Capítulo 356 – A Academia, e a Subida de Rank
— Sinto muito pelo pedido repentino.
— Ho ho ho. Não precisa se preocupar, viu. O antigo-antigo rei tá com tempo livre demais, sem saber o que fazer, afinal. Também queria saber como a Hilda anda, então caiu como uma luva.
Quem fala isso, rindo, é o antigo-antigo Rei do Reino de Cavaleiros de Lestia, Gyaren Yunasu Lestia. Avô da Hilda, e aventureiro de rank ouro, igual a mim.
Visualmente, é um velho gentil apoiado em bengala, mas é absurdamente forte. Excluindo mim e a Hilda e o pessoal ligado a subordinado divino, deve entrar na categoria dos mais fortes da humanidade.
— Kyaa!?
— Ho ho ho. Uhum, uhum, nada mal.
A atendente da guilda pula segurando o traseiro. Se não fosse por isso, hein. Instinto pervertido continua o mesmo de sempre, hein.
— O senhor continua o mesmo de sempre, Gyaren-sama.
— Ora, é a Relisha-dono. Isso aqui, não consigo parar mesmo. É o segredo da minha juventude, sabe. Se parar, posso morrer de repente amanhã, viu.
…Mesmo estando na categoria dos mais fortes da humanidade, derrotar deve ser fácil.
Sem esconder a expressão de espanto, a Relisha-san conversa com o antigo-antigo Rei Gyaren na sala de visitas dentro da guilda que ela guiou.
Achei que ele daria em cima primeiro numa beldade como a Relisha-san, mas não parece o caso. Parece que já se conhecem, será que já tocou nela antes?
Esse velho tem uma política meio incompreensível de nunca tocar duas vezes numa mulher que já tocou uma vez. A idade alvo também é acima dos 20 anos, então a Yumina e o pessoal estavam excluídos, afinal.
Teletransportando com [Gate] até Lestia, expliquei a situação e trouxe o antigo-antigo Rei Gyaren até a Guilda de Aventureiros de Brunhild. Claro, já tenho a permissão do atual rei, o cunhado Rainharuto, irmão da Hilda.
Vieram alguns cavaleiros de Lestia como escolta, mas, na verdade, deve ser mais função de vigilância. Afinal, quem protege é muito mais forte que quem deveria ser protegido, então a escolta não tem sentido nenhum.
— E então? Examinador quer dizer que eu também vou lutar contra novato aventureiro?
— Não, isso eu faço. Gyaren-san, gostaria que julgasse observando isso.
O teste de subida de rank é decidido basicamente por três examinadores. Dois desses somos nós.
O outro é aventureiro de rank prata, aparentemente, e eu também vou julgar o teste transformado, como aventureiro de rank prata ou vermelho.
Ao Gyaren-san, peço julgamento como conclusão final. Sendo julgamento de rank ouro, não deve gerar reclamação.
— Ou melhor, por que você esconde a identidade? Não acho que teria problema nenhum mesmo se descobrissem.
— Diferente de Lestia, é país pequeno, sabe. Posso encontrar candidato na cidade, e não quero criar ressentimento estranho.
— Acho que tá pensando demais, viu. Mesmo criando ressentimento, não deve doer nem coçar nada.
Bom, isso é verdade, mas. Também tem o medo de ouvirem "o que o rei tá fazendo, vai trabalhar!", sabe.
Eu mesmo sei que sou rei egoísta, afinal…
Já tô dando trabalho pro Gyaren-san agora mesmo. Bom, em compensação, quando tiver teste de subida de rank em Lestia, pretendo ir eu mesmo como aventureiro de rank ouro.
— Hmm. Sobre o conteúdo do teste, o que você está pensando? Basta ter força no braço?
Isso também me deixa curioso. Se é certo ou não subir de rank só pela técnica de combate.
Aventureiro que confia demais na força bruta e no punho é comum no rank azul. Por que? Porque não conseguem subir pro rank vermelho.
O muro entre rank azul e vermelho é alto. Missão de rank vermelho, considerado aventureiro de primeira linha, inclui até missão vinda do estado. Ou seja, colocar aventureiro estranho no rank vermelho também dá trabalho pra guilda.
Por isso, subir do rank azul pro vermelho precisa de aprovação do mestre de guilda daquela região. Não é tão fácil subir assim.
