Capítulo 391 – O Navio Negro, e a Vampira Prisioneira
— Bom, bom, que bonzinho. Come com calma.
— «Nyaa»
— «Baw!»
A dona da taverna mostra rosto suavizado. Diante da loja, sob a cortina da noite, ela dava restos de comida a um gato preto e um cachorro preto, aparentemente vira-latas, mas, com a chegada de novo hóspede, voltou pra dentro da loja.
O gato preto e o cachorro preto tinham se infiltrado em Sutīru, cidade mágico-industrial considerada a segunda capital de Eisengard.
Em taverna e pousada, circulam vários tipos de informação. Mesmo comendo comida do lado de fora da loja, a audição dos dois, sendo golens-batedores, não deixa escapar essa informação. Aliás, nenhum dos dois precisa de fato comer.
— «Mana-chefe, a gente não precisava comer isso, não?»
— «Não desperdiça gentileza dos outros. Mostrar simpatia também tem vantagem de facilitar conseguir informação.»
— «Táah»
Será mesmo, pensa o Anúbis, engolindo o resto da comida, "gafu gafu". Esse tipo de comida é convertida em éter pelo reator mágico dentro do corpo, então não é totalmente desperdício.
Fingindo estar absorto na comida, os ouvidos dos dois estavam atentos aos rumores dentro da taverna.
— «Parece que a vila de Tonamu foi atacada pela fera dourada.»
— «Sério isso? O que a ordem de cavaleiros mágico-industrial tava fazendo?»
— «Dizem que se ferraram bastante. Já são quantas vilas e cidades atacadas pela fera dourada?»
— «Não sei. Desde o dia da "Chuva de Estrelas Mágica" tudo ficou estranho.»
Fera dourada provavelmente se refere ao mutante. Parece que já várias vilas e cidades foram atacadas.
— «Também tem rumor de esqueleto dourado marchando pela estrada toda noite…»
— «O que é isso, afinal. Pra onde tá indo?»
— «Parece que é pro sul mesmo.»
— «Sul… Eisenburuku?»
Ao sul daqui fica a capital deste país, cidade industrial Eisenburuku. Por causa do desastre do gigantesco golem demoníaco, Hecatonqueiro, a capital vinha seguindo um caminho de declínio constante.
Claro, não é só esse o motivo — a morte do rei mágico-industrial, que era rei praticamente ditador de mando único, sem sucessor definido, também é uma das causas.
Como costuma acontecer quando um país perde o líder do qual dependia totalmente, estourou disputa de sucessão, os nobres ficaram ocupados demais com guerra política, e o povo foi completamente abandonado.
Com o Hecatonqueiro, as pessoas perderam casa, trabalho, família, e nenhum nobre estendeu a mão pra eles; como resultado, o povo, com raiva e desespero no peito, abandonou a capital.
Dia após dia aumenta o número de pessoas deixando a capital, e agora já é duvidoso até se ainda pode ser chamada de capital.
— «Será maldição de Sua Majestade o rei mágico-industrial?»
— «Para com isso, que agouro.»
— «De qualquer jeito, esse país já era mesmo. Melhor fugir pra Gardio ou Strain. Ainda tem navio saindo agora, mas quem sabe quando acaba. Esse país acabou isolado.»
De fato, aumentava também o número de pessoas fugindo de Eisengard.
A ansiedade das pessoas exagera os rumores, e isso traz ainda mais ansiedade, lançando sombra escura sobre este país.
— «O esqueleto que dizem ter ido pro sul me deixa curiosa.»
— «Então, próximo é lá?»
Com voz que humano não consegue ouvir, o gato preto e o cachorro preto conversam.
— «Se isso for verdade, sem dúvida tem mutante envolvido. Não dá pra deixar sem investigar. Vamos.»
— «Combinado.»
A Bastet e o Anúbis, andando juntos, "tetetete", saem da cidade. Ninguém liga pra isso.
Entrando na escuridão da noite, a Bastet salta ágil nas costas do Anúbis.
