Capítulo 392 – O Rei Demônio, e Herugaia
— Então esses aí eram piratas à deriva em Herugaia, e, ao fugir da cela, sequestraram Sua Majestade a rainha na fuga, é isso.
— Sim… não conseguindo resistir à curiosidade de saber como era essa raça chamada humano, fui até a masmorra subterrânea, e acabei encontrando de frente com aqueles que estavam fugindo justamente naquele momento…
Isso é mesmo digno de nota…
No castelo de Iguretto, perguntando os detalhes à Kurōdia-san, que se apresentou como rainha de Herugaia, parece que ela acabou envolvida na fuga dos piratas.
Mesmo no país que era mundo sombrio, igual ao mundo real, a raça demoníaca (essas pessoas parecem se chamar "raça dos demônios", mas, pra simplificar, vou continuar chamando de raça demoníaca) é existência temida por causa da aparência próxima a monstro.
Pra aqueles piratas, talvez tenha parecido que foram parar à deriva em país de demônios de verdade.
Será que pensaram que, se não fugissem, seriam devorados? Bom, vendo licantropo tigre, licantropo lobo, ogro, acho que não tem como evitar pensar assim. Mas, conversando, são gente de bom coração.
— Então aquele navio é navio pirata?
— Não, ouvi dizer que o navio em que aqueles estavam era sucata, já inutilizável. Aquele navio negro foi construído como hobby pelo nosso rei, meu marido, o Rei Demônio… nunca imaginei que ele mesmo seria roubado assim.
Hobby, sério? Construir navio de guerra como hobby, que folga é essa.
Bom, sendo vampiro, deve ter tempo de sobra mesmo.
Há algumas centenas de anos, pra salvar a raça demoníaca perseguida, fundou Herugaia e começou atividade de proteção — esse Rei Demônio deve ser justamente o marido dela.
Pensando bem, pra tirar raça demoníaca perseguida de outros países, talvez o navio de guerra fosse necessário mesmo.
— E então, o que vai acontecer conosco?
— Isso, claro, vamos tentar entrar em contato com o lado de vocês de algum jeito, pra garantir seu retorno seguro. Você é vítima, afinal. Até lá, fique tranquila hospedada aqui.
O rei de Iguretto, sentado no sofá, responde à pergunta da Kurōdia-san, e ela abaixa levemente a cabeça.
— Muito obrigada pela consideração, Vossa Majestade o rei de Iguretto. Não sabia que existia um reino assim tão perto de Herugaia, mas o povo de Herugaia certamente será grato por essa gentileza. Com todo respeito, admito com vergonha que eu subestimava um pouco a raça humana…
— Bom, comparado com vocês, raça demoníaca… raça dos demônios, a raça humana é fraca e frágil. Por isso, tentamos resolver as coisas com sabedoria e conhecimento. Combinado com medo e preconceito, isso acaba gerando parte astuciosa e covarde, como esses piratas… espero que entenda que nem todos são assim.
— Entendo…
A relação entre Iguretto e Herugaia, já que o outro lado não deseja se relacionar com outros países, os dois parecem achar que não precisa forçar amizade de repente. Contanto que não sejam relação de hostilidade, também não precisa forçar vizinhança.
Se o outro lado é país com esse tipo de postura, deve-se respeitar isso — é a palavra do rei de Iguretto.
Pra mim, gostaria que, igual ao Reino Demoníaco de Zenoasu, ao menos um pouco eles se relacionassem com outros países, mas, bom, entendo que não é bom forçar. O rei de Iguretto também deve pensar assim de verdade, mas isso depende do outro lado mesmo.
— Bom, então, sobre como enviar Sua Majestade a rainha, as damas de companhia, e de quebra os piratas de volta pra Herugaia…
O rei de Iguretto lança um olhar rápido na minha direção. Tá, tá, já entendi.
— Vou teletransportar até Herugaia com [Teleporte], e depois abrir [Gate]. Deve ser mais seguro assim.
Poderia teletransportar junto com Sua Majestade a rainha e o pessoal, mas, sendo lugar pela primeira vez, se houver desvio, pode aparecer em cima de telhado ou dentro de estábulo, sabe-se lá onde.
