Capítulo 34 – Condecoração de Título e as Pessoas do Palácio
— É do meu pai. Diz que, depois de ler isto, gostaria que o senhor fosse ao palácio.
Uma carta que chegou agora há pouco à "Lua de Prata" por cavalo expresso. Mal a leu, a Yumina me disse isso. Tenho um mau pressentimento, mas ignorar não dá.
— O que foi agora?
— Como agradecimento pela solução do caso, ele quer conceder ao Touya-san um título de nobreza.
— Título?! — as três.
A Elsie e companhia soltam gritos de espanto. Ah, era isso mesmo. Pensando bem, ele tinha comentado algo do tipo.
Afinal, o par de casamento da Yumina, princesa de um reino, precisa de uma posição à altura. Ainda não pretendem anunciar oficialmente este noivo (provisório) que sou eu, mas, até lá, querem ajeitar as aparências de algum jeito, é por aí.
— Dá pra recusar?
— Pode recusar, mas, nesse caso, ele pede que o senhor apresente o motivo e declline num ambiente oficial.
— Declinar?! — as três.
Os três soltam de novo um grito de espanto. Vocês são barulhentas.
— Deixando o casamento de lado, recusar até o título não dá! Que desperdício!
A Elsie dá uma opinião bem sincera. Mas, ó, receber um título não é virar nobre? Não combina comigo.
— …Virar nobre é servir ao Estado. É preciso governar um domínio com dever e responsabilidade.
Afagando a cabeça do Kohaku no colo, a Lindsey murmura baixinho. É, dá trabalho mesmo. Vou recusar.
— E então, o que pretende dizer pra recusar?
— Hmm, "a vida de aventureiro combina mais comigo", algo assim?
Até eu acho que soa falso, mas foi só o que me ocorreu. Pensei em dizer "estou à procura do assassino dos meus pais", mas isso ia complicar.
— Acho que serve. O meu pai não vai forçar.
— Então vamos com isso.
E ele também quer que a Elsie e companhia venham ao palácio. Não pra assistirem à cerimônia, mas só pra conhecer e agradecer a quem cuida da filha dele. No começo as três recusaram, achando atrevimento, mas, como conhecer o rei é sem dúvida útil, no fim cederam.
— E o Kohaku? Fica de guarda aqui?
— Eu? Se o senhor diz que…
— Nem pensar. — as quatro.
Ôoo, vetado por todas as meninas.
— Deixar o Kohaku pra trás, jamais.
— Coitado.
— Ele também é do grupo, não?
— Eu cuido do Kohaku-chan, por favor, Touya-san.
Kohaku, sucesso absoluto. Hmpf, que inveja. Mas, como eu mesmo admito que não sou páreo pra aquela fofura, decidi levá-lo.
Abro logo a [Gate] e saio no quarto da Yumina, no palácio.
Quando digo "quarto da Yumina", não é o de dormir nem o de descanso, mas um dos vários quartos pra receber visitas. O rei já me deu permissão pra sair neste quarto quando uso a [Gate].
Ao sair, os cavaleiros da guarda me olharam desconfiados, mas, ao verem a Yumina à frente, mudaram de atitude.
Andamos um tempo e, quando a Yumina abre a porta de um quarto no fundo da galeria, lá estavam Sua Majestade o rei, o General Leon e a embaixadora de Mismede, a Olga-san, tomando chá.
— Pai!
— Ô, Yumina.
Ao ver a Yumina, o rei se levanta da cadeira e abraça firme a filha que correu até ele.
— Que bom ver você bem.
— Estando ao lado do Touya-san, não tem como eu não estar bem.
Já disse que esse tipo de coisa é vergonhoso… Enquanto eu corava sozinho com a fala da Yumina, o rei me chamou.
— Quanto tempo, Touya.
— Olá.
— Os de trás são seus companheiros? Não precisam ficar tão duros, levantem a cabeça.
À voz do rei, viro e as três já estavam prostradas. Vocês, a mesma reação da vez da Sue. Na da Yumina não foi assim. Bom, naquela vez eu levei a Yumina embora e fui exasperado por todos……
— Touya.
Sem eu perceber, a Olga-san tinha chegado perto. Hoje também as orelhas e a cauda de raposa estão deslumbrantes. Se eu afagasse, qual seria mais gostoso, ela ou o Kohaku — pensamentos rudes me ocorrem.
— Sou muito grata pelo ocorrido. O senhor é o salvador da vida do rei deste país, e, ao mesmo tempo, salvador do nosso Reino de Mismede. Se um dia for ao nosso país, será recebido como hóspede de Estado.
A Olga-san baixa a cabeça bem fundo. Que isso, hóspede de Estado, esquece. Não quero dar na vista.
— A Alma está bem?
— Ah, está ótima. Se eu soubesse que o senhor viria hoje, teria trazido ela.
O rosto risonho da Olga-san, com ar de pena, congela um instante. Sigo o olhar dela e, lá, o Kohaku, que tinha vindo atrás da gente.
— …Touya, e esse aí?
— Ah, é um filhote de tigre que eu crio, chama Kohaku. Olha, Kohaku, cumprimenta.
— Gau.
Como combinado de antemão, o Kohaku finge ser um filhote comum. Se soubessem que é um tigre falante, ia complicar mais ainda.
Olhando o Kohaku, a Olga-san inclina a cabeça, desconfiada.
— Aconteceu algo?
— Ah, não, é que no nosso Reino de Mismede o tigre branco é tido como mensageiro dos deuses, é sagrado. Diz-se que o tigre branco é da linhagem da besta divina «Imperador Branco».