No meu caso, o que mais foi avaliado foi ter contribuído pra construir relação amigável entre Belfast e Misumido. Em termos de habilidade, também já tinha derrotado dragão negro. Por isso, quando derrotei o Golem de Mithril, virei rank vermelho sem problema nenhum. A aprovação já estava concedida, afinal.
Dizem que muito aventureiro também desiste no rank azul. Por não conseguir subir pro rank vermelho nunca, acumulam insatisfação com a guilda, eventualmente param de seguir instrução da guilda, e, como resultado, acabam tendo o registro cancelado.
Eu também acho que quem já desanima assim, originalmente, não tinha qualificação pro rank vermelho mesmo.
— Basicamente, o conteúdo do teste é decidido pelos examinadores, mas, como o Gyaren-sama disse, também não acho certo decidir só pela técnica de combate simples. O rank da Guilda de Aventureiros não é simplesmente rank de técnica de combate. Como julgar isso também é habilidade do examinador.
— Hmm. Quer dizer que devemos pensar no conteúdo do teste pra distinguir o aventureiro de verdade?
— Sim. Claro, também vamos supervisionar se isso é apropriado.
De fato, não dá pra julgar só pela técnica de combate. Mas também é problemático jogar irresponsavelmente "você rank azul, você rank verde", e depois causar problema.
Porque quem deu aval pro rank daquele aventureiro seríamos nós.
Pensando assim, não dá pra fazer de qualquer jeito, hein.
Enquanto pensava nisso, "kon kon", batem na porta.
— Mestra de guilda. O outro examinador chegou.
Parece que finalmente chegou o último examinador, guiado pela atendente. Se não me engano, era aventureiro de rank prata…
Vendo o aventureiro que entra na sala, meus olhos ficam parados. Hã?
— Pe, espera, por que a irmã Karina tá aqui!?
— Ora, fui chamada, óbvio. O que foi, não te contaram?
Quem aparece diante de mim é a deusa da caça, a irmã Karina. Como sempre, cabelo verde-esmeralda em rabo de cavalo, vestindo armadura de couro leve.
— E, examinador, quer dizer, é a irmã Karina!? Ou melhor, desde quando é rank prata!?
Sabia que a irmã Karina tinha se registrado na guilda e virado aventureira, mas achei que fosse só pra caçar mesmo.
Mais que aceitar missão pra subir de rank, achei que o motivo principal fosse vender material da caça…
— Já cacei quase tudo que tinha por aqui, sabe. Fui até as Ilhas Masmorra. Aí apareceu um dragão voador desgarrado por lá. Derrotei ele por missão da guilda. Subir de rank foi só de quebra.
— Derrotou, quer dizer… só com arco e flecha!?
Não, sei que a habilidade dela com arco é de primeira linha, mesmo sem usar poder divino, mas, mesmo assim, dá pra abater dragão voador voando!?
— Ora, se cortar o tendão da asa com flecha, ele não voa mais. Depois que cai, um golpe de facão na artéria carótida e já era.
Não, cortar tendão de asa com flecha… só você mesma consegue fazer isso num dragão voando, viu.
Não imaginava que tivesse rank prata tão perto assim… será que o terceiro rank ouro também vai aparecer logo?
— Deduzindo, essa senhorita aqui deve ser a irmã do duque?
— Ah, não. Chamo de irmã, mas é prima. Irmã Karina, esse é o Gyaren-san, antigo-antigo Rei do Reino de Cavaleiros de Lestia.
— Uau, prazer.
— Ho ho ho. Como se esperava da prima do duque, sem brecha nenhuma.
O Gyaren-san fala isso com pesar, mexendo as mãos, "wakiwaki". …Estava tentando tocar nela. Antes, já foi derrubado quando tentou dar em cima da irmã Karen. Acho que a irmã Karina supera isso em capacidade física, então tocar nela deve ser praticamente impossível.
Com a chegada da irmã Karina, explico de novo o conteúdo do teste de subida de rank.
Mas, com esse time, sinto pena de quem vai ser testado…
— E então, o que fazemos afinal?
— Só técnica de combate não serve, mas não ter nada também é problema. Até uns rank verde, acho que só isso já basta.
De fato. Querer o teste de subida de rank significa que tem confiança na própria habilidade. Se isso é real ou só ilusão própria, dá pra saber rápido.
