Capítulo 323 – O Presidente do Senado e o Fim da Guerra
— Ei, Ende! Você, o que tá fazendo, hein!?
— …Quem é você?
Franzindo a testa, direciona pra mim, do mesmo jeito, hostilidade. Que negócio esse cara tá falando. Tá de brincadeira?
— É o Touya! Mochizuki Touya!
— Não conheço.
Perigoso!? Esse desgraçado, cortou sem hesitar!
Não é o Ende? …Não, com certeza é ele mesmo. Que tal tentar provocar um pouco?
— …Ei, quer que eu conte o que aconteceu com a Mel?
— Mel…?
O Ende reage num sobressalto, "piku!", parando o movimento. O olhar dele vagueia, como se tentasse se lembrar de algo. Esse desgraçado… apesar de ter esquecido de mim, parece lembrar vagamente da Mel, o "Rei" dos Phrase. Amnésia… ou será lavagem cerebral?
— O que você tá fazendo! Esse aí é inimigo! Mata ele!
Diante da voz vinda do presidente do Senado, o Ende sacode a cabeça e vem cortar de novo. Droga, que saco! Já chega, vou deixar ele quietinho um pouco.
— [Prison]!
— !?
O Ende fica preso num cubo azul-esbranquiçado semitransparente. Batendo nessa barreira de 3 metros cúbicos, avançando com força, ele cai no chão.
Balança a espada, chuta com o pé, mas [Prison] não se abala nem um pouco.
Inútil, inútil. Uma vez preso ali dentro, a menos que seja poder divino, não tem como escapar nem destruir.
Se não fosse por essa característica de que a resistência é determinada pelo tamanho inicial da expansão, até espécie superior daria pra prender ali.
Bom, o assunto do Ende penso depois, agora tenho bastante coisa pra perguntar àquele velho.
— Seu desgraçado!
— Morre!
Os dois cavaleiros guarda-costas restantes vêm cortando. Bastante habilidosos, mas sinto que são inferiores ao Ende. Desviando com facilidade, aplico um soco no queixo de cada um, e eles desabam facilmente.
— Seu desgraçado…! Sabe quem eu sou! Sou o presidente que lidera o Senado, Mōrokku Rapitosu! Se contenha!
— Não conheço, não. Só sei que é um velho nocivo agarrado ao poder.
Falo exatamente o que penso, direcionado ao velho gritando com veias saltadas na testa.
Cabelo e barba mesclados de branco, roupa até discreta em tom, mas com bordado dourado chamativo aqui e ali, segurando na mão um bastão tipo cetro real. Corpo meio magro, alto, e no rosto de nariz aquilino característico, tem olhos arrogantes e rugas.
— Bom, tanto faz você. Mais que isso, o que fez com aquele ali?
— Aquele ali? Ah, entendi… você conhece aquele homem, é?
Sorrindo maliciosamente, o presidente do Senado se posiciona com o bastão.
— Aquele homem, sabe, meus subordinados o recolheram quando estava quase morrendo, fora dos muros da capital. Ele carregava vários instrumentos misteriosos que nunca vi antes… tentei arrancar dele de onde tinha conseguido, mas ele tinha perdido a memória. Por isso, eu dei a ele o nome "Vais", e o eduquei especialmente pra obedecer a mim.
Quase morrendo e amnésia, hein? Igual à Sakura… não, ainda pior, já que gravaram coisas estranhas nele também. Bom, se for isso, talvez dê pra resolver com [Recall].
Ou melhor… o que significa isso de "quase morrendo"? Quem fez isso com ele, afinal?
— Entre os pertences dele, também tinha uma coisa esplêndida dessas. O golem mais forte!
O que o presidente do Senado tira do peito é um pedaço de vidro tipo lâmina de microscópio. Aquilo, se não me engano…
Paki-n!, o presidente quebra o pedaço de vidro ao meio com o dedo.
No instante, uma luz ofuscante se espalha ao redor, atravessando o teto do grande salão, e surge um cavaleiro gigante de armadura.
Cor bicolor branco e preto, silhueta fina e afiada. E a característica mais marcante, as duas rodas nos calcanhares.
O que está de pé ali é o Cavaleiro Dragão. O Frame Gear que dei ao Ende.
Ei, ei… por que raios ele deixou tomarem isso dele, esse idiota.
— Hahaha! Parece que ficou sem palavras! Você também chega ao fim aqui!
