Capítulo 386 – A Asa dos Mortos, e o Delírio de Volta
— Uhum, uhum, ou seja, esse "Veneno Divino-Demoníaco" é veneno que reage à pessoa por quem o Touya-kun tem carinho, né?
— Aliás, parece que eu e a Elka-kun também estamos em perigo. Talvez não morramos, mas gostaria de pelo menos desmaiar ou perder a consciência, hein.
A Doutora dirige o olhar sorrindo maliciosamente. Essa menina, francamente. Sinto raiva sem motivo.
Não tinha como explicar direitinho o que os deuses disseram, então só resta explicar que "Veneno Divino-Demoníaco" é assim mesmo.
Venenoso pra mim e pra quem tenho carinho, inofensivo pro resto.
Fico levemente irritado, mas, como a Doutora diz, provavelmente também deve fazer efeito nelas. Se for pra dizer "gosta" ou "não gosta", a balança deve pesar pro lado do "gosta". Vendo essa menina doutora sorrindo maliciosamente, sinto raiva brotando à vontade, mesmo assim.
— Então, em Eisengard, não podemos agir. Mesmo pra investigar internamente, não dá pra mandar ninguém.
— Sério? Não precisa necessariamente Brunhild se mover, né? Por exemplo, se pedir pro "Gato Preto" mandar alguém com quem você nunca teve nenhum contato, deve dar pra investigar pelo menos.
— …Ué? É verdade. Isso também dá pra fazer.
Estava pensando de forma vaga que precisaria enfrentar o mutante liderado pelo deus maligno, então achava que teria que resolver tudo eu mesmo, mas, ah, é verdade, se for só pra investigar, tem essa opção também.
— Mas continua sendo perigoso, né. Fazer outra pessoa fazer isso também é meio… se acontecer algo, seria terrível.
— Bom, entendo o sentimento. E então? Golem não sofre efeito desse "Veneno Divino-Demoníaco", né.
— Isso. Por isso, pensei se dava pra criar golem tipo reconhecimento, batedor… ou se conhece algum golem de máquina antiga desse tipo.
A engenheira Elka, que estava pensativa, ergue o rosto de repente, levantando dois dedos.
— Dois problemas. Mesmo mandando golem de fábrica, ou golem criado por mim, se o mestre não estiver por perto, existe possibilidade de não conseguir cumprir função direito. Isso você deve entender vendo unidade militar: originalmente, golem que não é máquina antiga não consegue fazer julgamento próprio complexo assim sem mestre.
Mu… de fato. O Cavaleiro de Ferro que era controlado à distância no Reino de Horn era horrível. Se não conseguir se mover por julgamento próprio, se surgir problema inesperado, pode acabar sem conseguir lidar.
— Segundo. Se é assim, só resta máquina antiga mesmo, mas esse tipo de julgamento próprio só é possível em golem que acumulou experiência ao longo de muitos anos. Ou seja, já tem mestre, máquina que opera há muito tempo. Operar há muito tempo significa que tem apego considerável com esse golem, então mandar esse golem pra terra perigosa, ou pedir pra ceder isso pra nós…
— O mestre não vai aceitar, né.
A maioria das máquinas antigas, quando são escavadas, está em estado de hibernação. Como não foi ativada por muito tempo, perde a memória antiga, resetada em estado limpo. A partir daí, através do encontro com o mestre, vai aprendendo várias coisas.
O trio de golem irmãs que consegui, Ruby, Safa, Emera, também foram aprendendo várias coisas com o tempo, ficando capazes de julgar por conta própria.
Não pretendo mandar aquelas garotas, sem capacidade de combate, pra Eisengard, mas, mesmo que tivessem capacidade de combate, não é como se alguém pudesse mandar elas pra terra perigosa só porque outra pessoa pediu.
Claro, mesmo se pedissem pra vender, eu recusaria.
A irmã mais nova da engenheira Elka, Norun, e a Nia do "Gato Vermelho", também não deveriam expor seus golems, a Nowāru e o Rūju, a esse tipo de perigo.
— O que fazer, hein…
— Que tal conseguir agora um golem de máquina antiga adequado pra reconhecimento, e treinar?
