Capítulo 368 – A Nova Fagulha, e a Busca por Noiva
— O Reino de Horn tá à beira de guerra civil?
— Sim. Parece que, em torno da sucessão do trono, a facção do neto do rei e a facção do irmão do rei entraram em conflito.
Diante do relatório da Tsubaki-san, acabo levantando a voz sem querer.
Reino de Horn. A oeste, tem o Reino Mágico de Felsen, e ao norte, antigamente, ficava o Império Celestial Eurono.

Terra fértil, clima abençoado por espíritos, e, sob governo de rei que aplica bom governo, país agrícola rico até no mundo real, focado no desenvolvimento de produtos agrícolas.
Costume e cultura parece parecido, mas diferente de Ishen. Talvez seja equivalente à zona cultural asiática da Terra.
Nesse Reino de Horn, uma tragédia repentina ocorreu há um ano. O rei desse país faleceu de repente.
Normalmente, o primeiro príncipe deveria herdar o trono depois disso, guiando o Reino de Horn como novo rei.
Mas o primeiro príncipe já tinha falecido apenas uma semana antes do rei falecer, com apenas 21 anos. Parece ter sido morte súbita por acidente.
O rei não tinha outro herdeiro homem, mas o primeiro príncipe falecido deixou um filho. Ou seja, neto do rei.
Uma criança com pouco mais de um ano não teria como guiar o país, então, na época, o primeiro-ministro assumiu o cargo de regente, tentando guiar o país.
Mas essa sucessão de trono enfrenta obstáculo. O irmão do rei declarou não aceitar isso.
O primeiro-ministro, que estava prestes a virar regente do neto do rei, era pai da esposa do primeiro príncipe. O irmão do rei julgou isso como tomada de poder pela família do primeiro-ministro, declarando ser ele o mais apropriado pra herdar a vontade do rei.
Na verdade, existia atrito entre o rei e o primeiro príncipe. O rei, que buscava manter a forma tradicional do país, e o primeiro príncipe, facção reformista que defendia adotar novas indústrias, chocavam-se a cada oportunidade, dizem.
Ambos provavelmente pensavam no país, mas é irônico que os dois tenham falecido no mesmo período.
O rei dizia com frequência ao irmão que o primeiro príncipe tinha pensamento perigoso, capaz de abalar o fundamento do país, e tinha prometido revogar o direito de sucessão do primeiro príncipe e ceder o trono ao próprio irmão, dizem.
Diante disso, o primeiro-ministro refuta que, de fato, o rei e o primeiro príncipe estavam em conflito, mas ambos pensavam no país e tentavam se entender mutuamente.
E argumenta que tanto o rei quanto o primeiro príncipe tinham pedido a ele, individualmente, pra fazer a mediação entre os dois.
As afirmações dos dois lados permanecem em paralelo, e parece que finalmente estão prestes a abrir a guerra.
— Falam de facção do neto e facção do irmão, mas, precisamente falando, é disputa entre o primeiro-ministro e o irmão do rei.
— Sim. É o conflito entre Ganossa Da Horn, irmão do rei, e Shubain Adante, o primeiro-ministro. Pro primeiro-ministro Shubain, o neto do rei Kuo Da Horn é filho da própria filha, ou seja, neto dele também.
A Tsubaki-san responde ao meu primeiro-ministro Kōsaka-san, parado ao meu lado.
Situação bem complicada, hein. Problema de sucessão de trono é coisa que pode acontecer em qualquer lugar, então até é comum, mas.
Normalmente, seria correto o primeiro príncipe herdar o trono, mas, por exemplo, se o primeiro príncipe fosse completamente incompetente e o segundo príncipe fosse excelente, seria complicado. Pensando no país, ter alguém excelente no trono é melhor pro povo.
Mas, pro rei, ambos são filhos dele, né. Como posição de rei, não deveria se deixar levar por esse tipo de sentimento, mas.
Mas guerra civil, hein. Mesmo sem dano direto a outros países, será que devo parar isso, mesmo que chamem de interferência interna?
— Quando não temos relação com o país, esse tipo de situação dá trabalho mesmo… como estão os outros países?
— Felsen, por ora, está observando de longe. Parece que tem certa relação tanto com a facção do neto quanto com a do irmão. Mas…
A Tsubaki-san abre a boca com certa hesitação.
— Por trás da guerra civil, vejo sombra de Eurono.
— Hã?
Eurono? Como assim? O Império Celestial Eurono deveria estar praticamente sem funcionar como país, depois da grande invasão dos Phrase e a guerra civil subsequente.
Naquela região, só existem algumas cidades pequenas independentes, sem funcionar mais como estado. Ouço dizer que ainda hoje há conflitos pequenos entre cidades.