O Anúbis dispara em velocidade extraordinária. Assim, os dois desaparecem na escuridão da noite.
Aliás, isso virou boato como "sombra que corre veloz na escuridão da noite", e os dois, sem perceber, estavam aumentando ainda mais a ansiedade das pessoas de Eisengard.
— Não entendo bem, mas isso significa que tudo se resolveu de forma redonda, né!
O Robēru, que continuava dormindo na nossa cama como custo do teletransporte espacial, acordou duas horas depois do príncipe Zanberuto, do Reino Guerreiro de Rāze, ser completamente derrotado pelo Ende e Eruze, e em seguida pela Yae, Hiruda e Rū.
Perdendo tantas vezes seguidas assim, acabo achando que o Reino Guerreiro de Rāze não deve ser grande coisa, mas, nesse caso, deve ser mesmo que elas é que são estranhas… já estão em nível de derrotar Elder Dragon sozinhas com facilidade.
Falando sem meias palavras, sinto que até metade dos nossos cavaleiros conseguiria vencer esse príncipe. Afinal, são pessoal que recebe treino da irmã Moroha todo dia.
O príncipe Zanberuto, tendo o espírito quebrado, "pokipoki", pouco a pouco, contrariando minha previsão de que ficaria bem deprimido, pelo contrário, ficou meio empolgado, e, na parte final, achei que já ia meio que buscando perder de propósito, num desespero qualquer.
No fim das contas,
— Entendi bem quão fraco eu era. Depois disso, só resta almejar o topo e me aprimorar!
…falou, com rosto surpreendentemente aliviado.
Bom, se o próprio interessado tá satisfeito, não tenho nada a dizer.
Com o príncipe Zanberuto parecendo satisfeito, entrego a carta oficial endereçada ao rei do Reino Guerreiro de Rāze, e o grupo volta de novo pelo teletransporte espacial do Brau.
O Robēru vai desmaiar de novo do outro lado, imagino. Que habilidade conveniente mas inconveniente ao mesmo tempo.
Quando também estávamos voltando pro castelo, meu smartphone avisa uma ligação recebida.
É de Sua Majestade o rei Refan do Reino de Iguretto. O que será? De novo aquela lula gigante Tentaclar apareceu, será?
— Sim, alô
— «Oh, Duque de Brunhild! Desculpe, será que pode vir aqui imediatamente?»
— O que aconteceu?
— «Um navio de identidade desconhecida vem se aproximando do sudoeste do mar. Fazendo reconhecimento aéreo com o Rufu, parece claramente ser navio armado.»
Rufu é a grande ave que Iguretto domestica. Navio armado… navio de guerra? Ou será pirata?
Sudoeste… chamo o mapa do novo mundo pra confirmar. Não pode ser, será esse "País Demoníaco Herugaia"?
Desde que descobri que os dois mundos iriam se sobrepor, venho coletando bastante informação sobre os países do mundo sombrio. Desde que firmei relação de cooperação com a Shiruetto-san do "Gato Preto", consigo coletar com mais detalhe ainda. Por isso, tenho certo conhecimento sobre o "País Demoníaco Herugaia" também.
País Demoníaco Herugaia. País-ilha onde vivem semi-humanos chamados de "demônios".
Nesse caso, "demônio" seria algo tipo o que chamamos de "raça demoníaca" deste lado. Espécies próximas à forma humana como licantropo, alraune, vampiro, ogro, chamadas de semi-humanas, mas, entre elas, as que se aproximam mais de monstro correspondem a isso.
Diferente de goblin, kobold, minotauro, que não conseguem comunicação, são povos com cultura e educação bem estabelecidas, mas, mesmo assim, igual à raça demoníaca deste lado, parece que têm histórico de perseguição por causa da aparência.
Há algumas centenas de anos, um vampiro que se autodenominava "Rei Demônio" fundou o país dos demônios, Herugaia, iniciando atividade de proteção dos demônios contra perseguição.
Não sei se por não gostarem disso, mas alguns países declararam guerra tentando destruir Herugaia, e o Rei Demônio derrotou todas elas; atualmente, parece que ninguém mais ousa mexer com o país.
