pretendo aproveitar isso pra pedir território, ou resgate. E, nem preciso dizer, vou garantir a segurança do segundo príncipe.
Quero parar a guerra, não quero destruir o Sacro Império. De qualquer forma, não vou deixar fazerem o que quiserem.
— Mas, depois de devolver o segundo príncipe, será que o exército do Sacro Império não invade de novo?
— Claro, na hora de devolver o segundo príncipe, vou avisar bem claro. Que da próxima vez sequestro o imperador.
Deve parecer que sou algum tipo de bandido, mas, chegando nesse ponto, não adianta mais fingir educação.
— …O Príncipe parece ser bem astuto mesmo.
— Melhor que sair gente morta, né? No nosso mundo, já não é situação de país brigando com país. Foi mal, mas, este mundo também deve virar assim em breve. País que não conseguir se aliar com outros vai só desaparecer.
Respondo à fala do primeiro-ministro Beroa com um tom levemente afiado. Não pretendo deixar destruir país nenhum tão fácil assim, a menos que seja um caso realmente sem salvação.
— E, então, o que Vossa Majestade quer que a gente faça?
— Quando isso se acalmar, gostaria que formassem aliança com o nosso país. Não tenho tantos contatos neste mundo. Deve parecer suspeito, "país de outro mundo", mas.
— Não, nesse ponto, confio. Nossa própria família real já é de origem estrangeira, afinal. Não duvido da existência disso. Tem até o aval da engenheira Elka.
Hmm. "Nesse ponto", ele disse. Não é que acreditou completamente, mas, por ora, tá bom assim. Acreditou em "pessoa de outro mundo", mas será que ainda duvida um pouco de "rei de outro mundo"?
— Exibir mapa. Área de combate entre o Reino de Primula e o Sacro Império de Toriharan.
— «Entendido.»
Junto com a voz do smartphone, o mapa geral ao redor deste país é projetado no ar, e vai se ajustando aos poucos.
Reben, hein. Atualmente, quem está sofrendo ataque é a cidade-fortaleza de Reben. O exército do Sacro Império se aproxima cercando por três lados.
Mesmo sendo fortaleza, não deve cair fácil assim, mas, com máquina antiga somado a golem militar de "unidade militar" sendo empregado, não dá pra ter certeza.
— Busca. Segundo príncipe do Sacro Império de Toriharan.
— «Buscando… são 23 resultados.»
— Muito, hein.
Diante da resposta, franzo a testa sem querer. Isso significa que tem essa quantidade de gente que, pela minha aparência, o sistema julga que "pode ser o segundo príncipe". Como sempre, essa magia de busca deixa a desejar em precisão.
— Sabe alguma característica de aparência do segundo príncipe? Se tiver foto, ajudaria muito.
— Foto não tem, mas… idade 19, cabelo loiro, rosto bem talhado, ouvi dizer. E também, é doentio. Deve estar usando algum brasão da família imperial.
Loiro bonitão, francamente. Que inveja de nascer príncipe… Com sentimento meio ressentido, peço pra mostrarem o brasão da família imperial do Sacro Império de Toriharan.
Leão de duas cabeças com duas espadas cruzadas, é. Tendo isso em mente, faço a busca, e consigo restringir a um resultado só.
Provavelmente, esse deve ser o segundo príncipe de Toriharan, sem erro.
— Então, vou lá rapidinho.
— Posso ir junto?
A Doutora, ao meu lado, de repente fala isso.
— Hã? …Bom, tudo bem.
Por um instante, achei que ia dar trabalho, mas, de fato, deixar a Doutora sozinha aqui também me deixa inseguro. Em vários sentidos. Vou levar ela.
Distância e… direção é essa.
— [Teleporte]!
Junto com a Doutora, teletransporto o espaço de uma vez. Num instante, chegamos ao acampamento do Sacro Império de Toriharan.
À nossa frente, tinha um jovem arregalando os olhos diante de nós, aparecendo de repente. Deduzindo, esse deve ser o príncipe Ristin. É loiro mesmo. Príncipe de estrutura delicada, tipo saído de mangá shoujo.
Dentro da tenda, tem também outras duas mulheres com aparência de criada.
— Q-quem é você!?
— Digamos, mensageiro do Reino de Primula… seria isso? Você é o Príncipe Ristin?
Reagindo imediatamente à minha resposta, o príncipe saca a espada da cintura, se posicionando.
— Invasor! Venham cá!
— Opa. [Prison]!
Como não quero que vire complicado, estendo parede defensiva ao redor de nós três.
Vários soldados entram apressados na tenda, tentando atacar, mas todos são bloqueados pela parede invisível, sem conseguir chegar até nós.
— Yaaaah!
O segundo príncipe aponta a espada desembainhada contra nós. Desvio levemente disso, seguro o braço dele, e ativo [Paralyze]. Parece que a habilidade com espada não é grande coisa. Imediatamente, o príncipe fica mole, desabando no chão.
Vendo isso, um cavaleiro idoso levanta a voz contra nós.
— Seu desgraçado! O que pretende fazer com o Príncipe Ristin!
Ah, então de fato é o príncipe mesmo. Seria grave se eu tivesse sequestrado a pessoa errada.
— Cessem a invasão ao Reino de Primula, por favor. Até lá, ficarei com a custódia do príncipe. Se o exército de Toriharan recuar pro próprio país, prometo devolver o príncipe são e salvo.
Aos cavaleiros que entraram na tenda, apresento nossa exigência. O olhar dos cavaleiros, rangendo os dentes, me encarando, dói, mas, sinto muito.
