Capítulo 325 – O Katsudon e a Trajetória do Ende
— Certo, vamos ver, quero que você cuspa várias coisas.
Batendo na mesa, "don", encaro o Ende sentado à minha frente. Dentro do cômodo escurecido, o abajur com magia de luz sobre a mesa ilumina o perfil dele.
— Sua mãe, na sua terra natal, tá chorando. …Quer comer katsudon?
— …Não sei o que o Touya quer fazer, mas tô com fome, então aceito.
Uh, bom, exagerei um pouco na brincadeira. Achei que isso era clássico de interrogatório.
A Shesca, de uniforme de criada, traz numa bandeja três katsudon. Um pra mim, um pro Ende, e, por precaução, um pra Mel também.
— Eu também?
— Talvez Phrase não precise, mas, já que fiz com todo esforço, experimenta. Pode deixar se não gostar.
Meio confusa, a Mel olha pro Ende, mas, quando ele pega o hashi e começa a comer, ela também, com jeito desajeitado de segurar o hashi, coloca na boca um pedaço de carne do katsudon.
— !?
Arregalando os olhos, a Mel começa a comer com voracidade, "hagu hagu". Parece que gostou.
— Aliás, espécie dominante consegue ficar sem comer nada?
— Phrase, originalmente, consegue funcionar só com um pouco de luz e energia mágica. Não tem tanta experiência com o ato de comer. A Rise era bem obcecada em comer, mas.
— É verdade, e aquela garota, a Rise, o que aconteceu com ela? Vocês estavam agindo junto, né?
— Isso também conto depois. Por ora, vamos comer.
Faz sentido. Vamos comer antes de esfriar. Delicioso. Quem fez isso, será a Clara-san? Ou será a Lu? Mesmo sendo princesa de Regulus, o nível de culinária dela subiu bastante, chegando quase no nível de profissional.
Terminando de comer o katsudon (a Mel ainda parecia querer mais), decido, por ora, ouvir a história do Ende.
— O Touya já sabe, né? Sobre o Phrase dourado.
— Do mutante, quer dizer.
— Mutante… bom, de fato, aquilo é tipo mutação repentina mesmo. Os Phrase que vieram pra este mundo, atualmente, se dividiram em duas facções. A facção reconstrucionista, liderada pela Nei, que quer trazer o "Rei" de volta, e a facção reformista, liderada pelo Yura. Com o poder que o Yura conseguiu de algum lugar, os Phrase passaram a poder renascer como novo tipo de ser vivo.
A Nei é aquela espécie dominante de forma feminina que já vi uma vez antes, e o Yura é aquela espécie dominante sinistra. Olhos escuros, sem dá pra saber o que pensa… então ele conseguiu o poder do deus maligno mesmo.
— Pra tentar avaliar o poder do Yura, fui até onde aquele pessoal estava, na fenda dimensional, mas fui derrotado por eles, os núcleos duplos… se chamam Reto e Ruto. Envergonhoso admitir, mas não consegui fazer nada. Antes, não eram tão fortes assim em combate, mas, renascidos como mutantes, têm uma força absurda. Só consegui fugir com todo esforço.
— Ainda tem espécie dominante, francamente… e ainda por cima virou mutante…
— Aquele poder é anormal. Eu, que já atravessei vários mundos diferentes, sei disso. Aquilo… é poder de deus. Poder de existência absoluta que criou o mundo.
— Não, precisamente, é diferente. Isso é poder do deus maligno. De jeito nenhum é poder de deus verdadeiro. É poder de algo tipo deus falso, nascido no plano terreno.
Diante da minha fala, o Ende pisca os olhos, "pachikuri". Cara de "por que ele sabe disso". Vendo essa cara, acabo rindo um pouco.
— …Também já queria perguntar isso há um tempo, o que você é, Touya? Não é humano comum, né?
— Faz sentido mesmo… bom, acho que posso contar.