Por isso, no mundo sombrio, os chamados demônios (raça demoníaca) são extremamente poucos. Porque quase todos estão em Herugaia. De fato, eu mesmo nunca vi espécie parecida com raça demoníaca naquele mundo.
Herugaia tem território menor que o Reino Demoníaco de Zenoasu, mas, sendo ilha do sul rica igual Iguretto, parece que os demônios vivem felizes lá.
O navio armado que agora se aproxima do Reino de Iguretto, será navio de guerra vindo de Herugaia?
Mas Herugaia, igual ao Reino Demoníaco de Zenoasu, senti que tinha postura de "briga comprada é briga aceita, mas não vamos comprar briga com ninguém".
De qualquer forma, não dá pra ficar sem fazer nada.
— Perdoe. De qualquer forma, é país de outro mundo o oponente, gostaria de pedir sua ajuda, Duque, como mediador.
— Não me lembro de ter aceitado ser esse tal mediador, viu…
Parado na areia sempre bonita de Iguretto, observo o horizonte do mar com [Long Sense] amplificado pelo "Olho Divino".
De fato, tem navio vindo nessa direção. Dois navios. Casco preto, e carregando canhão também, aquilo. Chegada de navios negros, é?
Além disso, aquele navio, além de vela, tem grande roda de pás dos dois lados. Não tem chaminé, mas será navio a vapor? Não, sem sair vapor, não deve ser navio a vapor.
Talvez seja navio usando tecnologia de golem.
Tem algum brasão desenhado na vela, será brasão de Herugaia?
— Não dá pra dizer com certeza que vieram atacar, mas, o que fazemos?
— Uhum. Mas meu povo já está apavorado. Primeiro, quero saber a real intenção do outro lado.
O rei de Iguretto, parado ao lado, abre a boca. Esse homem robusto, com corpo marcado por tatuagem peculiar, vestindo traje étnico tipo nativo americano, encara fixamente o outro lado do mar.
— Talvez não seja de todo dizer que vieram atacar, mas, o que acha de dar uma ordem de parar o navio? Se não pararem com isso, significa que não têm intenção de nos ouvir.
Como a Hiruda, que veio junto pra Iguretto, diz, de fato, primeiro deve ser diálogo mesmo. Dependendo da reação, também precisamos mudar nossa resposta.
— E se atacarem?
— Hum, se atacarem, não teria motivo pra ficarmos quietos, mas, como não entendemos bem a situação, e pensando no futuro entre Herugaia e Iguretto, acho melhor capturar do que matar.
— Uhum. Penso da mesma forma. Se ficar claro que é objetivo de invasão, não vou hesitar.
Diante da pergunta da Eruze, eu e o rei de Iguretto expressamos nosso próprio pensamento.
Pela minha informação, Herugaia não deve ser país que invade por conta própria. Provavelmente vai ficar tudo bem.
— Por ora, vou lá conversar.
Ativando [Fly], decolo da areia. Num instante, chego acima dos dois navios, e, dessa vez, expando magia sem-atributo [Speaker] na frente do navio, soltando voz de aviso, "a, a".
— «Aviso aos dois navios negros aí. Daqui pra frente é território marítimo do Reino de Iguretto. Parem o navio imediatamente, e enviem mensageiro em barco pequeno explicando o motivo da chegada, o, ó!?»
No meio da fala, disparam o canhão da proa. Ei, ei, isso não pode ser considerado atitude amistosa de jeito nenhum, né? Podem ter me confundido com humano voador suspeito, mas isso é ataque súbito demais.
— «O ataque de agora deixo passar, mas próximo ataque tomo como declaração de guerra contra nós. Primeiro, quero ouvir a conversa. Repito mais uma vez. Parem o navio imediatamente, sigam as instruções. Nós temos intenção de dialogar,»
No meio da fala, tem alguém no convés apontando pra mim e gritando algo. Por ordem dele, talvez, disparam de novo, "don! don!", duas vezes seguidas, o canhão.