— Isso ajuda muito. Touya-dono.
— Isso… como assim…
— Sua Majestade o Duque de Brunhild domina magia de teletransporte. Consegue se mover até Herugaia num instante.
— Isso é possível?
Junto com a voz de espanto, o olhar da rainha de Herugaia se direciona a mim.
No mundo de lá, onde a magia não é tão desenvolvida assim, não é de admirar que seja algo inacreditável. Entre eles, Herugaia parece ser país ainda mais fechado.
— Então vamos logo…
— Majestade!
Abrindo a porta da sala de recepção, o comandante-mor Totora, braço direito do rei de Iguretto, entra correndo.
Esse comandante-mor Totora é o jovem que veio até Brunhild antigamente montado numa grande ave Rufu.
— O que é esse alvoroço todo. Não é falta de respeito com os dois?
— Sim! Peço desculpas pela urgência!
— Urgência? O que houve?
— Quatro novos navios negros no mar a sudoeste! Vindo diretamente pra cá!
— Como é!?
"Gatan", o rei de Iguretto se levanta. Navio negro de novo? Companheiros dos piratas… não deve ser. Então…
Conectando [Gate] até a praia, e ficando na areia junto com o rei de Iguretto e a rainha de Herugaia, de fato vejo quatro silhuetas no horizonte.
Ainda distante, mas parece ser o mesmo tipo de navio dos dois navios negros ancorados no baixio daqui.
— Provavelmente são navios de Herugaia perseguindo os piratas.
— Deve ser. Não vai precisar mais teletransportar pra Herugaia, né?
Quando eu e o rei de Iguretto conversamos assim, a rainha de Herugaia, ao lado, junta as duas mãos no peito com expressão feliz.
A Eruze, a Hiruda e a Yae, que estavam na praia, caminham na nossa direção.
— É a mesma situação de antes, mas vai dar ordem de parar o navio de novo?
— Bom, deve ser isso mesmo. Preciso avisar que aqui é outro país. Se acharem que é ilha deserta, aí complica.
Respondendo à Hiruda, dou um suspiro leve. Ou seja, de novo vou ter que ir eu.
Não, acho que também daria pra mandar o comandante-mor Totora na ave Rufu, mas, não dá pra garantir que não vão atirar de novo igual antes.
— Espero que dessa vez esteja alguém que entenda de conversa, sabe.
— Concordo plenamente. Só peço pra não ser sem-pergunta-nem-resposta de novo.
Usando de novo [Fly], voo até os quatro navios negros. Dessa vez, mantenho um pouco mais de distância, e expando [Speaker].
— «Aviso à tripulação dos navios negros. Daqui pra frente é território marítimo do Reino de Iguretto. Parem imediatamente. Se vocês são do País Demoníaco Herugaia, peço que obedeçam calmamente. A própria rainha de vocês deseja isso.»
Bom, o que vai ser, hein…
Por um tempo, os quatro continuam navegando, mas o primeiro deles para a roda de pás, começando a reduzir velocidade. Seguindo isso, os outros três também param suavemente. Obedeceram, será?
Também voo devagar pelo céu, aproximando-me dos navios negros.
No convés do navio negro à frente, um homem de pele azulada-pálida e cabelo prateado, capa negra tremulando ao vento, me observava fixamente. Ei, esse aí é vampiro, né. Não pode ser… será o Rei Demônio?
Quando pouso silenciosamente no convés, os membros da raça demoníaca no navio me cercam com postura de cautela. Por ora, parece que não sacaram arma, então também não assumo postura de combate.
— «Identifique-se. Eu sou o rei do País Demoníaco Herugaia, Aruforudo Kyura Herugaia. Vampire Lord de orgulho elevado.»
Ah, era isso mesmo. Vampire Lord, hein.
Aliás, se não me engano, entre os subordinados de Sua Majestade o Rei Demônio de Zenoasu tem os Quatro Reis Celestiais, e um deles era Vampire Lord também. Aparência de vinte e poucos, mas provavelmente tem centenas de anos.
