Capítulo 385 – O Veneno Divino-Demoníaco, e a Contramedida
Abrindo as pálpebras pesadas, um teto familiar me recebe.
É meu quarto. Em cima da cama de sempre.
— Acordou, é?
— …Irmã Karen.
No sofá ao lado da cama, a irmã Karen estava sentada, segurando smartphone de produção em massa.
Tento me levantar, mas o corpo está pesado.
— Fica deitado mais um pouco, viu. O efeito do "Veneno Divino-Demoníaco" acabou de passar, e sua força física também foi roubada.
— …."Veneno Divino-Demoníaco"?
— É veneno capaz até de matar deus. Não imaginava que iam vir com esse tipo de recurso. Foi inesperado.
De braços cruzados, a irmã Karen resmunga, "gumumu".
Veneno… veneno, hein. De fato, aquela sensação combina perfeitamente com isso.
"Veneno Divino-Demoníaco" é veneno que mata deus. Quanto mais forte a divindade, mais forte a toxicidade. Parece ser algo bem perigoso mesmo pra irmã Karen e o pessoal.
De fato, quando tentei semi-divinizar, senti coisa horrível mesmo.
A irmã Karen e o pessoal não conseguiam ir me resgatar. Mesmo o corpo sendo humano, deus é deus. Havia risco de desmaiar no local.
Por isso, só a Sakura, única capaz de usar magia de teletransporte, se ofereceu. Como ela também estava virando subordinada divina, sofreu efeito do veneno, ficando um dia inteiro de cama, dizem.
— Um dia inteiro, digo… quantos dias eu fiquei dormindo?
— Foram três dias. Foi difícil, viu. Todo mundo ficou desesperado, sem sair de perto da cama. Sinceramente, meu irmão mais novo é bem amado, hein.
Fiquei desmaiado três dias inteiros, hein… deixei todo mundo preocupado. Depois, preciso pedir desculpa.
— O efeito do veneno já saiu completamente?
— O "Veneno Divino-Demoníaco" só faz efeito se aproximar, e, se afastar, o efeito acaba desaparecendo com o tempo, então fica tranquilo.
Então é assim, hein… se é assim, basta não se aproximar que fica tudo bem… ah, é verdade! Eu vi vários daquele mesmo caindo!
— Exibir mapa!
— «Exibindo, sabe.»
Do smartphone que estava na mesa de cabeceira, projeta-se o novo mapa mundial.

— Não…!
Sem querer, fico sem palavras. No oeste do mapa mundial, ou seja, lado do mundo sombrio, uma parte está faltando. Não, mais que faltando, foi cortada.
Norte e leste de Eisengard desapareceram completamente, ficando totalmente isolado.
— Isso é…
— Foi caindo em profusão sobre esta região a mesma coisa que o Touya-kun destruiu. Isso apodreceu a terra, mudando completamente o relevo…
— Aquele espinho, então…!
Extinção da terra que o espírito da terra mencionou… naquela hora, parou porque eu destruí, mas não imaginava que chegaria a esse estado assim…
— Mas por que caiu concentrado só aqui…?
— Também caiu pequeno em outros lugares. Segundo a análise da Regina-chan, antes, tinha algo enterrado nessa região, né? Talvez o resquício daquilo tenha atraído os grandes.
Local que a irmã Karen aponta. Ali, eu tinha lembrança.
Local onde apareceu a árvore grande dourada antes. Não pode ser, será que aquilo era tipo unidade de vanguarda?
Esporo dourado espalhado naquele país… será que usaram aquilo como marco pra descer aqui…
— Como ficou Eisengard?
— Isso, aí… não sei. Só uma coisa posso afirmar: o "Veneno Divino-Demoníaco" se espalhou por todo o território deste país.
— Todo o território!?
— Graças a isso, mesmo usando poder divino, não consigo ver à distância. Fica bloqueado, tipo cheio de ruído.
