Capítulo 363 – A Overgear, e o Treino Conjunto
Ao norte do castelo do Principado de Brunhild, existe um campo absurdamente amplo.
Nessa área, tem uma barreira especial aplicada, então não dá pra entrar sem permissão, e, enquanto a magia de bloqueio visual está ativa, também não dá pra ver o interior de fora. Igual à barreira da Babylon.
O que principalmente se faz ali é treino real de Frame Gear, teste de ativação de novo modelo, ou teste de invenção desenvolvida na Babylon.
Nesse campo de teste, atualmente, um teste está sendo realizado.
— Se move bem ágil, hein.
— Originalmente, golem também é máquina, afinal. Faz sentido a afinidade ser alta.
— Como não tem humano diretamente respondendo, a velocidade de reação é mais rápida que Frame Gear~.
Observando a máquina correndo pelo campo de teste, a Doutora Babylon e a engenheira Elka, ao meu lado, respondem ao meu murmúrio.
Diante de mim, uma fera mecânica em formato de leão preto corre pra lá e pra cá.
No peito, hospeda uma esfera semitransparente grande, e, das várias partes do corpo, dá pra ver peças transparentes feitas de material cristal, refletindo a luz do sol. Um robô-leão de corpo preto com linha dourada.
Se Frame Gear fosse do tamanho de um humano adulto, esse aqui seria do tamanho de um leão de verdade.
Isso é a unidade de reforço de golem que a Doutora Babylon e a engenheira Elka criaram, "Overgear".
Dentro daquele cristal do peito, unidade chamada "Core Frame", tem cockpit, e o golem central e o mestre parceiro entram ali.
O Overgear, sincronizado diretamente com o golem, extrai a característica do golem e amplifica. Como o nome "unidade de reforço" sugere, isso é praticamente a armadura reforçada do golem.
Então por que não fizeram tipo humanoide, deve estar pensando? Eu também pensei isso.
A resposta das duas doutoras a isso foi:
— «"Queríamos criar algo diferente."»
Isso. Ou seja, foi puro capricho pessoal. Que idiotice.
O leão preto chuta o chão, saltando na vertical. Uau, que força de salto!
Feito testando o limite, corre com toda velocidade, freia bruscamente, e salta. Que movimento intenso, hein. Só em termos de desempenho puro de movimento, acho que supera até o Frame Gear.
— Será que tá usando alguma skill de golem?
— Não, no estágio atual, skill de golem é perigoso, então deixamos desativado. Aquilo é puramente desempenho daquela máquina, "Leonoir".
Em termos de equipamento, por enquanto, só tem garra e presa feitas de material cristal. Mas acho que já dá pra enfrentar bem vários mutantes de rank médio. Contra rank superior, sozinho, deve ser difícil mesmo.
— Hmm, talvez seja interessante fazer conseguir transformar em tipo humanoide também.
— Se for centrado no Core Frame, mais que "transformar", seria "trocar equipamento", né? Trocando cada peça…
Deixando as duas conversando planos suspeitos de lado, o leão preto, "Leonoir", para de se mover. Assumindo posição tipo "deitar" de animal, expele da Core Frame uma menina e um cavaleiro negro. É a Norun, irmã mais nova da engenheira Elka, e sua parceira, o Coroa preto Nowāru.
Caminho até a Norun, parada, e pergunto a impressão dela sobre o Overgear.
— Pilotou bem direitinho, hein. Como foi a sensação de pilotar?
— ……………
Sem reação. O que houve?
Os olhos da Norun, erguidos pra mim, tinham o olhar de peixe morto. Ela se aproxima cambaleando e agarra firme a barra do meu casaco.
— …Bhup
— Hã?
■ Por favor, aguarde um momento ■
— Parece que a função de absorção de impacto era baixa demais, hein.
— Balançou dentro do cockpit mais do que imaginei. Precisa ajustar mais alto que no Frame Gear.
— Ei, escuta! Se preocupem um pouco também comigo!
A Norun, completamente esparramada depois de vomitar tudo que tinha, e eu, atingido diretamente do vômito vindo de cima, encaramos as duas pesquisadoras malucas, com lágrimas nos olhos.
— Do jeito que tava, não daria pra controlar mesmo… poder demais. Só de correr um pouco, ganhou impulso demais…
A Norun murmura isso, deitada, com voz fraca. Aah, entendo mais ou menos. Eu também, quando acabei de aprender a magia de aceleração [Accel], caí nessa sensação. Ou melhor, aquele movimento de agora há pouco, será que era intencional?
