Capítulo 338 – A Irmã Mais Nova e o Coroa Negro
Na praia da Ilha Draclif, alguns dragões estão caídos. Nenhum deles parece morto, mas parecem ter sofrido dano suficiente pra desmaiar.
Na frente da barreira que impede invasor de passar da praia pro centro da ilha (claro, os dragões conseguem atravessar), em cima de um dragão caído, ela estava de pé, braços cruzados, com pose arrogante.
Uma menina vestindo roupa gótica-lolita preta, tipo a da Leen, e, como se fosse serva, um golem pequeno de cavaleiro preto com cachecol longo, ao lado dela, e, mais além, uma criada de cabelo curto tom violeta, com cara de desculpa. Por que raios tá acompanhada de criada?
Já ouvi que era criança, mas é pequena mesmo. Menor que a Sue… não, deve ser menor até que a Rene, nossa criada. Uns seis, sete anos? Mesmo assim, emana algo tipo aura de conquistador, dignidade de rei, encarando pra cá com expressão desafiadora.
Estamos observando isso da mansão na encosta da montanha com [Long Sense], então do outro lado não devem estar vendo.
— Aquela é a irmã mais nova?
Sem responder à minha pergunta, a engenheira Elka assente repetidamente, "kokuko", olhando pra imagem projetada no ar. Ué, tá suando bastante. Tá com medo?
— De qualquer forma, vamos lá conversar. Se a engenheira Elka conversar, ela deve entender…
— Não!
…Negou de cara. E ainda por cima, se agarra na árvore do jardim, demonstrando a vontade de não se mover dali de jeito nenhum.
— Com certeza vou levar bronca! Quando ela fica brava, dá medo, viu! Se o Touya-kun também levasse bronca dela uma vez, ia entender!
— É criança, é!?
Vendo ela quase chorando, balançando a cabeça em recusa, agarrada na árvore, não parece nem um pouco a irmã mais velha da criança na tela. Irmã mais velha e mais nova, não seria o contrário?
Eu, a Yae, e a Hilda, presentes ali, trocamos olhar de confusão cada um. Ver mulher mais velha fazer birra assim dá um sentimento sem jeito mesmo.
Com o sentido de "ei, o que fazer nisso", viro o olhar pro Fenrir, golem tipo lobo ao lado da engenheira Elka.
— «Muh. A mestra é fraca com a irmã mais nova. E, ainda mais, dessa vez, saiu de viagem sem contar nada, e sem contato nenhum, então deve estar bem brava mesmo. Chegando nesse ponto, não tem jeito, mas…»
— Não fazer contato nenhum… por quê? Se mandasse ao menos uma carta do lugar de viagem, corretamente…
— Se mandasse carta, ia identificar o local! Se descobrisse, com certeza ia me capturar!
Fugitiva, francamente. Odeia tanto assim levar bronca da irmã? Ou melhor, se tivesse conversado direito desde o início antes de partir, não teria motivo pra bronca nenhuma.
— «A mestra, quando decide algo, age na hora. Tem o hábito de, quando se interessa por algo, não fazer concessão nenhuma, largando tudo o resto e seguindo em frente sem parar. Mau hábito.»
Isso entendo até certo ponto. Afinal, ela chegou a ponto de vir até nosso mundo. Faz sentido a irmã mais nova ficar brava.
Mas, mesmo assim, ficar parado aqui não resolve nada.
— De qualquer forma, olha, vamos.
— Nãããão!
A Hilda segura o braço dela e puxa, mas parece decidida a não se mover nem com alavanca, agarrando até com o pé na árvore, sem soltar.
Francamente, isso é criança fazendo birra por não conseguir comprar brinquedo, francamente.
— «Por ora, será que o Touya-dono não conversa primeiro com a irmã mais nova? Se explicar a situação em detalhe, talvez a raiva da irmã mais nova se acalme. …Um pouco, ao menos.»
— Éé…
Não curto lidar com esse tipo de criança, sinceramente. Quando encontrei a Rachel, noiva do rei-menino do Reino de Paruhu, também discuti com ela e fiz ela chorar.
Sendo claramente menor que a Rachel, será que vai entender conversando?
Peço à Yae e à Hilda, que estavam junto, pra vigiar a engenheira Elka pra não fugir, e, contrariado, desço o caminho até a praia.
A irmã mais nova continua, com a língua pra fora, braços cruzados, em cima do dragão terrestre desmaiado, me encarando.
Assim, ficamos frente a frente com a barreira entre nós. Pela posição, por causa do corpo do dragão, fico numa posição de olhar pra cima em relação a ela.
— Você é o Mochizuki Touya que o rei de Primula mencionou?
Com olhar tipo desprezo (na situação, ela literalmente está olhando de cima), a menina abre a boca. Ooh. Criança de personalidade bem forte, hein.