— Ao norte do Reino de Horn, fica a terra de Eurono. Desde a grande invasão, muita gente de Eurono parece estar fluindo pro Reino de Horn, causando certo problema.
— Problema?
— Do ponto de vista do povo de Horn, não dá pra aceitar facilmente o povo de Eurono. Como resultado, parece que gente de Eurono virou tipo bandido, devastando a rica terra de Horn.
Isso dá bastante trabalho, hein. Mas será que o Reino de Horn não conseguia aceitar o povo de Eurono? Ouço dizer que é país bem rico.
— Se não me engano, Eurono, do mesmo jeito que mirava em Hanok a oeste, também mirava em invadir o Reino de Horn ao sul. E não só isso, ouço que o povo de Eurono sempre desprezava o povo de Horn, chamando de país de baixo nível cultural, a cada oportunidade. Com esse histórico, deve ter sido difícil pro povo de Horn aceitar o povo de Eurono.
Uhmm. Se a fala do Kōsaka-san for verdade, entendo mais ou menos. Depois de menosprezar tanto até agora, agora que estão em apuro, mudam de lado e pedem ajuda. Não é exagero pensar que é oportunismo demais.
— Como sabem, Eurono tinha unidade encarregada de assassinato e sabotagem. Não seria estranho se, com o país desmoronado, esses membros dispersos tivessem fluído pro Reino de Horn. Existe boato de que parte desse pessoal está agindo nas sombras nesse alvoroço atual.
Unidade de assassinato de Eurono… se não me engano, se chamava "Kurau". Já fui alvo deles também. Gente com máscara pintada, tipo perigosa que se autodestrói se falha no assassinato.
— Não pode ser que a morte do rei e do primeiro príncipe de Horn foi…
— Talvez seja obra do irmão do rei, Ganossa, ou do regente Shubain, contratando os "Kurau" de Eurono. Ou talvez um terceiro, tentando guiar Horn pra guerra civil…
Uhmm, se a facção do neto contratou assassino…
O primeiro-ministro quer que o próprio neto herde o trono. Nesse caso, quem atrapalha (se a fala do irmão do rei for verdade) é o rei, que pretendia ceder o trono ao irmão, e, se a diretriz do primeiro-ministro não for a "facção reformista" que o primeiro príncipe defende, o primeiro príncipe também atrapalha. Mas será que ele mataria o marido da própria filha?
Ao contrário, pensando que a facção do irmão assassinou… não, se a fala do irmão do rei for verdade, não precisaria matar ninguém. O trono já cairia normalmente pra ele mesmo.
Se a história de ceder o trono for mentira, e, como o primeiro-ministro diz, os dois estavam tentando se reconciliar… bom, pra ele mesmo assumir o trono, tanto o rei quanto o primeiro príncipe atrapalham.
Se for o irmão do rei, será que ele mataria todos os membros da família real além dele mesmo? Se for isso, o neto do rei também está sendo alvo? Sinto que tem várias contradições e inconsistências…
— Complicado.
— É mesmo.
— Concordo.
Se for por especulação, dá pra falar qualquer coisa, mas não tem prova decisiva.
Bom, a facção do neto tem mais lógica, né? O motivo pra matar os dois parece meio fraco também.
— De qualquer forma, será melhor a gente não fazer nada?
— Já que o outro lado não entrou em contato conosco, não precisamos meter o nariz por conta própria. Com o poder de Vossa Majestade, seria possível parar a disputa à força, mas seria intromissão demais. Ou, quem sabe, ocupar Horn com força militar e fazer disso o primeiro passo pra conquista mundial?
Ei, ei… sei que é brincadeira, mas às vezes não parece brincadeira.
Sinceramente falando, não é que seja impossível. Mas conquista mundial, mesmo se conseguisse, governar seria dificílimo, viu? Já dou trabalho até com um país pequeno assim.
— Bom, por ora, mais que outro país, é nosso próprio país. O número de moradores aumenta, a cidade também se expande, mas, proporcionalmente, o crime também aumenta. Por ora, a segurança está sendo mantida pela ordem de cavaleiros e pelos gatos vigilantes do Nyantarō-dono, mas, se por acaso a ordem de cavaleiros for mobilizada, existe risco de faltar pessoal.
Entendo o que o Kōsaka-san quer dizer. Se levar a ordem de cavaleiros como pessoal de Frame Gear, a segurança da cidade fica escassa. Quero dizer que combate em larga escala assim não deveria acontecer, mas, agora, com o mutante ganhando força e a barreira do mundo enfraquecendo, não seria estranho se algo acontecesse.
— Será melhor formar uma tropa de segurança separada da ordem de cavaleiros?
— Sim. Melhor deixar Yamagata ou Baba-dono liderar, formando tropa que não seja subordinada diretamente a Vossa Majestade, mas sim gerenciada pelo estado. Assim, deve ter certa liberdade mesmo na ausência de Vossa Majestade.
