Capítulo 378 – O Envenenamento, e o Culpado
A reunião fica suspensa temporariamente, e pedimos ao primeiro-ministro Shubain pra não deixar ninguém sair do castelo.
O cômodo não tem sinal de luta. Vendo o copo de chá caído no chão e o Marquês da Fonte Sul morto, vomitando sangue, a hipótese de envenenamento é bem forte.
— [Search: Veneno]!
Com [Search], detecto reação de veneno no líquido embebido no tapete. Como imaginava.
Sobre a mesa, tinha uma bandeja, e sobre ela, um bule e uma jarra de água quente de porcelana.
— Quem preparou esse chá?
— Parece que o primeiro-ministro mandou preparar pra todos os quartos antes de entrar na reunião. Parece que não trancou a porta até a reunião terminar, então acho que qualquer um poderia ter entrado nesse quarto durante a reunião.
O Rei de Felsen responde isso. Ou seja, qualquer pessoa poderia ter cometido o crime. Não seria possível pra alguém que estava presente na reunião, mas existe possibilidade de que um subordinado dele tenha executado. Claro, o próprio primeiro-ministro, que mandou preparar esse chá, também poderia.
Aliás, os soldados de escolta, depois que a reunião foi suspensa, ficaram vigiando corretamente diante deste cômodo.
Estando diante da porta, não ouviram nenhum som de alguém caindo dentro do cômodo? Pensando nisso, também tinha aquele dragão no teto deste cômodo. Faz sentido não ter conseguido ouvir por causa daquilo.
Depois, vou chamar a Furōra do "Prédio de Alquimia" pra analisar o chá restante. Pode dar alguma pista sobre que tipo de veneno é.
— Mas por que precisariam matar o Marquês da Fonte Sul? Perdão a expressão, mas se fosse o primeiro-ministro ou o irmão do rei, ainda entenderia, mas…
O Rei de Felsen inclina a cabeça. De fato. Ameaça? Tipo "isso acontece se se opuser"?
— A, ahn, sobre isso…
Enquanto pensávamos, "hmm", uma criada no corredor, hesitante, puxa conversa conosco.
— N, na verdade, este cômodo era pra ser usado pelo senhor primeiro-ministro.
— Como assim?
— O senhor primeiro-ministro tinha preparado o quarto amplo, voltado pro sul, pro senhor Marquês da Fonte Sul, mas o senhor marquês pediu pra trocar, porque este quarto, menor, era mais confortável pra ele…
A criada aponta a porta do cômodo do outro lado do corredor.
De fato, este cômodo é voltado pro norte, com pouca luz solar entrando. Preparou o quarto voltado pro sul pros convidados, Marquês da Fonte Sul e Marquês do Mar Leste, e pra si mesmo, o voltado pro norte, hein.
— Ou seja… será que, na verdade, o senhor primeiro-ministro é quem deveria estar morto?
Diante da fala da Yae, o pessoal ao redor congela.
Miraram em matar o primeiro-ministro com veneno, mas, como o Marquês da Fonte Sul pediu pra trocar de quarto, ele virou vítima no lugar… pensar assim é mais natural. Se não tiver motivo pessoal pra visar o Marquês da Fonte Sul, claro.
Do ponto de vista da facção do irmão do rei, todo mundo do lado do primeiro-ministro seria inimigo, então não seria estranho o Marquês da Fonte Sul ser alvo. Mas, nessa situação, normalmente miraria no primeiro-ministro mesmo.
O cômodo tem cerca de 8 tatames, mesa e sofá, armário grande, janela no lado norte. Ao lado da porta, pendia cordão de sino pra chamar empregado.
Abro o armário, mas não tem nada dentro. Bom, aqui deve ser tipo camarim ou sala de descanso mesmo.
De repente, pensei brevemente se, agora, com [Ressurreição], magia de atributo luz também chamada de magia de ressurreição, talvez desse pra reviver o Marquês da Fonte Sul.
[Ressurreição] é magia limite que precisa: dentro de uma hora da morte, sem dano ao corpo, e enorme energia mágica e força vital.
Como o próprio conjurador também tem alta chance de morrer, quase nunca é usado, exceto entre parente de sangue ou casal apaixonado.