— Primeiro contato, Rei Demônio. Sou o rei do Ducado de Brunhild, Mochizuki Touya. Muito prazer.
Diante da minha fala, a plateia ao redor murmura.
— Rei?
— Esse garoto é rei daquela ilha?
— Não, ele falou Reino de Iguretto agora há pouco. Como assim?
— Impossível, rei nenhum viria pessoalmente até aqui…
Não, não. Rei de vocês também tá vindo aí sem cerimônia igual isso, hein.
— Rei de Brunhild, minha esposa está bem, certo…?
Hn? Sinto que tô sendo encarado com hostilidade? Esse Rei Demônio não tá liberando pressão intimidadora?
Ah, será que estou sendo mal-entendido? Será que ele acha que fomos nós que ordenamos os piratas a sequestrar a rainha?
— Espera aí. Parece que tá havendo algum mal-entendido, então deixa eu esclarecer: primeiro, nós não temos relação nenhuma com quem sequestrou sua rainha. Segundo, a rainha e as damas de companhia foram resgatadas em segurança e estão sendo bem tratadas no castelo de Iguretto. Eu vim aqui exatamente pra devolver a rainha a vocês, tá?
Diante da minha fala, os olhos do Rei Demônio, que estavam encarando, se abrem em surpresa.
— …É verdade? Quando aqueles ficaram à deriva, disseram que, se mexessem com eles, um país humano não ficaria quieto, então achei que tanto a fuga da masmorra quanto o sequestro da rainha eram manipulados por trás por algum país humano…
Não é isso, não. A fuga da masmorra foi porque os piratas se saíram bem, e a rainha só se envolveu por curiosidade indo até a masmorra.
Por ora, achando que seria mais rápido apresentar logo à rainha, abro [Gate] conectando a praia de Iguretto ao convés do navio.
— Kurōdia!
— Amor!
O rei de Herugaia, atravessando o [Gate], corre em direção à rainha parada na areia, e abraça firmemente o corpo dela. Oh oh, que calor.
— Você tá bem? Não se machucou em lugar nenhum?
— Sim. Fui salva dos piratas por Sua Majestade o Duque de Brunhild, e fui bem tratada por Sua Majestade o rei de Iguretto aqui.
A esposa responde sorrindo ao marido, que a observa preocupado. Com essa fala, o olhar do Rei Demônio finalmente se direciona ao rei de Iguretto.
— O rei de Iguretto é você?
— Exatamente. Sou Refan Retora, rei do Reino de Iguretto. Rei de país vizinho, seja bem-vindo ao nosso reino.
— Saudação recebida com honra. Não tenho palavras suficientes de gratidão por ter ajudado minha esposa. Agradeço novamente.
— Essa palavra deveria ser dedicada ao meu amigo, Sua Majestade o Duque de Brunhild. Foi ele, sozinho, quem salvou Sua Majestade a rainha Kurōdia dos piratas.
De novo, olhar de espanto do Rei Demônio se direciona a mim. Precisamente falando, não foi sozinho, foi com dois Krakens e vários Mãe d'Água, mas.
— Rei de Iguretto… tenho uma coisa que gostaria de perguntar…
— Pode perguntar o que quiser.
— Nunca tinha ouvido falar que existia ilha assim nesse mar. Afinal, o que é esse Reino de Iguretto…
— Hahaha. Sobre isso também, melhor perguntar a Sua Majestade o Duque. Ele é mago que controla tudo no céu e na terra, além de erudito conhecedor da situação mundial, e também mediador que acalma conflitos entre países e leva amizade. Deve responder até a dúvida do Rei Demônio.
Ah, agora mesmo jogou a bola pra mim!? De fato, quem entende melhor o que acontece no mundo provavelmente sou eu mesmo!
Bom, vou explicar, mas não sei se vão acreditar.
Tiro o smartphone, projetando o mapa no ar.
— Este é o mapa mundial atual. Desde o dia da chuva de meteoros ocorrida outro dia, dois mundos diferentes se fundiram num só. O lado esquerdo era originalmente o mundo de Sua Majestade o Rei Demônio, o lado direito era originalmente o meu mundo e o de Sua Majestade o rei de Iguretto.