Se ninguém tiver nem técnica de rank verde, o teste já termina ali.
— E se aparecer alguém com habilidade nível rank verde?
— Que tal dar alguma missão pra cumprir, e julgar pela ação? Acho que dá pra entender bem em que tipo de coisa a pessoa prioriza.
— Isso mesmo, se for assim…
Trocando opiniões entre nós, vamos refinando o conteúdo do teste de subida de rank.
Um mês depois, a Academia de Aventureiros, organizada pela Guilda de Aventureiros, abre as portas.
Aqui, dá pra aprender conhecimento e técnica básica de aventureiro.
Desde manejo de arma até característica de monstro, técnica de sobrevivência, aprende-se o básico. Ensina o que já seria senso comum pra quem tem certa experiência.
Falando extremo, é uma escola que transforma um amador completo em amador aventureiro decente em curto prazo.
Ao contrário, mesmo não sendo aventureiro, pra quem já fazia trabalho parecido, é escola sem muito a aprender.
Ex-cavaleiro, ex-caçador, quem já tem certa habilidade, sem nada novo pra aprender nessa escola, esses fazem o teste de subida de rank.
Bom, originalmente, essa academia foi criada pra evitar que jovem sem experiência nenhuma vire vítima por falta de conhecimento e técnica. Quem já tem experiência de vida considerável, deve ser desnecessário.
Por causa desse contexto, poucos candidatos quiseram entrar na academia. Só alguns jovens rapazes e moças. Terminando o treino de 2 semanas, automaticamente viram aventureiro de rank preto.
E, sobre o teste de subida de rank, por essa vez sendo a primeira, o aventureiro de rank preto também ganhou qualificação pra fazer o teste. Parece ser medida de resgate pra quem já se registrou como rank preto antes de o rank branco ser criado.
Claro, veio voz de outros ranks também pedindo pra fazer o teste, mas esse teste de subida de rank é pra julgar habilidade de "quem não tem experiência como aventureiro".
A resposta da guilda foi que não é necessário rejulgar quem já trabalha como aventureiro e já é avaliado pela guilda.
Assim, o número total de candidatos ao teste de subida de rank foi 27. Bastante gente.
Os candidatos são reunidos no campo de treino dentro do terreno da academia, e, depois da saudação da mestra de guilda Relisha-san, o teste de subida de rank começa.
— Então, vamos começar o teste de subida de rank. Primeiro, vamos com apresentação pessoal. Eu sou Gyaren. Já me aposentei da ativa, mas sou aventureiro rank ouro. Essa senhorita é Mochizuki Karina. Aventureira rank prata. E esse jovem ali é Regin Reivu, aventureiro rank vermelho.
O Gyaren-san foi, até eu virar rank ouro, o único detentor de rank ouro no mundo inteiro, e também virou herói lendário, rei (por casamento) do Reino de Cavaleiros de Lestia. Naturalmente, seu nome é conhecido, e o olhar dos candidatos se concentra quase todo nele.
A irmã Karina também é visualmente bonita, então recebe atenção considerável.
Eu, por outro lado, com magia de ilusão [Mirage], mudei o cabelo pra castanho baço, alterei um pouco os traços do rosto, e me disfarcei de jovem discreto, sem impressão marcante.
Entre os candidatos, alguns claramente lançam olhar desconfiado pra mim e pra irmã Karina. Dá pra ver transparecendo o pensamento "por que mulher e criança são rank prata, vermelho".
— Primeiro, vamos testar simplesmente a habilidade de vocês. Combate de um minuto contra o Regin. Podem usar a arma preferida de vocês.
Quando o Gyaren-san anuncia isso, alguém entre os candidatos levanta a mão pra falar.
— Com licença, mas não vamos usar arma de treino? Se acertar sem querer, alguns têm arma que causa ferimento grave.
O rapaz de cabelo castanho longo que levantou a mão lança um olhar rápido pro homem ao lado. Ali, um homem grande, careca, de braços cruzados, sorria maliciosamente.
Vestindo colete listrado de tigre por cima da pele bronzeada, com aparência de bandido de montanha de algum lugar, uma grande machadinha de guerra pendurada na cintura.
De fato, se algo assim acertasse, não sairia ileso. Talvez por saber disso, o sorriso do homem grande não desaparece.