Parece que era tipo amador sem saber comando de jogo de luta, apertando botão aleatoriamente.
— E ainda por cima, o lugar onde tava montada balançava tanto, "guwanguwan"… ugh.
— «Repouso, silêncio»
A Nowāru acaricia gentilmente as costas da Norun, que fica pálida de novo e começa a engasgar.
— Bom, como primeiro teste, foi razoável. O problema é que, por ora, esse Overgear não é fácil de produzir em massa.
— Não dá pra produzir em massa? Por quê?
Diante do murmúrio da Doutora, olhando pro Leonoir, interrompo. Não dá pra produzir em massa quer dizer o quê? Desenvolveram exclusivamente ajustado só pra Norun e Nowāru, tipo máquina específica?
— Exatamente isso. Cada máquina precisa de ajuste conforme aquele golem específico. Basicamente, considere como máquina exclusiva.
— Então, esse Leonoir, se, por exemplo, colocasse o Bloodrouge da Nia pra pilotar, não funcionaria?
— Isso mesmo. Com outro golem, nem ativa. Frame Gear, várias pessoas diferentes conseguem pilotar, né? Mas, como o Overgear intermedeia o golem, inevitavelmente, só aquele mestre específico consegue mover.
Ah, entendi. Originalmente, o próprio golem já é tipo máquina exclusiva daquela pessoa mesmo.
— Igual à unidade militar, mesmo tendo vários golems, no fim, o mestre é uma pessoa só, né. Não adianta uma pessoa usar vários Overgear. Máquina de produção em massa tem valor justamente por existir em quantidade. Bom, originalmente, se não for máquina antiga, o Overgear nem funciona.
Fazer um por um artesanalmente já não é bem produção em massa, né. Não, tecnicamente ainda é produção, mas.
Segundo as doutoras, se pelo menos o Core Frame for feito, as outras peças dá pra reaproveitar, parece. Ou seja, se criar o Core Frame da Nia, dá pra usar até o braço e perna do Overgear da Norun.
— Repelir mutante só com força de combate deste mundo é difícil, hein…
— Por ora, ainda é, sim. Vamos melhorando com o tempo, tentando levar pra direção de produção em massa. Talvez a força de combate individual caia um pouco.
Quantidade versus qualidade, hein. Certo nível de qualidade é necessário, mas também tem situação em que, sem quantidade, não dá pra lidar. Difícil mesmo.
Voltando pro castelo, passo pelo campo de treino da ordem de cavaleiros. Como sempre, parece que continuam recebendo treino infernal da irmã Moroha, mas, ultimamente, parece que já se acostumaram um pouco.
— Touya-sama, chegou na hora certa.
— Hn? O que foi?
A Hilda vem até onde eu observava o treino dos cavaleiros. Deve ter treinado também, respiração um pouco ofegante. Tiro toalha e bebida gelada do [Storage] e entrego.
— Obrigada. Na verdade, acabei de falar com meu irmão ao telefone. Sobre isso, surgiu a ideia de fazer treino conjunto entre a Ordem de Cavaleiros de Lestia e a de Brunhild.
— O Rainharuto-san?
Hmm. Treino conjunto com os elites que o Reino de Cavaleiros de Lestia se orgulha, hein. Não parece ruim.
Enquanto penso um pouco, a Hilda continua a fala com sorriso amargo.
— Só que isso é mais desculpa. Acho que meu irmão mesmo quer cruzar espadas com a irmã Moroha, e receber orientação dela…
Ah, entendi. O cunhado Rainharuto, depois da última reunião mundial, ouvi que perdeu um duelo contra a Hilda. Faz sentido que perder pra irmã mais nova incomode.
Também tem o trabalho de rei, então acho que não tem problema perder assim. Além disso, a Hilda também tem efeito de apoio por ser subordinada divina minha.
Bom, o treino em si é boa proposta, então vou aceitar. Também recebi ajuda do Gyaren-san outro dia com o teste da guilda.
Tiro o smartphone e entro em contato com o Rainharuto-san.
— Hã, agora? Agora mesmo!?
Não, bom, sem problema, mas. Será que não tá apressado demais?
Abro [Gate], e vários cavaleiros de elite de Lestia, liderados pelo Rei Cavaleiro Rainharuto, vêm até Brunhild.
A Ordem de Cavaleiros de Lestia tem o rei acumulando função de comandante da ordem, mas também tem vice-comandante direitinho.
— Contamos com vocês hoje.
— Nós também contamos com vocês.
O homem trocando cumprimentos com nosso comandante, Rein-san, é justamente ele.