Parece que, em terra corroída pelo "Veneno Divino-Demoníaco", nossa magia, que pertence ao divino, fica bloqueada, sem funcionar direito. Faz sentido a linha costeira aparecer no mapa, mas as cidades dentro de Eisengard não aparecem. Deve ser porque está bloqueando magia de busca.
Que absurdo. Nem magia de teletransporte dá pra usar pra ir lá. Bom, mesmo indo, com certeza vou desmaiar na hora.
Se fosse usuário de busca ou teletransporte que não pertence ao divino, além de mim, não deveria ter problema, mas infelizmente não conheço ninguém tão habilidoso assim além do meu círculo próximo.
— Ou melhor, originalmente já é estranho. "Veneno Divino-Demoníaco" é veneno que mata até deus. Mesmo sendo deus maligno imitação de baixa divindade, não deveria ser exceção. Mas…
— Sobre isso, eu já suponho o motivo.
Sem eu perceber, a irmã Moroha estava de pé atrás da irmã Karen. Como sempre, chegada repentina demais, hein.
— Aquilo de o deus maligno se recolher no espaço entre dimensões, sem nunca aparecer deste lado, sempre me deixou intrigada, mas agora entendo. Aquele aí adaptou o próprio corpo ao "Veneno Divino-Demoníaco".
— Adaptar?
— Aos poucos, aos poucos… foi acostumando o próprio corpo ao veneno. Sendo originalmente deus maligno de baixa divindade, não é impossível. E aí, ele conseguiu corpo capaz de vencer o "Veneno Divino-Demoníaco".
— …Não, "vencer" não é bem a palavra certa. "Incorporar" combina melhor.
A irmã Karina entra pela janela da varanda. Espera aí, por onde tá entrando, deusa da caça! Entra pela porta, francamente!
Queria reclamar, mas deixo isso de lado e coloco a dúvida em palavras.
— …O que quer dizer com "incorporar"?
— O que um ser vivo fraco deveria fazer pra não ser predado por ser vivo forte, você acha?
— Eh? Isso é… conviver com ser vivo mais forte, ou se camuflar pra conseguir fugir e se esconder… agir em grupo. E também… ah, entendi, veneno, hein…
— Exatamente isso. Ele incorporou veneno capaz até de matar deus, impedindo que a gente pudesse fazer algo contra ele. Que espírito maligno esperto, hein. Quem está corroído pelo "Veneno Divino-Demoníaco", deus e subordinado divino não conseguem se aproximar.
Ser vivo com veneno divide-se basicamente em dois tipos: ser vivo com veneno pra predar, e ser vivo com veneno pra não ser predado.
O primeiro é cobra venenosa, escorpião, e afins. Injetam neurotoxina no adversário, imobilizando antes de predar.
O segundo é baiacu, sapo-flecha-venenosa, e afins. Secretam veneno, ou carregam no corpo, matando o predador.
O que o deus maligno escolheu foi o segundo. "Veneno Divino-Demoníaco" diz que quanto mais alta a divindade, mais perigoso… ah, ué?
— …Não pode ser, será que "Veneno Divino-Demoníaco" não funciona em humano?
— Não funciona. Originalmente, se não for deus ou subordinado divino, é completamente inofensivo. Em compensação, qualquer barreira que entre no alcance do "Veneno Divino-Demoníaco" é corroída, então nem o [Prison] do Touya-kun consegue bloquear.
Quem responde isso é a irmã Moroha. Nem [Prison] bloqueia, francamente… franzo a testa, e chega voz de mais duas pessoas.
— Foi sorte ter sido separado do continente. O "Veneno Divino-Demoníaco" é absorvido pela terra, contaminando a geologia. Mas o que se espalhou no mar se dilui e desaparece. A preocupação de todo o mundo ser contaminado desapareceu.
— Mas, mas~. No fim das contas, a terra daquele país foi corroída pelo "Veneno Divino-Demoníaco", né. Pra nós, raça divina e subordinados, virou tipo pântano de veneno, viu?
O tio Kōsuke, deus da agricultura, e a Suika, deusa do vinho, conversam sentados no sofá. Por onde estão entrando, francamente!?