Bom, mais que linhagem, é o próprio… Aliás, a Yumina também o chamou de rei das feras. Será que dá pra ir a Mismede com o Kohaku.
E, de repente, um impacto nas minhas costas. É o general. Esse homem não consegue se comunicar sem bater no outro?
— Quanto tempo, Touya! Quem diria que você ia virar o noivo da princesa! Inesperado! Você tem futuro! Que tal, eu te treino?
— Ainda não sou noivo, então fico de fora.
Treinado por este homem, antes de ficar forte eu acabo com o corpo destruído. É do tipo que bate, bate, em vez de cumprimentar. Não deve ser má pessoa, mas…… Ué?
Na cintura do general, uma manopla cor de cobre avermelhado. Tosca e sem enfeites, ela exalava ares de um herói calejado de mil batalhas.
— General, isso é……
— Hm? Ah, é que depois tenho treino com a tropa. Eu sou lutador, então manopla é o básico… ou você não conhece? O nome "Leon, o Punho de Chamas"?
Infelizmente não conheço nadinha. Nunca ouvi. Mas, ao contrário de mim, sem reação, alguém ao lado reagiu de mais.
— A-eu conheço! Com aquele punho envolto em chamas, dizimou sozinho um grande bando de ladrões que infestava a Cordilheira de Melicia! O usuário do Punho de Chamas! E ainda a luta de morte com o Stone Golem e tudo mais!
— Ô! Você conhece bem! Você também é lutadora? Mulher lutadora é raro!
Vendo na cintura da Elsie empolgada as manoplas assimétricas — a aerodinâmica à esquerda, a angulosa à direita —, o general ri, contente.
— Que tal? Você não quer participar do treino de mais tarde?
— Posso participar?!
A Elsie assente com um sorrisão. Deve estar feliz de poder aprender com outro lutador. Enquanto eu olhava elas, o rei me chamou.
— Aliás, Touya, sobre a concessão do título…
— Ah, eu agradeço a boa intenção, mas……
Desculpa, rei, mas devolvo a recusa. Por ora não pretendo virar nobre.
— Bom, eu já esperava isso. Mas o rei não retribuir nada a quem salvou sua vida pega mal pra imagem. Eu quero, ao menos, a forma de "tentei conceder um título". Claro, se você aceitasse de verdade, melhor ainda.
Sendo rei, deve ter essas coisas de aparência, de etiqueta. Enquanto eu sentia certa pena dele, de repente, bam!, a porta se abre e alguém irrompe no quarto.
— Soube que o Touya-san está aqui!
Quem será? É a Charlotte-san. Tão diferente da última vez que, por um instante, não reconheci. Os cabelos cor de jade desgrenhados, olheiras ainda piores que antes. Vinha a passos firmes na minha direção, e, por trás do óculos que eu dei, os olhos estão vermelhos, injetados. Que medo! Que é isso, que medo!
Como quem não me deixa escapar, segura o meu casaco com uma mão e, com a outra, estende umas taças com algumas moedas de prata dentro.
— Ã! Este óculos! Dá pra fazer mais dois, três pra mim?! Eu te ensinei o [Transfer] outro dia, lembra?! Né?!
— Hã?! Não, é verdade que ajudou! Mas por quê?!
Recuando bastante da Charlotte-san de ar assustador, pergunto o que me intriga.
— Por quê? Porque a decifração não anda de jeito nenhum! Sozinha tem limite! Não dá! Não dá mais! Por mais que eu decifre, decifre, não acaba! Você tem ideia de quanto tem?! Você tem ideia de quanto tem?!
Por que duas vezes?! Ela me esculhamba ao contrário, mas, mulher, você que tentou me empurrar isso outro dia!
Enfim, como contrariar também dá medo, recebo as taças e as moedas, aciono [Modeling] e [Enchant], e faço mais três óculos de tradução.
— Muito obrigada!
Como quem não tem mais o que fazer aqui, arranca os óculos depressa e tenta sair na mesma velocidade com que chegou.
— Cuide bem disso, Charlotte. Se vazar pro Império, pode dar problema.
— Entendido!
Respondendo animada ao rei, ela some como o vento. Que coisa foi essa……
— A Charlotte dá trabalho, francamente. Desde que conseguiu aquele item, vive trancada no laboratório; uma hora acaba com a saúde de verdade. Assim, vai sobrar pro Touya lançar um [Recovery] nela.
Pelo visto eu, sem querer, gerei uma reclusa. Quando se empolga, fica mesmo cega pra tudo em volta.
— …Aquela… era a maga da corte Charlotte-sama?
A Lindsey murmura olhando pra porta. Bom, dá pra entender. Não parece nem um pouco a maior maga do reino.
— Eu queria ter falado de magia… que pena.
— Ah, deixa, deixa. Se você disser isso pra Charlotte agora, leva meio dia ouvindo sobre magia espiritual antiga e ainda é arrastada pros experimentos. Espere ela se acalmar.
O general balança a cabeça. De fato, naquele estado não dá pra conversar.
— Bom, preciso preparar a cerimônia de outro dia. Touya, escolha e ajuste a roupa que vai usar.
Pá-pá, o rei bate as mãos, e da porta dos fundos surgem duas criadas. Hmm, que trabalheira.
— Lindsey e Yae, o que vão fazer? Esperam aqui?
— Eu vou assistir ao treino da maninha.
— Este servo também.
Beleza, fora a Yumina, todas vão pro treino. O Kohaku a Yumina fica com ele, então deixa eu logo escolher a roupa.
Pra me trocar, fui levado pelas criadas até o quarto dos fundos.