Vice-comandante da Ordem de Cavaleiros de Lestia, Furantsu Aisuman.
Idade final dos quarenta, cabelo com fios brancos e bigode ao redor da boca, senhor charmoso tipo "cabelo grisalho romântico".
Amigo do rei anterior, e mestre do cunhado Rainharuto. Também discípulo do Gyaren-san, avô da Hilda, mestre de espada. Pessoa séria, de bom caráter. Que bom que não é discípulo do lado pervertido.
Basicamente, nesse tipo de treino conjunto entre países, os comandantes de cada ordem não participam.
Afinal, imagina, se o comandante do próprio lado perder, seria péssimo, né. Seria menosprezado pelo outro lado.
Normalmente, seria assim, mas o rei, sendo antes de tudo o comandante da ordem, lutar pessoalmente, isso é meio estranho, Lestia.
Desde há pouco, os cavaleiros dos dois lados observam com respiração presa o duelo entre o cunhado Rainharuto e a irmã Moroha.
Mesmo assim, é o cunhado Rainharuto sendo unilateralmente derrotado, mas…
— Podia pegar mais leve, viu…
Cubro o rosto diante da falta de tato da irmã Moroha. A única salvação é que, mesmo o cunhado Rainharuto sendo derrotado, ninguém entre nossos cavaleiros zomba disso.
Todo mundo sente na pele a força da irmã Moroha mesmo… existe certo tipo de resignação de que perder é normal.
Originalmente, a irmã Moroha nem é membro da ordem de cavaleiros. Bom, tá registrada como consultora especial.
Hn? Se é assim, participar de treino conjunto de ordem de cavaleiros já não é meio estranho? Bom, já é tarde demais pra isso.
Já não sei quantas vezes, o cunhado Rainharuto recebe a espada da irmã Moroha e é jogado pra fora do campo. Aah…
— A postura de combate quase divina da irmã Moroha é impressionante mesmo. Meu sangue também ferve sem parar.
— Será mesmo… sinto muito, viu. Minha irmã não lê o clima…
Fico sem graça sem querer diante da fala do Furantsu-san. Jogar longe o rei de um estado, um passo errado, isso vira motivo de guerra, viu.
— Não, não, não se preocupe. O rei também tá satisfeito assim. Humano, tendo parede à frente, cresce reto sem se tornar arrogante.
Bom, entendo o que ele quer dizer. Eu também acho que fiquei bem mais forte, mas, comparado com aquela gente, nem chego perto.
Impossível ficar convencido com isso. O nariz que ergue já se quebra na hora.
— Ultimamente, também estamos incorporando treino contra fera mágica, mas não tá indo tão bem assim. Não dá pra capturar fera mágica e trazer, afinal. Estava pensando em fazer treino prático em breve, mas…
— Brunhild não tem fera mágica de grande porte, então nós também não estamos acostumados a lutar contra elas. Se for até a Ilha Masmorra, tem fera mágica razoável, mas…
Lestia, sendo Reino de Cavaleiros, tem número grande de cavaleiros. A maioria fica encarregada da segurança de cidade e capital, mas, quando aparece fera mágica nas proximidades, extermínio também entra na missão deles.
Também tem parceria com a Guilda de Aventureiros, e parece que cavaleiro e aventureiro caçam fera mágica juntos com frequência. Nessa situação, parece que também existe caminho pra aventureiro entrar na ordem de cavaleiros. O próprio Gyaren-san, antigo-antigo rei, veio de origem aventureira, afinal.
Mas treino contra fera mágica, hein… melhor fazer isso, sem dúvida.
— Uhum. Se é assim, vamos escolher alguma fera mágica adequada e trazer pra cá. Uma que dê pra comer é melhor.
— «Hã?»
Deixando o Rein-san e o Furantsu-san surpresos pra trás, uso [Gate] pra saltar até um lugar onde tem fera mágica adequada.
— Esse aí precisa mirar na articulação, senão a espada é desviada. Não fica na frente, viu. Vai receber jato de espuma, e derrete!
Dou conselhos meio superficiais aos cavaleiros lutando.
Os cavaleiros de Brunhild e de Lestia parecem estar tendo dificuldade contra o caranguejo de casca vermelha, o Bloody Crab. Aliás, o lado da Ordem de Cavaleiros de Brunhild não está usando espada de cristal. Senão não seria treino, né.
O Bloody Crab, no rank de extermínio da Guilda de Aventureiros, é rank vermelho. Mesmo rank que dragão inferior. Também habita razoavelmente em Lestia.