No Cavaleiro Dragão agachado, o presidente do Senado entra no cockpit com uma agilidade impensável pra um velho de quase 70 anos.
O Frame Gear foi modificado pra até um amador conseguir mover razoavelmente. É simples tipo arcade de fliperama ou controle de videogame. O suporte de movimento faz sozinho, afinal.
Mas…
— «Tolo que se rebela contra mim! Vou te esmagar! Wahahahaha!»
Do alto-falante externo, ouço a voz gritona do velho, cheio de si, mas ignoro e opero o smartphone na mão.
— «Hahahahaha… nu!? O que houve, por que não se move! Antes se movia sem problema nenhum…!»
Uma voz agitada vaza do alto-falante. O Cavaleiro Dragão, com o velho dentro, permanece agachado, sem sinal de se levantar.
— «Se mexe! Ei! Aah, não se move mesmo!»
Ouvindo a voz vazando, destravo manualmente o trinco ao lado da escotilha do cockpit, e puxo a alavanca.
Com um som de ar escapando, "bashu", a escotilha do Cavaleiro Dragão se abre facilmente.
— Hii!?
— Foi mal, viu, mas isso aqui fui eu quem fiz. Ou seja, o mestre original desse golem sou eu.
Precisamente falando, quem fez foi a Doutora e a Rosetta e o pessoal, mas.
O Frame Gear tem sistema de parada emergencial equipado justamente pra momentos assim. Sem isso bem ajustado, não daria pra emprestar pra outros países.
— Uhya, aaaaah!?
Puxo o presidente Mōrokku pra fora do cockpit com [Levitação]. Debatendo-se no ar, "jitabata", desesperado tentando se afastar de mim, mas em vão. Assim, desço o presidente no chão, e, saindo da sombra da coluna, o Cavalheiro Zerorikku vem em nossa direção.
— O, ooh! Cavalheiro Zerorikku! Corta esse aí! Ele é um insolente que ergue arco contra o Sacro Império!
— Isso não posso fazer.
— Q, quê!?
— Atualmente, Sua Alteza Ristin está sob refém. Por isso, não posso fazer nada. Sinto muito mesmo, Sr. Presidente.
Falou isso com toda naturalidade, hein. Falar que tem refém, que atrevimento.
— Se, seu desgraçado! Não sabe qual é mais importante pra este país, eu ou esse príncipe inútil!? Idiota! Você também vai ser executado por traição, gu!?
— Já chega. Cala a boca.
Já que era desagradável de ouvir, dei um tiro de atordoamento nas costas do presidente. Traição, ele que fala isso? Se um sujeito desses fica no poder, deve ser difícil mesmo, esse país.
Vendo o olhar de compaixão do Cavalheiro Zerorikku, atrás dele, [Prison] se estilhaça com um som, "bakiin!", e, de dentro, o Ende salta pra fora.
— O quê!?
Impossível!? Mesmo sem ki divino incorporado, com aquela resistência, não deveria conseguir destruir com ataque comum…!
Nas mãos do Ende, mais longo que adaga, mais curto que espada longa, duas espadas curtas empunhadas com as duas mãos. Espada curta? Será que ele tinha escondido isso? Mas aquilo é…
Desviando das duas pontas de espada disparadas, expando magia bem na frente do Ende.
— [Venha, trovão gelado, névoa de gelo de cem raios, Voltic Mist]!
— Ugh!
A névoa que surge de repente envolve a mão direita estendida do Ende, e ele solta a espada curta, chocado. Rapidamente pego isso e recuo, confirmando a espada na mão. …Como eu imaginava.
Dessa espada curta, sobe ki divino. Sem dúvida. Isso é artefato divino… arma feita por deus.
— Onde diabos ele conseguiu isso, esse cara…
Artefato divino é a última esperança que o deus concede aos humanos, pra destruir o deus maligno ou deus corrupto nascido no plano terreno, ou os subordinados deles. Heróis e afins brandem isso como representantes dos deuses, ficando registrado como arma lendária em mitos e afins.
Mas artefato divino, num erro só, pode virar semente de novo deus maligno, então, dizem que, terminado o uso, é destruído, ou recolhido, ou trocado por uma réplica.
— Haa!
O Ende dispara a espada curta que restou na mão esquerda. Kuh, aah, francamente, esse cara é irritante! Volta a si logo, francamente!
— [Accel Boost]!
Com magia de aceleração máxima, entro no espaço do Ende num instante.