De forma fácil de entender, mostro "Liberação da Autoridade Divina", emitindo ki divino do corpo. Até o Ende e o pessoal devem perceber essa presença.
Conforme esperado, os dois sentem o ki divino, recuando assustados. Opa, exagerei. Dissipando o ki divino, volto ao estado original.
— Aq, aquela presença…
— Digamos, também sou uma espécie de deus, sabe. Bom, agora ainda sou aprendiz.
O Ende e a Mel ficam parados, com expressão de choque. Bom, faz sentido mesmo. Aquela "Liberação da Autoridade Divina" é algo que crava, sem discussão, o sentimento de "isso é deus!". Acho que a minha ainda nem chega perto da irmã Karen.
— …Será que devo me ajoelhar e prestar reverência…?
— Para com isso. Que nojo. Já falei, sou aprendiz. Ainda não sou deus oficial. Me trata normal.
O Ende troca olhar com a Mel, e os dois assentem entre si. Ainda um pouco tensos, mas devem se acostumar eventualmente.
— E, então? Foi espancado pelos gêmeos e perdeu a memória?
— Espancado, francamente… bom, é isso mesmo. Naquela hora, consegui fugir. Só que achei que, do jeito que estava, seria ruim, então pensei em conseguir novo poder também.
— Isso é isso?
Tiro do [Storage] as duas espadas curtas que o Ende carregava. Sem dúvida, isso é artefato divino, algo que hospeda poder divino.
— Essas duas espadas estavam num mundo um pouco distante daqui. Nesse mundo, tinha um "dragão maligno tal e tal" se enfurecendo, e um "herói tal e tal" usou essa espada e o derrotou. O descendente desse tal herói vinha herdando por gerações, e eu meio que peguei emprestado.
Roubado, francamente! Não, de qualquer forma, se deixasse abandonado no plano terreno, existia possibilidade de virar semente pro deus maligno também, então talvez tenha sido bom no fim das contas.
— Só que, lá, encontrei um homem misterioso que veio recuperar essa espada. Ele disse algo tipo "não pode deixar artefato divino no plano terreno assim", e me espancou de novo. Consegui teletransportar e fugir por pouco, mas parece que errei o mundo. Ali, perdi a consciência. Depois disso, fiquei sendo manipulado à vontade daquele velho presidente.
Recuperar a espada? Não pode ficar no plano terreno? …Não me diga, será deus subordinado?
Peço licença aos dois um instante, e ligo pro Deus. Explicando isso e aquilo, recebo uma resposta bem leve.
— «Ah, esse é o deus da guerra mesmo. Achou ele bastante promissor, disse que queria fazer dele discípulo. Ah, a espada, se não perder, pode fazer o que quiser com ela, Touya-kun.»
Sim, acertei em cheio~.
Que ele conseguiu sobreviver lutando contra o deus da guerra, hein. Não, na verdade não sobreviveu ileso. Parece que quase morreu, e perdeu a memória.
Quando conto isso, mesmo sendo o Ende, o máximo que consegue fazer é um sorriso forçado.
Espancado pelos núcleos duplos → espancado pelo deus da guerra → espancado por mim, três derrotas seguidas, é. Fico com um pouco de pena dele… o Ende não é fraco, mas.
Por ora, guardo esse artefato divino no [Storage].
— Bom, entendi sua situação. E, aquela garota espécie dominante que estava com você, a Rise?
— Mandei a Rise pra Nei. Pra dar várias explicações. Teve o assunto do mutante também… aquelas duas são irmãs, sabia.
Então era isso. Não parecem nada uma com a outra.
Mas, irmãs entre Phrase, como assim, hein. Ou melhor, nem entendo a própria reprodução deles. Também é meio estranho perguntar, então vou deixar passar essa…
— E, então, o que o Touya pretende fazer com a gente?