Parece que o "Veneno Divino-Demoníaco" não mantém a forma de névoa que vi, mas se dissolve no solo, transformando a terra em algo venenoso (só pra deuses e subordinados, claro).
Agora que penso, tinha herói de história em quadrinhos americana com fraqueza pra tipo específico de minério… será algo parecido com isso.
— Como ficou o povo de Eisengard?
— Parece que ainda não tem mudança em particular. Mesmo a terra estando contaminada pelo "Veneno Divino-Demoníaco", não faz mal nenhum a humano. Mas mutante está aparecendo aos montes, situação bem perigosa, dizem. Bom, isso é informação de quem conseguiu fugir de barco pro país vizinho.
Sobrepondo a explicação da irmã Moroha, do fundo do armário fechado, ecoa som triste de guitarra. "Gymnopédie", de Erik Satie…
Já não vou nem reclamar mais. Por que deus da música tá dentro do armário do meu quarto, isso é detalhe insignificante.
— Aquele espinho também caiu, algumas unidades, em outros países, né? Como ficaram?
— Foi só pequeno, e nasceu alguns mutantes, mas parece que a Guilda de Aventureiros e a ordem de cavaleiros do país estão conseguindo lidar. Os grandes caíram concentrados quase todos em Eisengard, então…
— E o "Veneno Divino-Demoníaco" fora de Eisengard?
— Espalhou, mas, basicamente, é inofensivo pra humano e animal. Só que espírito não deve mais se aproximar daquele lugar, então deve virar terra onde nem uma planta cresce.
Espírito também é subordinado divino, afinal. Não vai se aproximar de terra que destrói a si mesmo. Ou seja, Eisengard vai virar país sem espírito, hein… sem receber benção de espírito. Isso já não seria terra impossível pra humano viver?
— E aí, o que vai fazer daqui pra frente, hein? Esse mundo já saiu das mãos do Deus do Mundo. Só resta você, Touya, decidir o que fazer.
A irmã Karina, sorrindo maliciosamente, dirige o olhar pra mim. O que vou fazer? Isso já tá decidido.
— Vou derrotar o deus maligno. Não vou deixar ele fazer o que bem entende. Com certeza, vou apagar da existência deste mundo.
A irmã Karen e o pessoal se entreolham e sorriem. Sinto certa raiva por sorrirem, "nimanima", tipo "já sabia que ia falar isso".
— Essa é a atitude!
Com estrondo grande, "doban!", a porta do quarto abre com força, ou melhor, é jogada longe, e o tio Bury entra.
Poxa, francamente! Deuses não conseguem entrar normal pela porta, é!?
— Nós também vamos ajudar sua batalha com toda força! Lute sem se preocupar! Vamos recolher seus ossos!
— Não, não pretendo morrer, viu. E, conserta a porta.
Diante do tio Bury erguendo o punho ao céu, quente demais, respondo com olhar frio. Não fala coisa de mau agouro assim.
— Touya-san! Já acordou!?
Naturalmente, com tanto barulho, todo mundo percebe.
Num piscar de olhos, todo mundo corre até a minha cama. Espe, Sue! Não pula assim!
Entre eles, seguro a mão da Sakura, com os olhos levemente marejados, e puxo pra perto.
— Obrigado. Se a Sakura não tivesse vindo me salvar, o que teria acontecido comigo, hein…
Balançando a cabeça de um lado pro outro, "furufuru", a Sakura me encara com olhar direto.
— É óbvio. Nós ajudarmos o Rei é natural. Apoiar o marido é papel da esposa. Pode contar comigo mais.
Ainda não casamos, então não é esposa ainda, mas o sentimento é realmente feliz. Vendo a Sakura sorrir dizendo isso, acabo abraçando ela sem querer. Droga, que fofa!
— Que inveja, hein…
— Bom, dessa vez não tem jeito. A Sakura também ficou de cama um dia inteiro. É prêmio pra ela.
A Elsie acaricia a cabeça da Sue, chupando o dedo. Se prêmio for algo assim, dou quantas vezes quiser.