Quem aplica também precisa ser conjurador de nível alto, capaz de usar magia limite, e, no pior caso, ambos podem morrer. Por isso, na história, dizem que só há registro contável nos dedos de alguém trazido de volta à vida. Taxa de sucesso menor que 20%, dizem.
Achei que talvez eu conseguisse usar sem risco, mas, segundo a irmã Karen, no meu caso, a energia mágica seria tranquila, mas doar força vital demais, sem ser subordinado, alteraria a própria existência da pessoa.
"Se congelar de novo boneco de gelo derretido, nunca mais volta à forma de boneco" — são palavras da irmã Karen.
— Que a alma desta pessoa seja levada ao céu sem se perder. Deus, por favor, dê a ele um sono tranquilo.
Sua Santidade o Papa oferece palavras de luto ao Marquês da Fonte Sul deitado. Alma morta não vai ao reino divino onde os deuses vivem. Vai ao céu, abaixo disso.
Ali, a alma é purificada, e renasce em novo corpo. Alma sujeira demais só consegue virar animal, dizem… só resta rezar pra que essa pessoa não seja o caso.
Por precaução, procuro pistas no bolso e afins.
Nada especialmente notável. Caneta-tinteiro e relógio de bolso, além disso, estojo com folha de tabaco e damper, cachimbo e fósforo. Só isso os pertences dele?
Depois, vou pedir pra Furōra examinar também o corpo do Marquês da Fonte Sul.
— Rei, um pouco.
Virando-me, vejo a Sakura chamando com gesto do corredor. O que foi?
Deixo o local, indo até onde a Sakura está no corredor. A Yae também vem junto.
— Aconteceu algo?
— Uhum. Sabe, ultimamente, de vez em quando, consigo ouvir muito bem com o ouvido.
— Hã?
De vez em quando consegue ouvir muito bem? O que é isso?
— Voz de gente bem distante, às vezes. Perguntei pra irmã Karen, e ela disse que é por causa do Rei.
— Eh!? Como assim!?
— Sakura-dono, será que despertou a "característica de subordinado"? Que inveja…
A Yae faz cara de surpresa, mas espera aí. Que negócio é "característica de subordinado", francamente!
— Ué? O Touya-dono não ouviu isso da irmã Karen? A Yumina-dono já despertou, né?
— A Yumina? …Ah, aquele poder que nasce da vira-subordinado, hein.
Quem recebe "amor divino" e está virando subordinado desperta habilidade especial. No caso da Yumina, ganhou poder de previsão do futuro. Ainda parece só conseguir ver alguns segundos à frente.
No caso da Sakura, veio no ouvido, hein. Agora que penso, a Sakura sempre cantava com o irmão Sōsuke. E, com nome de festa, a Suika também sempre estava junto. Talvez também seja "amor divino" nesse sentido.
No caso da Yae, sempre tá com a irmã Moroha, mas a Hilda também tá junto. Não pode ser, será que dividiu?
— E aí, viu. Há pouco, ouvi som de algo caindo no tapete deste cômodo. "Goto". Por isso fiquei prestando atenção nisso um pouco, mas…
— Eh? Mas aquele cômodo tinha [Silence]… ah, entendi.
Sendo poder vindo de virar-subordinado, isso é poder divino. Não é algo que [Silence] consiga bloquear. "Goto" deve ter sido som do copo de chá caindo.
— Provavelmente sim. E, depois disso, só conseguia ouvir de forma intermitente, mas ouvi tipo som de algo mexendo, "gasagasa", e som de janela abrindo.
— Espera aí. Isso tá meio estranho, né?
— Uhum. Por isso chamei.
Como assim? Se bebeu veneno e derrubou o copo de chá, tem som depois de morrer, isso é estranho. Nesse caso, significa que tinha mais alguém no cômodo, além do Marquês da Fonte Sul.
Será que o veneno era de ação lenta, e o Marquês da Fonte Sul, depois de beber, mexeu bastante dentro do cômodo, e o veneno finalmente fez efeito e ele morreu… existe essa possibilidade também? Se colocaram veneno com intenção de matar, achei que usariam algo de efeito rápido.
— Não seria mal-entendido de som de outro cômodo?
— Mu. Não domino magia sem atributo [Teleporte] à toa. Tenho confiança na percepção espacial de coordenadas.
Faz sentido. Eu também uso [Teleporte], então entendo bem.
