Capítulo 401 – A Muda de Purificação, e o “Branco”
— Palácio Dourado, hein.
De fato, dá pra ver assim mesmo. Em termos de formato, tá exatamente tipo um "convexo".
Olhando pelo smartphone as imagens que a Bastet e o pessoal trouxeram, estalo a língua baixinho. Como esperado, virou algo trabalhoso.
— Será que o deus maligno está dentro disso?
A Yumina murmura, espiando a imagem.
— Pela história da irmã Karen e do pessoal, provavelmente. No dia daquela chuva de meteoros, isso caiu em Eisengard, e, junto com os outros espinhos venenosos, espalhou o "Veneno Divino-Demoníaco" por toda Eisengard. Pra impedir que a gente se aproxime. Sendo esse o estado atual, ainda parece que não despertou…
— Esses esqueletos dourados serão mesmo as pessoas que tiveram a alma "devorada"…? É diferente dos que vimos até agora. Isso quer dizer que também estão virando mutante?
A Rin fica pensativa, com a mão no queixo.
Mutante devora a alma de humanos com forte sentimento negativo, enviando essa energia espiritual pro deus maligno. Humano com a alma devorada vira esqueleto de cristal, ou zumbi de cristal, atacando ainda mais pessoas.
Esse esqueleto de cristal virou dourado. Isso deve significar que também está virando mutante.
Acho que a maioria das pessoas que restaram em Eisengard já teve a alma devorada. O cadáver que a Bastet e o pessoal viram também deve, eventualmente, virar esqueleto de cristal, virando mutante.
— O que esses aí tão fazendo? Só parecem tá vagando à toa.
— O esqueleto dourado deve ser tipo soldado… deve tá protegendo esse palácio. Com o "Veneno Divino-Demoníaco" a gente não consegue se aproximar, mas, pra humano comum, não tem efeito.
Respondendo à pergunta da Sū, penso que foi bom não ter enviado tropa mercenária, contratando aventureiro sem relação conosco. Isso é perigoso demais mesmo.
— Com a capital assim, deve aumentar ainda mais o número de gente fugindo de Eisengard, né.
Como diz a Yumina, tá aumentando o número de pessoas fugindo de Eisengard pros países vizinhos: Reino Guerreiro de Rāze, Reino de Strain, Império de Gardio.
Como a capital de Eisengard, Eisenburuku, fica ao sul, a região norte não caiu tanto em caos assim. Mas as pessoas que fugiram do sul acabam atravessando o norte também, cruzando o mar.
Tem até gente do norte que, ouvindo o que acontece no sul, fica com medo e foge pra outro país também.
E, entre quem foge, tem muito rico.
Nem Rāze, nem Strain, nem Gardio conseguem simplesmente aceitar refugiado assim, sem mais nem menos.
Pra sobreviver, precisa de dinheiro; nobre rico, cidade e vila devem aceitar, mas pobre não é assim.
Mesmo atravessando pra outro país, ou morre de fome, ou vira ladrão, algo assim. Se for pra isso, ficar em Eisengard talvez até seja melhor.
Se isso piorar ainda mais, deve virar problema sério…
— Como tá indo a contramedida do tio Kōsuke contra o Veneno Divino-Demoníaco?
— Parece que já avançou até certo ponto…
Na verdade, entreguei ao tio Kōsuke a pedra e a terra contaminadas pelo Veneno Divino-Demoníaco que a Bastet e o pessoal trouxeram. Parece que vai testar com isso, mas será que vai ficar tudo bem?
Quando seguro aquela pedra contaminada pelo veneno, uma repulsa absurda e sensação tipo dormência atacam todo o corpo.
Não chega a desmaiar, mas, como comparar, sei lá, tipo segurar víscera podre de animal, ou tipo enfiar a mão no cérebro humano — sensação horrenda. De qualquer forma, dá enjoo.
Se até eu sinto isso, imagino que o tio Kōsuke, deus puro, deve sofrer dano ainda maior.
Ficando levemente preocupado, estendo o passo até a instalação de pesquisa do tio Kōsuke, construída recentemente a leste do castelo. Instalação de pesquisa, mas é tipo estufa feita de membrana fina de monstro.
Dentro da estufa, tem várias mudas plantadas, cada uma com uma placa fincada com algum tipo de símbolo ou número escrito.
Diante de uma das mudas no fundo, estava o tio Kōsuke.
— Ah, Touya-kun.
— «Boa tarde, Rei.»
Aos pés do tio Kōsuke, estava a figura do cachorro preto que voltou de Eisengard.
— Por que o Anúbis tá aqui?
— «Ajudando aqui, viu.»
— Pra mim, é difícil demais manipular pedra contaminada pelo Veneno Divino-Demoníaco, sabe.
Faz sentido mesmo.
Aos pés do tio Kōsuke, tem uma muda de cerca de trinta centímetros de altura. Será essa que serve pra purificar o Veneno Divino-Demoníaco?
— Touya-kun, você conhece fotossíntese, né?