Pela força de vontade de vir até aqui, isso não deve ser fácil.
— Ah. Você é a irmã mais nova da engenheira Elka? Qual seu nome?
— Norun. …O que foi, essa cara?
— Ah, não, é que conheço uma pessoa com o mesmo nome.
Será que minha surpresa apareceu no rosto. Mesmo nome da nossa vice-comandante da Ordem de Cavaleiros, demi-humana lobo, a Norun-san. Não é nome tão raro assim, bom, deve acontecer mesmo. Personalidade parece diferente, mas.
— E, então? Cadê minha irmã?
— Lá em cima, tremendo de medo. Não quer vir até aqui.
— …Achei que, se você devolvesse ela dócil, ia deixar passar com um soco só, mas então é refém, é isso?
— Hã?
— Noir!
Diante da voz da menina, o pequeno golem cavaleiro preto atrás dela corre em direção à barreira e dispara o punho com toda força.
Claro, esse punho pequeno é bloqueado pela parede invisível criada pela barreira, e não chega até mim.
De repente, bate sem mais nem menos, francamente. Que garota decidida, hein.
— Escuta, vamos conversar direito. Não tenho memória nenhuma de ter sequestrado sua irmã. Ela que veio junto por conta própria,
— Noir! ["Invocação de Arma"], No.10 [Newton]!
— «Entendido.»
Antes de eu terminar de falar "isso", diante dos meus olhos, o golem cavaleiro preto… provavelmente o "Coroa" do preto, ergue um martelo gigante, que segurava sem eu perceber quando. Enorme!
Comparado ao corpo pequeno do golem, menor que 1 metro, o tamanho do martelo era do tamanho de um carro pequeno.
Com um som de vidro se estilhaçando, "gakyaa!", a barreira da ilha é destruída. Mu, quer dizer que aquilo não é martelo comum, capaz de quebrar barreira?
— Noir! ["Invocação de Arma"]. No.09 [Schrödinger]!
— «Entendido.»
Respondendo à voz da mestra Norun, o martelo gigante desaparece da mão do Coroa do preto, o Noir, e, na mão dele, surgem de novo duas armas de fogo mágicas.
Descarga elétrica é disparada dos dois cachos. Não parece ter poder o suficiente pra matar humano, mas não pretendo receber isso dócil também.
— [Absorve]!
Absorvo e faço desaparecer a descarga elétrica se aproximando com magia de absorção. Continua disparando algumas vezes, mas dissipo tudo do mesmo jeito.
Por ora, preciso resolver esse golem. Não posso quebrar, então melhor deixar ele incapaz de se mover.
— [Prison]!
Tendo o exemplo do martelo de agora há pouco, por precaução, disparo magia de cárcere com um pouco de ki divino incorporado no "Coroa" do preto.
Imediatamente, o "Coroa" do preto fica preso num cárcere azul semitransparente de uns 1 metro cúbico. Deixando o coroa ali, tento saltar pro alto até onde a Norun está, em cima do dragão desmaiado.
— Mestra!
De onde tirou, não sei, mas a criada de cabelo curto, segurando uma espada fina, salta contra mim tentando me impedir. Perigoso, hein, melhor deixar ela quietinha também.
— [Paralyze]!
Desviando da espada empurrada, seguro o braço da criada e aplico magia de paralisia. Achei que isso a deixaria incapaz de se mover, mas o movimento dela não para.
— !?
Desvio da espada balançada lateralmente. A capacidade física parece alta, mas a habilidade com espada é amadora, então não foi difícil desviar.
[Paralyze] não funciona? Ch, será que ela tem amuleto? Achei que gente deste mundo não teria isso.
— Foi mal. [Gravity]!
Bato no ombro da criada, ativo magia de sobrecarga, e a faço rastejar na areia.
— Kya!?
— Kuh!
A Norun tira a arma mágica de dentro da roupa e aponta pra mim, lá embaixo. Opa, não vai dar tão fácil assim.
— [Slip]!
— Hya!?
Escorregando da cabeça do dragão terrestre, a Norun cai de bunda na areia. Antes dela se levantar, do mesmo jeito que fiz com o tal Noir, tiro a liberdade dela com [Prison]. Pronto, xeque-mate.
— Kuh! Abre isso, ei! Covarde! Sequestrador! Mago tarado!
— Mago tarad… é assim que sou visto, é?
Vendo a menina batendo, "donga donga", na barreira do [Prison], sinto algo indescritível.
Aah… que negócio é esse, hein, será que ela acha que eu sequestrei a engenheira Elka por interesse no corpo dela? Não brinca comigo.
Pra desfazer o mal-entendido fundamental dela, sento na areia da praia, "dokka".