— Enquanto ficamos enrolando, o outro lado pode começar algo. Se possível, quero conseguir informação de lá o mais rápido possível, mas…
"Devagar se vai ao longe", mas será que só resta isso mesmo… ou será melhor pedir ao "Gato Preto" pra mandar alguém pra investigar? Mas tem alta chance de encontrar mutante. No mínimo, precisa de força nível rank vermelho de aventureiro…
— Também tem a opção de roubar golem de máquina antiga com experiência acumulada.
— Não, não. Isso, sinceramente,
Isso seria crime, né. Não pretendo roubar coisa dos outros.
— Claro que não pretendo roubar de gente honesta. Também tem bastante máquina antiga usada por criminoso. Muitas dessas são até roubadas. Só pegar essa de volta.
Ah, é isso, então. Se for isso… bom, talvez tudo bem?
— «Hmm. Já entendi o que o mestre quer dizer. "Asa dos Mortos", né.»
O golem tipo lobo da engenheira Elka, Fenrir, deitado no chão do "Laboratório", ergue a cabeça. "Asa dos Mortos"?
— "Asa dos Mortos" é bando de vigilantes que tem influência no Sacro Reino de Arento. Gente cruel que ataca vários vilarejos, repetindo saques. Um dos motivos deles serem difíceis de capturar é justamente o que o Touya-kun mencionou: eles têm golem de máquina antiga excelente em reconhecimento e batedor.
— Entendi. Ou seja, tá dizendo pra roubar esse golem deles, né.
Meio incômodo, mas o golem em si não tem culpa. Não posso dizer que não sinto aversão em usar algo que criminoso usava, mas melhor considerar isso separado. Mais que tudo, não posso deixar esse tipo de gente continuar solta.
— «Ficaria feliz se fizesse isso. O braço direito deles é nosso irmão.»
— Eh? Sério mesmo?
O Fenrir fala isso balançando o rabo.
— Se não me engano, deveria ser "Anúbis" e "Bastet". Precisamente falando, mais que máquina do mesmo sistema que o Fenrir, seria máquina sucessora. Como o criador é o mesmo, acho que dá pra chamar de irmão e irmã mesmo.
Sendo igual ao Fenrir, quer dizer tipo animal, hein? De fato, golem com aparência idêntica a animal deve servir perfeitamente pra reconhecimento. Não, no caso de tipo lobo como o Fenrir, existe risco de ser alvo de extermínio, mas.
Se o Fenrir fosse pra Eisengard, a conversa seria mais rápida. Mas a engenheira Elka não é gente de Brunhild, ela é convidada, no fim das contas. Não sou desavergonhado a ponto de pedir pra mandar o golem precioso dela pra região perigosa como batedor.
Como imaginei, melhor conseguir esses dois golem de máquina antiga daquele bando de vigilantes.
— Mas não sei onde eles estão. Sendo bando de vigilantes, devem estar escondidos pra não serem encontrados pela ordem de cavaleiros, e, mesmo investigando com magia de busca, sem pista, fica difícil…
— Cobra sabe caminho de cobra. Sobre bando de vigilantes, pergunta pra bando de vigilantes. Tem colega do mesmo ramo bem conveniente por perto, né?
— Ah
Lembrando das pessoas que a Doutora menciona, vou imediatamente até elas.
— "Asa dos Mortos", hein. Nós nunca nos encontramos diretamente, mas conhecemos os boatos mais ou menos. São gente lixo que ataca vilarejo, roubando tudo de valor, e depois matam todos os homens, e vendem mulher e criança pra traficante de escravos do mercado negro.
— Diferente do nosso jeito, mesmo sendo bando de vigilantes também, a postura básica é diferente. Não temos contato nenhum, então não temos tanta informação, mas sabemos mais ou menos onde tem base deles.
Dizendo isso, a Nia, líder do bando de vigilantes "Gato Vermelho", hospedada no "Lua de Prata", e a vice-líder Esuto-san, apontam certo local.
Na região desértica próxima ao país de fogo Taubān, ao norte do Sacro Reino de Arento, no novo mapa mundial que invoco.