— Eh? Sim. Ééé… é o processo de plantas e outros usando energia da luz pra absorver água e dióxido de carbono, gerando matéria orgânica e oxigênio… certo?
— Bom, resumindo, isso mesmo. Essa muda tem habilidade parecida… ou seja, absorve o Veneno Divino-Demoníaco da terra, e expele mana inofensivo, tipo filtro.
Oh! Isso é literalmente habilidade de purificação. Isso significa que dá pra restaurar a terra contaminada!
— Só que ainda restam vários problemas, sabe… Anúbis-kun, mais uma vez, por favor.
— «Combinado~»
O tio Kōsuke se afasta um pouco do local, e o Anúbis ativa [Storage] da coleira, e uma pedra do tamanho de punho salta pra fora. A pedra rola pra perto da muda.
Dá pra sentir mesmo daqui. Aquela pedra é contaminada pelo Veneno Divino-Demoníaco. Só de olhar já dá enjoo.
— Observa bem com o "Olho Divino".
Conforme a fala do tio Kōsuke, libero o "Olho Divino", observando a pedra e a muda.
Na pedra, dá pra ver algo tipo aura turva, mas, aos poucos, começa a diminuir de cima pra baixo.
Em compensação, dá pra ver a muda ao lado acumulando gradualmente a aura turva dentro de si, de baixo pra cima. Provavelmente, isso é o Veneno Divino-Demoníaco da pedra sendo absorvido. Logo, das folhas da muda, algo brilhante começa a se espalhar no ar. Aquilo é… mana? O Veneno Divino-Demoníaco foi convertido em mana inofensivo, será?
— Isso é incrível! Se plantar isso em Eisengard…!
— Não, olha bem. Olha essa muda.
— Eh? Ah…
A muda está murchando. O Veneno Divino-Demoníaco continua ali dentro. Depois de um tempo, a muda seca completamente, e do chão onde estava plantada, de novo, começa a se erguer a aura turva.
— Se não conseguir converter completamente o Veneno Divino-Demoníaco em mana, não adianta nada. No pior caso, existe até possibilidade de o Veneno Divino-Demoníaco ficar concentrado ainda mais. Ainda tá incompleto.
O Anúbis cava a terra contaminada, e, junto com a muda seca, guarda de novo no [Storage] da coleira.
Quando seguro de novo a primeira pedra que estava contaminada pelo veneno, não sinto mais nada. Parece que o veneno já saiu completamente dela.
— Dá pra completar essa árvore?
— Acho que dá. Se usar poder divino, num instante já resolveria, mas com poder humano também não é impossível. Só que vai levar tempo mesmo.
Se o tio Kōsuke usasse o poder original dele, deve ser num instante mesmo. Mas, agora, na forma humana, só resta repetir tentativa e erro mesmo.
Preciso usar também o poder de espírito, e as instalações do "Torreão da Alquimia", pra de algum jeito criar a muda completa e purificar Eisengard.
— É trabalhoso, mas conto com você.
— Não, não. Mesmo sendo irreverente dizer isso, testar e cultivar de vários jeitos é bem divertido também. Esse tipo de diversão eu não conseguia sentir no reino divino, sabe. Vou fazer com prazer. Pode deixar comigo.
Com o sorriso gentil de sempre, o tio Kōsuke assente. Que trabalho dou pra ele, hein… normalmente, pra deuses, seria mundo qualquer, um entre muitos, e ainda por cima fora das mãos do Deus do Mundo — seria natural deixar de lado. Sou grato mesmo.
Enquanto conversamos por um tempo, eu e o tio Kōsuke, sobre a muda de purificação e produtos agrícolas, meu smartphone no bolso avisa uma ligação. Na tela, aparece "Rei de Belfast". Oro?
Não me diga que é de novo se gabando do príncipe Yamato… primeira vez que virou de bruços, primeira vez que engatinhou, entendo que é motivo de alegria, mas, ultimamente, sinceramente, tá ficando meio incômodo… mas não posso simplesmente não atender.
— Sim, alô
— «Ah, é você, Touya-dono? Desculpa, mas venha imediatamente ao castelo de Belfast. Encontrei uma coisa meio estranha.»
— Coisa estranha?
— «Vendo, você entende. Provavelmente isso é… de qualquer forma, quero que venha rápido.»
O que será? Não parece ter sensação de perigo iminente…
Sem entender bem, mas, de qualquer forma, vou correndo até o castelo de Belfast.
Abro [Gate], teletransportando pro pátio interno do castelo de Belfast, lugar que já conheço bem.
O irmão mais novo de Sua Majestade o rei, pai da Sū, o Duque Orutorinde, me recebe acompanhado de alguns cavaleiros.
— O que aconteceu afinal?
— Não, mais que "o que aconteceu", é tipo "por que uma coisa dessas tá aqui?"…
O Duque Orutorinde explica caminhando.
A capital real onde fica o castelo de Belfast, Arefisu, tem cidade se espalhando ao leste, oeste, sul, e ao norte fica o Lago Paretto.