— Parece fala de bandido, hein.
— Cala a boca.
Rindo baixinho, a Doutora espia o rosto do príncipe caído. [Paralyze] tira a liberdade do corpo, mas a consciência permanece nítida, então ele deve estar ouvindo nossas palavras, e também deve estar vendo a Doutora.
— …Ora? Ooh… hoo, hoo… entendi… bem interessante, hein.
Tocando o príncipe caído, "peta peta", a Doutora murmura pra si mesma. Como parecia prestes a fazer algo tipo assédio reverso, acabo afastando ela. Não posso deixar ela causar problema por outro motivo.
— Touya-kun. Por precaução, melhor levar também aquelas criadas ali, como acompanhantes do príncipe. Não dá pra deixar tudo a cargo do lado de Primula, né?
Hmm. Faz sentido mesmo.
— Vocês duas, será que podem vir aqui? Queria pedir pra cuidarem dos afazeres pessoais do príncipe.
Respondendo ao meu pedido, as duas criadas vêm em nossa direção. Mudo a configuração pra deixá-las entrar em [Prison], e, ao permitir a entrada, de repente, as duas criadas atacam com adagas que seguravam escondidas.
Mas isso também já era esperado. Sem me apressar, lido com isso, e faço as duas também ficarem imóveis com [Paralyze], igual o príncipe. Só de estarem num acampamento assim, já dava pra saber que não eram criadas normais mesmo.
— Então, ficarei com a custódia do príncipe. Assim que o exército recuar, com certeza o devolvo são e salvo.
Respondo isso ao cavaleiro idoso, que me encara com olhar mais afiado entre os cavaleiros que nos cercam. Será que é o preceptor do príncipe?
Por ora, o assunto tá resolvido.
De novo com [Teleporte], teletransportamos, junto com [Prison], de volta à sala de reunião do Reino de Primula onde estávamos antes.
Diante de nós surgindo de repente, o pessoal de Primula fica agitado. A causa não sou eu, e sim os três que rolaram no chão, teletransportados junto.
— Vo, Vossa Majestade… essa pessoa é…
— Sim. É o segundo príncipe do Sacro Império de Toriharan.
Explicando ao Rei de Primula, retiro a espada da cintura do príncipe. Por precaução, preciso confiscar tipo arma mesmo.
No cabo da espada, estava gravado o brasão da família imperial, então entrego isso ao Rei de Primula. Com isso, deve confirmar que não é impostor.
Deixo as criadas a cargo da Doutora. Mesmo avisando pra não fazer assédio, ela começa a apalpar o peito delas, então dou um cascudo nela.
— Consegue me ouvir? Aqui é o castelo real do Reino de Primula. Vou liberar vocês agora, mas não se descontrolem, tá? Também não vou deixar acontecer nada com vocês por parte de Primula.
Falando isso ao segundo príncipe, ele move levemente a cabeça. Parece que entendeu. Aplico [Recovery] no príncipe, desfazendo a paralisia.
Percebendo que o corpo já está livre, o príncipe se levanta. Só nesse momento percebo que a altura dele é surpreendentemente baixa.
— …Você não é do Reino de Primula?
Ainda com olhar afiado, me encarando. Faz sentido. Sou sequestrador, afinal.
— Não sou do Reino de Primula. Sou só alguém que queria parar essa guerra. Por isso, não vou permitir que Primula faça mal ao príncipe.
— …Eu também só queria parar a guerra. Se isso vai parar o combate, aceito de bom grado a humilhação de ser prisioneiro.
Ora. Príncipe surpreendentemente compreensivo, hein. Enquanto fico meio surpreso, a Doutora puxa levemente a barra do meu casaco, "kui kui". O que foi?
Em voz baixa, a Doutora me conta algo. Quê!? O que é isso!?
Encaro fixamente o príncipe à minha frente. Não, de fato, agora que ela disse isso, parece que sim mesmo… mas como assim?
— Vo, Vossa Majestade. De qualquer forma, será que dá pra providenciar um quarto pro príncipe? Vou explicar a situação.
— Hm, ah, sim, claro.
O Rei de Primula, que observava a espada devolvida do príncipe, ordena a um cavaleiro subordinado que guie o pessoal.
Como ainda tem [Prison] aplicado no príncipe e nas criadas, ninguém pode tocar neles. Talvez percebendo isso, os três seguem dócil o cavaleiro guia.
Seguindo isso, eu e a Doutora também nos retiramos do cômodo. Daqui em diante, é melhor deixar a reunião pro pessoal deste país mesmo. …Dizendo algo parecido com isso, saio, mas, na verdade, tava com a cabeça cheia de dúvida sobre o que fazer daqui pra frente.
Entrando no quarto designado ao príncipe, expando [Prison] por todo o cômodo, bloqueando o som. Seria grave se alguém ouvisse.
— Deixa eu me apresentar de novo. Sou o Bruynhil… bom, isso agora não importa. Mochizuki Touya. Bom, pode me considerar mago mesmo. E essa é a Doutora Babylon.
— Mago…! Entendi, então esse fenômeno estranho de agora há pouco também é isso. Faz sentido.
— Isso. Bom, com esse poder, ninguém consegue entrar neste quarto, e a conversa não vaza pra fora. Então, vou perguntar. Por acaso, você não é príncipe, e sim… princesa?
Diante daquele rosto que se abre à minha frente, de tirar o fôlego, entendo tudo. Então era exatamente o que a Doutora disse mesmo… nossa, sério mesmo.