— Diz que a base deles fica por aqui. Atacam vários lugares, mas com certeza tem base pra guardar o tesouro trazido de volta. Tem oásis também, provavelmente deve ser por aqui.
A Nia circula com o dedo o oásis maior, entre os espalhados no deserto.
— Esse tal "Asa dos Mortos", tem algo tipo marca? Tipo que dá pra identificar como esse bando de vigilantes.
— Dizem que os membros têm tatuagem de deus da morte com asas no ombro.
Bom. Bem fácil de entender.
— Busca. Quem tem tatuagem de deus da morte com asas.
— «Buscando… busca terminada. Exibindo, sabe.»
No mapa, cai alfinete, "totototo!". Espalhou um pouco, mas onde caiu concentrado deve ser a base mesmo.
— Sua magia continua absurda como sempre, hein… com esse tipo de coisa sendo usado, negócio de vigilante fica difícil.
— Essa magia também não é onipotente, viu. É só que o mundo da Nia e o pessoal não desenvolveu cultura mágica, então não tem contramedida. Isso também deve se preencher conforme os dois mundos vão se conectando.
Quem ainda não sabe do contexto, ainda não sabe que os mundos se fundiram. Eventualmente, sem dúvida, deve surgir conflito e choque entre os dois mundos (agora um só mundo). Vigiar e investigar Eisengard, e, além disso, precisar fazer reunião com os líderes dos principais países urgentemente.
De qualquer forma, esse bando de vigilantes parece fazer coisa bem cruel, sem precisar cortesia. Vou capturar todos e entregar à ordem de cavaleiros da capital sagrada.
O golem de vocês, vou pegar com gratidão… kukuku.
…De alguma forma, sinto que eu que virei tipo bando de vigilantes agora. Bom, tanto faz, a ação é igual mesmo.
No oásis, num sítio antigo em ruínas, ficava a base do bando de vigilantes "Asa dos Mortos".
— Q, quem, quem é você! Espião do Sacro Reino!?
— Não, mas é parecido. Vim pra capturar vocês também.
Ao redor, os bandidos derrotados jazem caídos, com olhos revirados. Só resta esse homem à minha frente.
Pela postura dos outros caídos, acho que esse é o líder. Vestindo armadura de couro luxuosa e manto.
Aliás, o golem alvo já tá capturado com [Prison] e guardado no [Storage]. Como esperado sucessor do Fenrir, "Anúbis" era um cachorro preto, "Bastet" um gato preto, golem idêntico mesmo.
De fato, se usarem isso pra espionagem, faz sentido até informação da ordem de cavaleiros que veio capturar vazar completamente.
Atacaram coordenados, mas com bastante capacidade de combate também, talvez até adequados pra assassinato.
— V, você quer minha recompensa por captura? Se for isso, dou até mais que isso! Não é mentira! A, aqui tem quase todo dinheiro que ganhamos até agora… gugah!?
Sorrindo baixo, tentando me apaziguar, o líder do bando de vigilantes, disparo bala paralisante sem piedade.
— Obrigado, mas depois vou doar isso pra orfanato. Reze pela felicidade das crianças na cadeia.
Empilho os bandidos derrotados, e, igual ao grupo de assassinos "Kurau" do Reino de Horn, colo um papel escrito "Esses aí são o bando de vigilantes 'Asa dos Mortos'. Por favor, capturem-nos" e teletransporto pro posto da ordem de cavaleiros.
Se declarasse formalmente, deveria receber recompensa, mas dá trabalho fazer isso, e é meio inconveniente pra mim também, então melhor ficar anônimo.
Um rei de um estado ir até outro país querendo golem, destruindo bando de vigilantes, é meio estranho também, né. Deve ter questão de imagem do Sacro Reino também.
No cômodo no fundo das ruínas, encontro o tesouro acumulado pelo bando de vigilantes, e guardo tudo no [Storage].
Tesouro de vigilante vira propriedade de quem derrota, então sem problema. Pretendo doar o valor monetário pro orfanato do Sacro Reino, mas isso já vira uma fortuna considerável sozinha… inesperadamente, destruir bando de vigilantes rende dinheiro, hein…
Talvez até valha incorporar isso no treino da minha própria ordem de cavaleiros. Dá pra distribuir bônus, e também ajuda o mundo, dois coelhos numa cajadada só, né?