Mas o que trouxemos dessa vez é um exemplar bem grande. Se azarar, talvez chegue no rank prata.
— Não tá grande demais, isso…?
Observando o Bloody Crab combatendo contra vários cavaleiros de Brunhild e Lestia, a Hilda murmura com rosto contraído. De fato, é grande.
— Provavelmente, mas aquilo tá começando a virar gigante… se deixasse dormir mais alguns anos assim, talvez precisasse exterminar com Frame Gear.
Respondo aplicando magia de recuperação, com timing certo, no cavaleiro jogado longe pela pinça agitada do caranguejo. O cavaleiro, quicando no chão, rolando, consegue se levantar de algum jeito e volta pra cima do Bloody Crab.
No total, entre os dois lados, uns vinte pessoas? Sem lugar pra fugir, então acho que conseguem exterminar.
— Hmm… vendo de fora, dá pra entender bem o movimento, hein. Assim, quando pisa firme com as duas pernas, cospe espuma pra frente.
— É. E também, quando desce a pinça… olha, se move na direção oposta a onde desceu.
O cunhado Rainharuto e o Furantsu-san parecem estar observando o movimento do caranguejo adversário, de fora do campo. Primeiro, observar. Observando, dá pra ler a característica, movimento, reação do adversário. Isso deve valer igual em combate contra humano também.
— Se fosse pra fazer, teria sido interessante trazer um ciclope, hein.
— Não, não. Isso normalmente já é gigante. É item de Frame Gear.
A irmã Moroha, sem ler o clima, faz comentário aleatório. Ciclope é fera mágica quase do tamanho de golem. Menor que Frame Gear, mas, dependendo do indivíduo, tem uns tão grandes quanto esse caranguejo.
— Mesmo sem Frame Gear, se responder direitinho, dá pra derrotar sim. É questão de estilo de luta. Tem muitas partes que aproveitam pro treino cotidiano também. Perceber instantaneamente o ponto fraco do adversário, e atacar isso. Escolher arma, local, momento em que consegue extrair o máximo da própria força, e movimento sem desperdício, sincronia precisa. Se conseguir aproveitar isso ao máximo, é fácil.
Fala fácil, mas isso não é fácil nem um pouco, francamente…
Enquanto fico impressionado com a fala da irmã, o caranguejo finalmente parece enfraquecer, e todo mundo começa a atacar de uma vez com força total. Lança perfura a articulação, machado corta a pinça. Eventualmente, espada de vários cavaleiros crava na barriga de casca fina, e finalmente o Bloody Crab gigante desaba no chão.
— Yosshaaaaaaaa!!
— C, conseguimos derrotar…
— Conseguimos!
Cada um comemora do próprio jeito, mas, sem distinção entre Brunhild e Lestia, cavaleiros dos dois lados compartilham a alegria juntos. Tinha alguns feridos, mas curo na hora com magia de recuperação, e também recupero a energia física com [Refresh].
— O treino termina aqui, então?
— Isso mesmo.
Assentindo diante da fala da Hilda, tiro do [Storage] uma panela extra grande, e coloco em cima de um fogão montado de qualquer jeito com magia de terra. Com magia, coloco água na panela e fogo no fogão.
Vou colocando um atrás do outro os ingredientes na mesa tirada. A base, pode ser missô mesmo.
— Certo, vamos fazer nabemono! Desmembra o caranguejo!
— «Oooooooo!»
Os cavaleiros erguem a espada e se juntam ao redor do caranguejo.
Carne de caranguejo desmembrada, vegetais, tofu, cogumelo, tudo entra na panela, e começa a soltar cheiro bom, "gutsugutsu". A panela de caranguejo pronta é saboreada por todo mundo, com sorriso satisfeito. Presa conseguida com esforço próprio deve ser especialmente gostosa.
Enquanto penso, meio à toa, se é porque é músculo de fera mágica bem treinada que fica mais gostoso que caranguejo comum, o smartphone no bolso avisa uma ligação.
— Ah, é a Shiruetto-san.
Dona da casa de prostituição "Salão da Luz da Lua", e chefe da organização "Gato Preto", que domina informação do mundo sombrio. Ela reúne várias informações do outro lado e me conta, mas o telefonema dela sempre traz pressentimento de algo inquietante.
— Sim, alô. É o Touya. Sim… sim. Hã?
Espera aí. De fato, aquele velho ciborgue de lá, eu que derrotei, mas.
País técnico-mágico de Eisengard em estado de colapso… o que exatamente isso significa?