O Gyaren-san dirige o olhar pra cá. Recebendo isso, dou um passo à frente.
— Do outro lado, tudo bem usar qualquer arma. Magia também vale. Do meu lado, não vou atacar até 5 segundos antes do fim do combate, então fica tranquilo. Aliás, minha arma é essa aqui.
Dizendo isso, seguro na mão um bastão de madeira de menos de 70 centímetros. Material é hinoki. Ou seja, "bastão de hinoki".
Vendo isso, a expressão dos candidatos se divide em dois. Uns relaxam a expressão de alívio, outros endurecem de raiva.
O primeiro grupo pensa que a própria chance de ferimento grave é baixa, o segundo grupo deve achar que estão sendo debochados.
Especialmente o homem tipo bandido de montanha, com a machadinha de guerra, encara em minha direção com expressão dura.
— E então, quem começa?
— Interessante, hein. Eu começo primeiro.
Quem se declara é, como esperado, o homem bandido que me encarava. Não me importava quem começasse primeiro, então decido enfrentar esse homem bandido primeiro.
Diante de mim, o homem bandido segura a machadinha de guerra com as duas mãos, sorrindo maliciosamente, abrindo a boca.
— Ou seja, se eu derrubar você, isso já prova que tenho habilidade nível rank vermelho, né?
— Bom, isso não é tudo, mas, pelo menos em técnica de combate, vou precisar reconhecer que é equivalente a rank vermelho. Mais que isso, sua arma, tá bem assim mesmo? Ainda dá tempo de trocar, viu?
— Kê, do que tá falando. Ficou com medo agora, senhor examinador?
Haa, esse aí não presta. Não entende nada.
A irmã Karina também parece ter entendido isso, solta um pequeno suspiro, e anuncia o início do combate com voz sem vontade nenhuma.
— Oraaa!
Com o início do combate, o homem bandido balança de cima pra baixo a machadinha de guerra, mirando em mim. A falta total de hesitação é justamente o que assusta.
Desviando levemente pro lado, "hyoi", a machadinha crava profundamente no chão. Parece ter força de sobra mesmo.
— Desgraçado!
O homem bandido balança a machadinha, "bun bun", mas, por ser grande demais o movimento, nunca acerta. Dá pra ver claramente de onde vem o ataque. Além disso, com pouco balançar já, a respiração já fica descompassada. Tipo clássico de quem é controlado pela própria arma.
— Trinta segundos passados.
Chega a voz da irmã Karina, sem emoção nenhuma. Até o olhar dela está voltado pro próprio smartphone de produção em massa, sem olhar pra cá. Bom, deve estar olhando a tela do aplicativo de cronômetro.
— Tch, ficando fugindo por aí, seu…!
— Não imaginava que isso ia acontecer? Meu corpo é leve, e a arma também é leve. Não achou que seria difícil acertar? Entre monstros, também tem uns rápidos. Se não usar arma adequada à situação, vai morrer.
Não é que a machadinha de guerra seja ruim em si. É que deveria ter arma secundária tipo machadinha pequena ou facão. Sugeri isso indiretamente antes, mas ele nem percebeu e já veio atacando. Balançando por força bruta sem pensar, é ataque na sorte, tipo "se acertar de algum jeito". Não pensa em "como fazer pra acertar".
— Debochando, de mim, seu…!
— Restam cinco segundos.
— Então, bom trabalho, hein.
Junto com a voz da irmã Karina, disparo o bastão de hinoki na boca do estômago do homem bandido.
— Guhoa!?
O homem bandido, com peso mais que o dobro do meu, é jogado pra trás.
Caindo de costas, o homem rola cambaleando, e eventualmente para, revirando os olhos.
Não achei que tinha colocado tanta força assim. Parece que não treinava tanto assim mesmo. Completamente aparência sem substância.
— Roxo, acho.
— Roxo, né.
— Roxo, mesmo.
Os três concordam. Tem certa força, então não é rank preto. Mas não tem habilidade suficiente pra rank verde. Do jeito que tá, se três ou mais lobos-unicórnio atacassem, seria derrotado facilmente. Então, acima do preto, roxo.
Esse homem não precisa continuar o teste.
O funcionário da guilda carrega o homem caído até a sala de primeiros socorros.
— Então, próxima pessoa.
Mudo de humor e chamo os candidatos de novo.