— Como assim…! Só está invertido esquerda-direita, mas é quase a mesma forma! E, e se essa ilha for Herugaia, então essa ilha invertida é…
— Essa ilha é o Reino de Iguretto.
Depois disso, conto ao Rei Demônio o que está acontecendo atualmente no mundo.
Por sorte ou azar, parece que ainda não apareceu mutante em Herugaia, então explicar essa ameaça só com palavras provavelmente não faria os dois entenderem bem.
Por isso, mostro o vídeo da nossa batalha contra mutante. Assim, pareceram entender que aquele monstro terrível existe de verdade, e que pode aparecer em Herugaia a qualquer momento sem estranheza nenhuma.
— …Entendi. Então o Duque de Brunhild está tentando criar um espaço onde os reis do mundo possam conversar entre si?
— Não é nada tão grandioso assim, não. Só estou ajudando a aprofundar entendimento e amizade mútua entre eles.
Falo também sobre a conferência dos dois mundos, e o Rei Demônio parece ficar pensativo em algo.
— Quero perguntar uma coisa. No lado de vocês, como nós… a raça dos demônios é tratada?
— Bom… infelizmente, ainda existe muito humano com preconceito por causa da aparência. Mas, na maioria dos países, é proibido tratá-los injustamente, e tem até país que os recebe com hospitalidade. O Reino Demoníaco de Zenoasu, presente aqui, é país da raça demoníaca igual à Herugaia de vocês.
— Oh… então não são tratados como escravo…
— Se cometeu crime, pode virar escravo criminoso e ser mandado pra mina, mas, na maioria dos países, o sistema de escravidão é proibido.
— Entendo…
No mundo real, os únicos dois países que reconheciam escravo como propriedade pessoal eram o Império Celestial de Yūron e o Reino de Sandora. Nos outros países, ou só reconhecem escravo criminoso, fazendo trabalhar como mão de obra, ou nem isso é permitido.
Agora que Yūron e Sandora desapareceram, escravidão é ilegal, mas, mesmo assim, resta costume ruim, e ainda tem comércio ilegal de escravo no mercado negro. Bom, assim que encontramos, destruímos tudo.
— Herugaia originalmente é país formado por pessoas que se reuniram, perseguidas pelos humanos. Mesmo dizendo pra estender a mão aos humanos assim fácil, tem muita gente que não vai aceitar.
Faz sentido. Zenoasu era parecido, então entendo o sentimento. Abandonaram o isolamento, mas o comércio ainda é bem pequeno até hoje.
— Mas, assim, Herugaia não tem futuro. Ficando isolada do mundo exterior, só resta um declínio lento. Como rei, preciso resolver isso de algum jeito.
— Se for isso, que tal primeiro estabelecer relação diplomática com o Reino de Iguretto? Se embaixadores de boa vontade visitarem os países um do outro e aprofundarem entendimento, acho que ajudaria no desenvolvimento dos dois países.
Quando eu jogo esse assunto, o rei de Iguretto dá um passo à frente em direção ao Rei Demônio.
— Uhum. Como Iguretto, gostaríamos de receber bem esse novo vizinho. O que acha?
— …Entendido. Primeiro, vou começar conhecendo o país vizinho. Conto com sua colaboração.
O Rei Demônio segura firme a mão estendida pelo rei de Iguretto. Parece que vai encaminhar numa boa direção.
Claro, eu também pretendo colaborar o máximo possível pra que os dois países construam amizade. Quando falo isso, o Rei Demônio troca olhar com a rainha, e ri baixinho.
— Isso ajuda muito. Aliás, recentemente apareceu um Tentaclar gigante perto do litoral do nosso país, e os pescadores estão tendo dificuldade pra pescar. Tem algum bom jeito de resolver isso?
Eu e o rei de Iguretto trocamos olhar involuntariamente, vendo a expressão indescritível um do outro.
Então tá causando arruaça também naquele mar, aquela lula gigante…