Esse desgraçado. Sem intenção de conversar, é? Isso é claramente vindo comprar briga mesmo. Tem gente gritando no convés, "abate ele!", "faz em pedaços!", esse tipo de coisa.
Mesmo capturando, acho que… vou dar um susto neles primeiro, viu…
— [Trevas, venha, o que busco é o soberano das profundezas, Kraken]
Duas sombras gigantes surgem atrás dos navios negros. Vários tentáculos se contorcendo, "unerune", sobem pelo casco dos dois navios, e os tripulantes começam a fugir gritando de terror.
O Kraken, agarrado atrás do navio, para completamente o movimento do barco. Já ordenei por telepatia pra não destruir o navio. Mas isso não é o fim, não.
— [Trevas, venha, o que busco é o soldado do abismo, Mãe d'Água]
Dessa vez, homens-peixe cobertos de escama por todo o corpo, empunhando tridente, sobem do mar, avançando pra dentro dos navios.
Mãe d'Água é monstro que vive no mar, mas, por curto período, consegue atuar até em terra também, e, embora não tanto quanto na água, tem alto poder de combate.
— «Hiiii!?»
— «Uwaaaa!?»
Os tripulantes sacam a espada pra enfrentar as Mães d'Água avançando, mas não conseguem penetrar aquela escama dura, sendo neutralizados um atrás do outro.
Também ordenei pra essas não matarem, só capturar. Com jeito habituado, as Mães d'Água vão amarrando os tripulantes com corda que tinha no navio.
Depois que o convés fica completamente sob controle, percebo algo estranho.
Nenhum dos tripulantes embarcados é semi-humano. Não seria navio de guerra de Herugaia, e sim pirata?
Desço no navio, e mando a Mãe d'Água trazer o homem que estava dando ordem aos tripulantes.
Homem grande de barba, tem certo ar de pirata mesmo, se for pra dizer assim.
— Você é o capitão desse navio? Por que ignorou a ordem de parar?
— Q, quem é você!? Perseguidor do Rei Demônio!?
— Rei Demônio?
Rei Demônio deve ser aquilo, o rei do País Demoníaco Herugaia, né. "Perseguidor" quer dizer que esses aí estão sendo perseguidos?
Quando ia tentar puxar mais detalhe, vejo uma das Mães d'Água me chamando com gesto pra vir até a porta que leva ao porão do navio. Diferente do Kohaku e do pessoal, criatura invocada que não fala é inconveniente nessas horas. Mas dá pra comunicação, então não tem problema.
Deixando o convés com as outras Mães d'Água, vou até o porão, e lá tinha uma jaula de ferro de dois metros cúbicos, e, dentro dela, três mulheres presas por corrente de prata.
Duas delas eram mulheres de pele morena vestindo roupa tipo empregada. Dark elf… será?
A restante tinha cabelo prateado longo, dois olhos vermelhos, pele branca quase transparente, orelhas levemente pontudas. Como também tem alguém assim na nossa ordem de cavaleiros, reconheço de cara. Ela é vampira.
Aparenta idade de uns vinte e poucos anos, mas já sei que, sendo vampira, espécie de vida longa, a aparência não é confiável.
A roupa que ela veste, diferente das outras duas, é vestido de corte que parece caro. Provavelmente é nobre.
— …Quem é você? Não parece ser aliado daqueles.
Falando isso, a mulher vampira me encara com olhar afiado. Mas, olhando pra Mãe d'Água ao lado, também mostra sinal de medo. Bom, se aparece alguém acompanhado de homem-peixe assim, é normal ficar com medo. Suspeita explodindo.
— Sou Mochizuki Touya. Rei de um país chamado Ducado de Brunhild. E você?
— Brunhild…? Nunca ouvi falar desse país…
— É país pequeno. Pelo que percebo, você parece ser vampira, é do País Demoníaco Herugaia?
— …Sim. Sou Kurōdia Mira Herugaia. Esposa do Rei Demônio Aruforudo Kyura Herugaia.
……………Como é que é?