Bom, dessa vez, foi por acaso que tinha tatuagem servindo de marca fácil de achar, mas nem sempre vai ser tão fácil assim.
Recolhendo o tesouro e saindo das ruínas, o sol escaldante brilhava ofuscante.
Sol de deserto, por que é sempre tão insuportavelmente quente… hn?
No sol, vejo um pontinho pequeno. Vindo em minha direção, caindo… aquilo é…!
Salto pro lado, desviando do golpe descido de grande foice. Um pilar de pedra na entrada das ruínas, cortado obliquamente com precisão afiada, tomba com força sobre a areia.
— «Gi…»
Do meio da poeira de areia, aparece um golem de corpo roxo pequeno, com foice grande desproporcional ao tamanho. "Coroa" roxo, Fanatic Viola. Ou seja…!
— Estranho não ter os bandidos alvo por aqui, mas a Runa tá super sortuda! Que alegria encontrar o Touya-yan num canto remoto assim no deserto! O fio do destino tá amarrado no pescoço de nós dois mesmo! Quero apertar bem apertado!
Sobre um pilar das ruínas ainda de pé, ela estava parada, segurando guarda-sol.
Cabelo longo tipo ametista, vestindo roupa gótica e saia em camadas, garota tipo boneca. Atrás dos óculos, os olhos rindo divertido carregavam loucura evidente.
Runa Torieste. Mestra do "Coroa" roxo, chamada "Dama Louca".
— …Por que você tá aqui?
— Ah, mas é óbvio, pra matar velhotes bandidos, né. Outro dia, encontrei um vilarejo com todos os moradores queimados e mortos. Achei interessante, então pensei em brincar também. Mas, já que o Touya-yan tá aqui, tanto faz agora!
Saltando de cima do pilar de pedra, a Runa joga fora o guarda-sol que segurava.
Não, o que ela joga fora é só parte da sombrinha; na ponta do cabo curvo, no meio da haste, uma lâmina fina escondida brilha sob o sol, revelando a forma.
Feito chicote flexível, a lâmina prateada me ataca. Rápido. Não chega ao nível da Yae ou da Hilda, mas é habilidade considerável.
Desvio por um triz do brilho prateado disparado em todas as direções.
— Ahahahaha! Que incrível! Não acerta em nada mesmo! Mas isso não me satisfaz! Vem, Touya-yan! Corta, esfaqueia, atravessa, soca, chuta, arranca, mata!
— Foi mal, mas não tenho esse gosto! [Prison]!
— «!»
Uma parede invisível cerca a Runa, bloqueando o florete.
— Que isso, o quê? Magia do Touya-yan?
— Magia de contenção, [Prison]. Essa parede nunca quebra. Desiste.
— Viola~, pode?
— «Gi»
O golem roxo crava a grande foice em [Prison]. Inútil. [Prison], com um pouco de energia divina misturada, jamais quebra.
Com um som surdo, "gyiin!", a foice da Viola é repelida. Viu só.
— Ahaha, é verdade. Certo, Viola, se afasta daí. Eu também vou tentar.
— Inútil, viu. Fica quieta,
— «!?»
Jogando fora o florete que segurava, "poi", o braço direito da Runa imediatamente se cobre de metal cor dourado-escuro. "Aquilo", multiplicando com som "pakipaki", transforma o cotovelo dela pra baixo numa lança dourada.
— Vamos!
Quando a Runa estende o braço direito pra frente, com estrondo, "gakyaaan!", som tipo batendo metal ecoa pelo deserto, e [Prison] se estilhaça em pedaços.
— Quebrou, quebrou! Kufufufu, que dor, hein! Usar esse poder faz uma dor correr pelo corpo inteiro, tipo sendo cortado em pedaços. Sinto tão bem que quase escapa… difícil segurar.
Ei, ei, tá de brincadeira…
Diante de mim, por todo o corpo da Runa, brotam fragmentos dourados com brilho reluzente. Idêntico à espécie dominante Phrase.
E, daquele corpo, sem dúvida, vazava a energia divina sinistra daquele deus maligno.