Sim, esses dois devem dar conta sem problema. Além disso, os dois parecem não gostar muito de pilotar Frame Gear. Devem ser mais adequados pra isso mesmo.
— A pesca na Ilha Masmorra também começou a andar bem. Comerciantes até de Belfast e Regulus vêm comprar peixe fresco.
— Peça pros pescadores não irem longe demais mar adentro, tá? Se afastar demais da ilha, aparece monstro.
— Estamos bem cientes disso.
Ao redor da ilha, faço patrulha com kraken invocado, ordenando afastar monstro grande, mas, se saírem da área, não posso garantir que não sejam atacados.
Depois de receber vários outros relatórios do Kōsaka-san e da Tsubaki-san, o trabalho da manhã se conclui.
Almoço com todo mundo, e, à tarde, salto pro mundo sombrio. Reunião leve antes da reunião entre os dois mundos.
Vou primeiro no Sacro Império de Toriharan. Entro em contato direto com Sua Majestade o imperador pra marcar horário. Como a Lindsey e a Hilda estavam com tempo livre bem na hora, disseram que queriam ir junto, então decido levá-las.

Com [Espaço Interdimensional], num instante, chegamos ao palácio imperial do Sacro Império de Toriharan, no mundo sombrio, e imediatamente encontramos a pessoa que já vinha nos receber, indo até ela.
— Há quanto tempo. Ristin… não, Princesa Ristis. Como tem passado?
— Aah, o Senado também foi dissolvido, tenho bastante coisa pra fazer. Se não estiver bem, não aguentaria.
Diferente da vez anterior, vestida rigorosamente de homem, mas também não usa roupa feminina tipo vestido. Com jaqueta e calça confortável de se mover, quem vem nos receber é a primeira princesa deste país, Ristis Re Toriharan.
Apresento a Lindsey e a Hilda, minhas noivas que trouxe, e ela fica surpresa, mas troca aperto de mão sorrindo com as duas.
— Meu pai e meu irmão também estão esperando. Parece que têm vários assuntos pra consultar com você.
Dizendo isso, a Ristis-san nos leva até dentro do castelo. Consulta…? O que será?
No cômodo num canto do castelo, quem esperava era o atual Imperador do Sacro Império de Toriharan, Harorudo ra Toriharan, o príncipe herdeiro Rūfeusu ra Toriharan, e o Cavalheiro Zerorikku, preceptor da Princesa Ristis.
O imperador e o príncipe herdeiro, ambos usando óculos parecidos, tipo pessoas mais intelectuais, e, em contraste, o Cavalheiro Zerorikku tem clima de guerreiro veterano de muitas batalhas.
Na época em que o Senado dominava o Sacro Império, tanto o imperador quanto o príncipe herdeiro pareciam meio magros demais, mas agora parecem ter recuperado o brilho saudável da pele.
— Ora, que bom que veio, Touya-dono.
O Imperador de Toriharan se levanta da cadeira, pedindo aperto de mão.
— Fico feliz de vê-lo bem.
— Graças a você, todo dia é divertido, sabe. Sinto que até rejuvenesci.
Diante da fala do imperador, dou um sorriso amargo. Imperador só de nome, mas até agora estava reprimido pelo mal chamado Senado. Faz sentido se soltar um pouco.
O mesmo parece valer pro príncipe herdeiro; já não tem mais aquele clima sombrio de quando lhe foi imposta a filha do presidente do Senado como noiva.
Só ouvi de história, mas, tipo pai, tipo filha, ela também parece ter feito bastante coisa contra a lei, usando o cargo de filha do presidente do Senado, e parece que aquela ex-noiva foi presa depois da dissolução do Senado.
Livre de uma noiva de aparência indefinida entre homem ou mulher, quase 40 anos, e personalidade distorcida, faz sentido rejuvenescer, né.
Já tinha conversado por telefone antes, mas falo de novo com Sua Majestade o imperador e o príncipe herdeiro sobre a reunião entre os dois mundos, perguntando se há mais algum país que possam convidar.
— Sinto muito, mas nosso país, até agora, tinha diplomacia dominada pelo Senado. Não temos muitos países com relação amigável. Com o Reino Marcial de Rāze, ao sul, temos tratado de não agressão, mas nada além disso, e o Reino de Jemu, a leste, ameaçava pra virarmos vassalo. Só o Reino de Primula, com quem Touya-dono nos conectou, parece que talvez possa manter relação amigável por ora.
Hmm, Primula também quase foi invadido, né. Mesmo dizendo "isso foi o Senado agindo por conta própria", não é tão simples assim ficar amigo rápido.