— O quê!?
— Não leva a mal, viu. A Yumina me pediu pra dar um tapa em você.
Aplico um tapa sem piedade na bochecha dele, e, em seguida, um soco tipo upper na barriga dele.
— Bufoha!
— Fica quieto um tempo.
No pescoço do Ende, curvado, segurando a barriga, aplico um golpe de mão. Ele solta o artefato divino que segurava e desaba de cabeça pro chão.
— Devia ter batido mais dois, três golpes?
Sinto que ainda falta pagamento da minha própria conta de incômodo, mas, por ora, vamos considerar suficiente. Francamente, ficou sendo usado assim tão facilmente.
Recolho as duas armas divinas e jogo no [Storage], prendendo o Ende de novo com [Prison]. Deixo a recuperação da memória pra depois. Dá trabalho.
Reduzo o [Prison] com o Ende dentro pro tamanho de um dado, e coloco no bolso.
Diferente do [Storage], não congela o tempo, então, se prender por muito tempo, ele nem consegue ir ao banheiro, e pode virar problema sério. Melhor resolver o assunto logo.
O presidente, também imobilizado, prendo do mesmo jeito com [Prison], e, guiado pelo Cavalheiro Zerorikku, seguimos rumo ao palácio imperial onde está o imperador. Claro, recolho o Cavaleiro Dragão também.
Causando esse alvoroço todo, é óbvio que curiosos e guardas se reúnem ao redor, mas, antes disso, desaparecemos com [Invisible] e entramos apressados no palácio imperial. Normalmente, precisaria de autorização do Senado pra entrar aqui.
Dentro do palácio imperial, pra moradia do imperador, é bem modesto, ou melhor, discreto… comparado ao salão do Senado de agora há pouco, parece até inferior.
Cavaleiro e golem de guarda também são poucos, e esse imperador realmente parece não ter poder mesmo. Mesmo assim, construção excessivamente luxuosa também teria problema, mas.
— Vossa Majestade!
Quando o Cavalheiro Zerorikku abre a porta de um cômodo no fim do corredor, um homem de uns cinquenta anos, que lia um livro na sala de trabalho, levanta o rosto surpreso.
Com óculos redondos, cabelo e barba brancos, esse homem dá mais impressão de burocrata do que guerreiro. Esse é o imperador de Toriharan, hein. Não sinto muita dignidade. Mas tem clima acolhedor.
O quê? Surpreso, olhando ao redor confuso… ah, esqueci de desativar [Invisible].
Diante de nós aparecendo de repente, de novo o imperador se assusta, quase caindo da cadeira.
— Uoh!? Cavalheiro Zerorikku!? Você não devia estar em Reben, em Primula…
— Vim urgentemente pra pedir julgamento imediato de Vossa Majestade. É assunto que decide o destino do Sacro Império.
Piscando confuso, sem entender nada, diante do imperador, o Cavalheiro Zerorikku entrega a carta da Ristis e começa a explicar desde o início.
No começo, o imperador tinha expressão de confusão, mas, quando tiro o presidente, ainda imóvel no [Prison], e jogo no chão, ele começa a ouvir a história do Cavalheiro Zerorikku com olhar sério.
— Entendi… de fato, parece ser um assunto importante pro nosso país. Alguém! Chame o Rūfeusu aqui!
Diante da ordem do imperador, um cavaleiro na entrada do cômodo sai correndo pra algum lugar.
Pergunto pro Cavalheiro Zerorikku, ao lado, por precaução.
— Quem é Rūfeusu?
— É o príncipe herdeiro do nosso país.
Então quer dizer que é irmão da Ristis. Já que até o imperador é tratado assim, dá pra imaginar como deve ser o tratamento do príncipe herdeiro também.
Eventualmente, o cavaleiro que saiu volta trazendo um jovem, provavelmente o príncipe herdeiro.
Mesmo cabelo loiro da Ristis, idade uns vinte e poucos anos… bonito, mas, igual ao imperador, usa óculos, dando um clima meio intelectual. De jeito nenhum parece o tipo que pegaria espada e iria pra linha de frente.
O príncipe herdeiro, entrando no cômodo, primeiro olha surpreso pro presidente do Senado jogado no chão, mas, ouvindo a conversa do imperador e do Cavalheiro Zerorikku, o olhar dele começa aos poucos a mudar de cor.