Esse Lago Paretto é fonte de água da capital, mas o acesso é proibido. O lago que se estende atrás do castelo é propriedade da família real.
Outro dia, nesse lago, entrou por engano um "Tubarão Unicórnio", monstro tipo tubarão. Parece que isso acontece uma vez a cada tantos anos.
Sem poder deixar bagunçar o lago, a ordem de cavaleiros lançou barco e subjugou. Nessa hora, um chifre valioso do Tubarão Unicórnio quebrou, afundando no fundo do lago.
Achando desperdício, um cavaleiro bom em mergulho foi mergulhar no lago pra recuperar, e…
— Encontrou "aquilo". Nunca imaginei que uma coisa dessas estaria afundada no Lago Paretto.
— O que exatamente vocês encontraram?
— Vendo, você entende.
Falando isso, o Duque Orutorinde abre a porta no fundo do castelo.
Aquela porta leva pro lado norte do castelo, e, saindo pra fora, dá pra ver panoramicamente o belo Lago Paretto, com a superfície da água brilhando.
Na margem do lago, dá pra ver algumas pessoas reunidas. Sua Majestade o rei também tá lá.
— Ah, Touya-dono! Aqui!
Sua Majestade o rei acena chamando.
Aproximando-me do aglomerado de gente, entendo o que é "aquilo" caído no chão, e apresso o passo. Ei, ei, aquilo é…!
— Não pode ser… que fosse encontrado num lugar desses…
Com a boca seca, forço a voz pra sair.
"Aquilo" caído aos meus pés tinha tamanho de criança, formato humanoide, mas não era humano — era golem.
Sua aparência lembra as características de vários golens que já encontrei até agora.
Agachando-me, ergo o queixo do golem, confirmando que tem aquela marca no pescoço. Sim, a marca dos "Coroa".
— Não tem erro. Isso é… o "Coroa" branco.
A aparência é bem parecida com a "Nowāru" da Norun ou a "Rūju" da Nia, então acho que não tem erro. Está sujo demais pra chamar de branco, mas.
— Como esperado, é isso. Mas por que uma coisa dessas está no lago atrás do castelo, justo do nosso país…?
— Isso eu não sei. Mas há mil anos, no ataque de Phrase contra o Reino de Belfast, existe possibilidade de que quem repeliu foi justamente o "Coroa" preto e o "Coroa" branco juntos. Talvez tenha parado de funcionar naquela ocasião.
Pictograma da tribo Arcana encontrado nas ruínas subterrâneas da antiga capital de Belfast. O que aquilo representava, "cavaleiro branco e preto", tem alta possibilidade de ser esse aí e a Nowāru.
Por ora, será que dá pra confirmar se ativa?
Coloco a mão no peito do golem, enviando mana.
— Abrir
"Bashu!", som de ar escapando, e as pessoas ao redor recuam um passo. Não precisa ficar tão assustado assim.
No peito aberto, como esperado, tem recipiente tipo vidro do tamanho de bola de softball (precisamente falando, é massa de gel), e, dentro dele, o coração do golem, o G-Cube, com fosforescência verde, girava devagar.
No instante em que enfio o dedo dentro da massa tipo gel, "zubuzubu", pra retirar o G-Cube, e toco no G-Cube, aconteceu aquilo.
— «Contato de não-autorizado detectado. Modo hibernação em vigor, sequência R iniciada. Sistema de autodefesa ativado.»
— Q
Junto com essa voz mecânica, uma luz totalmente branca rouba num instante nossa visão.
.
.
.
.
— Hn…?
— Eh?
— «O que houve? Vocês dois de repente ficaram calados…»
Quando percebo, à minha frente estavam o tio Kōsuke e o Anúbis.
Olhando ao redor, percebo que estou dentro da estufa do tio Kōsuke. Na minha mão, seguro uma pedra do tamanho de punho. Isso é… a pedra contaminada pelo Veneno Divino-Demoníaco?
O quê? O que aconteceu? Eu… fui teletransportado à força?
— Hum. "Alteração", é. Bom, bom, Touya-kun. Se acalme.
— Eh? S, sim.
"Alteração"? Como assim? O tio Kōsuke sabe o que aconteceu?
Por que eu tô aqui? E o "Coroa" branco, o que houve com ele?
Minha cabeça tá cheia de perguntas, e o pensamento não consegue se organizar direito. De qualquer forma, conforme a fala do tio Kōsuke, primeiro, vou me acalmar.
— Por alguém, agora, um "fato" foi reescrito. Tem alguma ideia de quem?
— É, hã, não sei bem, mas, talvez…
Conto ao tio Kōsuke o que aconteceu até há pouco. Talvez por estar meio em pânico, não consegui explicar direito, mas, mesmo assim, conto tudo, pedindo explicação ao tio Kōsuke.
— Entendi. Isso, sem dúvida, quase certeza, foi feito por aquele "Coroa" branco.
— O que aconteceu, afinal?
— Bom, é… de forma simples, digamos que virou "não ter acontecido".
— "Não ter acontecido"?
Não entendo o significado. "Não ter acontecido", o quê!?