Mas tem vários pontos duvidosos. Antes de tudo, se o objetivo era matar o Marquês da Fonte Sul com veneno, será que o culpado se daria ao trabalho de ir até a própria cena do crime? Não, se tiver objetivo pervertido tipo querer ver morrer sofrendo, seria diferente, mas.
Ao contrário, se for pra comparecer, sinto que seria melhor não ser envenenamento. Sinceramente, não parece que o Marquês da Fonte Sul fosse forte. Parece que dava pra matar com uma faca só.
Não, não, não, espera aí, se o culpado estava no cômodo, a teoria de "matado por engano no lugar do primeiro-ministro" não se sustenta mais. Significa que, desde o início, o alvo já era o Marquês da Fonte Sul.
— U~~~~~~~~~~~~~mmm…
Cocho a cabeça, "baribari", feito detetive de cabelo desgrenhado e hakama. …Não entendo!
Volto ao cômodo da cena, e abro a janela instalada no lado norte. Ali, vira jardim interno, com várias árvores altas plantadas. Não tem ninguém ao redor.
— A janela não estava trancada. Se fugiu, deve ter sido por aqui.
Atravesso a janela e saio pro jardim interno. Não vejo nada parecido com pegada. Saltar pra árvore e fugir pelos galhos… isso é impossível. Da janela até o galho tem 5 metros. Se fosse eu, até daria, mas.
— O solo é macio. Deveria deixar pegada pelo menos…
Se o culpado esteve aqui, como conseguiu fugir, afinal? Ah, com magia de teletransporte… espera, aquele cômodo tinha artefato mágico de bloqueio de teletransporte, né. Se conseguisse voar pelo céu, tipo eu, daria pra fugir, mas.
Ah, então o culpado seria eu? Entendi, esse é um ponto cego.
………..Haa. Não é hora de brincar, preciso encontrar algo.
De repente, percebo algo caído embaixo da janela.
— …O que é isso, lasca de madeira?
Lasca fina de uns 2 centímetros. Será que quebrou do caixilho da janela?
Enquanto penso nisso, a Yae vem correndo em minha direção.
— Touya-dono! O Marquês do Mar Leste e a Marquesa da Floresta Oeste estão!
Diante da fala da Yae, volto correndo pra sala de reunião, e o Marquês do Mar Leste e a Marquesa da Floresta Oeste se encaravam mutuamente.
O primeiro-ministro Shubain e o irmão do rei Ganossa não estavam presentes, mas, ao lado dos dois, o Marquês da Montanha Norte estava sentado, braços cruzados, rosto amargo tipo mordendo inseto.
— Que mal-entendido absurdo! Por que teríamos que matar o Marquês da Fonte Sul!
— O culpado não mirava no Marquês da Fonte Sul, mirava no senhor primeiro-ministro. Como o cômodo foi trocado bem antes, ele virou vítima no lugar. Quem acha que o primeiro-ministro atrapalha? Acho que nem preciso dizer.
— Nós não matamos ninguém! Não faríamos coisa tão covarde assim…!
— A Marquesa da Floresta Oeste talvez não, mas e os outros, o quê?
Diante dessa fala, o Marquês da Montanha Norte, de braços cruzados, lança olhar de reprovação pro Marquês do Mar Leste.
— …Marquês do Mar Leste. Isso é sobre mim?
— Pra vencer, não escolher meio. Não é isso que o Marquês da Montanha Norte costuma fazer?
— Não vou negar. O norte fica encostado em Eurono, afinal. Um pequeno descuido já era fatal, sempre havia risco de ser alvo. Nessa situação, não dá pra escolher meio mesmo. Bom, depois que o duque aqui presente destruiu Eurono, ficou bem mais tranquilo, viu.
Direcionando o olhar pra cá, o Marquês da Montanha Norte sorri maliciosamente. Ou melhor, aqui também tem mal-entendido, hein.
— Por precaução, digo que não fui eu quem destruiu Eurono. Havia inúmeras chances de reconstruir o país, mas aquele país só correu atrás do próprio benefício. O país desmoronou por conta própria.
— …Não foi o senhor duque quem apagou a capital celestial?
O Marquês do Mar Leste direciona o olhar pra cá. Isso também tá errado.