— Pai! Esta é uma oportunidade sem igual! Agora é a hora de dissolver o Senado e recuperar a ordem do Sacro Império! Seguir esse homem e evitar a guerra com Primula será justamente recuperar a paz do povo!
— U, uh. Sim. Faz sentido.
Até o imperador parece meio recuar, diante do fervor exagerado da fala dele…
Aliás, esse príncipe herdeiro não estava noivo forçado com a filha do presidente do Senado jogado aqui? Ouvi que ela é uma senhora de personalidade ruim… será que ele odeia tanto assim mesmo.
Depois, soube que ela era uma tia de mais de quarenta anos, personalidade extremamente distorcida, e que só pelo rosto não dava pra distinguir se era homem ou mulher. A desespero do príncipe herdeiro fez todo sentido.
Quem tinha o poder de decisão neste país era o Senado, mas quem fazia o país funcionar de fato não era eles. Mesmo destruindo o Senado, deve ter certa confusão, mas, eventualmente, deve voltar a funcionar normal de novo.
O Senado tratava o imperador como peça descartável, mas eles próprios eram tratados exatamente do mesmo jeito. Que história pra refletir sobre si mesmo, hein…
— Entendido. Então, Rūfeusu, leve a guarda imperial e vasculhe completamente a residência do presidente do Senado. Deve ter provas em montanha de como ele consumiu o orçamento nacional feito água. Cavalheiro Zerorikku, cuide da retirada do exército. Vamos firmar paz com o Reino de Primula.
— E esse aqui, o que fazemos?
Aponto o presidente, paralisado, que sofre de Paralyze.
— A ordem tá invertida, mas… até encontrarem provas, joga na masmorra subterrânea.
Bom, normalmente seria masmorra depois de encontrar prova mesmo. Só ouvindo isso, até parece que estão criando acusação falsa. Mesmo sendo certo que ele cometeu crime.
Chegando nesse ponto, os outros senadores também não devem escapar ilesos, mas vão ter que aceitar que é a conta chegando por terem feito o que quiseram até agora.
O príncipe herdeiro Rūfeusu se dirige apressado à residência do presidente. Parece que tinha bastante ressentimento acumulado. Entendo o sentimento.
Peço ao imperador pra escrever uma carta oficial pro Reino de Primula, recebo, e, junto com o Cavalheiro Zerorikku, teletransporto primeiro pro acampamento do Sacro Império em Reben, campo de batalha.
O Cavalheiro Zerorikku ordena imediatamente a retirada do exército, mas uma parte da nobreza alinhada ao Senado começa a reclamar. Parece que esperavam saque com a guerra.
Mas, ao apresentar o decreto imperial que trazia e avisar que o Senado foi dissolvido, ficam pálidos e param de falar qualquer coisa.
Esse pessoal deve estar fazendo algo escuso também. Percebem que, sabendo que o Senado, que os apoiava, desapareceu, ficam em pânico. Bom, isso o Cavalheiro Zerorikku também já deve estar de olho.
Depois de ordenar bem a retirada, dessa vez salto pro castelo real de Primula.
Entregando ao Rei de Primula a carta oficial do Imperador do Sacro Império de Toriharan, e avisando que a guerra terminou, todo mundo fica boquiaberto, como se tivessem perdido a voz.
Faz sentido. Ainda não passaram nem seis horas desde que apareci neste país. Em tão pouco tempo, dois países escaparam de uma situação crítica.
— Nem sei como agradecer…
— Não precisa se preocupar. Só consegui vir até este mundo graças ao dispositivo de teletransporte que o ancestral de Vossa Majestade criou. Se for agradecer, agradeça a ele.
Já que tudo tá resolvido, vou até onde a Ristis está confinada. Vendo eu, o Rei de Primula, e o Cavalheiro Zerorikku entrando no cômodo, ela corre até nós com expressão de alívio.
O Cavalheiro Zerorikku conta resumidamente o que aconteceu no Sacro Império.
— Então! A guerra parou!
— Sim. O Senado foi dissolvido, o presidente foi capturado, e o Sacro Império deve entrar numa nova era.
Diante da fala do Cavalheiro Zerorikku, a Ristis solta uma exclamação de alegria. Com isso, ela finalmente fica livre da farsa que vinha vivendo. Por ora, final feliz, né.
— Do meu lado, ainda tenho vários problemas empilhados, viu.
Olhando o [Prison] com o Ende dentro, que tiro do bolso, solto um suspiro sem querer.