Mesmo assim, a Sakura também sofrer efeito do "Veneno Divino-Demoníaco" significa que todo mundo aqui também está em perigo, né…
Derrotar o deus maligno, e o problema é justamente isso.
— Até onde exatamente o "Veneno Divino-Demoníaco" afeta? Todo mundo aqui é ruim, mas, por exemplo, gente da minha ordem de cavaleiros, não teria efeito nenhum?
— Hmm… é ponto difícil mesmo. Se for completo estranho total, não precisa se preocupar. Mas mesmo só estando sob proteção, sofre efeito leve de energia divina, então… humano próximo do Touya-kun talvez sofra, mesmo que leve, do "Veneno Divino-Demoníaco"…
Hmm, com braços cruzados, a irmã Karen resmunga. Eh, só isso já afeta?
A irmã Moroha também explica, assentindo levemente.
— Amor, amizade, afeto, compaixão, boa vontade… esse tipo de amor divino, o "Veneno Divino-Demoníaco" reage e corrói a vida. Talvez todos os moradores de Brunhild sofram algum tipo de dano. Claro, não igual à nossa morte, deve ser algo leve tipo náusea ou tontura.
Frase tipo "ódio pelo monge se estende até a batina" passa pela minha cabeça. Veneno demoníaco que corrói toda vida relacionada ao inimigo natural, os deuses. Que malícia tremenda.
Ou seja, todo mundo que já conheci vai sofrer efeito, hein… isso pesa no peito. Ah, não, pessoas que sentem desagrado ou nem prestam atenção em mim não devem sofrer efeito nenhum.
— Não existe forma de bloquear esse "Veneno Divino-Demoníaco"?
Diante da pergunta hesitante da Lindsey, o tio Kōsuke responde.
— Não existe na superfície. Existe o método de corroer o próprio corpo, igual o deus maligno, acostumando com o veneno, mas, fazendo isso, nem nós nem vocês nunca mais poderiam ter contato com o Touya-kun.
— Rejeito! Não posso aceitar isso!
A Sue foi a primeira a se opor. Eu também não quero tomar esse tipo de método.
— Preciso pensar em alguma solução mesmo. Aquele tal deus maligno também não pode ser deixado assim, né.
A Lu levanta esse ponto, mas, no momento atual, nem imagino o que fazer. Se não sobrasse nenhum sobrevivente em Eisengard, talvez existisse a opção de afundar o país inteiro, mas não acho que eles morreriam só com isso.
— Aquilo, não é bem uma solução, mas…
Timidamente, a Yae levanta a mão pra irmã Karen. O que será? Se tem alguma ideia, quero ouvir.
— Aquilo, "Veneno Divino-Demoníaco" tem efeito em máquina também?
— Máquina? Ah, tipo, mesmo atacando com Frame Gear não funciona, viu? Até o [Prison] do Touya-kun é corroído. A barreira defensiva expandida no cockpit do Frame Gear não serve de nada,
— Ah, não, não é esse tipo, é sobre golem.
Por um instante, fico boquiaberto sem entender o que a Yae quer dizer, mas, ah, chego ao entendimento.
— Por exemplo, digamos. Aquele golem que o Touya-dono estima tanto, também morre com o efeito do "Veneno Divino-Demoníaco"… ah, não, digo, entra em parada de função?
— …Não entra. No caso de golem, sinto falar mal, mas vira tratamento tipo ferramenta… instrumento divino. Não sendo ser vivo, não deve sofrer efeito do "Veneno Divino-Demoníaco"…
Entendi. Como a irmã Moroha diz, golem… bom, Frame Gear também, máquina em si, não sofre efeito do "Veneno Divino-Demoníaco", hein.
De fato, se ferramenta e objeto também fossem corroídos pelo "Veneno Divino-Demoníaco", minha roupa, a Brunnhild, o smartphone, também deveriam ter sofrido algo.
Uma luz começa a surgir, hein. Falando de golem, é a engenheira Elka. Vou consultar ela rapidinho.