— Aquilo foi obra dos Phrase. Não sei por que o povo de Eurono diz "se o duque não estivesse ali, o monstro de cristal não teria aparecido. Não teria acontecido a batalha, e isso não teria acontecido", mas, se eu não estivesse lá, todos os moradores de Eurono teriam sido mortos sem exceção.
— …Entendi. O povo de Eurono deveria agradecer. Como esperado de Vossa Excelência duque. Esplêndido.
O Marquês do Mar Leste bate palma, aplaudindo.
Mu. Sinto algo tipo espinho na fala do Marquês do Mar Leste. Quando nos guiou há pouco, não senti isso. Será que tem parente de Eurono?
— Vossa Excelência duque já deve saber quem cometeu o assassinato desta vez, não é?
— Não, sinceramente, isso… bom, estou investigando, mas ainda existe possibilidade de suicídio também.
Não pede coisa impossível assim. As pistas são poucas demais.
O Marquês do Mar Leste tira os óculos, limpando com lenço tirado do bolso, encarando a Marquesa da Floresta Oeste e o pessoal.
— Falando isso, seria falta de respeito com o Marquês da Fonte Sul, mas ainda bem que o primeiro-ministro não foi envenenado até morrer. Se o primeiro-ministro tivesse falecido, mesmo com o Príncipe Kuo presente, nós teríamos sido esmagados num instante.
— …Parece que quer nos fazer culpados de qualquer jeito.
— Não disse que a senhora é culpada. Deve ter pessoas na mesma facção que não sabem de nada também.
Quando os dois voltam a se encarar, a porta se abre, e o primeiro-ministro Shubain e o irmão do rei Ganossa aparecem.
— Já expliquei a situação aos vassalos do Marquês da Fonte Sul. Sinto muito, mas mandei preparar cômodos, então peço que todos permaneçam aqui por um tempo.
— Senhor Ganossa, tá tudo bem assim?
Diante da fala do primeiro-ministro, o Marquês da Montanha Norte pergunta ao Ganossa. No fim das contas, o castelo real é base da facção do primeiro-ministro. Faz sentido ter cautela.
— Não tem problema. Não temos nada a esconder. A suspeita deve se dissipar logo.
Sem hesitação, o irmão do rei Ganossa responde assim. Será que realmente não é o culpado, ou será que acha que nunca vão encontrar prova nenhuma…
No momento atual, não sei de nada. Também existe possibilidade de não ser crime cometido por ninguém aqui presente, e sim resultado de vassalo agindo por conta própria.
— Então, vou guiar vocês até os quartos. Sinto muito, Vossa Majestade o Rei de Felsen. Já vou providenciar quarto pra vocês também…
— Antes disso. Posso?
Sua Santidade o Papa de Ramish ergue a mão. Ora?
— Em nome de Deus, pergunto às vossas consciências. Direta ou indiretamente, vocês não mataram o Marquês da Fonte Sul, correto? Podem declarar claramente "não matei"?
Diante dessa pergunta de Sua Santidade, claro, todos respondem "não matei".
Guiados pelo primeiro-ministro, o irmão do rei e os marqueses saem do cômodo. Na sala de reunião, ficamos só nós, e, guiados pelos soldados que aparecem, somos levados até uma sala de visitas ampla no fundo do castelo real.
Olho o teto do cômodo recém-guiado, e aqui também tem um dragão. Mas, bom, por precaução, redobrando cuidado.
— [Silence]!
Aplico no cômodo magia que bloqueia som. Com isso, com certeza, a conversa deste cômodo não vaza. Bom, se originalmente já tivesse alguém escondido no cômodo, ouviria, mas não sinto essa presença, então deve estar tranquilo.
Direciono o olhar pra Sua Santidade o Papa.
— E então, como foi? Usou olho mágico agora há pouco, né?
— Sim. Diante daquela pergunta de agora há pouco, só uma pessoa mentiu.
A pergunta era limitada: "direta ou indiretamente, não matou o Marquês da Fonte Sul?". Ou seja, mentir significa que a própria pessoa admite "matei o Marquês da Fonte Sul".
— E, e quem estava mentindo?
Diante da fala da Yae, Sua Santidade o Papa abre a boca devagar.
— Sim. Quem estava mentindo é o Marquês do Mar Leste━━ Tōren Hanoi.