— Por isso, precisamos mostrar nessa tal reunião entre os dois mundos que Toriharan renasceu. Bom, além disso, dessa vez, tenho um pedido a fazer, Touya-dono…
— Aliás, a Princesa Ristis também mencionou isso… o que seria, afinal? Se for algo que eu possa fazer, ajudo.
Sua Majestade o imperador olha de relance pro príncipe herdeiro de óculos ao lado, e tosse uma vez, "kohon". O príncipe herdeiro também, por algum motivo, parecia desconfortável. O que é isso?
— Aah… Touya-dono, ultimamente, encontrou a Rainha Marugarita, do Reino de Strain?
— Sim. Vossa Majestade também vai participar da reunião entre os dois mundos. Disse que vai convidar também o país vizinho, Reino Marcial de Rāze, e o Sacro Reino de Arento. …E daí?
— A Rainha Marugarita tem uma princesa e um príncipe, cada um. A primeira princesa, a Princesa Berurietta, tem 20 anos completos neste ano, dizem que é princesa muito bela e inteligente. E, aí… hmm…
Diante do imperador hesitando em falar, dirijo olhar desconfiado, e a Lindsey, ao meu lado, abre a boca.
— …Não me diga, será que quer que ela vire esposa de Sua Alteza o príncipe herdeiro?
Como se dissesse "é exatamente isso que eu queria", o imperador bate o joelho e aponta pra Lindsey.
— Isso! Exatamente isso! Acho que não seria má ideia construir nova relação amigável entre Toriharan e Strain! Então pensei se Touya-dono poderia ajudar a levar bem essa conversa pro outro lado…
— Não seria mais fácil falar direto? Quer que eu passe o número da rainha?
— Não, é que nosso país, até há pouco tempo, era dominado pelo Senado à vontade… sinceramente, temo que sejamos recusados, achando que não podem dar a filha preciosa a um país governado por um imperador tão patético…
Bom, isso também pode acontecer, hein… vendo o imperador na minha frente, ombros caídos, desanimado, não consigo dizer isso em voz alta.
— O que Vossa Alteza o príncipe herdeiro pensa sobre isso?
— …Eu, basicamente, concordo com o pensamento do meu pai. Mas, casar sem saber que tipo de pessoa é o outro lado, sinto certa resistência, sinceramente. Será que ela também não fica preocupada. Casar à força com alguém de quem não gosta só traz infelicidade…
Dizendo isso, ajustando os óculos, o príncipe herdeiro dá resposta meio hesitante também. Ainda nem se conheceram e já acha que vai ser odiado, não é negativo demais?
— Meu irmão pensa demais nas coisas de forma negativa. Casando, talvez descubram que combinam bem e se dão bem juntos, quem sabe.
Diante da fala corajosa da irmã, o príncipe herdeiro faz expressão amarga. Bom, até pouco tempo, ela vivia como homem, e, tendo agido mais junto do exército que o irmão, faz sentido que a Princesa Ristis seja mais destemida.
Na forma, não deixa de ser casamento por conveniência política, mas, se os dois se gostarem mutuamente, isso não importa muito, sinto. Igual ao meu caso também.
— Aquela princesa não tem noivo?
Diante da fala da Hilda dirigida ao imperador, tomo um susto. Verdade, se ela já tiver noivo do outro lado, seria estranho interferir.
Aliás, agora que penso, a Hilda também levou choque ao saber que eu já tinha noivas, né.
— Isso não passei despercebido. Pesquisando, a Princesa Berurietta não tem noivo nem candidato. Não sei se tem algum homem que ela goste, mas.
Não tem, então. Se é assim… espera aí?
Princesa de um estado, com 20 anos, sem nenhum candidato a noivo, isso me deixa um pouco intrigado. Bom, talvez seja só a própria princesa recusando todos.
— De qualquer forma, primeiro preciso ouvir a Rainha Marugarita do Reino de Strain.
— Talvez dê trabalho, mas conto com você. O futuro do nosso país está em jogo.
Vendo o imperador curvando a cabeça, murmuro pra mim mesmo que esse tipo de coisa não é muito minha praia.
Mas, no sentido de fazer os países ficarem amigos entre si, talvez não seja método ruim. Só que, se der certo, ótimo, mas, se falhar, fica constrangedor, hein.
Melhor, na próxima reunião entre os dois mundos, reunir junto homens e mulheres em idade apropriada da nobreza influente e realeza, e fazer festa de encontro tipo omiai?
Mesmo sem chegar a ser omiai, festa tipo "vamos nos conhecer um pouco".
Só de oferecer esse tipo de espaço normalmente, depois cada um resolve por conta própria. Sim, talvez valha pensar um pouco. Felizmente, tenho profissional do amor especializado nesse tipo de coisa em casa. Bom, mais que profissional, é deusa, mas!
Por ora, pra marcar horário com Vossa Majestade a rainha do Reino de Strain, tiro o smartphone do bolso.