— …E então, foi a engenheira Elka quem veio pro nosso mundo por conta própria. Quase que à força. Entendeu?
— …Entendi. Tem alguns pontos que não fico convencida, mas entendi a situação. …Minha irmã deu trabalho, hein.
Fico aliviado por conseguir fazer ela entender de algum jeito. Estava preocupado se ela ia entender coisa de outro mundo, sendo criança, mas, sendo irmã da engenheira Elka, considerada gênio neste mundo, parece que a cabeça funciona bem, igual à irmã.
— …Então, entendi a situação, então quero que dessarme isso logo.
Com cara emburrada, a Norun bate, "konkon", na barreira do [Prison].
Desfaço também o [Prison] do Noir, atrás de mim, e libero a criada de [Gravity]. Tirando a areia e se levantando, a criada faz uma reverência.
— Então, de novo. Sou Norun Patorakushe. Esse golem aí é o Noir, e esse aqui é a Elfrau. …O que foi, essa cara?
— Ah, não, é que no nosso mundo tem um país chamado "Elfrau", então me surpreendi um pouco.
— Hmm. Que confuso.
De fato.
— Sou a Elfrau. Se for confuso, pode me chamar de Frau.
A Elfrau-san fala algo parecido com a nossa criada tarada, a Shesca. Ué, não seria "El"? A Shesca também é "Furanchesuka", mas não vira "Furan". Será alguma regra específica?
— E, então, minha irmã idiota tá lá em cima?
Apontando pra mansão na encosta da montanha, a Norun pergunta. Irmã idiota, francamente. Mesmo sendo, ao menos formalmente, engenheira de golem gênio, isso parece não importar nada pra parentesco.
— O Fenrir também. A engenheira Elka tava tremendo de medo achando que você ia ficar brava.
— Claro que tô brava. Sair de repente por conta própria e vagar quase dois anos, o que é isso? Vagando de lá pra cá, causando problema em cada lugar, e ainda por cima toda a limpeza da bagunça sobra pra mim, isso é o que mais me deixa brava! Graças a isso, fui tratada como suspeita de assassinato em série, atacada por dono ganancioso de cassino, um monte de coisa! Tenho montanha de coisa pra reclamar!
Não sei se seria "rancor acumulado de anos", mas parece que tem bastante coisa acumulada e reprimida mesmo. Sendo assunto entre irmãs, melhor não investigar demais.
— Mesmo sendo criança, deu bastante trabalho, hein. Preocupar a irmãzinha pequena, que irmã ruim, hein.
— Ah, não pode!
— «Aviso, palavra proibida.»
A criada, tapando a boca… a Frau-san, e o "Coroa" do preto, Noir, falam ao mesmo tempo.
Hã? E, distraído com os dois, não presto atenção na Norun, que já erguia a arma mágica na mão.
Arremessada a curta distância, a massa de metal e madeira acerta com bastante velocidade minha virilha.
— Fu! Guoh…!
Sem voz. Todo o ar se esvai, e caio de joelho na areia quente, segurando a virilha, encolhido.
Que, suor frio, escorrendo tipo cachoeira, francamente…! Espera… isso é…!
[Agonia de rastejar no chão]
Dor tamanha que impossibilita ficar de pé, arrastando-se pelo chão.
Isso mesmo… exatamente isso…
— Não me trata como criança! Eu tenho 15 anos, viu!
Ela fala algo, mas minha cabeça não funciona… 15 anos, o quê? Quer dizer, mesma idade da Elsie e da Lindsey? Ha, uh… respirar dói…! Tô vendo campo de flores…! Vocês não entendem essa dor, não…!
Ataque surpresa total no ponto fraco funciona mesmo, hein…
— T, tá tudo bem!?
— T… bem, não tô, mas… um pouco, assim, mesmo…
A Frau-san corre até mim, mas a paro com a mão. Nisso, ninguém consegue fazer nada por mim. Só resta esperar passar…
Já teve algo parecido antes… naquela vez, foi pisado pela desajeitada administradora do "Depósito", a Paruche…pensei que nunca mais ia querer receber esse dano de novo…
— «Impaciente, peça desculpa.»
— Kuh… foi porque ele falou coisa indelicada!
Até o golem repreende o ato da própria senhora. Bom, se fosse menina de seis anos, ainda seria perdoável, mas, sendo garota de 15, como fica isso, hein. Não, mesmo com seis anos, seria questionável também…
Deduzindo, ela deve ter complexo grande com a própria aparência, mas, olhando de qualquer ângulo, parece menina de seis, sete anos. Não parece espécie de vida longa tipo a Leen, então, o que será, afinal…
Lutando contra a dor surda na parte inferior do abdômen, no meio da consciência turva, juro no coração que, daqui pra frente, vou aplicar [Shield] na calça.