— Vamos ver… foi mal, mas, a Mel, não posso tirar do [Prison]. Por ora, ao menos. Não quero que os Phrase ataquem este país. Quanto ao Ende, o que fazer, hein…
Esse aqui não é aliado nosso, é aliado da Mel. De certa forma, dá até pra dizer que é claro assim.
— Eu acho que posso ajudar, contanto que o Touya não faça mal à Mel. Chegando nesse ponto, não dá pra avançar sem resolver tudo.
— Eu… queria conversar com a Nei de novo. Falar com ela cara a cara direito de novo, e pedir pra parar com isso. Pode ser difícil, mas…
Respondendo com a cabeça meio baixa, a Mel. Esse lado vai depender de contato da Rise, hein. Enquanto estiver no [Prison], garanto a segurança dela.
— Por ora, vamos manter o status quo, né. Foi mal, mas vão continuar em regime de confinamento por um tempo.
— Ei, ei, eu também?
— Você fica aí como castigo por ter deixado ela sozinha. Não vou vigiar, então pode ficar grudadinho à vontade.
— O quê…!
Deixando o Ende agitado, saio do cômodo. Antes de sair, vi o Ende segurando a mão da Mel. Espero que consiga dar algum cuidado emocional pra Mel, que estava abatida.
— Chegaram a um acordo?
Ao voltar pra sala de estar, a Yae estava sentada na cadeira, esperando. Na mesa, tigelas empilhadas. Você, quantos katsudon comeu, francamente…
— Bom, mais ou menos. Se der certo, parece que não precisamos mais lutar contra os Phrase. Mas com o mutante parece que não vai ser assim tão fácil.
— Que bom, então. Aliás, chegou carta do irmão mais velho de Ishen. Diz que quer revanche com a irmã Moroha em breve, e pede que arranje uma oportunidade.
Revanche? O Jūtarō-san? Quando ele lutou contra a irmã Moroha, mesmo?
— Foi na hora do torneio de artes marciais. O irmão, que ganhou o campeonato, lutou com a irmã depois.
Ah, aquela hora. No último dia do festival, eu tinha desmaiado depois da luta com o Gira no dia anterior, e continuava dormindo direto.
O resultado do combate dos dois, nem precisa dizer, foi vitória esmagadora da irmã Moroha. Parece que foi combate sem pegar leve nenhum. Derrubar de repente da alegria da vitória pro abismo da derrota — que crueldade. Bom, ela é deusa, mas.
— Foi mal pelo Jūtarō-san, mas acho que ele vai perder de novo…
— O irmão já sabe disso também. Mesmo assim, pretende pedir orientação de treino.
Se é assim, tudo bem. Que bom ele ter espírito positivo. Se ele tivesse ficado destroçado emocionalmente, eu me sentiria responsável.
De repente, o smartphone no bolso avisa uma ligação. Ah, é do Kōsaka-san. Mau pressentimento…
— Alô, sim…
— «Vossa Majestade. Já é hora de cuidar do trabalho oficial de hoje, senão vão surgir vários problemas. Onde está?»
— Ah, sim. Volto agora mesmo.
Ultimamente, com esse assunto do mundo sombrio e tal, tenho deixado várias coisas de lado. Melhor ficar quieto por aqui um tempo.
Trabalho oficial, mesmo sendo isso, é só decidir vários assuntos mesmo. Aliás, se não me engano, a mestra da guilda de aventureiros, a Relisha-san, propôs criar uma escola de treinamento de aventureiros.
Aumentou o número de aventureiros vindo pra Brunhild atrás da Ilha da Masmorra. Junto com isso, também aumentaram os casos de novatos se arriscando demais, se ferindo gravemente, ou, no pior caso, morrendo. É pra evitar isso.
Acho que aprender técnica pra sobreviver não é desperdício nenhum. Pretendo deixar a mensalidade o mais barata possível.
Por ora, vou até onde o Kōsaka-san está.
— Vou trabalhar~
— Vai com cuidado, viu.
Despedindo-me da Yae, abro [Gate] em direção ao castelo de Brunhild.